Ontem, fiquei sabendo que você escreveu para a nossa grande amiga, que tínhamos em comum até quatro anos atrás. Foi aniversário dela; você se lembrou, eu não. Isso sempre acontecia. Você tinha a delicadeza de anotar e lembrar os aniversários de todos, comprava presentinhos e sempre nos enchia de carinho. Eu sempre esquecia o aniversário de todo mundo, nunca tive dinheiro pra comprar nada pra ninguém e o máximo que podia fazer era te levar, de carona no meu carro, algumas vezes você pagando um pouquinho de gasolina, até o lugar onde os nossos queridos, e eram tantos, estavam.
Ela leu sua mensagem num misto de surpresa, alegria, tristeza, mágoa e decepção. Demorou quatro anos, e você escreveu. Confesso que fiquei envergonhada, triste, com raiva, magoada... mas não surpresa. Você gostava da nossa amiga. Eu sei que você amava muito todos. Mas não eu.
O ponto doloroso de tudo- e sempre tem um ponto muito doloroso em tudo- é que eu estava felicíssima em tê-la como amiga, mas isso não era recíproco. Você tinha os nossos outros amigos, tinha sua família, sua grana, suas coisas. Você se cuidava, você tinha uma vida normal, e eu te admirava em cada coisinha que você fazia... tantas vezes pensei que você era a filha que minha mãe sempre quis ter: era equilibrada, ajuizada, um pouco menina demais, mas sempre muito decidida em se cuidar, com os melhores cosméticos, a melhor alimentação e uma dedicação ponderada, um tanto quanto irônica, aos estudos. Eu ficava como a irmã mais velha, pentelha, tosca, que tirava sarro de você por gostar tanto da sua presença que é isso que os irmãos mais velhos fazem: beliscam, mostram a língua quando a mãe não está olhando, enfim, azucrinam.
Eu era a doida, a perdida, a dramática, a que vivia no vermelho, batia o carro toda semana e falava coisas loucas e sem sentido. Eu era a gordinha, a meio baranga e brega, a que não sabia lhufas de francês, a que não ia nos melhores restaurantes, a que comprava roupa na C&A e achava o máximo, a que não ia passar o Reveillon em Paris e a que ainda por cima fazia análise. Eu ia na análise, e segundo as minhas amigas, que você conheceu melhor do que eu, não adiantava nada, porque eu continuava sendo completamente maluca, não conseguia ter rotina pra nada e só me metia em roubadas sentimentais.
Eu não tinha orgulho nenhum de mim, mas tinha de você. Tanto é que durante um período me matriculei numa academia e comecei a fazer um plano, que denominei de "What a feeling", o que fazia você rir e toda vez que você ria o mundo se iluminava um pouco pra mim, porque eu podia ser pirada, mas fazia você rir, não deixava você sozinha e te amava como uma irmã. Lembro de uma das nossas últimas conversas, eu ia pros EUA e a gente sentada no café, e eu te olhava e dentro de mim era o mais puro afeto, o mais cálido sentimento de bem querer.
Mas uma dia, essa nossa grande amiga me disse que você falava, afirmava, que eu era sua amiga por interesse, e que o meu namorado tinha dado em cima de você. Fiquei sem palavras. Fiquei com raiva, sim, magoada,e senti muita dor ao constatar que era verdade. Sabe, até hoje eu prefiro me denegrir do que acreditar que você mentia. Eu era meio sem noção mesmo. Mas entenda que a dor que eu senti foi tão funda... todos os meses seguintes, eu lembrava de você em vários momentos do dia, da semana, e até hoje lembro.
Queria te pedir desculpas porque gostei muito de você, tanto, tanto, que não te enxerguei direito, não vi que você queria outra coisa, que seu coração estava em outra direção. Não vi o óbvio, eu sou muito burra mesmo e você sabe disso. Desejo o melhor da vida para você, de todo o coração. Mas, por favor, me deixe em paz.

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