Wednesday, May 14, 2008

Educação

Estava eu tirando mais fotos de Campinas do Mato de Dentro de Jundiaí, eis que senão quando eu adentro a Praça Carlos Gomes, obra e graça de Ramos de Azevedo e dos mestres jardineiros Calixto Marin e Juvenal Kirstein ( maiores informações no http://www.campinas.sp.gov.br/cultura/patrimonio/bens_tombados/processo_001_95/ ), quando de repente elegante criaturinha de penas respeita a placa, coisa rara nas terras da antiga Vila de São Carlos. Depois uma bonita menina de boné me informou se tratar de uma garça. Uma garça em pleno centro de Campinas, que respeita a placa e não pisa na grama!

Monday, May 12, 2008

De joelhos

Faz tempo que eu ando pensando em fotografar algumas coisas em Campinas.

Não morro de amores pela cidade. É cara, violenta, sem nada pra fazer e cheia de um espécime raro de gente chata: os campineiros. Enfim. Mas o fato de não morrer de amores não significa detestar e não ver nada de bom, como muitos. Tenho um carinho ilimitado por algumas coisas. E dentre essas coisas tem uns cantinhos no centro da cidade, que são de um outro tempo.
Um tempo em que Campinas, rica e orgulhosa, se dava ao luxo de nem se importar com a primeira exposição de Lasar Segall, a rigor, a primeira exposiçao de arte moderna no país. Simplesmente porque a elite daqui era muito mais escolada, viajada e quetais que a paulistana, que levaria uma porrada quatro anos depois, com Anita Malfatti. Viagens de historiador à parte, eu me comovo com algumas coisas da arquitetura, do tempo que a cidade era toda art-nouveau, e resplandecia no dinheiro do café.
Pois hoje eu estava com a máquina na mochila e idéias na cabeça. Comecei fotografando algumas coisas de perto da Estação Ferroviária, inclusive a própria, e fui descendo o calçadão da 13 de Maio. Como nunca ninguém fotografa nada nessa cidade, logo eu própria, a pandinha velha de guerra, virou atração turística, com sua mochilinha vermelha e cachecol azul.
O povo parava pra me ver e ficava observando. Fiquei meio cabreira porque sou desligada e pra me assaltarem seria um pulo. Alguns encaravam feio, achando que tava tirando fotos das mercadorias nas lojas; meninos ficaram um tempão me vendo fazer contorcionismos pra tirar foto de um singelo hotelzinho art déco, perto do Terminal Central de ônibus, que, junto com o Fórum e a Prefeitura, concorrem ao título de coisa mais feia no universo conhecido ( junta com o Shopping Dom Pedro e teríamos os Quatro Horrores da Humanidade)...
Fui descendo e clic, clic, e os populares ali. Consegui bater fotos do lindo e destruído Palácio da Mogiana, e de um sobradinho que o povo pintou de laranja apaga-a-luz. Sim, porque existem tradições campineiras que são mantidas à risca: ninguém fotografar o centro, podarem tanto a copa das árvores que acabam matando as coitadas, e gastar a cartela inteira da Suvinil e escolherem as piores cores pra pintar tudo ( vide a linda Escola de Catetes, no Chapadão, sempre em rosa bebê, o que avilta a fama já aviltada da nossa urbs).
Pois bem, na frente da Catedral Nossa Senhora da Conceição ( cuja história é interessante: dentro, do início do século XIX, fora, do início do XX: dentro, em cedro, oficina baiana que fez Senhor do Bonfim, fora, risco de Ramos de Azevedo), sai a rua Conceição, que logo ali encontra com a Barão de Jaguara. Na esquina, está um casarão, que hoje é uma farmácia. Pois bem. Quis tirar uma foto de algo que sempre me encantou; o medalhão que encima a fachada, e que fica espremido, hoje, por uma horrenda placa. Tentei do outro lado da rua e não obtive sucesso. Só que detalhe, duas da tarde de uma segunda-feira, eu no coração da velha Campinas do Mato de Dentro de Jundiaí, Ponte Preta que perdeu de novo, aquilo tava mais cheio de casamento de pobre.
Tento e só dá fio do poste, neguinho me empurrando, os negos da farmácia achando que eu tava tirando foto de prateleira de remédio ( ó Senhor, pra quê?), uma chata com um carrinho de bebê, uma multidão dos jovens da Toca de Assis, e um mendiguinho que achava tudo um barato. Vou pro outro lado, e passa carro, resolvi ir pra perto e tentar, mesmo sem muito recuo, pegar uma imagem. Nada, recuei o zoom da máquina, até que...
Sem perceber, fiquei de joelhos. Foi algo surreal, no meio daquela gente toda, eu de joelhos, mochila, cachecol, e de joelhos, na esquina da Conceição com a Barão de Jaguara, tirei essa foto aí de cima. Não é Paris, meus amores; sim, é Campinas.

Monday, May 05, 2008

O pulo de Guido


Boccaccio nos conta, no Decameron, que de certa feita o poeta Guido Cavalcanti, amicíssimo de Dante e homenageado pelo tiozão na Comédia, estava a andar por Florença, quando perto dos túmulos do cemitério foi atacado por jovens inúteis da cidade, em seus cavalos. Os jovens desocupados quiseram pegar o poeta, que cortesmente se despediu e, dando um salto e uma pirueta, saiu voando e fugiu por entre as sepulturas.

Ítalo Calvino, nas suas Seis lições americanas, que aqui no Brasil sairam como Seis propostas para o próximo milênio, dedicou um belo texto ao caso, sob o título e na qualidade da Leveza. Segundo Calvino, a marca da poesia de Guido era justamente a leveza, ou, como num poema seu, a singeleza de um floquinho de neve, de uma gota de chuva na vidraça, de uma borboleta amarela no caminho ou de um pouquinho de queijo ralado em cima do macarrão na manteiga. A leveza, segundo Calvino, era atributo dos heróis e dos deuses: basta pensar em Perseu, cavalgando Pégaso pelos ares, ou de Hermes e suas sandálias aladas. Porque a leveza não vem da superficialidade, como alguns se permitem supor: como diria Bashô, vem do pulo da rã no tanque.

Hoje eu acordei, fiz a lista dos meus afazeres, preparei um capuccino bem cremoso, e me deitei enroladinha no cobertor azul. E pensei em várias coisas, no meu trabalho e na minha vida, nos últimos anos. Pensei, com muita clareza, que meus anos do doutorado foram uma incursão num mundo de trevas, de dor, de destruição e angústia: esse Meio do Caminho tudo registrou, anteviu, e discutiu. Eu me sentia pesada, em todos os sentidos. Nunca tive o dom, meio paranóico, de ver/antever adversários, oponentes, ou meros mauricinhos de Florença em seus cavalos cheios de plumas. Me sentia pequena, insignificante, a ponto de estar sempre fora das competições, dos torneios da vida acadêmica. Hoje sei que nem tanto ao mar, nem tanto à terra: sim, continuo sendo alguém de posição muito modesta, mas que encontrou jovens florentinos pelo caminho sim. A sorte é que, no último minuto, meu último pulo me levou rumo a um novo caminho, a este novo caminho que o Meio registra também, em sua generosidade.

Numa de minhas novas tarefas, descobri algo muito lindo: um manuscrito florentino, circa 1427, do Decameron. Está guardado na Biblioteca Nacional da França, sob o tombo de Ms.Italien 63. Dá pra ver todas as ilustrações dessa maravilha no portal Mandragore, em http://www.bnf.fr/. Digitar Bocacce, se não não vai. Ficou inacabado, mas é uma jóia, e ver Boccaccio ilustrado é como ver o tiozão ilustrado: ou seja, uma panela cheia do melhor macarrão, ou uma noite de amor daquelas! Porque todos nós temos que ter um pulo de Guido.

Thursday, April 24, 2008

Meu mundo caiu....

Ontem o Celo me disse que a querida Elisa tava preocupada comigo. Disse que ela de vez em quando passa por aqui e tem a impressão do mundo estar caindo! Achei engraçado a expressão que ele usou, ou que ela usou, não sei... dá vontade de cantar a plenos pulmões, meu mundo caiuuuuuu....
Então. Sim, meu mundo caiu sim. Mas isso foi ótimo! Vou tentar explicar. Eu estou diferente, só isso. Tive a comprovação ontem, fui na Unipunk, compromissos e tal. Rever o lugar, as pessoas, mas me sinto tão diferente... teve um hora, durante o dia, que temi voltar pro mais do mesmo. Mas depois, conforme as horas foram passando, percebi que isso não vai acontecer, não acontece mais, simples assim. Estou diferente. Um certo mundo caiu, mas outro começou no lugar, não se preocupem, fofuras da minha vida! A panda está trampando mais do que nunca, lutando demais e conseguindo coisas legais pra ela. Apertos a gente passa, mas é o normal, o esperado.
Senti ontem, em pessoas, a tensão de "o que essa nega vai fazer agora da vida". Quatro anos no tiozão narigudo e no tiozinho barrilzinho deixaram as pessoas traumatizadas, com medo que a panda virasse uma figura alegórica num afresco de Giotto, ou uma coisa que o valha. Mas não, pessoas, eu sobrevivi, e aquela Paula de antes inventou um lugarzinho pra si própria, sem tanta tensão, sem tanto sofrimento, e melhor, sem algumas almas danadas que me atazanavam a vida! Eu acho que tenho motivos pra comemorar, pra poder ver que realizei algo, pequeno, modesto, mas como disse uma amiga ontem, sério, e que me faz muito feliz.
Foi muito bom essa parada, essa saída do meu novo lugarzinho, e ver que andei até chegar a ele. Tudo nessa vida custa, e às vezes as coisas custam muito. Estava cansada, exausta mesmo de tanto trabalhar,e ontem percebi com clareza que apesar disso, estou muito bem. E que estou mais e mais animada com minhas coisas e meu lugar... estou feliz.

Wednesday, April 16, 2008

Anunciação


Fiquei muito triste nos últimos dias, faleceu o querido professor Luiz Carlos Dantas, do departamento de Teoria Literária. O prof. Dantas foi alguém super importante na minha trajetória, devo muito a ele, e aqui expresso meu pesar e minha homenagem singela.
Mas talvez a melhor maneira de se homenagear um mestre querido que se foi é continuar na luta, na labuta, no plantio e colheita. Hoje acordei mal, mas depois consegui me empolgar com um dos projétios Tabajara e acho que vai rolar. O anjo veio e anunciou, e eu respondo, faça em mim a vontade do Senhor!


E segundo Alceu, a gente escuta os sinais, daquele que vem. Eis, que depois da consumação, a névoa.

Anunciação, atribuída ao jovem Leonardo ou à oficina de Verrocchio, circa 1474.

Saturday, April 12, 2008

Eu vejo flores em você...

Acabei de ver um email da Nenem com a linda notícia de que nasceu ontem, dia 11, Isabela, filha da Ziza e do Mi. Isso porque há dez minutos atrás, chegando na casa do Celo com o próprio, no meu carro, eu gritei desesperada, cadê meu carro! Roubaram! Vejam como está a cabeça da panda!
Mas agora tudo está divino maravilhoso. Parabéns ao Mi, à Ziza, à Nenem, ao Clis e a nós todos, por termos mais uma companheirinha de nachadas e baladinhas. Que a Isabela seja muito feliz, tenha saúde, amor, paz e tudo de bom que a vida oferece, inclusive tias panda!
Voltando ao momento panda stress. Assim como os panda, que são alugados pelo governo chinês para zoológicos de todo o mundo, e de vez em quando precisam morder negos bêbados que entram em suas jaulas ou posar para fotos com a rainha da Espanha, a panda nunca trabalhou tanto na vida. Sério, gente. Agora, nesse momento, eu preciso fazer uma tradução do inglês de um livro de 300 páginas ( pra pagar as conta! O pogréçio vem do tabáio, já dizia Adoniran), estudar pra um concurso de História da Arte brasileira ( no qual minhas chances de aprovação são nulas,ou melhor, inexistentes, mas mesmo assim não vou relaxar e dar vexame, chamando Franz Post de Genival Lacerda), preparar aulas sobre Dante ( sim, caríssimos, chamaram a panda de volta às paragens infernais, aos monstrinhos da Antigüidade e ao tiozão narigudo) e mais cúrsios e projétios Organização Capivara de História da Arte, para diversos meios e fins. Trambiques, tramóias, picaretagens e eventuais surtos à parte, eu acho que nunca estudei tanto na vida.
Talvez no vestibular... onde peguei firme, mas minha vida escolar sempre foi marcada por marretagens de toda a espécie ( as piores delas foram minha tese de doutorado, e um mapa-múndi em quebra-cabeça que fiz na sétima série... acho que a tese foi pior!)... resolvi me tornar uma pessoa séria, ir no Kalunga, comprar cadernos e pastas, arrumar estojos com canetas funcionando, apontar meus lápis... e verás que uma filha sua não foge à luta! Nem teme, quem te adora, a própria morte! Nesse processo de "seriedificação", viciei-me em post-its! Alguém aí é viciado em post-it? Agora inventaram um grandão com pauta, nove pilas, que está na minha wish list, junto com uma passagem para Katmandu e um rolex de Ouro ( mais fácil eu conseguir, em sorteios do feijão Broto legal, os dois primeiros itens, que o post-it com pauta)...
Pois bem, caríssimos. Já podeis da Pátria os filhos, ver contente a mãe gentil.

Sunday, April 06, 2008

De amor e de sombras

Já faz um tempo que o Meio não comenta assuntos das trevas infernais, digamos que a panda entrou num purgatório emocional faz tempo, o que muito me conforta. Mas o caso da menina Isabella Nardoni me deixou com os cabelos em pé, vocês me desculpem mas eu preciso comentar algo.
Não é só no Brasil que casos extremos de violência contra crianças, idosos, mulheres e homens, plantas e animais, ocorrem com uma regularidade e insistência que exaurem a gente, até os ossos. E a cobertura da mídia, sempre aquele circo, além de todo lixo veiculado na internet ( tem quem faça comunidades no Orkut comemorando a morte brutal da garotinha, tem quem brinque e ache legal, e no fundo pense em fazer o mesmo qualquer hora dessas). Tudo tão grotesco, que se repete, sempre se repete, ad nauseaum. Eu sempre penso que a violência e a pornografia, nos dias que correm, são os dois lados da mesma velha e gasta moeda: na pornografia, os casais/trios/equipes sempre transam do mesmo jeito, o mesmo roteiro, a mesma cópula repetida ao infinito ( com requintes da perversão, pro povo comprar pelo fetiche novo ou aberração diferente), e no caso da violência, sempre uma escalada rumo ao terror, ao horror, à brutalidade pura e simples. Tudo virtual, daí pra passar pro real é tão fácil, tem tanta gente no mundo, pode-se matar e jogar pela janela, que está tudo beleza.
Fazendo isso no Brasil, então, ótimo, esse país com essa tradição da violência gratuita, da impunidade, de gente que arrota burrice e acha isso o máximo... penso em todas as vítimas inocentes desse sistema que reinventa, sempre, o significado da palavra perversidade.
Será que Eros vencerá Tânatos, ao menos no íntimo de alguém, nos dias que correm? E no caso Isabella, a montagem de uma cena do crime tão incoerente... uma das características do mal é a arrogância. Sempre que tem arrogância, tem coisa podre, morta, perversa, narcísica grotesca. Podem reparar: quem mata, abusa, corta árvore, mata bicho, é arrogante. Pensa que é imbatível. No nosso caso, voltando, a impunidade reforça a perversidade de muito neguinho desocupado. Nesse vale de lágrimas, só a compaixão, como diria Rousseau, nos salva. Só o ato desprovido de egoísmo: e não, não existe nenhuma razão fora do mundo para que as pessoas ajam corretamente ( não existe mais Deus, nem metafísica, nem nada): essa razão surge do diálogo e do conforto de se saber gente. Do dia-a-dia, do cuidado de si e dos outros, da pitié, essa palavra tão bonita que o Rousseau usa pra dizer da luz delicada de outono, que existe quando o bem surge entre os homens, quando a justiça é feita e quando o mal não é reparado, mas não é esquecido. Ontem saí de casa, e senti o cheiro do inverno, de vida, de piedade e de luto.

Monday, March 31, 2008

O velho Roque

Eu devia ter uns doze anos, quando gravei, no meu primeiro Mini System, uma fita cassete com um especial, narrado por mim mesma, da História do Rock and Roll. Sério. Começava nos Beatles e terminava num excurso sobre o rock brazuca, no caso, os Mutantes e os Titãs ( nunca demasiado lembrar, a panda é do tempo que os Titãs eram os Titãs do Iê Iê Iê).

Na época, eu era uma leitora contumaz da revista Bizz, e colecionava umas fichas de bandas, pôsteres e canções, gravadas do rádio. Notem que eu morava em Jundiaí e tinha 12 anos, ou seja, as minhas possibilidades estético-artístico-musicais eram muito limitadas. Eu adorava assistir o Som Pop, domingo à noite, na TV Cultura. O Kid Vinil apresentava os vídeo clipes, a única forma de atualização da então panda mirim no velho e bom roque-ên-rou. Depois, surgiu a MTV no Brasil, e eu lembro que a gente tinha que pôr o UHF na antena, ( sim, aquela pirâmide de plástico) e pedir pro irmão mais novo segurar a tal numa determinada posição, fazer uns passos de macumba e rezar pra que a transmissão não caísse, antes que o irmãozinho não resolvesse te denunciar pra mãe ou pra qualquer ser de mais de 18 anos. Lembro da primeira transmissão, quatro da tarde, o clipe foi Garota de Ipanema com a Marina, linda e elegantíssima, de laranja.
Os clipes eram um mundo a parte. Achei ontem no Youtube e passei na mesma hora pro Celo e pra Danis um dos meus favoritos de todos os tempos, PHD e I Won't Let you down ( aaaaaaaaa, eu vou ler jornal, vou ler jornal, vou ler jornaaaaaaaaal). Mas isso ainda não é rock, vão me dizer. É pop do mais descarado, sim, sim, eu ouvia Jovem Pan, no Gradiente prateado da sala.
O roqueiro mesmo é o cara udigrúdi, que vai no barzinho obscuro e conhece as bandas obscuras de todos os tempos. Pressupõe um meio ambiente que eu estava longe de participar, a mundos de distância. Mesmo depois de um pouco crescidinha, nunca fui descolada, nunca apresentei bandas pros amigos e sempre me detive no clássico. E sempre gostei do pop, e das fusões com funk, soul e sei lá mais o quê. Sim, claro que eu tive meus All Stars, e minhas trocentas calças jeans, com uma camiseta bege e a letra de Starway to Heaven. Gostava de Prince também, gostava de tudo, até hoje gosto, sou um dos raros casos de ecletismo musical que já vi na minha vida.
Agora, eu percebia claramente, nos meus 12 anos, que rock é atitude. Sede é tudo, imagem não é nada: roqueiro não se cria, não se copia, se é. E pronto. Tem gente que achava, nos meus tempos de juventude, que era comprar o vinil obscuro e tecer um discurso blasé-rock-punk-funk-s'il vous plaît e tava valendo, referências obscuras e muito intelequitualismo faziam o roqueiro. Roqueiro também não é o que enfia o pé na jaca 24 horas por dia, isso é o lado superficial da coisa. Difícil é manter o topete roquêro em pé quando se precisa...

Tuesday, March 25, 2008

Missão impossível

E daí que aqui em casa, as coisas acabaram. Sabe quando até aquele pacote de macarrão, do mais barato, que a gente deixa em caso de hecatombe nuclear, escondido embaixo da pia, foi embora?
Bem, acabou até o papel higiênico, e mesmo eu sendo uma panda pobre, tive que encarar um mercado na minha vida.

Eu notei, na última visita ao supermercado, que as coisas ficaram muito mais caras. Alguns produtos subiram 50%, e o orçamento do brasileiro vai que vai, só no sapatinho até o dia clarear. Não li nada de muito conclusivo na imprensa a respeito, mas o fato é que eu fiquei uma panda mais pobre ainda, como se isso fosse possível. Peguei cinqüenta reais, que era tudo que eu dispunha, e fui pro Atacadão.
Aqui em Campinas, já faz uns anos que existem grandes atacados, três deles no final da rodovia Dom Pedro, o Makro, o Tenda e o Atacadão. A panda dona-de-casa gosta mais do Tenda, sei lá porque, e há anos faço minhas compras lá. Por mais enjoado que possa ser chegar ao local, e pegar caixas de papelão porque não existem sacolas, e enfrentar as multidões de donos de bar, cantinas, restaurantes ou, pior, chefes de famílias que precisam comprar cinco pacotes master de Salsicha Sadia, o Tenda era minha única opção para comprar pão, leite, dois produtos de limpeza, biscoito Marilan e papel higiênico, bem como pacote de macarrão pra repor o da hecatombe, com meu apertado orçamento.
Bom, queridos leitores, agora vocês vão precisar de um trilha sonora mental: a musiquinha do filme Missão Impossível. Sim, porque do jeito que a coisa está, é mais difícil fazer compra do mês do que detonar a base escondida de espiões chineses numa ilha paradisíaca, com uma loira peituda do lado e um clips de papel que na verdade é uma mini bazuca.
Agora já tá tocando a musiquinha! Entro no Tenda, com meu carrinho e vejo pilhas pro meu mp3. Não, não dá pra comprar, desvio das pilhas e vou direto nos produtos de higiene. Música é luxo! Sabonete? Palmolive, peloamor, sou pobre mas vou ficar fedida? E a musiquinha continua, eu faço as contas mentalmente e dou uma guinada com o carrinho nos produtos de limpeza. Preciso fazer faxina amanhã, acabou o produto para o piso. Como eu faço? Lambo o piso? Não, desvio de cinco donas de casa, um estoquista e um menininho chorando, e vou pros Vejas. Veja maçã verde Limpeza Pesada, um toque oitentista no seu lar ( quem lembra dos produtos de maçã verde do Boticário? Só eu?), mais uma guinada perigosa e a panda superdetetive vai pros leites. Esbarro num senhor com cara de sofrimento e um carrinho que explica sua cara de sofrimento ( o cara deve sustentar umas 40 pessoas! Quase peço pra ser adotada...) e eu e ele vivemos a emocionante missão de pagar o leitinho das crianças no preço que tá.
Corta, alguém já viu os quadros do Terça Insana? Quem não viu, procure a líder comunitária que escreveu "Como Criar seu Filho na Favela", Terça Insana, no Youtube. Veja lá, e você vai entender: difícil comer morango com chantilly, no preço que tá.
Levo um susto nas massas: até o macarrão, gente! Até o macarrão que sempre salva a vida do povo, nos traiu, nos abandonou! Lembro da Carolina de Jesus, no seu Quarto de Despejo, não leu, leia agora. Ela bonitinha viu o feijão subido, e lascou: agora tu é aristocrata, né, negão? O velho carcamano que não deixa panda nenhuma na mão, que não deixa o barraco cair, que pode ser feito de todas as formas que a culinária raçuda permite ( e são inúmeras!), até o macarrão foi pro time dos bem-nascidos.
Dureza! Por isso que eu falo, por isso que eu clamo, por isso que eu digo:a missão impossível do Tom Cruise não é nada! Quero ver pôr o cara no Tenda Atacado com a lista que eu tinha, e com o meu orçamento!!!!!!!!!!!!!!!

Sunday, March 23, 2008

Páscoa

Todos os anos o Meio acompanha o calendário litúrgico. Por hábito mesmo, hábito antigo, arraigado, eu sigo mais ou menos o calendário das festas cristãs, mais do que do calendário laico, republicano. Mesmo que eu não faça nada, eu vejo as luas e as estações do ano pelo Natal, Páscoa, etc. Ano passado, vi a lua cheia do Natal, pura prata, na Chapada dos Guimarães, lendo um lindo livro Em Nome da Mãe, Erri de Luca, Cia. das Letras, que a Ju tinha dado pra mãe dela. O Luca escreve a história de Maria, Myriam, em primeira pessoa, muito tocante.
Semana Santa, eu sempre fiquei triste. Quem tem educação católica sabe porquê. Mas esse ano aconteceu algo inédito, eu fiquei feliz a semana inteira. Porque é Páscoa. Pela primeira vez eu pensei no lado glorioso da coisa e tocou Haendel dentro de mim, a semana inteira em graça, na mais pura graça.
Saibam que tudo na Comédia acontece em três dias: Dante se perde na selva oscura na Sexta-Feira Santa, está no Purgatório no Sábado de Aleluia e vê Beatriz nas primeiras horas do Domingo de Páscoa. Agora ele já está no Paraíso de novo, com ela... encontrando São Bernardo, São Francisco, e seu tataravô Cacciaguida. Então, l'amore, che muove il sole e altre stelle... é lua cheia de novo, estou feliz. Beijos pascais-dantescos para todos!

Wednesday, March 19, 2008

Um certo capitão Rodrigo

Uma das tarefas que pus pra mim, nos últimos tempos, foi a leitura de O Tempo e o Vento, do Érico Veríssimo. Li os sete volumes, direto, sem parar e sem querer parar. No meio, li a fonte de muito daquilo tudo, o Caminho de Swann, do Proust, e estou surpresa comigo mesma, porque sempre fui impaciente o bastante para encarar romances muito extensos, e os meus gêneros favoritos foram o conto e a poesia,desde muito cedo.
Mas os Terra Cambará se tornaram meus amigos, de um jeito que me despedi, com melancolia, de Ana Terra, Bibiana, o capitão Rodrigo, Maria Valéria, o doutor Rodrigo, e os belos e tristes Floriano e Sílvia.
Recomendo a saga para todos, o Veríssimo é um cara muitas vezes injustiçado na academia ( aliás, a gente poderia fazer uma lista dos autores que são mal estudados ou simplesmente ignorados pelos doutores em Letras das universidades brasileiras) mas que soube construir um edifício incomparável em língua portuguesa. Existem passagens belíssimas, cinematográficas, plásticas, sonoras, cinestésicas, que deixam a gente sem reação, esperando o próximo passo, o próximo desdobrar.
Inevitável pensar no tempo que corre, e nas coisas que se repetem. Desde Pedro Missioneiro, o mestiço de índio que foge da destruição das Missões jesuíticas, e de Ana Terra, a moça paulista presa ao pragmatismo português mais chão, os Terra Cambará tiveram paixões e sofrimentos que se repetiram, que voltaram, e a gente fica a se perguntar o quanto a gente tem das gerações passadas e não sabe. Quanta história perdida, e o mais importante é o que não ficou dito, o que não foi realizado, o destruído, o minuto que se vai.

Friday, March 14, 2008

Allons enfants de la patrie!

Caríssimos! Ao som da Môme cantando a Marselhesa, declaro abertos os portos, a Bastilha e o velho, combalido e censurado Meio do Caminho!


Tive semanas péssimas, e o Meio sofreu graves desagravos, pela primeira vez em sua trajetória no hiperespaço. Mas hoje aconteceu uma coisa engraçada. Eu ouvi por acaso a grande Piaf cantando o hino dos narigudos que tacaram fogo na Bastilha e aboliram aquelas peruquinhas brancas ( vamo combinar, devemos isso aos grandes jacobinos). Ontem eu estava lendo, da coleção Vida Privada, Paris no tempo do Rei Sol, do Jacques Wilhelm, e você entende porque eles fizeram isso. Tudo bem que hoje a França virou Sarkoland, mas pensemos na trajetória histórica, como diria Marx.
Lembrei que, quando tinha uns 12 anos, foi o segundo centenário da Tomada da Bastilha. Veio, junto com a Istoé que meu pai assinava ( eu sou da época que a Veja e a Istoé eram boas revistas), um volume, traduzido, sobre os acontecimentos revolucionários. Apesar da pequenina panda ser uma menina católica de Jundiaí, na hora escolhi de que lado estava, e me apaixonei desesperadamente por Robespierre. Só hoje lembrei do livro, da minha paixão por Rousseau, e resolvi abrir de novo o Meio e mandar pra guilhotina do meu coração os eventuais chateados com minhas pobres palavras!

Aux armes, citoyens! Formez vos bataillons!

Tuesday, February 26, 2008

A mulher de Lot


Diz o Gênesis que Deus mandou destruir Sodoma e Gomorra, por motivos bastante conhecidos. A família de Lot, sobrinho do patriarca Abraão, foi avisada e os anjos vingadores avisaram: nada de olhar pra trás. Lot, a mulher e as duas filhas saíram correndo; mas a saudade, a curiosidade, a fraqueza fizeram a mulher olhar para trás, e ela virou uma estátua de sal ( Gênesis, Capítulo 19, versículo 26).



Hoje pensei, uma coluna de sal, de tantas lágrimas que verteu. Olhar para frente, olhar para frente.
Acima, La femme de Loth, escultura em mámore de Ciane, escultura francesa contemporânea. Academia Aix-Marseille.

Sunday, February 24, 2008

Mulher ansiosa e poeta chinês

Eu, hoje, sofro da tristeza que vem da impaciência bem feminina. É bem feminino esse dilacerar-se, querer resolver pessoas, coisas, situações, como se bate um bife, se descasca alho, se põe a roupa no varal: de estalo, de pronto, de supetão. Nessas horas, é preciso pensar como homem: o tempo distendido, dos quinze aos noventa os homens estão sempre iguais, a produção hormonal sempre igual, enquanto a gente dos treze aos cinqüenta tem esses picos de agonia e vales de profunda depressão, no mesmo mês.
Ok, ok, fisiologia não explica tudo, mas como diria Simone, anatomia é destino sim. Pelo menos numa sociedade que acha que a fisiologia explica tudo. Hoje estou impaciente, acordei zangada e quero resolver.
Essas horas são particularmente perigosas. As palavras, como se diz no Evangelho, escapam da barreira dos dentes com muita facilidade. Pra quê enviar email de desaforo? Pra quê revirar o passado e encontrar um fio, como Ariadne, e puxar não só Teseu mas o Minotauro e o Labirinto inteiro?

Lembro de Li Po e Tu Fu, na tradução de Cecília, na cabeceira, e os velhos chineses me salvam:
"Uma canção, ao longe... É um mendigo. Se ele canta, esse velhinho que jamais teve nada, porque gemes tu, tu que possuis tão belas recordações?"
Tu Fu, 712- 762 d.C, tradução de Cecília Meireles.

Thursday, February 21, 2008

Técnica em Astronomia

Há exatos dez anos atrás, eu perdi meu pai. Um pouco antes do falecimento dele, saiu um edital pra um mega concurso da Prefeitura aqui de Campinas, vagas em muitas coisas. Eu tava no último ano de Sociais, e começava já a me preparar para o mestrado. Lembro que comprei e estava lendo trechos da Formação da Literatura Brasileira, do Antônio Cândido, e ia conversar com a professora Élide. Pensei em me encaminhar pra área de Pensamento Social, estudar Caio Prado, e comentei isso com meu pai, ele já no hospital.
Ele faleceu, dias depois. Fiquei em casa, em estado de choque, durante muitos dias, tomando sedativos. Um dia acordei e parecia que uma manada de elefantes havia passado em cima de mim; resolvi não tomar mais os remédios e fazer alguma coisa da vida, reagir. Não podia prestar o concurso para a vaga de socióloga, não tinha ainda o diploma. Mas uma coisa no edital da Prefeitura me chamou a atenção.
Abriram, não se sabe porquê, uma vaga em Técnico em Astronomia. Era pra segundo grau, e pra trabalhar no Observatório de Capricórnio. O Observatório tem o maior telescópio ótico do Hemisfério Sul, uma coisa ultrapassada tecnicamente vamos dizer, mas por isso mesmo encantadora. O astrônomo francês Jean Nicolini montou o Observatório na serra das Cabras, em Joaquim Egídio, que é um dos lugares mais bonitos que já fui e um dos meus favoritos.
Não tive dúvida. Me inscrevi pro Técnico em Astronomia, e comecei a estudar. O programa era simples: Astronomia de posição ( ou seja, trigonometria), um pouco de Ótica, um pouco de Geometria euclidiana, coisas básicas de Astrofísica. Tipo, era pra alguém limpar as lentes do telescópio, falar pras crianças que astrólogo não é a mesma coisa que astrônomo e gastar as noites de inverno atrás de Marte.
Comprei um livro russo de Astronomia num sebo ( era uma versão em espanhol de um manual russo) e comecei a estudar, pus o Poliótico ( vocês lembram desse brinquedo? Era um conjunto pra montar binóculos, microscópios, lunetas, excelente) na sala e comecei a montar, com as lentes, pequenos objetos de observação. Desencavei a velha coleção das SuperInteressantes, uma coleção de Matemática que era o orgulho do meu pai e do meu irmão, o compasso e a régua, e gastava meu tempo calculando as posições da Beta do Centauro, entre zênites e esplendores.
Quando a gente olha pro céu estrelado, vê o passado: muitas daquelas luzes nem existem mais, a luz viajando tão rápida no espaço infinito. Às vezes, saía com meu ex-namorado, um químico, cientista brilhante, pra ver estrelas, e me consolava saber que olhava pro passado, antes mesmo do meu pai nascer, e que aquelas luzes atravessaram o vazio enquanto ele viveu. Eu saía da dor, do sofrimento, pensando na trajetória irregular de Plutão e enquanto limpava minhas lentes. Tantas vezes pensei que queria me transportar pra outras galáxias, outros sistemas planetários, e pensava no quanto a gente é pequeno, infinitamente pequenino, diante dos mistérios do Cosmos.
Fiz a prova sob a reprovação da minha mãe e meu irmão, no velho colégio Carlos Gomes. Lembro que o filho do astrônomo Ronaldo Rogério de Freitas Mourão prestou a prova ( era fácil saber que ele era filho do cara, era a cara dele).
Ontem, eu tava remexendo meus documentos atrás das coisas pra outro concurso, esse agora pra História da Arte. Nem sei se vou poder me inscrever, o meu título de doutorado não foi homologado ainda ( burrocracias da cidadela zeferinítica). Mas eu tava lá, atrás dos meus diplomas de Primeiro e Segundo Graus ( sim, eu sou desse tempo). Achei um caderninho de anotações do meu pai, instruções para mexer em alguma cenozóica versão do Word Windows, e no caderninho tinha umas contas na letra horrível do meu irmão e um mapa maluco da Unicamp, esse da minha lavra. Nem sabia que esse caderno existia. Não lembrava de nada disso.
E junto com meu diploma de Primeiro Grau, estava um jornal amarelado. Era a chamada do concurso da Prefeitura. Sim, caros leitores: a panda foi aprovada em Técnico em Astronomia Júnior, até com uma pontuação decente para quem na época cursava Sociologia e Antropologia. Evidente que jovens físicos passaram na minha frente, mas eu era candidata habilitada à vaga.
Pus isso no meu currículo LATTES. Fiquei feliz. Não é sempre que um Poliótico ajuda alguém a passar em um concurso público.

Wednesday, February 20, 2008

Firmar o pé

Nos últimos dias, coisas boas aconteceram. Fui pra SP, e encontrei por acaso a Patrix
, dona de um bonito blog que eu lia sempre. Coisas aconteceram na blogosfera, ela fechou o blog. A gente comentou, no metrô direção Jabaquara, como essa coisa de blog faz bem e como às vezes tem gente que confunde tudo, acha que o blogueiro é tiozinho do Big Brother. Falando em blog, achei o do Luiz Felipe de Alencastro, olha lá, sr. Na Prática:http://sequenciasparisienses.blogspot.com/

Vi Eduardo, Verônica e Zé, foi engraçadíssimo porque vi os três figuras no mesmo buraco do espaço-tempo, as pontas de SP vão se unindo e eu vou ficando com cada vez mais vontade de me pirulitar, de vez, pro velho Piratininga.
Resolvi prestar um concurso aí. Não tenho chance nenhuma, tem sete colegas mais velhos do eu que vão se inscrever, isso do que eu sei. Mas eu tenho que tentar, e fico escrevendo meu memorial sem o menor entusiasmo. Tô de mau humor com essa história, preciso melhorar.
Fui na casa de uma amiga consultar uns livros pra um dos pontos do concurso, sobre história da gravura no Brasil, e descobri o acervo que existe no Centro Cultural São Paulo, que tá fechado por causa do imbecil que jogou um balão, que caiu em cima do negócio ano passado. Esse balão pode ter destruído Rugendas, Matisse, o fantástico acervo que, agora eu sei, existe lá por obra de graça do Sérgio Milliet e da Maria Eugênia Franco, os antigos responsáveis pela Biblioteca Municipal Mário de Andrade. Fiquei emocionada ao ler o depoimento do Marcelo Grassmann, sobre a importância da Biblioteca no cenário artístico de SP, nas décadas de 40 e 50. Meu pai não entendia muita coisa sobre arte, mas quando eu manifestei o desejo de estudar "essas perfumarias", ele me levou à Mário de Andrade. Bingo pro seu Pedro.
Firmar o pé, firmar o pé. E o boco do Lelê me apresentou Nino Ferrer, conhecem? Taí Mirza:

Friday, February 15, 2008

L'Aurora

Eu não vou mais encher o saco de vocês falando que tô triste. Panda triste já tá uma coisa óbvia. Me falta grana, me falta saco, o carro enguiçou por conta de combustível adulterado ( meu, é o segundo posto daqui de Campinas que fode com o Gerião por colocar álcool demais na gasolina), eu salguei demais o arroz com ervilha e presunto, não recebi meu salário, confusões com jornalistas, enfim, de tudo, foi variado o nervoso.
Teve o aniversário de falecimento do meu pai, dez anos sem seu Pedrão. Saudade, muita. Mas tudo bem, eu revi gente querida, trabalhei em coisas legais, estudei, fiz coisas novas e vocês vão me desculpar, hoje vou falar de Eros Ramazzotti. Isso, Eros Ramazzotti. É brega mas como eu já falei aqui no Meio, a Itália é inteira brega, eu sou cafona e o Sarkozy deu o mesmo anel horroroso Dior de coração cor-de-rosa pra ex e pra atual ( vocês hão de convir que isso, mais a nova legislação de imigração que o cara quer fazer a francesada engolir, é mais terrível que pandinhas ouvindo Eros Ramazzotti).
Enfim, como todo bom estudante de italiano, você ouve Lucio Dalla e eu queria muito fazer uma Teoria da Tradução na Música Comercial Brasileira, porque você descobre que Tutta la Vita do cara virou Tô p. da vida do Dominó ( e quando vai estudar français, confere que Joe Le Taxi da Vanessa Paradis vira Vou de Táxi da Angélica). O Eros é de lascar, reconheço, tem umas coisas dele que dá vontade de chorar de... nervoso, de novo. Mas tem uma cançoneta dele que eu gosto demais, L'Aurora. Eu gosto demais da idéia que ter o sonho realizado é como a aurora. Hoje acordei cedo e vi a aurora na rua, é rápido ver um novo dia nascer. E quando o sonho calha de acontecer, é tão rápida a felicidade, também, e eu fiquei cantando a plenos pulmões, no meu italiano Adoniran, L'Aurora.
"(...)Forse un giorno tutto cambierà/ più sereno intorno si vedrà/ voglio dire che/ forse andranno a posto tante cose/ ecco perché/ ecco perché/ continuerò/ a sognare ancora un po'uno dei sogni miei/Quello che c'è in fondo al cuore non muore mai/ se ci hai creduto una volta lo rifarai/se ci hai creduto davvero/ come ci ho creduto io/ Sarà sarà l'aurora/ per me sarà così/sarà sarà di più ancora/tutto il chiaro che farà/ Sarà sarà l'aurora/ per me sarà così/sarà sarà di più ancora/tutto il chiaro che farà"...

Monday, February 11, 2008

Sonhos


Como sempre, ando perdida em pensamentos. Mas tive que enfrentar umas coisas não muito agradáveis, pro meu próprio bem, nos últimos tempos.



Durante muito tempo, tenho que confessar que preferi ser a dama de companhia, ou a amiga engraçada, a coadjuvante nas histórias de amor, de sucesso profissional, de viagens, de algumas amigas queridas. Eu sempre dava um jeito de estar perto, de ajudar, de torcer, de desejar tudo de melhor da vida para elas. Cheguei a agir, de forma concreta, no sentido de estabelecer uma ponte entre o que elas diziam querer e seus objetivos; às vezes essas pontes eram pontes Rio-Niterói, grandes construções da ditadura militar, muito concreto e milhares de operários nordestinos socando a lenha, noite e dia.


O que ocorre é que, nos últimos três anos, essas amigas se afastaram de mim, por motivos vários. Em alguns casos, evidente que me senti rejeitada, sozinha, e injustiçada. Mas, faz algum tempo, percebi que a responsável de toda a situação era eu mesma. No final, quantas vezes eu preferi não pensar nas minhas coisas, não correr atrás do que eu queria, não encarar o que me fazia sofrer.


Um amigo queridíssimo me disse dia desses, foque nos seus sonhos e nas amizades lindas que ficaram. Sim, ele tem total razão. É isso em que consiste o pão de cada dia, a matéria da vida.


Em cima, da série fotos panda ao redor do mundo, a entrada de um sobrado em Golden Coast, na Chicago que tanto amei.


Hoje, me sinto em alguns momentos solitária, sozinha, vazia. No final, fugi tanto dos meus sonhos, e eles é que me fizeram companhia, mesmo relegados ao terceiro, quarto plano; eles permaneceram comigo todo esse tempo. Sou grata a eles, por terem me acompanhado mesmo assim, por não terem morrido, por existirem com tanta força e beleza quando me apareceram pela primeira vez. Vi num relance, numa livraria, um livro de auto-ajuda entitulado "Dá trabalho ser feliz". Sim, dá. Muito.

Saturday, February 09, 2008

Da tradição clássica


Andei lendo, nos dias chuvosos e sem grana do Carnaval, coisas muito interessantes.


Li de uma sentada Nos Submundos da Antigüidade, livro já clássico de Catherine Salles. É interessantíssimo: a autora reconstrói a prostituição, a escravidão, em Atenas, Corinto, Alexandria e Roma, para demonstrar como o ideal clássico da igualdade entre o belo e o bom estava ancorado numa sociedade aristocrática e de mecanismos ambíguos. Dá muito o que pensar as análises da economia sexual greco-romana: ao mesmo tempo em que o poderio de Alexandre e depois dos romanos crescia, as desigualdades internas aumentavam, e com isso, os conflitos entre os setores sociais e a tensão sexual.


Me animei e depois peguei Os reis taumaturgos, do Bloch, que já li uma parte; mas me aborreci ao lembrar que preciso terminar antes A sociedade feudal, e nisso o Celo me emprestou O caminho de Swann, larguei tudo e entrei em Combray, e fiquei felicíssima, completa, ao ler as descrições da igreja de Combray, criações do Proust em cima do Émile Mâle, grande historiador da arte que, em volumes corajosos de 1948, L'art religieux du XIIe au XVIII siècle en France, desvendou as origens das iconografias cristãs.


Uma das coisas mais incríveis da minha vida foi visitar o Camposanto de Pisa. No início do século XIII, a peste assolou a cidade e os munícipes construíram um lindo cemitério, um prédio retangular com um pátio central, circundado por conjuntos de ogivas e colunas. Pois bem. Pisa é, na origem, um aterro etrusco, depois uma cidade romana, e assim vai. Os pisanos do Trecento não tiveram dúvidas: ornaram as paredes de seu cemitério com os sarcófagos antigos, gregos, romanos, etruscos.


Os americanos, além de enviar duas bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki, bombardearam a asa de mariposa que é Pisa; o Camposanto foi totalmente destruído, sendo depois reconstruído, pedaço por pedaço, pelos carcamanos teimosos. Os sarcófagos antigos se salvaram, bem como os afrescos, as ogivas.


Na manhã ensolarada, digna da Toscana, em que adentrei o prédio, vi, sem fôlego, o que ocorre quando a luz do sol bate nas ogivas e depois, nos sarcófagos antigos. Um rapaz indiano me perguntou se aquilo era um cemitério mesmo; respondi que sim, e ele falou, como o Taj Mahal.


A tradição clássica, pra mim, são livros, são as sombras das ogivas nos sarcófagos de Pisa, a manhã que passei lá, a pergunta do moço indiano.

Monday, February 04, 2008

Arlequim e Colombina

E estamos em pleno reinado de Momo.


Como sói acontecer no festival da carne, as atividades da panda no feriadão se resumem em pular loucamente... da sala pro quarto, do quarto pra cozinha e assim sucessivamente.

Tentei com todas as minhas (poucas) forças escrever um trabalho para inscrever num concurso. Mas, segundo o regulamento, eu precisaria entregar 100 páginas no dia 7. Não tive forças. Odeio não fazer o que me proponho, em termos de trabalho, mas nos últimos dias tive uns aborrecimentos foda, ando triste, cansada e cheguei a entrar num certo desespero. Às vezes, confesso aos caros leitores ser difícil por a fitinha de Rambo na cabeça, tomar duas doses de uísque e entrar na selva oscura da História da Arte.
O que me salvou, como sempre, foram os amigos e o Celo. Revi gente muito querida, e ganhei um super estojo Panda do Clis ( hihihihi, Clis, thanks!). Assisti também, de presente de Dani Mônica, "O Gangstêr", e adorei rever o Russel Crowe ( né, Dani).... Gustavo e Marilinha foram os anfitriãos perfeitos, e ainda tive tempo de jantar com o Milton, que há tanto tempo não via. E a commedia dell'arte da vida continua, entre confetes, serpentinas e Pierrôs apaixonados.