Monday, September 27, 2010

Graças, Marília bela

Acontece uma coisa curiosa comigo.

Há muitos e muitos e muitos anos atrás, escrevi um trabalho de final de curso, quando estava no mestrado, sobre a interpretação dada por Antônio Cândido, em Formação da Literatura Brasileira, para Marília de Dirceu. Essa disciplina foi ministrada por um professor com quem, vários anos depois, tive uma história de amor bela, mas também muito sofrida. Hoje entendo porque escolhi o tema, na época; Antônio Cândido fala que Gonzaga virou a página da história da literatura brasileira ao se apaixonar, quarentão, por uma menina, ser rejeitado pela família dela, finalmente conseguir ser seu noivo e depois, numa das maiores catástrofes amorosas de todos os tempos, ir para o degredo em Moçambique, tudo porque Joaquim Silvério resolver dar com a língua nos dentes.
Na época, eu, jovem e intrépida, achava simplista a explicação dada pelo grande mestre uspiano: puro biografismo, pensei, toda envolta em teorias e teorias da ação social, dos acordos feitos pelos agentes e tomos e tomos de Sociologia. Depois de tudo, vejo que de fato alguém pode deixar de ser árcade e virar romântico, depois de um grande amor, da traição, do calabouço e do degredo. Gonzaga em Moçambique não escreveu mais nada e se casou com uma moça analfabeta, segundo consta. Eu também nunca mais me aventurei a escrever nada sobre Gonzaga e às vezes me fica difícil viver, com tantas dores no coração.
Mas, às vezes, no meu exílio, recebo garrafinhas com papel dentro, mensagens de pequenos náufragos dos mares da internet. Explico: depois do artigo apresentado num congresso, eu ainda o publiquei, numa pagininha dos alunos, no início do meu doutorado. O link da pagininha foi deletado do site do instituto quando a direção mudou, e o cargo de administrador da sala de computadores ficou a cargo de um docente poderoso e sem paciência para nossos textinhos. Anos depois, eu já doutora, a nota da CAPES do programa de pós-graduação caiu, e um dos motivos foi a falta de publicação dos discentes. Enfim.
Por obra e graça do Google, às vezes minha caixa de email recebe singelas mensagens de pessoas, no Brasil inteiro e em Portugal, que me consideram grande autoridade nas liras de Dirceu. Tento com muita delicadeza desfazer o equívoco; fico constrangida de pensar no sofrimento que isso traria ao bravo Gonzaga. Mas não adianta. Hoje, recebi uma mensagem de um internauta, inconformado com as respostas dadas pela banca de um concurso público, do qual algumas questões foram tiradas da leitura de uma das liras. Conferi o gabarito, não sem refletir nas artimanhas do destino e no quanto os caminhos do mundo são tortuosos. No final, escrevi o artigo porque estava apaixonada já, sem o saber; mais feliz foi Gonzaga, que sempre o soube.

Sunday, September 19, 2010

Romance ruim

Eu, do alto de sapatos altos gastos, com o topete já todo grisalho, com as esperanças já todas falidas, com o orçamento estourado, manchete de jornal popular, bolero de churrascaria, cantada de rodoviária, filme queimado, jaca pisada, sim, essa mesma que vos fala, essa criminosa que não se regenera, essa cafonice que não sara, essa febre que não passa, coloco de novo a jaqueta jeans esfolada, passo um batom e saio.
Dirijo pela cidade, claro que desse jeito a polícia me para, a multa vem embaixo da porta, mas eu não estou nem aí. Que falem de mim, eu já sou assunto mesmo. Que tirem sarro. Melhor isso que não existir. Pois é, de novo o mecanismo roda, de novo o mesmo pneu na mesma direção, de novo a mesma estupidez, tudo, tudo, tudo de novo.
E de novo a louca do vestido de carne me salva o ano de 2010. Porque é tudo de novo. E porque dessa vez, sim, dessa vez posso me salvar.

Saturday, September 11, 2010

Coração partido

Tenho lutado muito para sair de um fundo do poço em que me meti, nos últimos anos.

Sinto uma culpa terrível por coisas que deram errado. Me sinto infeliz ao lembrar de frases, situações, pessoas. E nisso tudo me menosprezo. Não me sinto digna do meu próprio amor. Isso não é justo, percebo agora. Porque eu preciso ser a responsável por tudo que me disseram? Por tudo que me fizeram? Fiquei paranóica, amargurada, triste. Não, não é justo se sentir sempre a que errou, a que deu mancada.
Fiz o melhor que eu pude... dei o melhor de mim. Tantas vezes eu fiz o que estava ao meu alcance, e era tão pouco, mas era o que eu tinha. Eu vejo a lua brilhar no céu e penso nas tantas vezes em que também estive cheia de amor, de brilho. Sinto o coração partido em tantos pedaços, estilhaços de memórias tristes. Cato um por um, e às vezes me corto. Não, eu não estava errada em amar. Porque desses caquinhos se fazem as estrelas.

Monday, September 06, 2010

Links para História da Arte

Primeiro link:

http://www.4shared.com/dir/kUDViyTb/Histria_da_Arte_Geral-_Unimep-.html

Esse é pra História da Arte Geral. Tem Arte Rupestre, Arte Grega, Arte Romana. Tudo em pdfs. E pequenas apostilas em Word.

Coragem

Tem fases da vida da gente que são lutas incessantes. E é preciso ter coragem o tempo inteiro.

Tô numa fase dessas. Preciso ter coragem 24 horas por dia. Pra conquistar o que eu quero. Às vezes, algo de bom acontece ou eu consigo resposta positiva pros meus esforços, eu descanso um pouco mas logo vem no pensamento a quantidade de coisas pra fazer, a quantidade de coisas pra resolver, e eu vejo que é necessário mais coragem ainda, pra estar de pé, e ser quem eu sou.
Decidi que não vou mais fugir dos meus sentimentos. Isso é particularmente difícil. A vida tem horas que faz de tudo pra te mostrar que você está errado. Eu me equivoco, é claro, como todos os outros seres humanos no planeta Terra. Mas eu faço o melhor que eu posso. Tento ser a melhor que eu posso. Minhas possibilidades nem sempre são das mais vastas, mas é melhor alguém que tenta fazer de coração dar o melhor de si do que alguém que não está nem aí pra nada. Bom, pelo menos eu acho isso. Estou de pé. E luto.

Friday, August 20, 2010

Shahrazad


É por piedade que se enfrenta o medo, é por compaixão que se propõe a contar histórias. Para salvar vidas. Para se mudar o destino. Para encarar, frente a frente, a injustiça. E cada alvorada é uma vitória. Cada palavra, a tábua de salvação, de si e dos outros.
Conta-se histórias porque é preciso. Leu-se em algum lugar, ouviu, sofreu. É por paixão que por três anos se conta histórias. Definitivamente, é preciso narrar. É urgente narrar. É necessário encher as noites do som da voz e de palavras. É pela inteligência que se vence. É pelo amor que se vence. Senão for por isso, a voz se cala e só existe o negro da noite, da solidão e da morte.
Odalisca. Delacroix, 1857. Óleo sobre madeira, 35,5 x 30,5 cm. Coleção particular.
Ya Shahrazad, Fairouz. Olympia, Paris.

Sunday, August 15, 2010

Dose dupla

Começo de semestre, correria, trabalho duro. No meio disso, tanta novidade, que eu me perco dentro de mim. Também voltei a sair pra dançar. Fazia anos que eu não dançava e em duas semanas já virei a nova Lady GaGa: quero roupas, maquiagem, sapato de salto, só pra sair pra dançar, sair pra dançar. Minha vida virou um intervalo entre as pistas de dança, entre a nova cor da sombra e o desejo de ter uma blusa de paetês.

Saturday, August 07, 2010

Alegria


E o Amor se fez carne
e o Verbo habitou entre nós.
Teto da Igreja de São Francisco de Assis, Ouro Preto, Mestre Ataíde.

Saturday, July 24, 2010

Retorno ao clássico

Tive um julho particularmente feliz.

Vocês não reparem meu sumiço, foram por boas e más causas, como sempre. Acho que a tônica do período foi um retorno ao clássico. Explico: comecei julho com uma sinusite daquelas, um clássico na minha vida, sofri em vários jogos da Copa e me irritei com as coisas clássicas: carro quebrado, gente sem noção, pó da reforma no prédio e lembranças ruins.

Conforme julho foi passando, a paz daqui de casa se reestabeleceu, e eu acordei e curti o barulho dos pássaros no Largo de São Benedito e do Bosque. Amigos muito queridos ressurgiram de viagens. E eu aos poucos comecei a ter a sensação de reencontrar uma velha conhecida minha, uma moça que já tem seus cabelos brancos e que hoje comprou sua primeira caixinha de morangos do ano.
Pra completar os retornos, voltei a escutar Bruce, que era uma coisa que fazia tempo que eu não fazia. Old school, baby, old school.

Sunday, July 11, 2010

Ik zal handhaven


Hoje, fui assistir à final da Copa com duas amigas num bar muito famoso aqui de Campinas, o Giovanetti.


Vivi um dilema a semana inteira. Se eu torcesse pra Holanda, honraria parte dos meus nobres ancestrais, que me legaram um sobrenome difícil e cheio de ês, que entorta a cabeça dos meus patrícios. Também honraria a minha simpatia pelos laranjinhas, simpatia existente em todas as Copas e tal. Mas, claro, meu coração brazuca ainda estava ressentido e de luto pela desclassificação, o que é compreensível.


Mas não esperava chegar no local e me deparar com um monte de marmanjos que viraram espanhóis de carteirinha só porque o Dunga foi imbecil. A princípio, fiquei quietinha, mas acho que depois de um chope, o sangue falou mais alto e a pequena panda quase morreu linchada porque honrou seus ancestrais batavos (os espanhóis que me perdoem, minha bisavó dona Luzia onde estiver deve ter ficado irada!).
Senti uma grande solidão, eu torcendo pra Laranja Mecânica rediviva em meio à brutamontes, que, grosseiramente, não entendem nem a regra do impedimento. Os garçons pararam de me atender, e um cara se deu o trabalho de sentar do meu lado pra me espezinhar. Enfim, os espanhóis cavaram um gol na prorrogação, e acredito mesmo que a Fúria jogou bem e mereceu a taça. Mas hoje, mais do que nunca, meu coração é de um lugar onde se fala uma língua incompreensível, se come queijo, se anda de bicicleta e se vê Rembrandt em qualquer museu da esquina.
Na hora da dor, só me ocorreu ligar pra Mari, que deve ter sido a única brasileira que torceu pra Holanda, assim como eu e mais sete velhinhos que moram em Holambra. Sempre brinco com ela pela particularidade dela estudar coisas holandesas, e de eu ter esse sobrenome tranca-cartório. Mas hoje, nós fomos duas almas perdidas que se encontraram. Falei pra ela que hoje, mais do que nunca, honrei meu sobrenome, porque torci pra Holanda no meio do Giovanetti em meio a um bando de toscos. Hoje, nós duas concordamos num ponto: nós mantemos a fé!

Saturday, July 03, 2010

Vontade


Porque hoje seria isso, cor, abraço, carinho.

Shunga (gravura erótica, que na maior parte das vezes era uma xilogravura, apresentada numa série em livro) atribuída a Utagawa Kunisada (1786-1864), c.1830/40, 91 x 121 mm.

Saturday, June 26, 2010

Fora-da-lei


Toda grande história de amor é um crime.


Toda vez que duas pessoas se amam, cometem um delito contra a ordem social. Ofendem a moral, os bons costumes, a tradição. Amar é andar com uma arma. Amar é assaltar um banco.


Não, senhores, amar de verdade não é obedecer as regras. Se dizem que você precisa amar alguém bonito no sentido convencional, que mora perto e que a altura regula, não ouça. Se dizem que você precisa amar alguém que seja da sua cor, da sua idade, da sua classe social, que vota no mesmo candidato que você, que torce pro mesmo time que você, que concorda com sua escalação hipotética da Seleção Brasileira, fuja, fuja enquanto é tempo, porque você não precisa amar ninguém. Amar é acidente de percurso, é você achar uma mala cheia de dinheiro no meio de uma viagem de trem pra Sibéria. Se você tiver essa sorte, lembrará de mim, e pulará com a mala do trem no meio do nada.
Eu me lembro das noites que passei cometendo esse delito; paguei com lágrimas amargas minha condenação. Mas não me arrependo, eu cometeria o mesmo crime, eu incorreria de novo na norma jurídica. E sem telefonema pra advogado.

Friday, June 25, 2010

Panda na Copa


Rufem as vuvuzelas! Está no ar Panda na Copa!
Devido à uma gripe dos infernos de Dante, acompanhei os dois primeiros jogos da Seleção Dunguística na cama, e sem nenhum jogador argentino ou italiano gatão pra me consolar. Enfim.
A primeira exibição da Seleção foi digna do reino das trevas, a segunda foi um pouco melhor. Explico: na minha modesta opinião, Dunga mexe pouco no time, e ele poderia fazê-lo, em horas infelizes, como foi o segundo tempo do jogo de hoje.
Mas é aquela coisa, se eu fosse treinadora da Seleção, não estaria na cama gripada e sim com a cabeça enfiada numa Jabulani.
Destaques para o fraco desempenho das seleções africanas ( que pena, tava torcendo pros caras, tirando a destemida Gana), pro fato da Azzurra ter azulado, dos franceses terem de novo dado cabeçada ( e sem Zidane) e do Cala boca Galvão ter virado um movimento social universal. Aliás, CALA BOCA GALVÃO! Como diz um amigo meu, a transmissão dos jogos da Copa no Inferno vem com narração do Galvão Bueno e comentários do Neto!
Acima, a prova irrefutável de que o início da iconografia da vuvuzela está no Juízo Final de Michelangelo, na Sistina!

Friday, June 18, 2010

Da última flor do Lácio

Da última flor do Lácio, inculta e bela, hoje caiu uma pétala. Vá em paz, José Saramago.

Friday, June 11, 2010

Temperança


Hoje despertei às seis e meia da manhã. Pensei em várias coisas, organizei outras, e voltei a dormir. Tive um dos sonhos mais bonitos da minha vida, um sonho de integração: meu pai me mandava ir cuidar da vida, eu ia e no final me encontrava com um homem que considero ser ótima pessoa.
Acordei com essa vontade, essa gana, de viver. Fui me cuidar, como mandava meu pai no sonho; arrumei meu cabelo, minhas unhas, me maquiei, me vesti de azul e encontrei uma amiga muito fofa. E resolvi um problema profissional grave, que durava desde 2003.
Hoje, descubro o quão importante é manter a esperança, a calma e a fé, mesmo quando tudo parece conspirar. Hoje, tenho a certeza que só consegui resolver o problema porque, durante muitos meses, me calei, sofri sozinha, pensei que não fosse resistir, mas não revidei na mesma moeda, não prejudiquei ninguém, fui fiel aos meus princípios, agi de acordo com os meus valores, sofri sim, mas não fiz ninguém sofrer. E hoje, vi o sonho se realizar. E digo pra vocês: o mais importante da vida é a esperança.


Acima, o arcano maior da Temperança. The Mythic Tarot, de Juliet Sharman-Burke e Liz Greene, concepção da artista plástica Tricia Newell ( pintura a guache). Editado no Brasil pela Editora Siciliano, 1988.

Saturday, June 05, 2010

Maus bofes

Hoje acordei num puta mau humor. Não, não estou naqueles dias. Não, não aconteceu nada de novo no meu universo particular, como canta a Marisa Monte. Sim,estou num puta mau humor,

1) com alguns dos meus alunos. Aluno às vezes cansa a paciência do professor;

2) com a campanha presidencial. O Serra me deixa de mau humor quando diz que os bolivianos são todos traficantes;

3) com a Copa chegando, porque meu vizinho já estreou a corneta dele;

4) com os diários de classe que eu preciso preencher;

5) comigo mesma, por não acreditar, por não fazer direito, por reclamar e por estar de mau humor.

Thursday, June 03, 2010

Cansaço

"O homem que hoje me amar
Encontrará outro lá dentro.
Pois que o mate".

Elisa Lucinda

Tuesday, June 01, 2010

Autoridade Nacional Palestiniana


Reconhecemos o direito da existência do Estado de Israel. Sentimos solidariedade, fraternidade pelos irmãos judeus que pereceram no Holocausto, e lutaremos para que nunca mais aconteçam tamanhas atrocidades. Mas, nos termos da Resolução 181 da Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas, assinada em sessão datada de 29 de novembro de 1947, e nos termos dos chamados Acordos de Oslo, de 1993, reconhecemos o direito da existência do Estado Palestino. E sentimos solidariedade, fraternidade, pelos irmãos palestinos que perecem, dia após dia, neste novo genocídio.

Monday, May 31, 2010

A cura

Hoje foi um dia longo e cheio de problemas. Pra vocês terem só uma idéia, comecei o dia sem gasolina, com sono e com brigas entre meus alunos que pareciam insolúveis.
Quando tudo não só parecia perdido, como estava perdido de fato, de repente, aconteceram pequenos milagres. E, no meio de tanta dor antiga, tantos machucados e durezas, gente amiga trouxe alívio, e eu lembrei de uma música velha, boba, do Lulu Santos ( pois é, do Lulu Santos) que dizia direitinho do meu sentimento, algo muito antigo, uma alegria de saber que as coisas estão no lugar, mesmo com tanta quebradeira. E viva aquela, aquela mesma, que é a última que morre.

http://www.4shared.com/audio/3c8AvDTu/Lulu_Santos_-_A_Cura.htm

Sunday, May 30, 2010

Virgílio e Dante no prato!

Dante e Virgílio, projeto de prato. Guache em porcelana de Limoges, 49,4 cm de diâmetro. Séc. XIX. Limoges: Musée Adrien Dubouché.

Friday, May 28, 2010

Final de conversa

Nos últimos anos, acontece uma coisa curiosa comigo.

Encontro sempre gente muito querida, da velha Universidade Estadual de Campinas. E essas pessoas me contam coisas escabrosas que andam acontecendo na cidadela de Zeferino: cantinas muito boas são fechadas a troco de nada, proíbe-se todo tipo de atividade nos recintos da instituição ( inclusive estudar) e docentes fazem todo tipo de jogo sujo para colocar favoritos em concursos totalmente roubados, roubar projetos de discentes e/ou simplesmente encher a paciência de quem passa.
Em algumas unidades, a situação chega a ser tão crítica que o observador, mesmo o mais desatento, se pergunta como as pessoas fazem para limpar seus posteriores, visto que não existe nem papel higiênico nos banheiros. A crise, no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, virou a normalidade, e se você fala qualquer coisa, é identificado como alguém das hostes neoliberais, que mata os pandas na China e persegue docentes do lugar.
Eu sempre renovo minha indignação, e desfio o rosário das lembranças, mágoas, desacertos, pepinos, monstros e todo tipo de desvão de comportamento e de linguagem que acomete as plagas outrora fundadas por Zeferino Vaz. Meus últimos dias não tem sido diferentes. Mas o que ocorre, agora, é que percebo a minha total impotência em relação a tudo que se passa na Universidade. Não sou docente contratada, e sim mera professora palestrante convidada, e recebo menos que o salário mínimo para ministrar um curso na graduação. Não tenho nenhum tipo de acesso às esferas decisórias da instituição. Nada sou, nada posso, nada consigo. Nunca fui chamada para nada, nos últimos anos, a não ser ministrar cursos na graduação, ganhando menos que o salário mínimo, e eventualmente contribuir com minhas pesquisas pessoais para as estatísticas da Pró-Reitoria de Pesquisa e da FAPESP.
Ou seja, percebo que virei, talvez, uma figura trágica, aquela à qual as pessoas endereçam suas queixas, graves e justificadas, mas que é apenas uma figurante indignada. Sinto-me triste por isso. Gostaria de poder efetivamente contribuir para a vitalidade daquela alma mater que me formou, tanto profissionalmente quanto pessoalmente, mas esta mesma que me formou não me dá chances de crescer, de prosseguir meus estudos, de ser alguém no sentido mais pleno. É duro demais chegar no final do salário com muito mês sobrando, é duro demais ver as coisas caírem, quebrarem, ver todo tipo de filhadaputice, e não poder fazer nada, nada, nada. Não existe nada que eu possa fazer, não adianta chorar, espernear, gritar, encher o saco dos amigos, falar um monte de bobagem na cantina, na mesa de bar, e continuar sendo a mera figurante indignada de sempre. Não é justo comigo nem com a Unicamp. Fim de papo.

Sunday, May 16, 2010

Je t'aime encore


"Six pieds sous terre, Jacques/ Tu chantes encore/Six pieds sous terre tu n'es pas mort/ Six pieds sous terre, Jacques/Tu n'es pas mort/Six pieds sous terre, Jacques/Je t'aime encore"
Jojo, Jacques Brel
Túmulo de Jacques, na Polinésia Francesa, a poucos passos do túmulo de Paul Gauguin.

Friday, May 14, 2010

A barca do tiozão



Messer Masiero acaba de me recordar, gentilmente, que hoje faria anos o tiozão mais amado pelas pandas no mundo afora. Nascido por volta de 1265, o narigudo cidadão apagaria em torno de 725 velinhas.
Essa semana, fui convidada a dissertar sobre o legado do grande vate florentino, nas plagas unicampísticas. Resolvi inovar a abordagem, e falei dos conjuntos ilustrativos dedicados à Comédia na virada do XVIII para o XIX, e o XIX: Delacroix, Ingres, Blake, Doré, Rodin, Manet, Degas, Puvis de Chavannes, dentre outros, dedicaram tempo, lápis e tintas para dar vida às paragens infernais, tão bem conhecidas dessa que vos escreve, por leitura do Dante e por experiência própria.
Essa semana, apropriadamente, meu carro, conhecido internacionalmente como Exumóvel, resolveu ir para a UTI, o que causará despesas no meu sempre combalido orçamento e já motivou uma discussão acalorada com a minha progenitora. A panda sempre se esforça para comemorar datas festivas em grande estilo!
Acima: Eugène Delacroix (1798-1863), 1822. Óleo sobre lona, 189 x 242 cm. Paris: Musée du Louvre.

Sunday, May 09, 2010

Cabeça ruim

Eu começo a considerar, cada vez mais, que minha cabeça é ruim demais.

Eu acredito no que os outros dizem pra mim, e de mim.
Eu quero tanta coisa.
Eu sonho tanta coisa.
Eu lembro tanta coisa.
Eu não aguento o tanto de desejos que eu guardo dentro de mim.
E tudo isso é tão atrapalhado, que às vezes eu queria passar o dia na cama, olhando pra parede, pra tentar ordenar, pelo menos um pouquinho, essa zona toda que não consegue ser eu.

Tuesday, May 04, 2010

Deu na Reuters III: protesto na Acrópole deixa filósofos de cabelo em pé


Hoje o velho Partenon, construído pelo grande escultor Fídias no coração da Acrópole, em 450 a.C., amanheceu assim.
As autoridades gregas não sabem como os manifestantes entraram no templo, que é fechado para os visitantes.
Já dizia José de Arimatéia que uma imagem vale mais que mil palavras. Deu na Reuters: essa foto aí deixou filósofos no mundo inteiro, particularmente nos departamentos de Filosofia nos EUA, de cabelo em pé!

Monday, May 03, 2010

Reza pra subir

Hoje eu preciso fazer uma oração. Pedir humildade, paciência, amor, paz de espírito, pra qualquer ente superior que venha a existir ou não, nessa altura do campeonato não importa.

Ando, de novo, com o pavio muito curto, curto demais. É muito difícil! Não aguento mais um monte de gente, um monte de situações, e acabo ficando de saco cheio mesmo. Pronto, eu não preciso ser simpática, eu não preciso ser popular, eu não preciso suportar. Quero algo diferente pra mim, só não sei o quê, ou como.

Wednesday, April 21, 2010

Fatos da canção

Hoje, feriadão, cabulei meus estudos. Sério. Não corrigi prova ( tenho 80 provas) e não estudei a tonelada de coisa que tenho pra estudar. Peguei mal num livro. O dia estava lindo, minha mãe me chamou pra almoçar no restaurante favorito dela, e depois little Carol e eu encaramos o Fran's Café básico.
Pra piorar o estado letárgico da pequena e sempre desmiolada panda, encontrei isso aqui:
www.songfacts.com. Pra quem é "I wanna be Nick Hornby", é lindo. Explico: é uma enciclopédia on line de significados, histórico completo e apresentação de qualquer coisa que, entre 2:50 a 4:50 minutos, fez sua cabeça, a cabeça do seu pai e a do seu avô no rádio, MTV, vinil, CD, fita cassete, I-pod ou estéreo tijolão da Gradiente nas últimas décadas que Deus pôs no mundo.
Então, fui atrás de pérolas como "Video killed the radio star", do Buggles ( quer saber o que é? procura lá, mizinfio). O negócio, como diria meu avô, é um azougue: se você sempre quis saber o significado profundo de "She Bop", da Cyndi Lauper, mas nunca teve pra quem perguntar, seus problemas acabaram. E, sim, bop é algo relacionado às atividades de reprodução da espécie, só pra constar nos autos!

Monday, April 19, 2010

Tuesday, April 13, 2010

Pas de nouvelles, bonne nouvelles

Estou naquelas fases em que está tudo meio parado. Explico: depois de anos de sofrimentos dignos do Inferno do tiozão renascentista, minha vida aos poucos apresenta um aspecto normal, digo, normal dentro dos termos pandísticos de levar a vida.
Isso às vezes me dá uma certa frustração: queria estar com novidades incríveis, de quem acabou de ter um filho, ou foi viajar, ou publicou um livro pela Harvard Press. Não, caros leitores: nada disso ocorreu com a velha e asmática panda, que continua com seu jeito melancólico e com seu hábito de sofrer. Pelo menos, agora, tem umas horas que eu sinto que, lentamente, as esferas começam a se mover. O caso mais notável dos últimos tempos foi que eu fiquei no rádio fofoca com a Pri, plena Livraria do IFCH, e ela pintando de preto uma arara que achou no lixo, e eu perdi uma camisa branca, que virou de petit pois pretos. Também, num raro momento de fúria dantesca, bati meu carro no estacionamento do shopping, o que não ocasionou nada nem pro meu carro, nem pro da pessoa que eu bati, nem pra ninguém, graças ao bom Deus que está nos céus e que é Pai, e não Padrasto.
Minha nova mania é ler o Casa-Grande & Senzala, do Gilberto Freyre. Decidi que ia fazer um Programa Esclarecimento da Panda 2010, e que ia ler inteiro livros que li trechos na graduação, na pós ou por aí, nas quebradas da vida. Devo dizer que já surta resultados o Programa Esclarecimento da Panda, porque eu aos poucos tô me sentindo um pouco mais esperta. Nesse Programa, também pus como meta a leitura de vários jornais, e o que espanta é que, provando que eu tô mais esperta, eu tô achando todos os jornais iguais demais.
Ou seja. Pas de nouvelles, bonne nouvelles.

Saturday, April 03, 2010

Comidas retrô

Hoje eu tava expondo minha figura no shopping Dom Pedro, comprando maquiagem com a Carol, quando de repente vejo numa barraquinha de produtos japoneses uma caixa cheia de... Dip n'Lik! Sim, aquele pirulito que vem num saquinho, com açúcar colorido, que foi febre nos sempre relembrados anos 80.

Fazia uns vinte anos que eu não comprava essa porcaria. Antes, o Vitão achou um Dip n'Lik de uva pro Mário, que saboreou a iguaria na nossa frente em estado de êxtase puro. Agora sou eu que escrevo essas mal ajambradas linhas com um Dip n'Lik de laranja do lado. Uma coisa continua igual: o açuquinha sempre termina antes do pirulito.
Outro dia, comprei um Dan Top. Quem se lembra? O Dan Top é o nome artístico pra aquele marshmallow coberto com chocolate, que na Kopenhagen se chama Dona Benta e na Ki-Pão, padaria do lado da minha casa, atende por teta de nega ( o que o caro leitor prefere: Dan Top, Dona Benta ou teta de nega?). Minha mãe sempre punha nossos Dan Tops na geladeira.
Penso que Dip n'Lik e Dan Top são as madeleines de muita criatura por aí. As balas Juquinha, ainda existem? Eu sempre que como os salgadinhos de queijo da Piraquê, lembro do dia que levei um saquinho de merenda na escola, fui abrir e todos os salgadinhos foram pro chão, o que trouxe um sofrimento horrível, porque eu tinha ganho o pacote de presente da minha mãe. Até hoje, não gosto de perder, quebrar ou dar um fim ao que a minha mãe me dá, e salgadinho Piraquê foi algo que herdei dela diretamente.
Outra coisa que procurei no supermercado, mas acho que não existe mais: os recheados quadrados da Tostines, de morango e de limão, quem se lembra? Acho que deixaram de existir. Outro que não existe mais é Chandelle de doce de leite, meu favorito. Outro dia no supermercado só tinha Danone de doce de leite, edição especial, que não fazem mais, não sei porque, deve ser porque só eu gosto, e compro de vinte em vinte anos.

Friday, March 26, 2010

Deu na Reuters II: embaixadora dinamarquesa vai nua para a China

A famosa dinamarquesa da foto foi escolhida para representar seu país na Exposição Mundial em Xangai. Sua nudez já causou polêmica: em 2003, foi coberta com um chador por turcos revoltados com a exposição de sua figura.


http://entretenimento.br.msn.com/reuters-artigo.aspx?cp-documentid=23735947

Resta saber se os chineses aceitarão tão nua personagem nas paragens do porto de Xangai!

Thursday, March 25, 2010

Wish list

Céu estrelado
Cachoeira
Abraço
Sorvete
Arco-íris
Estrada
Amigo
Céu azul
Vinho
Carinho
Sol
Beijo
Papo
Chá
Música

Wednesday, March 24, 2010

Par

Tu, que és libertação,
Na lua cheia
Serás meu e serei tua.



Cratera calyx com Dioniso e Ariadne.
Proveniente de Tebas, c. 400 a 375 a.C.
Paris: Museu do Louvre.

Monday, March 22, 2010

A festa e a burguesia

Hoje uma ex-aluna do IA veio me dizer que está com um processo nas costas. Ela participou da organização do evento dos alunos do Instituto, e, apesar da festa programada para o encontro não ter ocorrido, o simples fato dela ter sido planejada, e os alunos requisitados permissão na Reitoria, já fez com que ela e mais outros colegas fossem indiciados.
O caso é que a Associação dos Moradores reclama do barulho e diz que habitantes da outrora idílica Cidade Universitária têm suas noites reviradas do avesso quando os estudantes resolvem fumar um, tomar outras e paquerar. Há muitos anos não se pode mais fazer festas no campus. Eu sei que vou ser filha da putinha, mas:
1) eu morei do lado da Unicamp e as festas sinceramente não me incomodavam. Quando passou a me incomodar a proximidade com a cidadela zeferinítica, voilà: eu saí de lá. Pergunto: a pessoa constrói um casão digno de Beverly Hills do lado de uma Universidade (leia-se, lugar entupido de jovens) e quer silêncio o tempo todo? Tudo bem, tem a Lei do Silêncio, tudo bem, tem a especulação imobiliária, tudo bem, a pessoa tem o direito de morar onde quiser. E, tudo bem, eu tenho o sagrado direito de achar esse povo da Cidade Universitária um bando de gente mala, que ganha dinheiro alugando quarto pros estudantes e depois processam os mesmos estudantes por quererem ser o que eles são: estudantes.
2) se for ver pelo barulho, poluição, danos ao ambiente, então porque que não proíbem carros no campus? Se for ver bem, carro faz mais barulho, polui mais e enche mais o saco do que neguinho fazendo festa. Entre a Unicamp virar um estacionamento e a Unicamp ter festa, eu voto na festa.
3) a Reitoria não tinha que culpar os estudantes. Tinha que culpar a Associação dos Moradores. De novo: quer silêncio, vai pra um condomínio no meio do mato. Que coisa, a Universidade tem que ser barulhenta, cheia de gente cantando Janis Joplin. Você quer ter seu casão, e quer morar do lado da Unicamp? Meu, desculpa, eu não te entendo. A Unicamp é pra ser a Unicamp. Se a Unicamp deixar de ser a Unicamp, seu terreno não vai valer tanto. Se liga mané. Você só tem essa casa e só tira barato porque é do lado do quê, criatura? Da Unicamp. Cheia de gente esquisita, que ouve Janis Joplin e estuda coisas loucas.
4) o carinha na reportagem diz que é sessentão e vive em Barão. Meu senhor, Barão vai lotar de gatinhas barulhentas. O filho de Deus ainda vai lá e tira as moças do lado dele! Não se fazem mais sessentões como antigamente.
5) Eu estou de saco cheio disso tudo, acho que a Unicamp está uma m&$*@ e eu tenho o santo direito de sentir falta de festa. Meus alunos mereciam ir nas festas que eu fui. Nas festas da Unicamp conheci meus namorados, fiz amigos, enfim, vivi. Que saudade disso. Não esqueço e queria isso pros meus alunos. Não o povo da Reitoria processá-los. E a Associação dos Moradores encher o saco. Eu se pudesse construía uma nova Unicamp, num lugar bem longe, e proibia neguinho burguês construir casão Beverly Hills e trinta anos depois encher o saco porque mora do lado daonde, pessoa???? De um asilo de velhinhas surdas? Não, da Unicamp!!!! Pronto, falei, vou ali morrer um pouco de tristeza.

Saturday, March 20, 2010

O rei e o poetinha

Tava procurando outras coisas, apareceu essa foto simpática do Roberto com o Vinícius. Não sei, gostei da foto demais.
Penso que num país de tradição patriarcal, machista, misógina, filha da puta com as mulheres, os dois fizeram verdadeiros monumentos à delicadeza e à alegria de amar. Tudo bem, clichê, eu sei, tudo bem, brega pra caralho. E segundo consta nas biografias autorizadas e apócrifas, os dois não eram modelos de santidade masculina, quebraram muitos corações. Não importa, não tô discutindo os dois enquanto homens, mas enquanto figuras históricas. É dureza ser mulher e brasileira, mas fica um pouquinho mais fácil ouvindo Roberto e Vinícius.

Thursday, March 18, 2010

Tiozão heavy metal!


Fazia tempo que o tio narigudo mais sexy da História da humanidade não aparecia nestas plagas.
Mas como ele vive no meu coração, de vez em quando ele aparece pra dar um tchauzinho! E demonstrando que a popularidade dele não cai nunca, trago pra vcs a capa do CD do Sepultura, Dante XXI. Dá-lhe tio! Por que não tem nada mais heavy metal que escrever a Divina Comédia!

Friday, March 12, 2010

Perda


Grande Glauco!

Saturday, March 06, 2010

The first cut is the deepest

E aconteceu comigo tanta coisa nos últimos tempos... abandonei um pouco o blog, porque tive, nas últimas semanas, que viver, pura e simplesmente.

Fui ao Rio. Uma emoção andar pela orla de Copacabana, tomar café com leite na Confeitaria Colombo, falar na casa de Rui Barbosa, jantar com o meu irmão num restaurante lindíssimo, enfim, ver amigos e rever a cidade, apesar dos 43 graus na sombra. O Rio é o Rio.
Tive um sonho ótimo hoje: sonhei que eu aceitei participar de um desfile de escola de samba, no Rio, como madrinha da bateria. Então, eu punha aquela roupinha digna de uma Luiza Brunet na vida e enfrentava a Marquês de Sapucaí, com saltos altíssimos e sambando até não poder mais ( no sonho, eu tinha treinado tudo isso durante meses). No final, saía carregada por uns tiozinhos bonitões, e a minha escola era a campeã! Fiquei com a Sapucaí na cabeça, sem comentários.
Volto, e uma série de tropeços, avanços, acertos e erros... mas tudo bem. Segurei as pontas, e encarei voltar pra docência, conhecer gente nova, estudar, ir pra frente. Tô orgulhosa de mim. E hoje deu pra fazer chocolate quente pela primeira vez no ano! Estava tão gostoso hoje, o final da tarde, daqueles finais da tarde que eu amo tanto, aqui em casa. Como diria o velho Cat Stevens, the first cut is the deepest.

Thursday, March 04, 2010

Deu na Reuters: forças militares impedem avanço de tigre asiático

Em 3 de março último, a agência internacional Reuters deu esse furo de reportagem: na Praça da Paz Celestial, em frente ao parlamento chinês, o fotógrafo registrou essa cena de crise internacional. Isso porque era o dia da abertura da Conferência Consultiva Popular Chinesa, vulgo Congresso reunido.

Meninos, a panda voltou!

Thursday, February 18, 2010

Os problemas sentimentais dos pandas

Carnaval, ziriguidum, muita coisa pra fazer, um calor digno de algumas valas do reino de Lúcifer... e a pequena panda sofrendo de problemas sentimentais.
Claro que panda e melancolia são sinônimos, como bem atestam os leitores (poucos mas fiéis) desse já venerando blog. Já me disseram que eu tenho uma tendência ao masoquismo, e também já me disseram que eu sou que nem a ninfa Eco na história do Narciso: que repito as palavras dos outros e me apaixono por criaturas dadas a um egocentrismo. Acho que as duas coisas são verdadeiras. Mas o que tá pegando, agora, é que eu perdi o pouco do senso prático que eu tinha, enredada em dores d'amor e lembranças desoladoras.
Não que eu fosse uma pessoa prática nesses quesitos; aliás, eu não sou uma pessoa muito prática em nenhum quesito. Mas começo a considerar que tá um pouco demais. Tudo bem, sentimental eu sou. Eu assumo: sou brega pra caralho. Eu gosto de ouvir Besame Mucho, até na gravação do Ray Conniff, e eu guardo recordações, principalmente no coração. Mesmo quando essas recordações são tingidas pela dor, incompreensão, mesquinharias e outros acessórios, na minha modesta opinião, completamente desnecessários, do amor.
Acho que eu poderia escrever várias novelas, porque desde sempre eu tive paixões platônicas, impossíveis, ou simplesmente complicadas demais. Agora, tem o seguinte: eu me lembro bem da minha antiga psicanalista me perguntando o que que eu ganhava com determinado hábito, mesmo que fosse prejudicial à minha sofrida pessoa. Não sei o que eu ganho em ser romântica demais. No caso, penso que eu não ganho nada mesmo, só me ferro e isso tem a ver com a minha baixa auto-estima.
Então, ultimamente eu tenho me esforçado em pôr a casa um pouco em ordem, mesmo que fantasmas, dores e outros dissabores do passado às vezes rondem meu cansado e velho de guerra de coração. Por que também tem o seguinte: cansei de me envergonhar de ser do jeito que eu sou. Cansei de pensar que a culpa é sempre minha, e que eu é que sou a maluca por gostar, ou querer me aproximar das pessoas. Eu não tenho culpa se gosto de carinho, de bebês, de bichinhos e coisas fofas, não tenho culpa se acho o fim as pessoas passarem por cima do sentimento das outras e também não tenho culpa em ficar com raiva quando neguinho me ridiculariza, faz pouco de mim ou não tá nem aí pros meus sentimentos. A gente aprende com os anos que quem tira onda da cara dos outros só é malandro na superfície, e que quando mais velho a gente é, mais bobo, graças a Deus, a gente fica. Que a vida me poupe de me tornar amargurada, é só o que eu peço.

Wednesday, February 17, 2010

É bem assim

www.phdcomics.com

Sunday, February 07, 2010

Poverello


Tô aqui numa labuta danada.



Um AVG desatualizado, e pimba! O velho Caronte ficou doente. De repente, meu email começou a disparar uma besteira pra todos os meus contatos, e o bicho travado até não mais poder. Posto depois a experiência de ter o PC velho de guerra infectado por uma m#$% de vírus, com o perdão da má palavra.


Mas tirando isso, voltando. De maneira fantástica e inesperada, fui chamada pra dar aulas de História da Arte. Incrível. Estou aqui, num tremendo entusiasmo, montando meus cursos, e um deles é sobre... tchanammmmm! Vocês acertaram! Renascimento Italiano! Dá-lhe tiozão!!!!


E monta daqui, monta de lá, e é necessário falar de São Francisco. Talvez a maior força espiritual da modernidade, no catolicismo, Francisco é a base de muita das inovações empreendidas nas cidades da velha Península Itálica, nos idos dos séculos XIV, XV e XVI. Existe uma discussão historiográfica tremenda nisso, mas, de minha parte, acho inegável que o rapaz de Assis foi um modelo pra muita gente naquele meio de campo: dedicou a sua vida a ser santo, a entrar pra História. Antes de Francisco, as pessoas no geral eram santas ou porque tinham participado diretamente da História Sagrada, ou porque foram mártires nos primeiros tempos do cristianismo. Ou seja, pros pósteros, a possibilidade de manobra era nula. Mas Francisco fez a História andar de novo: qualquer um, segundo ele, se seguir o Cristo, vira santo. Tudo bem que falar pras aves de rapina, inventar o presépio, ter os estigmas da Paixão de Cristo e ainda por cima aparecer em Arles, sul da França, quando se estava em Assis na Itália ajuda muito o sujeito, além de ter Santa Clara e Santo Antônio como amigos.


Acima, um fofo São Francisco, artesanato mineiro, de São João del Rey. E abaixo, a interpretação delicada de Maria Bethânia para a Oração do santo, um dos textos religiosos mais bonitos de todos os tempos, na minha e na opinião de pessoas do mundo inteiro, de todas as crenças, que admiram o que casou com a pobreza.


http://www.4shared.com/file/28271232/a1c33790/05_Orao_de_So_Francisco.html?s=1

Friday, February 05, 2010

A quem não gosta de mim- II

Ontem, fiquei sabendo que você escreveu para a nossa grande amiga, que tínhamos em comum até quatro anos atrás. Foi aniversário dela; você se lembrou, eu não. Isso sempre acontecia. Você tinha a delicadeza de anotar e lembrar os aniversários de todos, comprava presentinhos e sempre nos enchia de carinho. Eu sempre esquecia o aniversário de todo mundo, nunca tive dinheiro pra comprar nada pra ninguém e o máximo que podia fazer era te levar, de carona no meu carro, algumas vezes você pagando um pouquinho de gasolina, até o lugar onde os nossos queridos, e eram tantos, estavam.
Ela leu sua mensagem num misto de surpresa, alegria, tristeza, mágoa e decepção. Demorou quatro anos, e você escreveu. Confesso que fiquei envergonhada, triste, com raiva, magoada... mas não surpresa. Você gostava da nossa amiga. Eu sei que você amava muito todos. Mas não eu.
O ponto doloroso de tudo- e sempre tem um ponto muito doloroso em tudo- é que eu estava felicíssima em tê-la como amiga, mas isso não era recíproco. Você tinha os nossos outros amigos, tinha sua família, sua grana, suas coisas. Você se cuidava, você tinha uma vida normal, e eu te admirava em cada coisinha que você fazia... tantas vezes pensei que você era a filha que minha mãe sempre quis ter: era equilibrada, ajuizada, um pouco menina demais, mas sempre muito decidida em se cuidar, com os melhores cosméticos, a melhor alimentação e uma dedicação ponderada, um tanto quanto irônica, aos estudos. Eu ficava como a irmã mais velha, pentelha, tosca, que tirava sarro de você por gostar tanto da sua presença que é isso que os irmãos mais velhos fazem: beliscam, mostram a língua quando a mãe não está olhando, enfim, azucrinam.
Eu era a doida, a perdida, a dramática, a que vivia no vermelho, batia o carro toda semana e falava coisas loucas e sem sentido. Eu era a gordinha, a meio baranga e brega, a que não sabia lhufas de francês, a que não ia nos melhores restaurantes, a que comprava roupa na C&A e achava o máximo, a que não ia passar o Reveillon em Paris e a que ainda por cima fazia análise. Eu ia na análise, e segundo as minhas amigas, que você conheceu melhor do que eu, não adiantava nada, porque eu continuava sendo completamente maluca, não conseguia ter rotina pra nada e só me metia em roubadas sentimentais.
Eu não tinha orgulho nenhum de mim, mas tinha de você. Tanto é que durante um período me matriculei numa academia e comecei a fazer um plano, que denominei de "What a feeling", o que fazia você rir e toda vez que você ria o mundo se iluminava um pouco pra mim, porque eu podia ser pirada, mas fazia você rir, não deixava você sozinha e te amava como uma irmã. Lembro de uma das nossas últimas conversas, eu ia pros EUA e a gente sentada no café, e eu te olhava e dentro de mim era o mais puro afeto, o mais cálido sentimento de bem querer.
Mas uma dia, essa nossa grande amiga me disse que você falava, afirmava, que eu era sua amiga por interesse, e que o meu namorado tinha dado em cima de você. Fiquei sem palavras. Fiquei com raiva, sim, magoada,e senti muita dor ao constatar que era verdade. Sabe, até hoje eu prefiro me denegrir do que acreditar que você mentia. Eu era meio sem noção mesmo. Mas entenda que a dor que eu senti foi tão funda... todos os meses seguintes, eu lembrava de você em vários momentos do dia, da semana, e até hoje lembro.
Queria te pedir desculpas porque gostei muito de você, tanto, tanto, que não te enxerguei direito, não vi que você queria outra coisa, que seu coração estava em outra direção. Não vi o óbvio, eu sou muito burra mesmo e você sabe disso. Desejo o melhor da vida para você, de todo o coração. Mas, por favor, me deixe em paz.

Wednesday, February 03, 2010

Number One

Fiz que nem a Mari no Facebook: googlei a data do meu nascimento pra saber qual era a canção número um da parada da Billboard na semana que vim ter ao mundo, e olha só o resultado:

http://www.4shared.com/file/132288543/992c36e9/Emotions_-_The_Best_Of_My_Love.html?s=1

Ela ficou com "Hot Stuff", da Donna Summer... a minha é simpática também! Viva a era disco!

E nas semanas seguintes, só deu Star Wars Theme! Isso explica muita coisa da minha personalidade...

Monday, February 01, 2010

O povo é quem mais ordena


Esses tempos, tive o privilégio de revisar a dissertação do meu querido Michel. Na epígrafe do trabalho dele, uma coisa tão bem-feita que eu tive problemas ( corrigir texto bom é triste), estava a letra de Grândola, Vila Morena. Eu não conhecia a história, e ele me contou no meio de uma boa canja, como sói acontecer: a canção de Zeca Afonso tocou à meia noite do célebre 25 de abril de 1974. A família de Michel teve que fugir do Portugal salazarista, como tanta gente que anda nessa velha Campinas, e o avô dele não pôde voltar à terra natal. Mas Portugal viu nascer o dia dos cravos.

Saturday, January 30, 2010

Surpresa

Hoje eu pus meu laptop na cama e estava no toc, toc, toc, das preocupações e dos trabalhos de Hércules usuais, quando de repente... já eram oito da noite, e de repente...

O sol bateu direto no meu rosto. Apaguei as luzes do quarto, num sobressalto. Hoje o sol se pôs na frente da minha janela, do meu quarto de dormir. E nesse minuto eu vejo o pôr-do sol, amarelo, laranja, vermelho e violeta, atrás dos prédios, de uma árvore e do perfil da Igreja de São Benedito. Viva o pôr-do-sol, três vezes viva!

Tuesday, January 26, 2010

Saci Pererê


Tá dureza esse início de ano.


Fiquei muito triste com o terremoto no Haiti e os deslizamentos em Angra. O ano já começou trágico. Pra completar, o tempo não se define, e num mesmo dia você passa por um calor senegalesco e um ventinho de Campos do Jordão.


E no jardim das veredas que se bifurcam da panda... pra variar tô muito de saco cheio comigo mesma. A pandinha até tem boas idéias, mas eu tenho muita idéia, e daí eu fico confusa e fico com n coisas sem terminar. Hoje resolvi limpar minha caixa de email, eu tinha email de 2007 pra vocês terem uma idéia, e daí vários projetos, contatos, tramóias e picaretagens que tentei nos últimos três anos vieram à minha mente. Eu só não inventei a roda e/ou descobri a América por telefone. O resto, de tudo eu fiz. Tradução, revisão, tese, artigo, congresso, um oi pra quem tá longe, uma encheção de saco pra quem tá perto, banca, concurso, enfim. Sempre fui muito criticada por isso, na academia: as pessoas preferem a especialização, a calma arrogante do cara que se sabe incontornável, do que uma criatura que vive tendo idéias mirabolantes.


Faz uns anos, isso foi em 2003, eu escrevi um projeto que denominei de Pererê: porque ele era afro-descendente, pobre, deficiente físico e ninguém acreditava nele, já que o dito era parte do folclore popular. Vocês podem não acreditar, mas muito do meu sofrimento no ano passado foi porque o Pererê foi engarrafado e posto pra andar de patinete por aí. Sim, meus caros: cinco anos depois o pobre ser lendário sumiu no redemoinho das ambições e arranjos políticos universitários, e ele, o próprio, pretinho, sem uma perna e peralta, foi parar em outro lugar, muito longe de sua mamãe panda.


Depois de muitos meses sofrendo, resolvi que eu ia atrás do Saci. Enfim. Tive que ter outra idéia mirabolante, pra poder me aproximar do terreiro do povo que prendeu o Exuzinho, e acenar de longe pra ele, preso num garrafão verde.
Mas, como todos sabem, o Saci é uma criatura rebelde e adora fazer travessuras. Ele fez das suas, claro: quando tiraram o cidadão da garrafa, ele resolveu confundir o povo mais ainda e agora ele tá meio sumido. Eu fico aqui no meu terreirinho, e já comprei uma provisão de fumo de rolo pra ele, pra quando ele voltar. Os Pererês são livres, eles vão pra mata e encontram seus amiguinhos Boitatá, Iara, Curupira e Mula-sem-cabeça, mas eu sei que um dia ele vai voltar, porque eu posso não ter acreditado muito nele quando o bolei, só que eu acreditei bem mais do que o pessoal que o levou embora. E também nunca pus ele pra dançar salsa, ou participar de competição de surfe!
Acima, o saci do Lobato.

Friday, January 22, 2010

Garotos se apaixonam

Continuando na saga da música oitentista, pra desespero de alguns leitores...


Acho que uma das músicas que eu mais ouvi na vida foi "Boys do fall in love", do Robin Gibb. Que também é um dos videoclipes mais non sense da história, mas tudo bem... então eu deixo pra vocês, nessa sexta-feira à noite, uma sugestão pra baladinha do finds! Porque garotos se apaixonam, mesmo em naves espaciais. Detalhe pra tequinologia da época, e saibam que os irmãos Gibb ( vulgo Bee Gees) cantam no corinho do refrão.

Monday, January 18, 2010

Estrelas

Fiquei nesses dias me recuperando de coisas tristes, doloridas.

Começo a pensar que cada vez que a gente encontra gente do mal na nossa vida, a gente depois precisa de um tempo pra se recuperar, pra ficar quietinho, na nossa, curando a ferida. Ontem comprei rosas muito bonitas, e fiquei na minha, tomando chá e ouvindo música árabe, pensando no jantar maravilhoso que eu tive no Tenda Árabe com o Michel. Eu quero meu coração batendo inteiro, limpo.

Fucei e achei no Orkut uma comunidade muito legal de música árabe. O povo fala mal do Orkut, mas em termos dos colecionadores de músicas, aquilo é o canal. Você encontra gente carinhosa que ripa LP, e posta preciosidades, pérolas da boa música do mundo todo. Já agradeci, aqui, no Meio, várias vezes, a esses anjinhos do MP3, e agradeço mais uma vez: porque não é pirataria o cara pôr o link da primeira gravação, de 1910, da canção Salma Ya Salama, um dos hinos da canção árabe, na voz do compositor, egípcio, Suef Derwish, ou de melodias que remontam aos tempos que o Califado de Bagdá mandava na Península Ibérica.
Mas voltando. A grande cantora do mundo árabe é a libanesa Fairouz, que, mesmo nos tempos mais duros da Guerra Civil, permaneceu em Beirute, e que canta pra cristãos, muçulmanos, músicas tão bonitas que parecem sonhos. Ela é conhecida como Embaixadora do Líbano nas Estrelas: acho que o título já diz tudo. Ela foi casada com um grande compositor e músico, Assi Rahbani, que, junto com seu irmão, compôs trilhas sonoras de filmes, operetas, peças de teatro, que eles encenaram em vários países durante décadas. Hoje, ela trabalha com músicas do filho dela. A voz dela parece vinda do Paraíso. Abaixo, uma dessas composições dos Rahbani, por Fairouz. A delicadeza disso...

http://www.4shared.com/file/108012992/5705fae5/16_Nassam_Alayna_El-Hawa.html

Saturday, January 16, 2010

A quem não gosta de mim

Eu queria lhe escrever uma carta.
Pra dizer o seguinte, em termos gerais: não aguento mais ficar triste por sua causa. Você não gosta de mim, eu entendo e aceito. Por muito tempo me culpei por isso: revirei todas as minhas ações, gestos, palavras, até a exasperação, pra encontrar o motivo pelo qual você não gostava de mim. Me torturei inteira, me quebrei em todas as partes, me analisei em todos os meus defeitos e falhas, minhas inadequações de linguagem, minhas ignorâncias, desacertos, os limites tão estreitos da minha neurose. Dediquei meu tempo à infelicidade. A me sufocar na dor, na falta de esperança, senti até os ossos saudades suas, senti o frio do seu desamor, sofri com a sua ausência e fiquei sem palavras.
E você se obstinou a não me amar, até o fim, não só me rejeitar, mas passar por cima de mim sem ter compaixão. Você falou claro, não quero fazer nada em relação ao que te aflige. Não importa o que era; era algo grave, grande, sombrio, não dizia nem respeito a mim mesma, mera ninfa que te seguia os passos no bosque e que via você, enamorado de si, olhando pro lago sem parar: era algo que fez até canalhas no mundo inteiro se comoverem, mas não, pra quê sentir compaixão de alguém como eu, mero eco.
Eu quero ser feliz. Como todo mundo. Eu sou banal. Eu sou pequena. Me comovo com facilidade. Sonho sonhos bobos. Não sei tantas coisas, mas sou feliz com poucas. Escrevo besteiras que quase ninguém lê. Gosto de pão com manteiga, dos brilhinhos na minha calça jeans nova, gostei de ontem jantar com um amigo num restaurante árabe, tomar Arak e dançar com a moça da dança do ventre, uma coisa que eu nunca poderia fazer com você, aliás, pra você era triste a minha mania de querer experimentar um restaurante diferente. Pra você era triste me agüentar porque eu dizia que gostava de você. Você não gostava de mim, e não gostava que eu dissesse que eu gostava de você. Detestava os meus arroubos de afeto. Pois é. Eu abraço, beijo, digo que tenho saudades, me preocupo, quero estar junto, eu quero ajudar, me preocupei com pessoas que não conheço no Haiti. Eu sou algo incompreensível pra você: sou alguém que se importa. Me perdoe por isso. Me perdoe por ter lhe dito adeus.

Dor

A dor do Haiti é também a minha.

Sunday, January 03, 2010

Pavê Delícia Perversa

Passei meu Ano Novo com um gatinho carioca! Careca e sem dentes! O simpático Henrique, no alto dos seus 4 meses, até banho tomou com a tia panda... e aconteceu um caso incrível, o caso do pavê esquecido.

Herdei da dona Ana, mãe do Celo, uma receita que faz muito sucesso na família deles: o Pavê Delícia Perversa. Esse pavê é uma coisa incrível, ele fica gostoso, não sei explicar mas é muito bom de fato. Fiz o Delícia e esquecemos, eu, Dani e Evandro, o Perverso na geladeira. Dureza. Fontes me informaram, porém, que o povo aprovou a perversidade.
INGREDIENTES
1 lata de creme de leite
1 lata de leite condensado
3 ovos
1 lata ( como medida) de leite
1 colher de sopa de maizena
3 colheres de sopa de açúcar
chocolate em pó a gosto ( de preferência o dos padrinhos, da Nestlé, não tão adoçado)
1 pacote, grande, de biscoito maria ou maizena
Antes de mais nada, ponha no congelador a lata de creme de leite, um tempo antes de preparar tudo.
Depois, separe as gemas das claras. Cozinhe a lata de leite condensado, as gemas, a lata de leite e a maizena dissolvida no leite até formar bolhas. Reserve.
Bata as claras em neve, com o açúcar. Acrescente a gosto o chocolate em pó, junte o creme de leite sem soro, e misture levemente, não bata.
Faça camadas, num pirex, alternando os dois cremes e os biscoitos. Deixe gelar bem.
Voilà!

Wednesday, December 30, 2009

Votos de Ano Novo

Espero que o ano de 2010 seja muito legal pra todos! Que a gente tenha paz, muita saúde, graninha a mais, amor de todos os jeitos, comidas gostosas, boas leituras, grandes conversas, longos cafés, muitos e muitos chás com biscoito, compreensão, batalhas vencidas e lindos projetos!
Eu não aguentei, acima, mãe-panda e seus filhinhos, em reserva florestal chinesa. Tirei do site People Pets!

Monday, December 28, 2009

Biscoitinho amanteigado de Petrópolis

Eu participo de uma comunidade de receitas de biscoitos caseiros. Hoje, triste e chateada com o passado, resolvi seguir o ditado: pus a mão na massa! Consegui hoje uma fornada de biscoitinhos de manteiga que ficaram divinos...

400g de farinha de trigo
300g de manteiga
200g de açúcar


Modo de Preparo:Amassar tudo com as mãos. A princípio parece uma farofa, mas depois o calor das mãos derrete a manteiga e a massa fica bem homogênea e meio "oleosa".Deixar a massa descansar na geladeira por 30 minutos. Esticar, cortar no formato desejado e assar até dourar levemente.
Eu cortei com cortador de florzinha, e é pouco tempo no forno: 10 minutos se tanto. A receita rende bastante, eu assei uma parte e congelei outra. Perfeitos com chá! Ah! E se estiver muito calor no seu lar, normal nessa época do ano, deixe mais na geladeira. Os biscoitos, sem esse cuidado, ficam disformes! Corte em formatos pequenos, são melhores pequeninos. É daquele petit four amanteigado que derrete na boca!

Saturday, December 26, 2009

Agora!

Eu sou um terror pra me atualizar em moda, música, qualquer coisa. Acho que já tô velha mesmo; sempre preciso dos amigos descolados pra me mostrar as novidades do momento.
Resolvi tirar os dias dos feriados pra sair da minha toca e ver o que rola por aí. Em primeiro lugar, fui conferir a nova coleção das Melissas, e já decidi a que eu quero: uma de florzinhas muito delicada, que parece sapato de fada.
Na casa da minha mãe, a tv a cabo pega: não sei o que eu fiz aqui, tá tudo fora do ar ( desconfio que tem um cabo solto, mas enfim). Zapeando, caí na MTV, e vi um crips que me chamou a atenção. Gostei muito da musiquinha; os infantes chamam Black Kids e a musiquinha, I'm not gonna teach your boyfriend dance with you.
Depois, no comando msn, a fofa Táta me mostrou as Those Dancing Days, baby suecas muito queridas, corram e vejam no Youtube se as meninas não são umas graças.
Jovens na vitrolinha!

Tuesday, December 22, 2009

Roupa nova

Pois é, chegou o Natal.

Pus minhas luzinhas na sacada, a bota do Papai Noel na porta e fui enfrentar as hordas no shopping. Por um bom motivo: comprar uma roupa para o Natal.

Entra ano, sai ano, a panda na dureza da crise econômica mundial, e virou uma pequena tradição: o Natal é a ocasião em que compro roupa nova. Interessante que essas roupas viraram, pra mim, as roupas que eu gosto mais, a saia de linho bordada com um jardim, o vestido de malha com o tecido macio e que parece ter manchas de tinta, e toda vez que eu uso, penso, essa é a roupa do Natal. Comprei outro vestido, esse bordado, esse ano. Fui jantar e começou a tocar essa música, que é outra da qual eu não me lembrava há anos:

Sunday, December 20, 2009

Para 2010

Roubei de um lugar da internet, e virou plano de metas:


clarear a intenção
focar o objetivo
criar uma estratégia
dedicar-se

Friday, December 18, 2009

Na rua

Na rua, eu me virei, vi as horas, peguei a sacola do supermercado, e de repente, eu me lembrei de uma música que não me lembrava há anos. E era exatamente o que eu sentia. Porque só me resta esperar.
Cyndi Lauper, Change of Heart

Saturday, December 12, 2009

Do jeito que a vida quer

Essa semana foi cortando o riscado. Zicas, aborrecimentos, lutas e desvãos. Ou seja, na normalidade.

Hoje fui dar aula, e fomos ver a exposição no Museu de Arte Contemporânea aqui de Campinas, o Macc. Excelente, eu volto lá com calma pra poder escrever aqui uma resenha. Coisas muito boas, vale a pena comentar. Depois, fui com os meninos adornar o City Bar, e na volta pra casa, uma supresa: em plena feirinha, um povo do samba, excelente, lascando no pandeiro. O único senão foi que no meio de tanto Adoniran, dona Ivone Lara e outros bambas, o céu ficou preto, e eu tive que correr de volta pra casa.

http://www.4shared.com/file/59437434/e62df6bb/Benito_di_Paula_-_Do_jeito_que.html?s=1

Tuesday, December 08, 2009

Parabéns!


Aos poucos, ao longo do dia, soube do caos que virou o meu velho Piratininga Natal.



Parabéns ao prefeito Kassab por gastar milhões em publicidade, para registrar os feitos de sua administração! Parabéns ao governador! E aquele abraço pro pessoal de Brasília!
Fonte da imagem comovente: Portal UOL.

Guerra de orixás

Hoje foi o dia.

Saio de casa para um compromisso em São Paulo, não consigo atravessar a minha rua, porque tá tudo alagado. Volto, pego o meu possante, o famoso internacionalmente Exumóvel, e vou pra Rodoviária.

Não tinha passagem pra São Paulo. Sim, caros: o velho Piratininga estava ilhado, a Rodoviária do Tietê fechada porque o rio perdeu a paciência, subiu, neguinho morrendo, e aquilo tudo. Esperei, esperei, consegui uma passagem mas antes de subir sou gentilmente informada que o ônibus das seis da manhã não tinha chegado em São Paulo ainda. Ou seja.
Acho que os orixás resolveram guerrear, minha gente, porque a urubaca tá solta. Aliás, em relação a Unicamp, eu tenho uma proposta pra Reitoria: contratar umas mães de santo pra fazer a lavagem das escadarias do Ciclo Básico, pra ver se dá uma aliviada naquele bando de Exuzinho solto por lá.

Monday, December 07, 2009

Desabafo

Hoje estou triste. Pronto, falei.

Estou triste porque nos últimos dias pensei muito no desperdício de vida que acontece ao redor da gente. Se desperdiça água, comida, madeira, gente, eletricidade, amor, carinho, se desperdiça, não se usa, se prefere a mesquinharia. E a vida é tão maior. A vida é tão maior. Por que desperdiçar o que existe de bom, e se viver num inferno, pra quê causar dor nos outros e em si mesmo? Por que? Tem gente que briga por nada. Tem gente que deixa de conviver por nada. Tem gente que pisa nos outros, sacaneia, faz coisas horríveis, pra nada, por nada, ganhando nada em troca. E a vida é tão maior. Odeio sofrer por coisa que no fundo é besteira.

Friday, December 04, 2009

Nos bailes da vida

Foi nos bailes da vida, ou num bar em troca de pão, que muita gente boa pôs o pé na profissão. Pois é.

Apesar de muita rasteira, tô na luta. Apesar de muita mágoa, surtos, raiva, angústia, ansiedade, the dark side of the Force, a pandinha véia de guerra é brasileira, e não desiste nunca do seu mesopotâmico projeto de ser uma boa pessoa, respeitar os outros e o universo, viver, ter seu ganha-pão, ouvir muita música, etcs.
Não vou esconder de vocês, uns dias atrás eu tava achando que pirar o cabeção de vez. O que me salvou foi que eu tenho o péssimo hábito de acreditar. Um amigo manda o email de um Concurso Literário no Nepal, e eu me animo, e acredito que aquele projeto esdrúxulo pode dar certo!
Eu sempre me animo perto do Natal. Dureza ser uma otimista incorrigível. Adoro estudar e fazer planos enquanto chove lá fora.

Monday, November 30, 2009

Definições

Um amigo me disse hoje que eu sou como chuva: que depende daonde cai, é uma desgraça, agora quando cai na hora certa no lugar certo, é ótimo.

Me disse também que muita gente filha da putinha confunde a minha dor com maluquice. E quem é meu amigo reconhece a minha dor, e ajuda a curá-la.

E que eu tinha que tomar cuidado, pra não rodar de um lado só, se não eu ia me desgastar demais daquele lado.

Saturday, November 28, 2009

Pois é

No post abaixo, Alegria, Alegria, eu soltava o meu parco verbo em relação às arapucas da memória histórica dos anos recentes da História brasileira.
Pois é, caros leitores, o trem da dona História pegou todo mundo na curva e nesta sexta, César Benjamin, ex-guerrilheiro, preso durante muitos anos no regime militar, o famoso Cesinha das intermináveis querelas da esquerda brasileira, resolveu se manifestar e acusar o presidente Lula de tentativa de estupro, nos 30 dias de sua prisão.
Li o artigo, que será a pièce-de-resistance de todos os seguidores de Olavo de Carvalho do universo conhecido, bem como todos os leitores da Folha de São Paulo (que estão com o cu na mão diante das tropeçadas dos tucanos) e todos os da chamada direita brasileira.
Acho incrível que ninguém tenha se perguntado porque o "menino do MEP" nunca tenha aparecido, da razão da bombástica revelação de Benjamin às vésperas de ano eleitoral, via Folha, jornal que se notabilizou, dentre outras pérolas, pela ditabranda.
De fato, é urgentemente necessário pesquisar a história contemporânea do pais. Urgentemente necessário. Está trágico.

Friday, November 27, 2009

Canta, ó Musa, a ira da panda

Agora, enfrento com minha querida turma de alunos a República, de Platão. Não adianta os caras leitores fazerem cara feia: os próprios pediram para se expor a tal sofrimento. A primeira parte é fantástica, com Sócrates e o velho Céfalo falando do envelhecimento, da memória e finalmente da justiça.
Daí o bicho pegou, e ninguém estava entendendo nada. Muitas citações a Homero. No meu primeiro ano de universidade, li a Odisséia em Textos Fundamentais de Poesia, no IEL, e a professora Suzy Sperber nos deu uma prova, pra ver se o povo distinguia Circe dos porquinhos. Eu adorei a Odisséia, e a Ilíada ficou pendente. Numa viagem à Unesp de Assis, enfrentando o famoso ônibus Fergo, que faz qualquer trajeto no sertão paulista em mais de 19 horas, pulei de novo a destruição ruinosa de Ílion e encarei a Eneida, adorando a parte que Enéas se mete com a Sibila no Hades ( claro, almas penadas e monstrinhos é comigo mesma).
Voltando, a discussão da justiça tava pegando fogo, quando resolvi seguir o velho Platão e pegar na Ilíada, texto básico da discussão de Sócrates. Não consegui parar de ler, e estou totalmente envolvida.
Fiz um perfil, faz um tempinho atrás, no Goodreads (www.goodreads.com), que é um site legal, uma espécie de Clube do Livro virtual. Você pode escolher livros que leu, que quer ler, etc, e ver o que outras pessoas falaram do título. Resolvi por Homero na minha estante, e ler o que o povo escreveu das lutas por Helena.
Achei um barato, porque as pessoas se dividem nas discussões de "porque é importante ler um clássico da tal civilização ocidental", "não entendo nada de Mitologia mas acho legal", e uma moça que confessou que não consegue dormir pensando em problemas, e hoje sabe que a melhor coisa pra se fazer à noite é subir numa biga e pegar o corpo do inimigo e ficar arrastando por aí.
De fato, como ela disse, se você tem problemas, esquece de todos ao ler as discussões horríveis dos gregos e as palhaçadas dos deuses. A tal civilização ocidental começou bem: o livro não glorifica os gregos, muito pelo contrário: se você é uma pessoa sensata, torce o tempo inteiro pelos troianos, tal o baixo nível das tropas dos dânaos.
Eu acho Ulisses um tosco, o Agamênmon um bandido e o Menelau mau caráter. Amo Heitor de paixão e estou completamente irada com Aquiles. Ainda bem que tem o Virgílio pra me salvar, Enéas foge de tudo isso, funda Roma e pronto acabou!

Thursday, November 26, 2009

Alegria, alegria

Comecei a escrever sobre História do Brasil há quatorze anos. Evidentemente, agora também faço parte da História do Brasil. Meu objeto de estudo eram algumas manifestações artísticas no período de 1964 a 69, o que se chamou, pela imprensa ( mais precisamente, Nelson Motta chamou) o Tropicalismo. Muito da minha empreitada era encomenda do meu pai, que achava, no início do primeiro governo FHC, que se precisava pensar os acontecimentos da ditatura militar.
Fiquei os quatro anos seguintes na biblioteca do IFCH e no AEL, vasculhando teses, memórias, jornais, revistas, atrás de alguma pista. Li tanto as entrevistas do Geisel e dos homens da repressão quanto os tocantes relatos do Gabeira e de frei Betto.
Claro que, nascida no início da chamada abertura, eu mesma não tinha memórias dos anos de chumbo. Minha mente alcança eu, batendo na TV, toda vez que aparecia Delfim Netto, ou ver pela TV o mundo de gente na Sé, nas Diretas.
Acompanhei, pelos anos seguintes, as discussões sobre o passado recente do país, meio decepcionada, e, depois dos governos Lula, totalmente deprimida. Muito horrível ver pessoas que se advogavam defensoras de valores de esquerda montarem esquemas nababescos de corrupção, e também, ver que o passado se distorce, se fere, se deturpa.
Não vi a cinebiografia de Lula, nem pretendo. Parece que o filme termina na prisão do nosso atual presidente, depois dos idos das grandes greves do ABC. Lembro que, pequenina, tinha fonoaudióloga na rua Tutóia, e passávamos sempre pelo DOI-CODI.
As distâncias da memória são ótimas pros desvãos dos discursos políticos. Eu me ressinto de que a construção da história do Brasil mais recente está marcada, crivada, por escolhas que me parecem meio equivocadas, quando não completamente equivocadas.
O problema é que, penso, não vejo na universidade sair reflexões melhores sobre tudo isso. Aliás, ando muito pessimista em relação à universidade. Não vejo o povo trabalhar no sentido de esclarecer as coisas, só vejo lutas internas e tudo isso, como disse no post abaixo, tá me cansando. Então, nesses dias de calor infernal, leio Machado e pronto.

Monday, November 23, 2009

Preocupações

Passei o dia tentando, de todas as formas, alinhavar um artigo que estava emperrado há séculos. Eu queria escrever sobre as concepções de justiça no inferno de Dante; peguei a figura do Minós e comecei a descascar o abacaxi. Mas eu estou preocupada.
Com um monte de coisas. Eu sou uma pessoa preocupada, angustiada, ansiosa e no limite da maluquice. Eu me importo e me preocupo com as pessoas. Isso às vezes me atrapalha muito.
Vou dar um exemplo: a fofa Pati pegou um avião e foi pro Canadá. Ontem tentei falar com ela no msn, e nada, nada, e eu começo a achar que a menina virou homeless, e está congelando num beco deserto. Não sei se vocês se lembram daquela cena da Amélie Poulan, em que ela espera o rapaz no café, ele se atrasa e ela acha que ele foi parar no Afeganistão. Pois é, aquela cena sou eu.
Outro exemplo: eu briguei com uma pessoa que eu amei muito. Ontem, fui almoçar no chinês vagabundo da Barão de Jaguara e tudo estava cinza, e tudo pesava muito dentro de mim, a ponto de eu não conseguir chorar. E hoje eu acordei muito cansada.

Saturday, November 21, 2009

Abecedário da Música dos anos 80

Amor Perfeito, Roberto Carlos
Barrados no Baile, Eduardo Dusek
Cheia de Charme, Guilherme Arantes
Deslizes, Fagner
Esquece e Vem, Nico Rezende
Forever Young, Rod Stewart
Guilty, Barbra Streisand
Heart of Glass, Blondie
I love rock and roll, Joan Jett
Juliet, Robin Gibb
La Isla Bonita, Madonna
Muita Estrela pra pouca constelação, Raul Seixas e Camisa de Vênus
Nos bailes da vida, Milton Nascimento
Only a Dream in Rio, James Taylor
Por que a gente é assim, Barão Vermelho
Quero só você ( A vida tem dessas coisas), Ritchie
Rádio Pirata, RPM
Sândalo de Dândi, Metrô
The Lady in Red, Chris de Burgh
Ursinho Blau Blau, Absyntho
Vira Virou, Kleiton e Kledir
X- Abecedário da Xuxa
Z- acabou, galera, minha memória pra música oitentista é grande, mas não chegou no Z. É a idade, crianças.

Dança

La Danse, Matisse, 1909. Óleo sobre tela, 259,7 x 390,1 cm. Nova York, MoMa.

Hoje esqueci que ia dar aula. Agora estou com mais uma turma, uns fofos, e eu esqueci completamente que ia dar aula. Acontece nas melhores pandas. Cafézinho na padaria e vambora, falar de Picasso, Matisse e os inícios do Cubismo e do Fauvismo.
Eu precisava estudar mais. Tudo. Sério. Uma das coisas positivas deste lascado e sofrido ano que passou foi que estudei Rubens, Leonardo arquiteto, Charles Perrault e Thomas Hobbes sobre as fadas, o capítulo da Maquinaria e Grande Indústria do Marx, mas no meio disso tudo não pude ir às exposições em São Paulo, nem ver um MASP básico. E eu queria muito estudar Matisse.
Estava andando com os meus alunos na rua, e passou um cara numa Ferrari. Em plena Ponte Preta, rua de paralelepídedo, o cara me passa numa Ferrari. E os meninos me disseram que uma daquelas custa 800 mil, e eu pensei, se eu tivesse esse dinheiro, não ia comprar uma Ferrari, ia me pirulitar pra Paris, só pra ver a Impressão do Sol Nascente, no Marmottan.
Dizem que excelência é gostar daquilo que se faz. Se for assim, devo ser uma das melhores historiadoras da arte do milênio!!!!! Porque meu coração enche de amor ao falar da Dança do velho Matisse.

Thursday, November 19, 2009

Kairós

Os gregos, que sabiam algumas coisas, criaram duas palavras pra falar do tempo.

Uma é chronos, o deus terrível que come seus filhos. O tempo do relógio, que devora, do horário do ônibus, do bater o cartão, das rugas e dos dissabores. Do telefonema que não vem, da escuridão, da angústia.
Outra, é kairós. Kairós é o tempo interno. Ele não se mede no relógio, não se mede pelo visor de nada. É o de dentro. O indizível. O inesperado, o louco, o colorido, o bonito. As horas que passam depressa quando se está feliz, ou devagar quando se está com dor. Einstein dizia que meia hora é uma eternidade pra quem está com a bunda no fogo, e nada pra quem quer conquistar uma mulher.
Tive dissabores meio graves e estava em pleno reino de Chronos. Aconteceram várias coisas... que me fizeram retomar um pouco do meu kairós. Eu vi amigos queridos, sentei num lugar muito bonito para ler Platão, e vim ter numa cidade desconhecida, ensolarada e encontrei uma das noites em que o relógio não importou.
De fato, qual das duas sou eu? A que vive tranqüila e que pode passar dez anos sem ver alguém muito querido, e retomar a conversa do mesmo ponto, ou a que vive angustiada, presa no que não consegue expressar, presa na mágoa, refém do calendário? Li não sei onde, nessas horas douradas, que na medicina chinesa problema de rim, bexiga, é mágoa, e asma, quando a pessoa faz um monte de coisa e não termina nenhuma. Posso atestar a veracidade de tais suposições. Os chineses também sabiam algumas coisas.
Eu penso nos contos do Borges, principalmente no Jardim das Veredas que se Bifurcam... ou no Emma Stuntz. Kairós. Ou no espelho de Tlön, no fundo da chácara que Borges e Bioy Casares alugaram, com a enciclopédia e o verbete. Em qual ponto de Rondônia passa a BR que até hoje não tem asfalto? Edifícios de taipa de pilão, velhas estações ferroviárias abandonadas, o sertão paulista.
O sol, e o tempo que não passa.

Friday, November 13, 2009

Tu tá malandro, hein?

E eu tô passando na frente da obra, com sacola de feira e tudo o mais, um monte de coisa pra fazer, um monte de crise pra resolver, grana no fim, paciência no fim, e o tiozinho pedreiro olha pra mim e começa a cantar Menina Veneno do Ritchie.
Malandro, hein?

Sunday, November 08, 2009

Na paisagem do Paraíso Terreal...


Postei outro dia o lindo retrato de Gonzaga Duque, do Visconti. Hoje posto o retrato de Manuel de Araújo Porto-Alegre (1806-1879), o outro grande nome da crítica de Arte do Brasil oitocentista. Esse retrato é de 1848, está no Museu Nacional de Belas Artes, RJ, e eu acho também um espetáculo. A paisagem do Rio atrás, a pose... e notem. Na lombada do livro, à esquerda, está escrito Dante.

Meio

Essa semana encontrei gente que veio me dizer que lê meu blog.

Uma pessoa veio me dizer que se diverte e gosta muito, principalmente de umas reminiscências ifichianas; outra veio dizer que o velho Meio do Caminho é muito de "menina", muito tchu tchu tchu.

E ainda tem as pessoas que eu sei que lêem, e não comentam por motivos vários, e tudo bem. Não comecei o Meio querendo repercussões internacionais, fama e aparecer na Veja. Faz quatro anos já, e eu comecei da forma mais despretensiosa possível. O que me espanta é que o Meio continuou, mesmo sendo, no meu entender, muito bobo mesmo. E sendo bobo ganhou adeptos, leitores fiéis, sei lá porque.

Gosto de escrever, me faz bem e é essa a razão disso aqui existir. Pronto, é simples. Não penso muito na hora de postar, posto o que me vem na cabeça e não vejo o Meio como um experimento para a literatura. Nem acho que no Meio tem que ter discussões muito cabeça. É engraçado esse espontaneísmo em mim, logo eu, que devo estar dentre as pessoas mais angustiadas e ansiosas do planeta.

Às vezes leio o Meio e por isso me espanto um pouco, em épocas muito trash saíam frases muito plácidas. É como se esse não pensar na hora de escrever suavizasse um pouco as arestas. E continuamos sempre no meio do caminho.

Saturday, November 07, 2009

De grão em grão...

Essa semana foi a luta.

Luta contra o calor desértico que fez em Campinas: quarenta graus, a gente não consegue dormir, não consegue raciocinar.

Luta contra as adversidades; crises pessoais e crises em pessoas amadas, projeto da Catedral que pegou embalo e que vai demandar, atrasos no trabalho, grana curta, desvios e pirações.


Luta contra a asma, contra a dor nas pernas, contra o cansaço e os cabelos brancos.

Mas de grão em grão, de bambu em bambu, a panda enche o papo.

Thursday, November 05, 2009

Haikai

Cigarras- chorei tanto
quando vi
já era tarde.


Depois de ter escrito, li mestre Bashô:

Ainda que morrendo
o canto das cigarras
nada revela!

Ou:

Imensa calma.
Penetrando as rochas
o canto das cigarras.

Ou:

Canto e morte
da cigarra
na mesma paisagem.

Traduções de Olga Savary, no Livro dos Haikais. São Paulo: Aliança Cultural Brasil-Japão e Massao Ohno Editores, 1987

Tuesday, November 03, 2009

Fita amarela

E eu fui ter no Brasil Central novamente.

Esse feriado, fui ver a fofa Jubinha nas terras que ela adotou como suas. No caso, as terras mato-grossenses, terras de gente que cozinha bem, foge do calor indo em cachoeiras paradisíacas e tomando picolés surreais.
Muito verde, descanso, Jubinha, casarões antigos do centro de Cuiabá, e a imensa de linda Chapada dos Guimarães. Não sei como Chapada consegue ser tão linda, mesmo em tempos de efeito estufa, neguinho asfaltando a cidadezinha inteira, e farofeiros que escutam putz putz na frente de um precipício todo verde.
A pequena e sempre rabugenta panda viveu várias aventuras, como tomar quatro picolés por dia. No meio de tantas peripécias, muito samba. Vai explicar. Podia ser Mozart, podia ser Gardel, podia ser rock indiano, mas foi samba mesmo, arrastando a chinela no arenito. Voltando ao velho Piratininga, que já foi tão verde quanto Chapada, estou na vala dos desesperados pelas malas na esteira de Guarulhos, e tinha um senhor do meu lado. De repente vem um malão preto, daqueles, identificado por... uma fita amarela. O senhor pega a mala, e eu do lado começo a cantar Noel. Ele riu de se acabar.
Começo a achar que a qualidade de vida do indivíduo é diretamente proporcional ao tanto de samba que o cara escuta.