Friday, May 28, 2010

Final de conversa

Nos últimos anos, acontece uma coisa curiosa comigo.

Encontro sempre gente muito querida, da velha Universidade Estadual de Campinas. E essas pessoas me contam coisas escabrosas que andam acontecendo na cidadela de Zeferino: cantinas muito boas são fechadas a troco de nada, proíbe-se todo tipo de atividade nos recintos da instituição ( inclusive estudar) e docentes fazem todo tipo de jogo sujo para colocar favoritos em concursos totalmente roubados, roubar projetos de discentes e/ou simplesmente encher a paciência de quem passa.
Em algumas unidades, a situação chega a ser tão crítica que o observador, mesmo o mais desatento, se pergunta como as pessoas fazem para limpar seus posteriores, visto que não existe nem papel higiênico nos banheiros. A crise, no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, virou a normalidade, e se você fala qualquer coisa, é identificado como alguém das hostes neoliberais, que mata os pandas na China e persegue docentes do lugar.
Eu sempre renovo minha indignação, e desfio o rosário das lembranças, mágoas, desacertos, pepinos, monstros e todo tipo de desvão de comportamento e de linguagem que acomete as plagas outrora fundadas por Zeferino Vaz. Meus últimos dias não tem sido diferentes. Mas o que ocorre, agora, é que percebo a minha total impotência em relação a tudo que se passa na Universidade. Não sou docente contratada, e sim mera professora palestrante convidada, e recebo menos que o salário mínimo para ministrar um curso na graduação. Não tenho nenhum tipo de acesso às esferas decisórias da instituição. Nada sou, nada posso, nada consigo. Nunca fui chamada para nada, nos últimos anos, a não ser ministrar cursos na graduação, ganhando menos que o salário mínimo, e eventualmente contribuir com minhas pesquisas pessoais para as estatísticas da Pró-Reitoria de Pesquisa e da FAPESP.
Ou seja, percebo que virei, talvez, uma figura trágica, aquela à qual as pessoas endereçam suas queixas, graves e justificadas, mas que é apenas uma figurante indignada. Sinto-me triste por isso. Gostaria de poder efetivamente contribuir para a vitalidade daquela alma mater que me formou, tanto profissionalmente quanto pessoalmente, mas esta mesma que me formou não me dá chances de crescer, de prosseguir meus estudos, de ser alguém no sentido mais pleno. É duro demais chegar no final do salário com muito mês sobrando, é duro demais ver as coisas caírem, quebrarem, ver todo tipo de filhadaputice, e não poder fazer nada, nada, nada. Não existe nada que eu possa fazer, não adianta chorar, espernear, gritar, encher o saco dos amigos, falar um monte de bobagem na cantina, na mesa de bar, e continuar sendo a mera figurante indignada de sempre. Não é justo comigo nem com a Unicamp. Fim de papo.

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