Thursday, February 21, 2008

Técnica em Astronomia

Há exatos dez anos atrás, eu perdi meu pai. Um pouco antes do falecimento dele, saiu um edital pra um mega concurso da Prefeitura aqui de Campinas, vagas em muitas coisas. Eu tava no último ano de Sociais, e começava já a me preparar para o mestrado. Lembro que comprei e estava lendo trechos da Formação da Literatura Brasileira, do Antônio Cândido, e ia conversar com a professora Élide. Pensei em me encaminhar pra área de Pensamento Social, estudar Caio Prado, e comentei isso com meu pai, ele já no hospital.
Ele faleceu, dias depois. Fiquei em casa, em estado de choque, durante muitos dias, tomando sedativos. Um dia acordei e parecia que uma manada de elefantes havia passado em cima de mim; resolvi não tomar mais os remédios e fazer alguma coisa da vida, reagir. Não podia prestar o concurso para a vaga de socióloga, não tinha ainda o diploma. Mas uma coisa no edital da Prefeitura me chamou a atenção.
Abriram, não se sabe porquê, uma vaga em Técnico em Astronomia. Era pra segundo grau, e pra trabalhar no Observatório de Capricórnio. O Observatório tem o maior telescópio ótico do Hemisfério Sul, uma coisa ultrapassada tecnicamente vamos dizer, mas por isso mesmo encantadora. O astrônomo francês Jean Nicolini montou o Observatório na serra das Cabras, em Joaquim Egídio, que é um dos lugares mais bonitos que já fui e um dos meus favoritos.
Não tive dúvida. Me inscrevi pro Técnico em Astronomia, e comecei a estudar. O programa era simples: Astronomia de posição ( ou seja, trigonometria), um pouco de Ótica, um pouco de Geometria euclidiana, coisas básicas de Astrofísica. Tipo, era pra alguém limpar as lentes do telescópio, falar pras crianças que astrólogo não é a mesma coisa que astrônomo e gastar as noites de inverno atrás de Marte.
Comprei um livro russo de Astronomia num sebo ( era uma versão em espanhol de um manual russo) e comecei a estudar, pus o Poliótico ( vocês lembram desse brinquedo? Era um conjunto pra montar binóculos, microscópios, lunetas, excelente) na sala e comecei a montar, com as lentes, pequenos objetos de observação. Desencavei a velha coleção das SuperInteressantes, uma coleção de Matemática que era o orgulho do meu pai e do meu irmão, o compasso e a régua, e gastava meu tempo calculando as posições da Beta do Centauro, entre zênites e esplendores.
Quando a gente olha pro céu estrelado, vê o passado: muitas daquelas luzes nem existem mais, a luz viajando tão rápida no espaço infinito. Às vezes, saía com meu ex-namorado, um químico, cientista brilhante, pra ver estrelas, e me consolava saber que olhava pro passado, antes mesmo do meu pai nascer, e que aquelas luzes atravessaram o vazio enquanto ele viveu. Eu saía da dor, do sofrimento, pensando na trajetória irregular de Plutão e enquanto limpava minhas lentes. Tantas vezes pensei que queria me transportar pra outras galáxias, outros sistemas planetários, e pensava no quanto a gente é pequeno, infinitamente pequenino, diante dos mistérios do Cosmos.
Fiz a prova sob a reprovação da minha mãe e meu irmão, no velho colégio Carlos Gomes. Lembro que o filho do astrônomo Ronaldo Rogério de Freitas Mourão prestou a prova ( era fácil saber que ele era filho do cara, era a cara dele).
Ontem, eu tava remexendo meus documentos atrás das coisas pra outro concurso, esse agora pra História da Arte. Nem sei se vou poder me inscrever, o meu título de doutorado não foi homologado ainda ( burrocracias da cidadela zeferinítica). Mas eu tava lá, atrás dos meus diplomas de Primeiro e Segundo Graus ( sim, eu sou desse tempo). Achei um caderninho de anotações do meu pai, instruções para mexer em alguma cenozóica versão do Word Windows, e no caderninho tinha umas contas na letra horrível do meu irmão e um mapa maluco da Unicamp, esse da minha lavra. Nem sabia que esse caderno existia. Não lembrava de nada disso.
E junto com meu diploma de Primeiro Grau, estava um jornal amarelado. Era a chamada do concurso da Prefeitura. Sim, caros leitores: a panda foi aprovada em Técnico em Astronomia Júnior, até com uma pontuação decente para quem na época cursava Sociologia e Antropologia. Evidente que jovens físicos passaram na minha frente, mas eu era candidata habilitada à vaga.
Pus isso no meu currículo LATTES. Fiquei feliz. Não é sempre que um Poliótico ajuda alguém a passar em um concurso público.

Wednesday, February 20, 2008

Firmar o pé

Nos últimos dias, coisas boas aconteceram. Fui pra SP, e encontrei por acaso a Patrix
, dona de um bonito blog que eu lia sempre. Coisas aconteceram na blogosfera, ela fechou o blog. A gente comentou, no metrô direção Jabaquara, como essa coisa de blog faz bem e como às vezes tem gente que confunde tudo, acha que o blogueiro é tiozinho do Big Brother. Falando em blog, achei o do Luiz Felipe de Alencastro, olha lá, sr. Na Prática:http://sequenciasparisienses.blogspot.com/

Vi Eduardo, Verônica e Zé, foi engraçadíssimo porque vi os três figuras no mesmo buraco do espaço-tempo, as pontas de SP vão se unindo e eu vou ficando com cada vez mais vontade de me pirulitar, de vez, pro velho Piratininga.
Resolvi prestar um concurso aí. Não tenho chance nenhuma, tem sete colegas mais velhos do eu que vão se inscrever, isso do que eu sei. Mas eu tenho que tentar, e fico escrevendo meu memorial sem o menor entusiasmo. Tô de mau humor com essa história, preciso melhorar.
Fui na casa de uma amiga consultar uns livros pra um dos pontos do concurso, sobre história da gravura no Brasil, e descobri o acervo que existe no Centro Cultural São Paulo, que tá fechado por causa do imbecil que jogou um balão, que caiu em cima do negócio ano passado. Esse balão pode ter destruído Rugendas, Matisse, o fantástico acervo que, agora eu sei, existe lá por obra de graça do Sérgio Milliet e da Maria Eugênia Franco, os antigos responsáveis pela Biblioteca Municipal Mário de Andrade. Fiquei emocionada ao ler o depoimento do Marcelo Grassmann, sobre a importância da Biblioteca no cenário artístico de SP, nas décadas de 40 e 50. Meu pai não entendia muita coisa sobre arte, mas quando eu manifestei o desejo de estudar "essas perfumarias", ele me levou à Mário de Andrade. Bingo pro seu Pedro.
Firmar o pé, firmar o pé. E o boco do Lelê me apresentou Nino Ferrer, conhecem? Taí Mirza:

Friday, February 15, 2008

L'Aurora

Eu não vou mais encher o saco de vocês falando que tô triste. Panda triste já tá uma coisa óbvia. Me falta grana, me falta saco, o carro enguiçou por conta de combustível adulterado ( meu, é o segundo posto daqui de Campinas que fode com o Gerião por colocar álcool demais na gasolina), eu salguei demais o arroz com ervilha e presunto, não recebi meu salário, confusões com jornalistas, enfim, de tudo, foi variado o nervoso.
Teve o aniversário de falecimento do meu pai, dez anos sem seu Pedrão. Saudade, muita. Mas tudo bem, eu revi gente querida, trabalhei em coisas legais, estudei, fiz coisas novas e vocês vão me desculpar, hoje vou falar de Eros Ramazzotti. Isso, Eros Ramazzotti. É brega mas como eu já falei aqui no Meio, a Itália é inteira brega, eu sou cafona e o Sarkozy deu o mesmo anel horroroso Dior de coração cor-de-rosa pra ex e pra atual ( vocês hão de convir que isso, mais a nova legislação de imigração que o cara quer fazer a francesada engolir, é mais terrível que pandinhas ouvindo Eros Ramazzotti).
Enfim, como todo bom estudante de italiano, você ouve Lucio Dalla e eu queria muito fazer uma Teoria da Tradução na Música Comercial Brasileira, porque você descobre que Tutta la Vita do cara virou Tô p. da vida do Dominó ( e quando vai estudar français, confere que Joe Le Taxi da Vanessa Paradis vira Vou de Táxi da Angélica). O Eros é de lascar, reconheço, tem umas coisas dele que dá vontade de chorar de... nervoso, de novo. Mas tem uma cançoneta dele que eu gosto demais, L'Aurora. Eu gosto demais da idéia que ter o sonho realizado é como a aurora. Hoje acordei cedo e vi a aurora na rua, é rápido ver um novo dia nascer. E quando o sonho calha de acontecer, é tão rápida a felicidade, também, e eu fiquei cantando a plenos pulmões, no meu italiano Adoniran, L'Aurora.
"(...)Forse un giorno tutto cambierà/ più sereno intorno si vedrà/ voglio dire che/ forse andranno a posto tante cose/ ecco perché/ ecco perché/ continuerò/ a sognare ancora un po'uno dei sogni miei/Quello che c'è in fondo al cuore non muore mai/ se ci hai creduto una volta lo rifarai/se ci hai creduto davvero/ come ci ho creduto io/ Sarà sarà l'aurora/ per me sarà così/sarà sarà di più ancora/tutto il chiaro che farà/ Sarà sarà l'aurora/ per me sarà così/sarà sarà di più ancora/tutto il chiaro che farà"...

Monday, February 11, 2008

Sonhos


Como sempre, ando perdida em pensamentos. Mas tive que enfrentar umas coisas não muito agradáveis, pro meu próprio bem, nos últimos tempos.



Durante muito tempo, tenho que confessar que preferi ser a dama de companhia, ou a amiga engraçada, a coadjuvante nas histórias de amor, de sucesso profissional, de viagens, de algumas amigas queridas. Eu sempre dava um jeito de estar perto, de ajudar, de torcer, de desejar tudo de melhor da vida para elas. Cheguei a agir, de forma concreta, no sentido de estabelecer uma ponte entre o que elas diziam querer e seus objetivos; às vezes essas pontes eram pontes Rio-Niterói, grandes construções da ditadura militar, muito concreto e milhares de operários nordestinos socando a lenha, noite e dia.


O que ocorre é que, nos últimos três anos, essas amigas se afastaram de mim, por motivos vários. Em alguns casos, evidente que me senti rejeitada, sozinha, e injustiçada. Mas, faz algum tempo, percebi que a responsável de toda a situação era eu mesma. No final, quantas vezes eu preferi não pensar nas minhas coisas, não correr atrás do que eu queria, não encarar o que me fazia sofrer.


Um amigo queridíssimo me disse dia desses, foque nos seus sonhos e nas amizades lindas que ficaram. Sim, ele tem total razão. É isso em que consiste o pão de cada dia, a matéria da vida.


Em cima, da série fotos panda ao redor do mundo, a entrada de um sobrado em Golden Coast, na Chicago que tanto amei.


Hoje, me sinto em alguns momentos solitária, sozinha, vazia. No final, fugi tanto dos meus sonhos, e eles é que me fizeram companhia, mesmo relegados ao terceiro, quarto plano; eles permaneceram comigo todo esse tempo. Sou grata a eles, por terem me acompanhado mesmo assim, por não terem morrido, por existirem com tanta força e beleza quando me apareceram pela primeira vez. Vi num relance, numa livraria, um livro de auto-ajuda entitulado "Dá trabalho ser feliz". Sim, dá. Muito.

Saturday, February 09, 2008

Da tradição clássica


Andei lendo, nos dias chuvosos e sem grana do Carnaval, coisas muito interessantes.


Li de uma sentada Nos Submundos da Antigüidade, livro já clássico de Catherine Salles. É interessantíssimo: a autora reconstrói a prostituição, a escravidão, em Atenas, Corinto, Alexandria e Roma, para demonstrar como o ideal clássico da igualdade entre o belo e o bom estava ancorado numa sociedade aristocrática e de mecanismos ambíguos. Dá muito o que pensar as análises da economia sexual greco-romana: ao mesmo tempo em que o poderio de Alexandre e depois dos romanos crescia, as desigualdades internas aumentavam, e com isso, os conflitos entre os setores sociais e a tensão sexual.


Me animei e depois peguei Os reis taumaturgos, do Bloch, que já li uma parte; mas me aborreci ao lembrar que preciso terminar antes A sociedade feudal, e nisso o Celo me emprestou O caminho de Swann, larguei tudo e entrei em Combray, e fiquei felicíssima, completa, ao ler as descrições da igreja de Combray, criações do Proust em cima do Émile Mâle, grande historiador da arte que, em volumes corajosos de 1948, L'art religieux du XIIe au XVIII siècle en France, desvendou as origens das iconografias cristãs.


Uma das coisas mais incríveis da minha vida foi visitar o Camposanto de Pisa. No início do século XIII, a peste assolou a cidade e os munícipes construíram um lindo cemitério, um prédio retangular com um pátio central, circundado por conjuntos de ogivas e colunas. Pois bem. Pisa é, na origem, um aterro etrusco, depois uma cidade romana, e assim vai. Os pisanos do Trecento não tiveram dúvidas: ornaram as paredes de seu cemitério com os sarcófagos antigos, gregos, romanos, etruscos.


Os americanos, além de enviar duas bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki, bombardearam a asa de mariposa que é Pisa; o Camposanto foi totalmente destruído, sendo depois reconstruído, pedaço por pedaço, pelos carcamanos teimosos. Os sarcófagos antigos se salvaram, bem como os afrescos, as ogivas.


Na manhã ensolarada, digna da Toscana, em que adentrei o prédio, vi, sem fôlego, o que ocorre quando a luz do sol bate nas ogivas e depois, nos sarcófagos antigos. Um rapaz indiano me perguntou se aquilo era um cemitério mesmo; respondi que sim, e ele falou, como o Taj Mahal.


A tradição clássica, pra mim, são livros, são as sombras das ogivas nos sarcófagos de Pisa, a manhã que passei lá, a pergunta do moço indiano.

Monday, February 04, 2008

Arlequim e Colombina

E estamos em pleno reinado de Momo.


Como sói acontecer no festival da carne, as atividades da panda no feriadão se resumem em pular loucamente... da sala pro quarto, do quarto pra cozinha e assim sucessivamente.

Tentei com todas as minhas (poucas) forças escrever um trabalho para inscrever num concurso. Mas, segundo o regulamento, eu precisaria entregar 100 páginas no dia 7. Não tive forças. Odeio não fazer o que me proponho, em termos de trabalho, mas nos últimos dias tive uns aborrecimentos foda, ando triste, cansada e cheguei a entrar num certo desespero. Às vezes, confesso aos caros leitores ser difícil por a fitinha de Rambo na cabeça, tomar duas doses de uísque e entrar na selva oscura da História da Arte.
O que me salvou, como sempre, foram os amigos e o Celo. Revi gente muito querida, e ganhei um super estojo Panda do Clis ( hihihihi, Clis, thanks!). Assisti também, de presente de Dani Mônica, "O Gangstêr", e adorei rever o Russel Crowe ( né, Dani).... Gustavo e Marilinha foram os anfitriãos perfeitos, e ainda tive tempo de jantar com o Milton, que há tanto tempo não via. E a commedia dell'arte da vida continua, entre confetes, serpentinas e Pierrôs apaixonados.

Thursday, January 31, 2008

Persianas

Essa semana fez aniversário minha afilhada Mi, que recentemente perdeu seu pai. Há muito tempo sou uma madrinha destrambelhada, que vê a Mi uma vez por ano. Acho que há muito tempo eu sou destrambelhada em tudo, enfim.
Uma vez, a linda Mi ouviu um desabafo meu. A minha vida estava complicada demais, o meu coração estava aturdido demais. Ela me ouviu ( foi só um parágrafo, tipo, Mi, essa vida é complicada demais pra quem ama, com um suspiro)- e calma, me respondeu: "a gente tem que tentar ficar perto de quem a gente ama, eu acho".
Talvez tenha sido uma das coisas mais verdadeiras, mais calmas, profundas e sinceras que alguém me disse. Como olhar o fundo de um rio, as águas, de turvas, ficarem cristalinas. Como ter que apertar os olhos, quando o sol aparece detrás da nuvem.
O problema é que, em termos de sentimento, muitas vezes a vida da gente é um quarto, às duas da tarde, com as sombras das persianas nas paredes.
Eu queria ser simples, não ter essa engenharia complexa dentro de mim, essas dores, essas memórias e esses arrependimentos. Queria estar onde estou, ver as coisas como são, e não como eu, um dia, quis que elas fossem. E que meus dias fossem tranqüilos, como a voz da Mi me dizendo uma das coisas mais difíceis da vida.

Tuesday, January 29, 2008

Bandeira Branca

Fui ministrar um curso em Araçatuba, na Oficina Cultural de lá. Foi super cansativo, idas e vindas nas rodovias Marechal Rondon e Washington Luís, nove horas no busão mais dois finais de semana, das 9 às 18, de aulas direto. O tema era História da Arte na Escola, então foi muito bacana conversar com professores, com o pessoal de lá, das redes pública e particular de ensino.
Enfrentei tudo como pude. O problema é que desde muito pequena, quando encarava o estradão para acompanhar meu pai nas subestações e usinas da vida, viajar pelo interior significa pra mim passar um pouco mal, no sentido físico, mas tudo bem.
Viajar é bom. Eu fiquei muito presa nessa casa, no Caronte, escrevendo a maledetta, no ano que passou. O ruim é que, nas idas e vindas do e para o Noroeste paulista, fiquei com saudades de queridos que estão longe. Como diria Dalva de Oliveira, saudade, mal de amor. Mas vamos ver se, pondo bandeiras brancas nas minhas janelas, os queridos reaparecem!

Sunday, January 13, 2008

Mora na filosofia

Faz tempo que eu queria escrever sobre a tal música popular brasileira. Ouço muito, há um ano, gravações da chamada Velha Guarda, por obra e graça de seu Raimundo Floriano, grande colecionador e que generosamente, através de algumas comunidades no Orkut, compartilha seu fantástico acervo de marchinhas, dobrados, frevos, sambas-canção, sambas de raiz e desse tudo que é a música brasileira. Me apaixonei por Francisco Alves, Marlene, Mário Reis, Orlando Silva e todos os heróis dos nossos avós, os talentosos e brilhantes cantores do rádio.
Muitas das músicas tem um sabor todo especial porque trazem vestígios da nossa sociabilidade mais profunda, mais íntima e mais dolorosa. Nos dias que correm, nenhum grande compositor como Lamartine Babo cometeria O Teu Cabelo Não Nega, Mulata: o sujeito que diria pra uma moça a cor não pega, então mulata, eu quero o seu amor, levaria uns bons e merecidos tabefes. Mas é inegável que por mais pós-modernismo, pós-estruturalismo, pós-tropicalismo e, mais grave para a MPB, pós-chicobuarquismo ( vai ser difícil emplacar com o Chico por uns bons vinte anos, se não mais) a nossa intimidade ainda tem muito de racista, sexista, misógina, agressiva, em uma expressão, ainda muito de império colonial ultramarino português.
Hoje eu esperava a anjinho Edna limpar meu escritório quando peguei distraída O Trato dos Viventes, do Luiz Felipe de Alencastro, da estante. Eu li esse livro e tive a oportunidade de discuti-lo, de perto, com o autor no Cebrap, que me fez uma bonita dedicatória. Numa parte, o Alencastro faz uma comparação entre Angola e Brasil: nos dois lugares, houve miscigenação, ou seja, o estupro sistemático das mulheres das populações locais. Mas no Brasil, a miscigenação deu origem ao fenômeno da mestiçagem, ou seja, os mulatos, mamelucos e cafuzos formaram um estrato social, enquanto que em Angola os mestiços se "africanizavam", não permaneciam perto de seus pais portugueses como escravos ou dependentes. E o Luiz Felipe cita belos versos de um poeta anônimo, degredado em Angola, à página 351:
Aqui onde o meu desejo
não chega ao seu fim
porque me acho sem mim
quando me busco
Aqui onde o filho é fusco
e quase negro o neto
e todo negro o bisneto
e tudo escuro.
O que, para o autor, é o oposto de versos de Gregório de Matos, uma ode às mulatinhas da Bahia que, para o eu-lírico embevecido, na hora dos fatos pediriam a violência nos gestos( no caso, gritando "arromba, arromba"). Quando li esse trecho do livro, pensei em vários sambas e canções antigas, de dor nas relações amorosas, assimetrias, perdições, zombarias, como o de raiz Mora na Filosofia, cantado por Marlene à moda das cantoras do morro ( Caetano, no seu Verdade Tropical, atesta o estranhamento, seguido de xingamentos racistas, dos estudantes paulistanos ao receber, num festival, Clementina de Jesus).
Os versos de Mora na Filosofia, composta por Monsueto e Pessoa, são um primor desse lirismo amargo da língua portuguesa, como os do poeta degredado nas terras d'Angola ( não esquecer que mesmo Chico, que subverteu séculos desse lirismo ao dar voz às mulheres, cantou a Morena de Angola como Lamartine cantaria):
Eu vou lhe dar a decisão / botei na balança e você não pesou/ botei na peneira e você não passou/ mora na filosofia /pra que rimar amor e dor /se seu corpo ficasse marcado por lábios ou mão carinhosas eu saberia, ora vai mulher... à quantos você pertencia/ não vou me preocupar em ver/ teu caso não é de ver pra crer/ tá na cara.
Pois é, tá na cara que a mulata, a tal, em matéria de fidelidade, não mora na filosofia. Como diz Alencastro, há tanta coisa rolando nesses versos todos.

Thursday, January 10, 2008

Pescaria


Hoje, vagando pelo site da mega loja Mini Kimono, na Liberdade( http://www.minikimono.com.br/), pra ver as novidades( quero comprar um obi, faixa de quimono, pra usar com camiseta branca e jeans), descobri algo lindo.
Nas páginas do site da loja, estão bonequinhos de sete divindades xinto, os chamados sete deuses. Eu não entendo nada de xintoísmo, apenas o óbvio e ululante ( o culto aos ancestrais, e os rituais de passagem, como o festival dos desejos nas árvores). Mas li no site, e depois fiz uma pesquisinha, sobre o deus que considerei, de cara, o mais simpático pra mim: Ebisu.
Ebisu é o deus xinto da pescaria e da felicidade. Fez todo o sentido pra mim. Viver é estar na margem de um rio, de caniço e samburá, mascando matinho e pondo minhoca pra nadar. De vez em quando, a gente pega dourado. E de vez em quando, nada. Mas ouve o vento, as folhas no vento, põe os pés na água fresca, pensa nas águas que já passaram, nas que vêm. Nos amigos, em outras pescarias; faz planos de trazer, da próxima vez, uma garrafa maior de água, e uma garrafa de batida de limão. Ops, fisgada na linha. E enquanto os pensamentos correm, quando a gente menos espera... e tem que pegar firme a tal felicidade.
Ebisu é sempre mostrado carregando um enorme peixe, pescado por ele, e quando os pescadores têm pesca boa, agradecem o generoso pescador lá de cima. Tem dias bons, tem dias ruins pra pesca. Épocas do ano que não dá nada mesmo. Mas a batidinha de limão...

Tuesday, January 08, 2008

Arroz com feijão

Depois de meia faxina ( a idade pesou e tive que parcelar a limpeza da casa em hoje e amanhã) recebi uma mensagem no celular da Jujuba, dando a feliz notícia que acharam o Picasso e o Portinari do MASP.
Enquanto não vi maiores informações, nos sites da CBN, Globo, Estadão e Terra, não sosseguei. Parece que estão intactos o belo lavrador e a cantora.
Além da idade, hoje pesou o fato de que preciso preparar um curso para a Oficina Cultural de Araçatuba; o curso começa semana que vem, e é de capacitação docente. Eu pus o nome de História da Arte na Escola, e selecionei uma bibliografia, que agora leio e/ou releio. No meio, eu fiz questão de por um velho livrinho que sempre me impressiona, O que é Arte, do prof. Jorge Coli.
A coleção Primeiros Passos, ou como dizia a mestre Amnéris, Primeiros Tropeços, foi decisiva na minha formação universitária. Lembro bem do Ideologia, da Marilena Chauí, bem escrito e que ajudava todo mundo na temível Sociologia de Marx. Em papel jornal, formato de bolso e escritos por especialistas, essa coleção é do tempo em que algumas pessoas acreditavam, como eu, ser necessário ampliar o acesso à cultura no nosso país.
Acompanhei, de coração na mão, a discussão sobre a administração do MASP, na imprensa e no blog do jornalista Daniel Piza, que me surpreendeu. Não gosto nada do Piza, mas ele teve a coragem de descer a lenha no Júlio Neves. Muitos pensam, no Brasil, que arte é luxo. Que o mais importante é dar comida. Como diziam os Titãs, a gente não quer só comida...
O velho livrinho do Jorge, escrito em 1981, tem na capa um quadro com um prato de arroz e feijão, o que é genial. Infelizmente, a Brasiliense não pôs o nome da pessoa que idealizou isso ( pelo menos na minha edição, a 12a., de dez anos depois, não aparece esse dado). Na discussão sobre o MASP, sei que muitos podem pensar que é futilidade se preocupar com Picassos, Portinaris, Poussins e etcéteras, num país como nosso. Mas isso é um erro crasso. Infelizmente, a pobreza do nosso país é agravada pela falta de amor à cultura, à erudição, à arte.
O livro do Jorge é atual, é exato, é contundente. No final do livrinho, o Jorge escreveu um pequeno texto intitulado "O acesso à arte", em que desdobra o problema da freqüentação das obras no Brasil. Dirigindo-se ao seu leitor, avis rara num país de analfabetos e de pessoas sem nenhum acesso à nada, Jorge escreveu: "Num sistema de ensino voltado para a formação a mais pragmática e tecnológica, sob o desinteresse e a incompetência dos 'responsáveis', e bombardeado por emissoras de rádio e TV regidas pelo princípio absoluto do lucro, você se encontra numa situação de grande miséria intelectual. As parcas manifestações artísticas de algum interesse neste país são pouco freqüentes, em geral muito caras e sempre se localizam nas grandes capitais. (...). E como, evidentemente, a solução não está nas lamentáveis operações demagógicas que aparecem de quando em quando, quem se interessa pelas artes no Brasil continua sendo um fruto bizarro e teimoso".
E o professor conclui, no finzinho: "Assim, as pessoas que, em nossa sociedade, têm consciência do papel fundamental desempenhado pela arte no seio da cultura, são forçosamente obrigadas a colocar o problema do acesso à obra. É necessário exigir os meios da freqüentação."
Eu quero lutar por uma administração melhor no MASP, por exemplo. Eu quero lutar porque eu era uma menina nascida na pobreza, e que vivia no Cambuci, e que aos seis, cinco anos foi levada ao MASP e teve um choque profundo. Ou que foi impedida de entrar no Museu para assistir aulas, porque sua bolsa foi passada para a filha bem produzida de um empresário. Ou que, depois de formada professora, dava aulas a uma servente de escola, que com muito sacrifício pagava a faculdade particular fuleira na qual eu dava aulas. E num sábado, essa senhora, na frente do Céu Estrelado do Van Gogh, me perguntou se aquilo era uma reprodução. Diante da minha negativa, ela chorou diante do velho holandês.
Quando li o livrinho do Jorge, tive a certeza de seguir a História da Arte. Diferentemente de alguns colegas, que assim o quiseram por madamice, por serem de origem burguesa e por que o mundo das artes traz status, eu quis por acreditar que devo permitir o maior número possível de pessoas tomar contato com que a humanidade já fez de belo, de grandioso, do que dá sentido aos dias.

Monday, January 07, 2008

Previsão do tempo

Eu tô pensando aqui que, às vezes, se relacionar é enfrentar condições metereológicas. Tem dia que sai lindo, o céu azul do bem querer, o sol do afeto, a brisa leve e gostosa da amizade fazem com que a gente ponha um vestido colorido e saia pra rua nem que for pra ver o vento nas folhas do viver.

Mas tem dia que ou os outros ou a gente estamos numa maré adversa, numa chuva de granizo da discórdia. Nem sempre chuva é problema; a água fertiliza a terra e não tem nada melhor que chuva fininha de carinho nas costas e o cinza das paixões físicas levadas ao seu término. Mas tem chuva de verão, aquela pancada de alegria que só a presença dos queridos traz, mesmo que rápido, e temporais, furacões, ciclones de desamor, de angústia, depressão e outros males d'alma.
Seria bom a gente ter uma previsão do tempo dos afetos da gente; você pegaria um jornal escrito só pra você e lá estaria escrito: Chefe- bom tempo com pancadas de chuva no decorrer do período, Namorado- tempo bom, com sol, temperatura mínima de 18 graus, Amigo, Amiga, Cachorro, Filho, Pai e Mãe, e assim por diante. Porque a maior parte das zicas com pessoas é que nem quando a gente sai de casa sem levar casaco e passa frio na rua, ou não leva guarda-chuva e além de se molhar inteiro ainda estraga o sapato bonito e o penteado- depois de dias de banho de creme e tentativas no espelho- por milagre, e pela Lei de Murphy, bem naquele dia, justamente naquele dia, que o ponto de ônibus que a gente tá não tem cobertura.

Seria necessário uma iniciativa nesse sentido. Depois de uma linda noite estrelada de amor, um amanhecer fabuloso de uma nova relação; ou depois daquela manhã nublada de mau humor, o sol, de novo o sol, sempre o sol do afeto, a nos aquecer e a nos guiar com ética e acerto de decisões. Eu tomei uma decisão: seja qual for o tempo agora, sairei com guarda-chuva, capinha e galochas, porque teve gente nos últimos dias que choveu demais.

Friday, January 04, 2008

SOS MASP

O prof. Luiz Marques, ex-curador do MASP e meu ex-orientador, estava na lista do meu email indignado com o roubo das obras no museu. A princípio muito cético e meio amargurado, o Luiz não achava que era possível fazer algo pra salvar o museu do descalabro da administração atual. Mas depois de uns dias, ele me mandou um email, dizendo que minha mensagem o havia encorajado, e ele havia escrito um documento intitulado SOS MASP: Um Apelo aos Poderes Públicos.
A idéia é a intervenção estatal no museu, o fim dessa administração, ou seja, a salvação do acervo, do prédio, do nome, de tudo. Agora, o movimento tem um site: http://www.sosmasp.com.br. No site, é possível assinar o abaixo-assinado, através de um simples cadastro, e conferir as assinaturas de quem já passou por lá. Em tempo: hoje, no Caderno Cidades do Estadão, saiu uma nota sobre o documento e o movimento, enfatizando a assinatura de João Cândido Portinari, filho do artista autor de uma das obras-primas roubadas.
Nem preciso dizer que o Mezzo apóia incondicionalmente a iniciativa do prof. Luiz e convida a todos a assinatura. Por favor, repassem aos conhecidos e etc e etc ( alô povo do Banco Central, tô precisando de vocês nessa! Alô povo querido que me lê!)

Thursday, January 03, 2008

Os prazeres deste mundo têm esta mesma leveza

Espero que os queridos leitores ( se é que o velho Mezzo ainda os têm) tenham passado bem suas Festas e feito todos os seus votos de um feliz 2008, porque estamos todos precisando de grana, amor, paz e saúde!
Andei bastante nos últimos dias. Pra vocês terem uma idéia da programação, depois de toda a maratona Centro-Oeste ( posso atestar que a crise aérea é algo muito, muito cacete, e que a Chapada dos Guimarães é um dos lugares mais lindos desse mundo), tomei banho de piscina, coordenei cozinha pra ceia de reveillón e dormi bastante, que tava precisada. Achei musiquinhas pra baixar, e retornei minhas atividades panda, como responder email de três meses atrás, lavar um pouco de roupa e dar um giro pelo centro da cidade.
Eu queria escrever sobre um monte de coisa, mas acho que tenho que parcelar, até porque minha alma anda leve, despreocupada e desatenta; não é um estado de espírito propício para a escrita, ainda mais com temas dantescos como os que eu deveria enfrentar. Não reparem, é o verão.
Citação do dia: "Os amantes podem andar nos fios de uma teia de aranha que balança com a brisa lânguida do verão e, mesmo assim, não caem. Os prazeres deste mundo têm esta mesma leveza", William Shakespeare na boca de Frei Lorenzo, Romeu e Julieta, Cena VI, Ato II. Tradução de Beatriz Viégas-Faria.

Wednesday, December 26, 2007

Boas Festas!

A todos os leitores do Meio do Caminho, meus votos panda de Boas Festas, diretamente do Centro Oeste do país, no ponto eqüidistante entre o Atlântico e o Pacífico, onde nasciam os bororo e onde segundo Caetano nascerá o índio, impávido que nem Mohammed Ali.
Meus votos de paz, saúde e prosperidade, que trouxe do primeiro banho de cachoeira que tomei, em meio a águas douradas, amigos, cheiro de mato e picolé de chocolate recheado com coco!

Friday, December 21, 2007

A memória, algo afetivo e inútil

Aprendi a cantar Guantamera em Roma, com uma senhora uruguaia, viúva de um guerrilheiro Tupac Amaro.
E lembro de um homem que amei muito, comendo arroz, feijão, bife e batata frita na minha frente, depois de perguntar se eu estava servida.
Também me vem à cabeça eu flutuando no mar de Búzios, esperando o entardecer.
E hoje cheguei rindo em casa, sozinha, porque lembrei que o Mussum, quando era chamado de preto, lascava na hora: "preto é seu passado e negra vai ficar sua situação"...

Thursday, December 20, 2007

O Portinari roubado


Gente, aqui vai o Lavrador de Café, do Portinari, obra que foi roubada do acervo do MASP nessa madrugada. Esperemos que, amanhã, os Cézanne, Van Gogh, Gauguin, Renoir, Dégas, Poussin, Delacroix, Rafael, Tiziano, Goya, Portinari, Anita Malfatti, Vítor Meirelles, Chagall, entre tantos outros, continuem nas paredes horríveis e mal iluminadas da atual tosca expografia do museu, sem conservação adequada, mas no museu.


O Lavrador de Café, 1939. Óleo sobre tela, 100x81cm.

Absurdo


Caríssimos,



Hoje acordei e dei com a nota no Terra: roubaram o MASP. Levaram o Retrato de Suzanne Bloch, do Picasso, e o Lavrador de Café do Portinari.


Escrevi indignada pra minha lista inteira de emails. É preciso fazer alguma coisa em relação ao MASP. Não dá mais pra gente, digo, a gente que trabalha com Arte, História, ignorar a situação e achar que o problema não é nosso.


Deixo aqui o meu protesto mais veemente contra a administração ineficiente, idiota, incompentente e tudo de ruim que se apoderou do Museu há anos e corrói acervo, prédio, o nome da instituição, e a minha paciência. Qualquer sugestão de manifestação, passeata, qualquer coisa, é bem-vinda.


Em anexo, Retrato de Suzanne Bloch, óleo sobre tela, 65x54cm, 1904. Rezemos pra que os bandidos que fizeram isso não destruam essa obra- prima. Em cima, o Lavrador de Café do Portinari.

Tuesday, December 18, 2007

Bolinha amarelinha

E como dizia a música antiga, Ana Maria olhou-se no espelho, e viu-se quase despida afinal...


A panda passará os festejos natalinos em outro estado, na casa de amiga antiga e queridíssima, que me presenteará com sua hospitalidade. A história começou com um papo no msn ( pra variar...). Ela me mostrava umas fotos de cachoeiras, de um passeio com a irmã fofa e uma amiga querida. Num momento de ousadia, confessei pra Ju que, nunca na minha vida, eu entrei numa cachoeira. Ela não acreditou, e eu confirmei.
Daí a Jujuba resolveu que ia me ajudar nesse negócio de cachoeira, e eu vou enfim conhecer o que é um jato de água fria nas costas, num lugar paradisíaco.
Exausta, cumpri algumas das minhas últimas obrigações profissionais, como entregar notas, documentos, apostila... andando pelo centro da cidade, a caminho do correio, vi uma loja de... moda praia.
Quando eu criança, e tenho fotos pra provar, tinha lindos biquínis, um de maçãzinha, outro Poésie ( gente, alguém aí tinha biquíni Poésie??????) verde-água, e maiôs transadíssimos, mas depois de mocinha, jovem e agora balzaquiana, com atividades de lazer quase nulas, passei anos sem biquínis. Um preto de senhora, comprado em Búzios, ficou filho único de mãe solteira durante anos, seguidos por outros, presentes da minha mãe, intocados, e dois do Carrefour que de vez em quando eu ponho pra fazer faxina e dar uns mergulhos na piscina do Clis.
Resolvi que o primeiro banho de cachoeira merecia um biquíni novo. Vi na vitrine um lindo, preto com florzinhas, e entrei. Mas uma multidão digna de filme bíblico estava lá dentro, mulheres histéricas atrás de pedaços de lycra menores do que lingerie.
Daí começou meu martírio. Cheguei pra uma das duas senhoras com cara de respeitáveis que atendiam, e timidamente perguntei se o da vitrine tinha no meu tamanho. A velhinha berrou, não minha filha, aquele ali só PP, tenho não pra você. No meio daquela zona, me acheguei na outra senhora e falei, mas o que vocês tem no meu tamanho? Ela também berrando ( gente, porque isso?), "ah, no tamanho seu só tenho um sutiã com bojo" ( gente, tem biquíni com bojo hoje em dia!) e me passou um sutiã que serviria perfeitamente pra Gina Lollobrigida em tempos idos ( eu sei gente, eu sou velha, fazer o quê?).
Claro que a velha Panda the Kid tá longe de ser uma musa do cinema italiano, mas vamos dizer, no quesito em que Jane Mansfield e Gina se tornaram célebres, não me faltam, digamos, exuberância de atributos. Peguei o transatlântico pink de bojo e entrei na cabine. Lógico que deu, mas eu ainda agüentei a nega entrando, apertando os laços e berrando, olha bem, pra você só esse tamanho e só tem esse, pra levantar sua comissão de frente.
Saí da cabine e de novo perguntei sobre estampas diferentes ( aquele pink era puro delírio). Ela sempre berrando ( gente, vendedora de biquíni tem problema de audição?) dizendo que não, que o meu tamanho era Extra Large Mega Ultra Plus Super. E eu, finalmente tendo uma reação, berrei de volta, então eu tenho que fazer uma cirurgia... de redução de peito!
Chutei quem tava na frente e, puta, me encaminhei pro correio. Resolvi pinimbas e, subindo a Moraes Salles, pensei, eu sei, tô gorda, velha, mas peralá. Eu sei que tenho um perfil, digamos, clássico, e lembrei de uma Vênus romana que vi em Chicago, que parecia eu pelada no espelho. Pronto, pensei que em 45 d.C, eu faria sucesso nas praias de Herculanum, e me acalmei.
Aqui perto de casa, tem uma loja de uma marca famosa de moda praia, que sempre namoro nas minhas idas e vindas. As vitrines, sempre atraentes, mostram coisas lindas, e meio caras. Há anos a gerente, uma perua típica campineira, me encara com desprezo e nem me atende, porque eu nunca compro nada. Eu, hoje, com um dinheirinho suado sobrando, só queria comprar um biquíni.
Outra multidão, agora de madames, adolescentes e suas mamães orgulhosas. Esperei pacientemente uns quarenta minutos pra ser atendida, e mal, por duas meninas perdidas em meio a tanta frescura e chiliques. A gerente me olhava como se eu fosse um ET. Nada pra mim. Vejo a senhora do lado com algo bonito, estampado em fundo lilás. Pedi o modelo, e me encaminhei pra cabine. A gerente, sádica, falou, ah minha filha, tem filinha, viu? De gente que obviamente, ela atendeu de forma gentil e prontamente enquanto eu era ignorada no balcão, gente que não demorou cinco minutos pra pegar um modelo.
Como uma lady, entrei na fila. O biquíni era tão bonito, que eu pensei, foda-se essa nega maldita ( diga-se que ela é feia também, coitada, parece assombração, eu fiquei com dó na verdade). A moça do caixa percebeu a situação e veio ao meu socorro, super doce. E o biquíni ficou tão lindo, que eu a princípio estranhei. Mas acabei me dando de presente, e toda garbosa, com a loja inteira me admirando, comprei o conjunto transadíssimo. Cheguei em casa e pus meu biquíni novo, e da sala pro quarto e do quarto pra sala, tava me achando a própria Brigitte Bardot!

Sunday, December 16, 2007

13

Há treze anos atrás, eu enfrentava as provas da Universidade Federal do Paraná, da Unesp, da FUVEST e da Unicamp. Esta última, por puro acaso.


Eu queria ser jornalista. Queria escrever em revistas, principalmente a Capricho, que eu assinei durante um certo tempo. Queria viajar, ou trabalhar na National Geographic. Ouvia muita música, tocava teclado, e escrevia muito. Diários e poesias. Também desenhava e cuidava das crianças dos vizinhos, e estudava por conta. O meu colégio havia inaugurado, naquele ano, aulas de reforço, à tarde, para o pessoal do terceirão. Um grupo de amigos fiéis se uniu em torno do desafio de conseguir uma vaga numa universidade de prestígio, ou seja, as universidades públicas.
O povo queria estudar na Unicamp; já eu sonhava com a ECA e com um retorno à minha cidade natal. A minha melhor amiga era a Débora, a única afro-descendente do colégio, linda de morrer, e inteligente demais, filha de uma das enfermeiras chefes do HC da Unicamp. A Débora vivia entre a casa do pai e a da mãe, e num desses desencontros, o pai e ela compraram dois manuais do vestibulando, por pura afobação. Pra não deixar minha amiga no prejuízo, comprei o manual dela. Só por isso prestei Unicamp.
Sem Jornalismo como opção, fiquei entre Letras, História e Ciências Sociais. Nas costas do meu pai, preenchi Sociais na fila da entrega do formulário. Sem estudar nada pro famigerado e diferenciado vestibular da Unicamp, entrei na disputa dos vestibulares. Fui pra Curitiba com meus pais e meu irmão, e num flat passei o frio típico curitibano. A FUVEST foi aquele desespero de sempre, e passei pra segunda fase apertada, mas passei. A Unicamp não me preocupava; achava a cidadela zeferinítica o fim do mundo, uma roça, e toda vez que tinha que buscar meu irmão na casa de um amigo lá, achava tudo aquilo, realmente, o fim.
Na segunda fase da birosca unicampítica, um acidente de percurso. Eu me sentei atrás do Márcio, que conheci na primeira fase da FUVEST e de quem já tinha ficado amiga. Só que o Márcio era um armário de três metros por quatro. Eu me sentei atrás dele, no final de uma longa fila de carteiras, numa sala da Engenharia Básica, e no outro dia tanto eu quanto ele não tínhamos mais carteiras com nossos nomes. A sala estava repleta de vestibulandos pra Sociais; uma menina riu e falou, bom, dois a menos. Senti muita crueldade nela e em outros, que riram. Contrariando as previsões, eu e o Márcio passamos, e eles, não, os caras da COMVEST só quiseram mudar a gente de lugar.
Chorei muito no dia em que vi que, por dois lugares, caí na lista de espera da FUVEST. E no mesmo dia, no Ciclo Básico, vi meu nome nas listas. Uma amiga querida da minha mãe, a Sônia, argumentou comigo que me via muito mais como professora universitária do que como jornalista.
Há treze anos, entrei no IEL pensando que era o IFCH. Consertado o erro, dei com o Márcio e a Ísis, amiga de colegial, felicíssimos, cheios de planos, esperando a primeira aula de Antropologia. Eu não fazia idéia do que encontraria no curso; pensava que poderia até enfrentar um cursinho, e outra tentativa. Mas não, no primeiro mês vi que a Sônia me conhecia bem demais.
Há treze anos, eu firmei na minha cabeça que a carreira acadêmica era o que eu queria pra minha vida. Eu tinha dezessete anos, desenhava, tocava teclado, era magérrima e meio dentuça. Usava só moletom e passei a paquerar mais os meninos naquele ano. Li num artigo xerocado da Times, na aula de Economia, que existia algo chamado internet. Enfrentei minha primeira terapia no CECOM, e também duas cirurgias de extração de dentes de ciso.
A Unicamp era muito diferente, eu era muito diferente. Nas festas, a gente ouvia sempre a mesma fita cassete, obra e graça de um colega da Engenharia; paquerava os garotos da Biologia e fazia seminários e fichamentos. Mas eu tinha essa certeza.
Semana passada, encontrei um professor, que escreveu um dos livros que a gente lia, em parte, no nosso primeiro ano. Ele me disse que eu podia ir embora agora, que a porta estava aberta, você é uma doutora, ele me disse. Eu falei que queria ir, ele me disse, agora você pode. E depois passamos a falar de coisas da universidade. E daí percebi que ele sabe, tanto quanto eu, que a gente fala até logo, mas nunca adeus, pros anos mais importantes da vida da gente.

Wednesday, December 12, 2007

Chuvas de dezembro

Contrariando Tom, são as chuvas de dezembro, é o fim da canseira.


Trabalhando em excesso, cansada demais. E tenho notado uma coisa em mim. Não ando muito generosa, não. Não tenho tido vontade de espalhar o que sinto, penso, o que tenho. Eu que já espalhei tanto, já me dei tanto, hoje fecho as portas. Pensei em pôr milhões de coisas aqui, me desculpem, não vou. Vou guardar pra mim, o meu ouro, as minhas jóias de sentir. Pra pôr só nas grandes ocasiões, ópera no Municipal, vestido de veludo e jantar com vinho branco, com as jóias, as pérolas, as lembranças, como uma senhora elegante que se preze.
"Uma pérola é sofrimento transformado em jóia", provérbio budista.

Thursday, December 06, 2007

Dra. Panda Maria Alighieri

Dra. Panda comunica aos fiéis leitores do Meio, agora abertamente francófilo, que pode aviar receitas de remédio e que atenderá pelo seu título em todas as instâncias deliberativas como Orkut, Blog e msn por uma semana.

Monday, December 03, 2007

Amanhã...

E para os leitores fiéis do Nel Mezzo, agora cantando a plenos pulmões junto com La Mome...

Amanhã, enfrentarei o inevitável e posso trazer para a casa o título de doutora. Posso ser reprovada. Não convidei ninguém pra defesa, porque eu sei que a tese está mundos aquém do que deveria, está uma verdadeira josma, mas enfim, agora é tarde pra chorar pela tese derramada.
O povo reclamou, teve gente que quis usar de expedientes como chantagem emocional, ver no site da Unicamp, se convidar na cara dura e me consultar pelo msn sobre a possibilidade de assistir o massacre. Bom, o rebaixamento do Coríntiã deu uma esfriada nos ânimos da galera, pelo menos não sou a única a ser massacrada nem estar em maus lençóis nesta semana que Deus pôs no mundo.
Aos leitores que acompanharam a saga da maledetta, desde seus primórdios até o gran finale, torçam por mim, gritem merda, ou acendam aquela vela vermelha. Que Dante e Botticelli me protejam!

Monday, November 26, 2007

Back on the chain gang

Entreguei, terminei, defenderei. Fui, vi, venci. E agora descanso pra voltar à gangue e aos trens.


Os últimos dias, teve de tudo. Tô tentando manter minha nova atitude, como disse a Nenem, panda power, ouvindo a Piaf toda hora e vendo a Mome no Youtube, pra ver se entra na minha cabeça o Non, Je Ne Regrette Rien, de vez.
Tomei coragem e agradeci ao Jorge e ao Bonnet muito o curso, a oportunidade. Há anos que eu não fazia algo tão bom, tão de verdade, tão perto do que acredito e sinto. Daí fiquei super feliz com isso. Mas nos dias seguintes, tive um aborrecimento que me fez pensar muito.
Os meninos do primeiro ano me pediram pra levá-los ao MASP. Eu tô substituindo o Paulo num regime de trabalho doido, professora palestrante, e esse mês levei pra casa metade do salário, ou seja, 230 reais pra ministrar duas disciplinas na graduação, com todas as responsabilidades envolvidas nisso: preparar aula, ministrar, me pôr ali pros alunos, avaliar. Pra piorar as coisas, o cheque demorou a cair, fiquei duas semanas sem quase nada dentro de casa, sem um real, sofrendo, trabalhando como louca e entregando a tese.
Tudo que os meninos me pediram, eu fiz: duas aulas extras, na semana que eu simplesmente fiz milagre, e me pediram uma visita ao MASP. Prontamente atendi, corri atrás de tudo, e na quinta-feira ( a visita seria no sábado) eles me disseram que grande parte da turma havia desistido.
Fiquei p. da vida e dei a maior bronca da minha história de professora. Porque eu senti, em vários momentos, que eles criticam, criticam, criticam a gente, mas chega na hora,me fazem isso? Não querem ir ao maior museu da América Latina de graça, e com uma professora de guia?
Pensei nas vezes que ia sozinha ao MASP, pensei que o Jorge mandava a gente se encontrar lá tal hora, e ponto. Senti muita infantilidade, e agressividade em parte da turma. Fiquei nervosa, tive uma hemorragia, foi péssimo. Acho que estourou tudo, ganhar essa miséria de salário, o não-reconhecimento por parte do departamento, e as dificuldades todas do doutorado ( que foram muitas, muitas mesmo, até o finzinho encontrei obstáculos foda).
Pela primeira vez em muitos anos, muitos mesmo, não terei nenhum compromisso com e na universidade, no ano que vem. Pintaram outras coisas, preciso lutar, ter força pra inventar um caminho. Sinto um alívio muito grande, mas também uma vertigem, um medo, um frio na barriga. Como vai ser minha vida longe da cidadela zeferinítica? Vamos lá, né.

Tuesday, November 20, 2007

Non, Je Ne Regrette Rien

E eu com esse curso do Bonnet entrei numa vibe Egalité, Fraternité e Liberté. Terminei o Índice maldito do Luiz, com vinte e sete páginas e 850 nomes, o cheque do meu fantástico pagamento caiu e eu fui no Atacadão, e agora baixo, numa preguiça danada, baixo e escuto uma seleção Vive La France.

Não assisti Piaf, mas baixei uma pequena seleção da grande chanteuse. E agora estou lascando meu francês inexistente em Non, Je Ne Regrette Rien, que, temo, vai se tornar um hino pra mim. Pela primeira vez em muitos anos, olho pra frente, não pra trás. Não, eu não lastimo as perdas nem os ganhos. Deu tudo zero. Não, eu não me preocupo mais com quem não me amou, ou quem me amou, ou quem não soube o que tava ocorrendo. Non, rien de rien, niente, nada mesmo. Acabou. Olhar pra frente dá vertigem, mas é tão mais bonito.

Saturday, November 17, 2007

Advento

E segundo o calendário litúrgico, o tempo dos quatro domingos que antecedem o Natal é o Advento.
Ainda estamos um pouco antes, mas o comércio decide essas coisas, e a Prefeitura de Campinas pôs, antes desse novo feriadão, enfeites feitos de fundos de garrafas PET, muito bonitos, vermelhos e brancos, estrelas, bolas e guirlandas que resplandecem de luz, à noite. Minha vizinha, que tem um menininho, já pôs os enfeites dela.
Hoje de manhã, ouvi a vozinha feliz do Lucas, mostrando pro pai os enfeites. Resolvi adiantar a coisa, e deixar o Lucas feliz quando ele voltasse do seu passeio. Coloquei minha bota de feltro com um Papai Noel fofo, e está aberto o Advento no clã da panda Vermeersch.
Aliás, fui assistir o Tropa de Elite, quero escrever um post, bem como vi com o Celo os 300 de Esparta ( fim de semana bélico, vamos dizer). Eu estou lutando como Leônidas e o capitão Nascimento, juntos, pra dar fim no Índice infernal do Luiz, mas tá difícil, e fiz meus sequilhos mas eles cresceram demais, dessa vez, ficaram bons mas tinha pouco polvilho. Não há de ser nada, o Natal vem aí.

Monday, November 12, 2007

Os doze trabalhos de Hércules


Estou me sentindo uma pequena panda Hércules. Explico.



Quarta passada, sexta, sábado, hoje, amanhã e quarta, dou aulas. De Bernini a Volpi, de um tudo que vocês possam imaginar. Quis dar uma mão pros meninos do primeiro ano, mais perdidos do que cego em tiroteio, e marquei dois horários de reposição, à noite. Vai ser trash, porque, enquanto isso...



O Luiz, meu ex-orientador e mestre jedi de plantão, deu uma de rei Eristeu: me pediu, de uma semana pra outra, o Índice Onomástico ( de nomes, dã) de um livro sobre tradição clássica, que sai pela Editora da Unicamp. Só que, detalhe, o livro tem 350 páginas de ensaios dos mais variados assuntos, da escultura de Pérgamoà Galeria dos Mapas do Vaticano, passando pela Virgem dos Rochedos do Leonardo e do Cupido perdido de Michelangelo. Ou seja... depois de dias e noites, derrubei mais de 600 nomes citados no livro, e não estou no fim e tudo isso não está conferido, minuciosamente, na busca do Adobe ( o livro tá num pdf) e nem em ordem alfabética. E é pra quarta.


E no meio disso, problemas e problemas mas uma luz surgiu e uma data, em dezembro, apareceu para a defesa da maledetta, já pronta pra vir, só faltam alguns dos disegni do tio barrilzinho pra escanear, imprimir, xerocar e pôr no SEDEX. Emails, telefonemas, mas no banho, digamos, romano, que me dei o direito hoje ( com óleos e tudo mais) eu vi a felicidade de ser uma heroína, digna de umas folhas de louro e de ter o meu amadíssimo Hércules Farnese perto do meu coração.
Acima, o próuprio, do Museu Arqueológico de Nápoles, onde passei mal de fraqueza...

Wednesday, November 07, 2007

Das possibilidades dos meus estudos





Andei deprimida de verdade, nau à deriva. Na segunda-feira, cansada de sofrer, fui à Unicamp tentar fazer alguma das muitas coisas que preciso fazer. Desci da condução e resolvi ir ao banheiro no prédio dos professores do IFCH. Vi, num cartazinho, um anúncio de um mini-curso, de um mês, de um professor francês, Jacques Bonnet, convidado pelo prof. Jorge Coli. O curso versa sobre nus femininos no banho, nas artes a partir do Renascimento: Susana e os Velhos, Diana e Actéon e Davi e Betsabé.
Me animei, coisa rara nos últimos tempos, pra fazer o curso. Resolvi que ia me fazer bem ouvir um pouco alguém de fora, sobre temas que me interessam tanto, e que são parte da minha tese.
Dei aula hoje, sobre o Indianismo, Monumento a Dom Pedro I na Praça Tiradentes no Rio e a Primeira Missa do Meirelles, fui no bandeijão e aportei no velho e cada vez mais combalido IFCH. Sala de Projeção lotada, velhos amigos, alegria de estar ali. O prof. Jorge ia traduzindo, o prof. Bonnet muito simpático, nada parecido com os franceses que a gente tanto teme ( acho que na verdade talvez o preconceito se deva aos parisienses, sei lá). Em vários momentos eu tive vontade de levantar e dar um abraço no Bonnet. Explico: sofri tanto no doutorado, por que muitas vezes não tinha com quem conversar sobre dificuldades metodológicas, e sobre o ofício do historiador. Com muita precisão, eu acho que o Bonnet hoje resolveu n problemas que rondavam minha cabeça, desde que abracei o capeta e minha pobre alma nunca mais saiu do século XV.

Simplesmente a abordagem do Bonnet, por ser mais ampla, permitiu a ele fazer um estudo "trans-histórico" das iconografias. Trocando em miúdos: como a pobre panda, ele começa no século IV d.C e vai indo, procurando de moeda a túmulo, passando por capitel de igreja, iluminura, os lindos cassoni ( os baús de madeira decorados nos quais as noivas florentinas guardavam seus enxovais), afrescos, vários tipos de materias figurativos, de várias épocas e lugares, que atestam a persistência, por vinte séculos, de temas da Bíblia e da mitologia greco-romana.
Esse tipo de percuso, numa era da super especialização acadêmica, é ridicularizado e muitas vezes posto de escanteio ( só eu sei o que eu sofri com as minhas 250 imagens, meus tantos Virgílios), porque desde sempre a maior parte da historiografia prefere o texto ( que pode mentir, enquanto a imagem, no seu silêncio, guarda seu enigma), e relega a imagem ao papel de mera ilustração mecânica, ou prefere estudar o contexto social, político, econômico, mas não a obra em si. Enfim, acho que o Bonnet veio falar do seu livro favorito e passar um tempo descansando no Brasil, podem-se fazer críticas ao seu discurso, mas pra mim ele foi um presente e tanto nesse final do meu doutorado.

Acima, Susana e os velhos, de Aert van Ort, 1520-25. Vidro trabalhado, diâmetro 24 cm. Nova York: Metropolitan Museum of Art.

Tuesday, November 06, 2007

A sopa do duende

Hoje acordei com cólica, triste, cansada, mil coisas pra fazer, chuva,frio. Escrevi pra uma amiga querida, longe, deitei de novo, atendi outro amigo fofo em São Paulo, daí resolvi sair pro meu tradicional passeio no centro da cidade.
Fui, na chuva fina, andando bem devagarinho, pensando na vida. Passei por trás do edifício Itatiaia, numa ruazinha que nunca havia passado, subi a César Bierrenbach e na altura do Largo do Carmo, quase em frente o monumento túmulo do Carlos Gomes, senti a minha tristeza de hoje. Eram três da tarde, eu tava com fome, com a cabeça embaralhada. Fui no chinês vagaba da Barão de Jaguara, ninguém no restaurante, só o povo de lá comendo. Comi um pouco, entornei uma Coca Light pra ver se animava, e resolvi entrar na Tecnart, na outra esquina.
Vi alguns livros na vitrine que me chamaram a atenção, um deles, um livro de receitas da Márcia Frazão. Márcia Frazão vive na serra fluminense, e já andou escrevendo sobre o que o povo chama bruxaria, feitiçaria, essas coisas. É uma figura simpática na mídia, ensinando chá pra diminuir cólica, tempero pra pão integral, coisas muito simples mas que funcionam, nada de voar em vassouras nem de ir contra as leis da tal ciência moderna.
O livro é uma graça. Ela conta a história da amizade que teve com uma velha senhora francesa, quando, dura de tudo, mudou pra serra com o marido e os filhos, trotskista e filósofa de formação. A tal senhorinha, sobrevivente da Segunda Guerra, cozinhava muito bem, coisas simples, de culinária doméstica francesa, como pain perdu ( fatia de pão velho, passada no ovo batido com baunilha e leite, e frita na manteiga- a nossa rabanada, sem o vinho no caso). Márcia conta da receita de bolo de chocolate com queijo que aprendeu da senhora, e dos tempos difíceis, de penúria e falta de recursos, e da morte da Jacqueline, a velhinha fofa que amava alecrim.
Eu fiquei com vontade de chorar. Primeiro, porque saquei que andei tão mal nos últimos dias que nem cozinhar cozinhei. Fiquei com vontade de comprar o livro, nem é tão caro, mas nem dinheiro pra isso tenho. Segundo, porque senti falta de amigos que tão longe, e de outros que não vão voltar mais mesmo, pelo menos nessa encadernação. A velhinha fofa francesa, sempre dura porque inventou, segundo Márcia, um método infalível de ensinar francês pros alunos dela, que aprendiam e iam pra França, dizia que em toda cozinha existem duendes, que cuidam das coisas e que dão a idéia pras pessoas do que cozinharem.
Saí da livraria e fui nas lojas de 1,99 da mesma Barão de Jaguara, comprar uns brincos e um chinelo chinês peruíssimo, que vou usar por aí na minha habitual falta de noção fashion. Passei pelo mercado, e nenhuma inspiração culinária me ocorreu.
Cheguei em casa, afazeres profissionais me ocuparam. De repente, fui pra cozinha e o duende me deu a idéia: minha mãe tinha me dado uma bandeijinha de abóbora kabochan ralada, me dizendo faça uma sopa. Peguei a kabochan, leite e comecei a cozinhar. Só tinha a kabochan e umas batatas, e metade de uma cebola. Cozinhei as batatas na pressão. O creme da kabochan começou a cheirar bem, e eu pensei, vou pôr pedaços das batatas, gengibre, pimenta do reino, e salgar com shoyo. Então ficou assim a sopa do duende, boa demais pra me curar da minha tristeza e das minhas preocupações e da minha cólica.

Sunday, November 04, 2007

Show! Show! Show!


E eu comecei a ler, de forma irresponsável, the old William. Peguei na estante um pequeno volume, vermelho, com três das tragédias, Romeu e Julieta, Macbeth e outra que agora esqueço.
Toda hora me pego lendo, no voluminho vermelho, coisas que me levam a mundos e mundos. O bom dos gigantes é isso: segundo um velho preceito, um anão nos ombros de um gigante vê toda a superfície do planeta. E gigante que é gigante é generoso, desce até o pequeno anãozinho ignorante e mané.

Um dos discursos de Frei Lorenzo, o confidente e conselheiro dos desventurados amantes de Verona, é uma linda reflexão sobre como as nossas partes podem entrar em conflito, e com isso, nos fazer sofrer (o coração, a mente, a vontade). Mas o que mais me prendeu foi o Ato IV, Cena I, de Macbeth. O rei vai até a caverna das três Bruxas, e pede que elas mostrem o oculto através de seus mestres, fantasmas, espectros que revelam a vitória sangrenta de Macbeth, mas também seu declínio irreversível. Na tradução em português, a hora dramática em que as três feiticeiras clamam pela aparição das almas de oito reis, sendo o último o assassinado Banquo, em que elas berram "Show! Show! Show!", ficou "Pantomina! Pantomina".


Corri no Google e descobri na Wikipédia que "pantomine" é muito posterior a Shakespeare, pra minha desilusão, que fiquei no carro cantando "Lady Lady Lady", do Joe Esposito, trilha sonora do Flashdance, que tem pantomine na letra. A idéia de pantomine como espetáculo teatral, segundo a sempre irresponsável Wikipédia, surgiu em inglês no século XIX. Tem um filme lindo sobre o teatro de massas na Inglaterra vitoriana, chamado Topsy Turvy.


Achei versões on line do original, e as bruxas clamam "Show, Show, Show". Fiquei pensando que seria melhor no caso "Espetáculo, Espetáculo". De qualquer forma, parece que as feiticeiras promovem uma peça dentro da peça, reforçando o caratér solene do momento em que as oito aparições reais, culminadas por Banquo, mostram a Macbeth o caráter provisório da autoridade, ou como diz o texto explicitamente, da soberania dos monarcas.
Acima, Banquo, Macbeth e as três bruxas, do Füssli, cena do Ato I, onde os dois sabem pelas feiticeiras que Macbeth será rei, mas a linhagem de Banquo predominará. Em política, não adianta se pensar só no bel prazer e na satisfação imediata: Macbeth mata o amigo Banquo, o rei Duncan, mas se torna um rei odiado e presa fácil da corte que desconfia de seus horrendos crimes. Lady Macbeth pira de angústia, de culpa. No caso, o trágico é que Shakespeare aponta que no interior do culpado surge sua desgraça, mas não há no mundo nenhum mecanismo humano ou divino de justiça verdadeira. A se refletir sobre isso, mais e mais e mais.

Thursday, November 01, 2007

TV Panda

-Não consigo marcar minha defesa. Problemas de calendário e de composição da banca. Eita maleita...


-Meu dente caiu de novo, ontem, depois que vi o povo do mal, vulgo cordão da bola preta, sem querer no IFCH. Arreda vodu!
-Fui louca o suficiente pra passar roupa nesse calor de Alalaô. Quase morri na terceira blusa e deixei tudo sem passar mesmo.
-Tem gente querida longe. Mas tem gente querida perto. E tudo, nessa semana, foi contornável. E ainda tive momentos deliciosos. E dá-lhe Grace Jones, La Vie en Rose. Sou uma senhora de 30 anos. E isso é tão bom, tão bom, tão gostoso.

Tuesday, October 30, 2007

Recomeçar

Ontem, foi a última sessão de terapia, no SAPPE.


Eu sabia que ia acabar, porque a duração era enquanto eu escrevesse e terminasse a tese. Então acabou, numa sessão maravilhosa. Elogiei muito o pessoal do SAPPE. Sem esse apoio, teria sido difícil pra mim terminar o trabalho, sem me estropiar tanto. Porque pra mim a coisa se resume no seguinte: quero viver, quero fazer e acontecer ,mas sem estropiar. Eu me torturava muito, e pra quê? Dava atenção demais aos outros. Eu venho nesse processo de fechar portas e janelas. Não acho ruim. Não dá pra se doar a todos, e eu andei me doando demais a quem não merecia, inclusive aqui e por intermédio do Meio. Mas águas passadas não rodam moinhos, e eu quero viver na aldeia dos moinhos, do último episódio do Sonhos, do Kurosawa.
Mas foi um recomeço também, cuidei da minha casa com carinho e vigor, falei com dois amigos amados e que estão longe no msn, fiz uma omelete que ficou divina e hoje eu passo minhas roupas. Sem rancores, nem ressentimentos, só vendo as coisas rodarem,girarem lentamente, como os moinhos da terra de parte dos meus ancestrais.

Friday, October 26, 2007

Cheek to cheek

Hoje eu acordei chateada pra variar. A universidade me deixa doente. Essa semana eu tive que permanecer mais do que o usual dos últimos tempos na cidadela zeferinítica. Daí eu fico com surtos de pânico, porque os últimos anos foram difíceis demais. Muito trauma pra uma panda só. Na minha terapia, discuti o fato de que preciso sair da Unipunk por uns tempos. Será bom. Todos os meus projetos a curto, médio e longo prazo não tem Unipunk no horizonte. Pela primeira vez em treze anos, dá um vazio e uma sensação de derrota, que eu sei, são ilusórias.
Na semana seguinte que entreguei minha tese, recomecei a dar aulas no velho canavial. Hoje por exemplo era a aula de Bernini escultor, que ficou da semana passada porque troquei os horários. Enrolei, e cheguei em cima da pinta, Begin the Beguine no i-pod, Ella é tão delicada.
Daí notei que tinha, no caminho, cantado junto com o Frank Cheek to cheek. Tão bom ouvir essas coisas. E me dei conta que já sou uma pessoa diferente de anos atrás, quando eu só ouvia rock e mpb, agora o jazz entrou na minha dieta. Em leve minueto, como escreveu Clarice, entrei no IA com Ella e Frank, que saudade de Chicago, que saudade de tanta coisa, e tanta coisa ainda boa por vir.

Wednesday, October 24, 2007

Tic Tic Tac do meu coração

Meu coração já bate diferente, dando o sinal do fim da mocidade.


Andei puta, porque vou receber 450 reais pra dar duas disciplinas na graduação, na Unipunk, ops, Unicamp. Andei puta porque neguinho me pagou a meia no cursinho. Mas tudo isso é problema velho, eu já tô ficando de saco cheio dessa minha vida de panda biscateira da História da Arte.
Ontem e hoje, pelo menos, dei sorte em algumas coisas. Dei sorte porque assisti Sonhos, do Kurosawa, e tive uma experiência do belo, total, uma entrega à quietude da contemplação. Fiquei tão feliz, porque num final de tarde assisti a um filme, no sossego do meu lar, deitadinha no colchão aqui do escritório. Fazia um ano que não parava pra assistir a um filme assim, o último foi Garota de Rosa Schocking na tevê.
Não gosto de falar isso aqui, acho pedante, mas o fato é que tenho sempre trocentas coisas pra fazer, desde lavar roupa e limpar casa até estabelecer hipóteses historiográficas pra uns quinze assuntos. Acho que passar roupa é pior que escrever artigo, mas enfim, os dois consomem o pouco fosfato da minha pobre cabeça.
Problemas no trabalho, o velho departamento me mata, mas dei sorte porque almocei com os meninos e eles me fizeram rir que nem doida, porque se a gente não ri, só pode chorar. Post assim, dia de chuva e Carmen Miranda no i-pod.

Monday, October 22, 2007

Veneno de abelha, pomada de arnica, e muita água

Tem gente que me deixa muito triste.


Não sei, deve ser ingenuidade minha, mas tem pessoas que me põem em verdadeiros desesperos de tristeza. Não consigo suportar o que algumas pessoas fazem. A minha sorte é que tenho sempre comigo anjos de candura e riso que se apiedam da minha pobre alma e que me ajudam a atravessar o cotidiano desolado. Esse final de semana começou com uma grande tristeza, mas depois tive momentos de felicidade, principalmente com a Nina fofa que foi muito simpática com a tia panda, inclusive procurando no peito da tia leite, e no colo consolo pras cólicas. Celo, Anselmo e Táta compartilharam coisas bonitas comigo, também.
Hoje fui receber as aulas do cursinho, depois de ir no anjo-dentista dr. Cláudio; varei o Centro inteiro de Campinas, fui da Prefeitura até a Rodoviária, pelo calçadão, nesse sol de quase dezembro, e recebi metade do que esperava. Depois ainda peguei o inferno do ônibus Rodoviária- Unicamp via Baixada Santista, e cheguei e descobri que tô devendo uma nota na cantina do IFCH. Fiz as contas e tenho metade do que preciso pra pôr meu combalido orçamento em dia. Ou seja, mais panda-Rambo, pondo a fita na cabecinha e ááááááá....
E a tristeza com certas criaturas, do mal e/ou fracas o suficiente pra ouvirem o chamado do lado negro da Força, resolvi curar com veneno de abelha. Explico: Michel me disse que pra sinusite o bom é creme de veneno de abelha, que uma apicultura premiada aqui de Campinas vende. Eu li faz tempo que todos os derivados da apicultura são bons anti-inflamatórios. Semana passada, não dormi um dia devido à dor de dente: fui no dr. Cláudio e era a minha crônica, clássica, surreal sinusite, que pra mim sempre tá ligada a essa tristeza. A apicultura fica perto do dr. Cláudio; saí de lá e escalei o morrinho da Barreto Leme, pra comprar o tal creme. Passei nos seios da face e na testa, e na hora senti um alívio muito grande.
Ainda vi armarinhos e sugeri à uma senhora de um deles a confecção de uma sacola para trabalhos manuais, com estojos pra linahs e agulhas dentro, de tecido de florzinha ( eu adoro florzinhas nas estampas)... e veneno de abelha, recomendo à todos com problemas de inflamação e de tristeza generalizada.

Saturday, October 20, 2007

L'occhio abbracia la bellezza


Esses tempos, tenho travado conversas fundamentais pelo... msn. É incrível como uma joça que, na maior parte das vezes, serve pra perder tempo ou piorar neuroses ( o clássico "ele/a me bloqueou! Que farei?" ou "vou bloquear esse/a filha/o da puta") tá me servindo pra me compreender melhor, graças às pequenas pandas mestres jedi Danis.


De surtos com eventualidades do cotidiano até verdadeiras confissões d'alma, eu e Danis estamos num processo, eu diria, terapêutico no melhor sentido do termo. Ontem, por exemplo, uma conversa com elas detonou uma das maiores reflexões que eu já fiz sobre eu mesma.



Eu saquei, de uma vez por todas, que, como diria messer Leonardo da Vinci, meu olho abraça a beleza, e não larga mais. Eu preciso de beleza. Tenho uma visão de espaço urbano renascentista: bela cidade, belos pensamentos. Quando o lugar é feio, tacanho, eu vejo essa beleza nas pessoas. Eu crio grandiosidades, Duomos de Brunelleschi de sentimentos, de sonhos. O problema é que, por não ter consciência disso, eu queria construir Campos dei Miracoli, como os de Pisa ( um pedaço aí dele em cima, foto tirada de quando tirei uma soneca no gramado do Batistério), em meio a canaviais, que também tem sua beleza. Existe o belo no feio, no mesquinho, no submundo da histeria, da neurose, nas valas dos condenados pelas penas mais horrendas.
O problema é que sou míope e também tenho minha neurose, o que sempre acarreta uma restrição do olhar. E vivi muito tempo sozinha com essa característica. Acho que escolhi ser professora de História da Arte pra pôr pra fora o incansável desejo de beleza, de alegria e de sentimento que existe em mim tão fundo, desde cedo.
Por isso que eu tive grandes amores e grandes amizades, frustadas, nos feios prédios da Unicamp ( eu tinha que pôr beleza em algum lugar: pus nas pessoas, poderia ter posto na paisagem e escrito ou desenhado algo), e São Paulo pra mim é um enigma insolúvel: lá existe o belo e o horrendo, pessoas lindas que me fazem vibrar e pessoas horríveis que me fizeram sofrer muito. Mas tenho trabalhado no sentido de ver beleza nos prédios ( tô percebendo que meu lance com a Arquitetura, com o espaço físico, é muito fundo) e nas pessoas, em diferentes escalas. Tô aprendendo, graças às Danis, a ver beleza em mim, o único lugar onde eu acreditava que isso não existia, e dar vazão às minhas utopias nos lugares corretos. E hoje acordei feliz por ter percebido tudo isso, aliviada porque minhas grandiosidades podem ser trabalhadas, vividas, compartilhadas. Ah, ia me esquecendo: em Pisa não vi tanta beleza assim nas pessoas, tomada de um amor profundo pelo Campo dei Miracoli, confirmando a tese panda suscetível à Arquitetura, paisagem e amor pelos outros.

Wednesday, October 17, 2007

Panda Quebra-Barraco

E com vocês, o funk da panda quebra-barraco! Sou feia e ainda por cima não tô na moda!


Sábado pensava em coisas tristes e terminava de fazer uma das minhas atividades favoritas, tomar banho. De repente, no meio do óleo de banho Pitanga revitalizante da Herbo Farma, presente dos bocos no meu aniversário ( comprem! É uma maravilha!), o chuveiro puft. Queimou a resistência. Que saco. Daí pensei, vou chamar seu Edmílson...
Seu Edmílson foi, durante anos, o zelador aqui do meu prédio. Além de zelador, depois das duas da tarde, ou seja, depois do expediente, seu Edmílson consertava tudo, de cano quebrado, vazamento, interfone. O problema é seu Edmílson se saiu tão bem nessas tarefas extras de faz-tudo que resolveu pedir as contas e abrir negócio próprio de faz-tudo. Ou seja, não tenho mais o homem da casa seu Edmílson, que agora anda tão ocupado que não atende mais os pedidos do prédio e dos outros prédios.
Fico feliz por seu Edmílson ter se tornado um homem de sucesso, mas e agora? Que fazer, como diria Lênin?
Daí ontem estava puta porque tem muita gente babaca no mundo e tal, e abri a geladeira, um tupperware com um resto de sopa, uma sopa que eu fiz, ficou horrível e ainda por cima estragou o resto. Puta, peguei o tupperware e entornei o restinho da sopa no vaso sanitário. Quando terminei, pensei, mas que porra eu fiz, porque o vaso, obviamente, entupiu.
Me vi, de novo, com o vaso entupido e o chuveiro queimado. Vou desconsolada trabalhar em Caronte, com sua risca azul chiquérrima. Nenem me exorta a ser uma mulher independente, comprar um alicate, a resistência, um desentupidor grandão e consertar os problemas. E hoje, eu recomecei a dar aulas no IA, substituindo o Paulo, em viagem, em dois cursos pra graduação: História da Arte 2 e História da Arte no Brasil 1. Hoje seria Debret.
Daí acordei com: uma aula sobre a Voyage Pitorèsque do Debret pra preparar em Caronte emperrado e riscado de azul, uma resistência pra trocar e um vaso sanitário pra desentupir.
Fui no Santarelli, uma loja monstro de coisas de casa aqui do lado. Comprei um bom alicate, a resistência, o desentupidor de vaso e cheguei em casa preparada pra tudo, panda num momento Rambo. Pus a fita na testa, e ááááááá....
O vaso continuou entupido, e eu troquei, sim, a resistência do chuveiro ( sim, crianças! No meio de tudo em pensava, qué isso perto de escrever uma tese sobre o tiozão narigudo mardito? E o pino da resistência entrava! Viva Dante!). Mas ano passado, numa faxina monstro, eu quebrei o cano do chuveiro. Seu Edmílson veio aqui e fez uma gambiarra, passou fita veda-rosca e o negócio, puft, caiu! Então, sim, caros leitores do Meio, o chuveiro caiu da parede, mas a resistência foi trocada!
Não dava mais tempo de fazer nada. Sentei, preparei a aula mais chulé sobre Debret que alguém viu nessa vida, e no torso de Gerião parti pra Unicamp, infringindo parte da suspensão da minha carteira de habilitação. Dei a aula. Os meninos dormiam e tal, mas a culpa não era deles. Depois fui encher o saco do crazy people na cantina do IFCH, e lá estavam Marcones e Vitão. Contei a eles minhas desventuras, e eles riam à socapa. Mulher moderna com problemas é isso aí.
Voltei pra casa com um plano maléfico. Entornei um quilo de soda cáustica no vaso ( depois de dois dias, se não fizer efeito, tacarei Diabo Verde Líquido e só em última análise peço pros negos do Santarelli virem porque são 60 pilas). E tentei enroscar o chuveiro. Nada. Fui no seu Luiz, lá eu resolvo tudo, pensei acertadamente eu.
Seu Luiz é dono do Frangos Ilimitados ( ou algo assim) aqui na esquina de casa. É um restaurante boteco maluquinho, que serve uma feijoada daquelas, já deu no jornal e tudo. Eles são super simpáticos, é limpinho, barato, gostoso e ainda vende tubaína, com batida de limão de grátis. Tem saladinha com molho de alho, maravilha total. Sentei pra enfrentar a feijoada e lá veio seu Luiz cheio de prosa. Falei, seu Luiz, os caras do Santarelli tão querendo me cobrar os olhos da fuça pra me enroscar um chuveiro, o senhor imagina! E ele, que absurdo, esse povo enfia a faca. E seu Luiz passa a coçar o queixo. Perguntei do Luizinho, outro faz-tudo do pedaço.
Luizinho trabalha há muitos anos na oficina do seu Hugo. Quando quebrava algo no seu Pedrão, lá vinha Luizinho, sempre em pé de guerra com o seu Hugo ( eles se odeiam mas não se desgrudam). Luiz teve leucemia e quase vira anjinho faz-tudo. Um dia, minha mãe ligou pro seu Hugo por qualquer eventualidade e veio... tchanam, Luizinho em pessoa. Minha mãe, que achava que o moço tinha morrido, achou que tava vendo assombração e teve o pior ataque de nervos da vida dela.
Pois o Luizinho, ressuscitado e tudo, agora tá brigado com dona Meire (mais um pra lista). Mas o Luizinho poderia me ajudar. Seu Luiz sensatamente observa que Luizinho também adora enfiar a faca no povo.
Veio a feijuca, beleza maravilha total, um guaranazinho diet ( meu, como sou hipócrita). E seu Luiz não se conforma, vira a rua atrás de um cavalheiro pra ajudar a senhora simpática que ama feijoada. E vem ele meio sem graça com um senhor moreno, baixinho, seu Leonel. Esse conserta e cobra 15 pilas ( meu, os caras do Santarelli cobram 40, pra vocês terem uma idéia, sem a peça inclusa).
Seu Leonel veio aqui e agora volta no final da tarde, pra consertar o cano. A resistência tá perfeita, segundo ele. E eu taquei os três quilos de soda caústica no vaso. Vejam, e sexta-feira dou aula sobre Bernini!

Tuesday, October 16, 2007

Favor não ultrapassar a linha vermelha

Andaram acontecendo coisas trash por aí, comigo e com pessoas amadinhas.


Eu já sofri muito com agressões, dos mais variados tipos. Tinha uma época que a panda vivia que nem preso chinês, ou seja. Saí dessa pra melhor, na linha Gandhi do pacifismo ativo ( "eu não revido e não te bato, mas enfio o dedo no seu olho e saio correndo"). Mas desse período nas trevas, eu saí com um pavor completo, total, absoluto, de todo e qualquer tipo de agressão, de todo e qualquer tipo de invasão de privacidade, de falta de delicadeza, de falta de de noção. Xingar, bater, seguir, humilhar, dar barraco, ler email dos outros, revirar gaveta, celular, carteira, tirar sarro de maldade, falar mal, difamar, desconsiderar o outro, são atitudes completamente injustificadas e idiotas. Quem bate, xinga, humilha, perde a razão que pensa ter ( se chegou nesse ponto da agressão, o cara nem razão tem, mas vamos fingir que tivesse).
Se eu pudesse, faria um Manifesto contra a Babaquice. Porque tem muito babaca por aí, pelo amor de Deus.

Friday, October 12, 2007

Tapioca é de Deus

E eu entreguei a tese pro meu orientador. Acabei. Pois é.

Imprimi a maledetta, tirei uma cópia, e encadernei. Enquanto rolava o processo, no xerox do IEL, chega uma moça que procurava a tradução do Manuel Odorico Mendes pro Virgílio, o famoso Virgílio Brazileiro. E o tomo do meu lado, na estante, enquanto minha mente emperrada nas paragens do reino de Lúcifer só esboçou uma reação: peguei o volume e entreguei pra moça.
Fiquei exausta essa semana. Terminei minha tese, e chegou a notícia do falecimento do meu tio. Os projetos pós-tese começaram a pipocar por conta própria, exigindo resoluções. Fiquei misturada, como dizia minha afilhada Camila, e veio um Mar Vermelho, de nervoso mesmo. Fraquinha, nesse calor desértico, terminei a saga da dupla sertaneja tiozão narigudo- tiozinho barrilzinho, ao menos por enquanto.
Daí hoje dormi, dormi horrores, e pretendo continuar hibernando, e fui ao shops com Nenem e Celo, ver vitrines e me descabelar diante dos lançamentos da Renner. Juntei uma braçada de roupa pra experimentar, mas não deu tempo, o povo tava nelvoso. Comi bem, e lá estava uma barraquinha de tapioca, lotada de gente.
Tapioca eu comia nos velhos Campos dos Goytacazes, norte do estado do Rio, na casa de minha avó materna, dona Maria da Conceição, com manteiga. Era bom. Mas nunca mais comi tapioca, nem lembro quando foi a última vez que fui a Campos. A tapioca vinha num saquinho plástico, já fria. Mas eu cheguei a ver aqui perto do Terminal Central de Campinas as frigideirinhas e um amigo se declarou entusiasta da tapioca quentinha, com queijo de coalho.
Hoje Celo deu a idéia e pediu uma, com recheio de banana, um pouquinho de leite condensado e canela. Não agüentei e comi uma com morango. Sei que deve ser sacrilégio pôr na tapioca frango com catupiry, morango, essas coisas de paulista. Tinha uma comunidade no Orkut muito engraçadinha, "Comida azul não é de Deus". Gente, tapioca, tapioca é, sim, de Deus.
E do lado do xerox do IEL tinha aula de forró. E a tapioca me deixou numa vibe que me fez lembrar de 1999, eu na Cooperativa com minhas amigas Dani e Camille, que hoje moram no Velho Continente. Era o início da onda do chamado forró universitário, o salão cheio de senhores nordestinos que ensinavam as paulistas a dançarem aqueles negócios tão deliciosos. Até a panda, sempre dura e desajeitada, sofrendo de falta gravíssima de coordenação motora desde a mais tenra infância, ensaiava passos nos xotes. O Trio Virgulino animava a moçada; eram simpaticíssimos, virtuoses, e hoje são o trio mais famoso das paradas do velho for all.
Eu adorava "Forró & Paixão", tão singela e doce, como tapioca. Depois a Cooperativa lotou de patricinhas e mauricinhos, os senhores professores sumiram, a coisa ficou esquisita e um clima de pegação daqueles dos piores se instalou. Nada contra pegação, acho até que tinha que ter uma lei obrigando o povo a se pegar, mas uma coisa é aquele clima bacana de safadeza e ingenuidade, outra coisa é o automático vamos nos catar.
Me deu saudade da música, quando tocava eu lembro que pensava, eu quero um amor. Não tinha tanta clareza, como hoje, que é a simplicidade que a gente, de fato, precisa buscar. Era muito atormentada e muito jovem. Hoje tudo é bem, bem mais simples, como tapioca, como dançar agarrado, gostoso.
http://www.triovirgulino.com.br/, tem na seção MP3 a "Forró & Paixão" pra baixar.

Wednesday, October 10, 2007

Segura, peão

Essas semanas tem sido respirar fundo, sentar e trabalhar. Respirar fundo, sentar e trabalhar. De novo, repitam comigo, respirar fundo...

Lá na terapia falei da necessidade de construção. Do quanto Eros, a força da vida, pra mim está relacionado com a rotina que transcorre sem grandes problemas, da calma e da clareza diante dos enroscos próprios e alheios, de eu não ser ambivalente e não cair no jogo neurótico dos outros. Estou desarmada e calma, pacificada e discretamente feliz. Não trago pedras nas mãos. Não pressuponho mais. Não interrogo motivos que não existem, ou que se existem, não me dizem respeito. Mágoas, eu tenho, ressentimento, raiva, eu sinto, mas prefiro canalizar em outras coisas, em fazer disso um trampolim pra saltos ornamentais. Estou distraída mas não distante, andando devagar, pensando no que eu quero com tanta força que mesmo momentos tristes ficam com sua beleza, modesta porque o que eu quero está longe, mas uma beleza que não é desprezível.
O ruim é segurar as rédeas e entrar no rodeio da defesa. Essa semana, tirei pros últimos preparativos da tese, para imprimir o exemplar do meu orientador e começar a correr atrás da data, formulários, e etcs. Aqui no IEL tudo fica a cargo do aluno, e hoje me informei dos procedimentos todos. Uma pasta de formulários e eu respirei fundo, mais uma vez e...
Tapo os últimos buracos da maledetta com uma dor indizível. Não pude fazer nem um terço do que me propus, e logicamente serei execrada pela banca. Fico bem ansiosa nesses momentos finais com o texto, decisivos, mas não tenho mais condições psicodélicas, ops, psicológicas, de vôos mais altos do que juntar parágrafos, cortar excessos, ligar de qualquer jeito pedaços. Está tudo muito desconjuntado; fico embaraçada de apresentar um resultado tão medíocre pra uma banca de estrelas da minha área. Enfim, fiz o que pude. Mas não estou no final de nada, o meu coração bate constante, a vida é constante, tudo está bem e assim fica, mesmo.

Tuesday, October 09, 2007

Saudades, tio!

Hoje fiquei sabendo do falecimento de meu tio Arthur.


Esse post, então, é uma despedida da sua sobrinha Paula. Eu compartilhava com você o nome; penso que talvez meu pai lembrou longinquamente do irmão que gostava mais dele quando me batizou Paula, porque depois de Arthur, nome do nosso avô holandês, você tinha o Paulo. E talvez essa lembrança me faça mais presente de você, hoje.

Vai em paz, tio. Sua sobrinha andou sentindo tanta falta dos Vermeersch, até na igreja do Cambuci foi, e agora sei que foi um pressentimento do seu falecimento. O senhor faleceu na sua casa, na velha Campos dos Goytacazes. Faleceu em casa, talvez o sonho de todos nós seja esse, na sua casa, comprada com tanto sacrifício, depois de anos e anos de esforço, parabéns, meu tio. Deixou algo pros irmãos, pros sobrinhos, o senhor que não teve filhos, que sofreu anos com uma doença terrível.
Mas me lembro de seu carinho, de seu afeto, das sessões do projetor antigo de cinema, onde assistíamos filmes de Chaplin, seus favoritos. Do senhor levo uma lembrança afetuosa. Meu pai faleceu, o senhor não veio; não se sentiu bem, me disseram. Mas gostaria que o senhor soubesse que, na tese que agora defendo na Unicamp, seu nome, o do vô, da vó, do meu pai e até de tio Salvador que não conheci, estão do lado do meu, agora doutora, doutora Paula Vermeersch. E com orgulho compartilho do sobrenome de vocês, vocês que tanto me amaram em criança e que estão comigo, no meu coração, para onde eu for.

Monday, October 08, 2007

A inteira combinação cósmica renovada

Hoje eu acordei cedo, e como diria Leminski, azul, tive uma idéia clara. Vou escrever no Meio.


Eu andei tão absorvida por processos kármicos, como bem diz a fofa Evelyne, que não reparei a falta de escrever esse bróugui amalucado aqui. Processo kármico é aquele que você enfrenta quando o indivíduo te pentelha/ enche o saco/ te ama mas te odeia/ te odeia só/ te ama só/ não sente nada por você e você precisa por razões sentimentais/ profissionais/ políticas/ metafísicas conviver. Difícil viver, como bem diria Sartre, o inferno são os outros, principalmente quando resolvem cair nas suas valas internas.
Isso me lembra a história que o João contou na sexta-feira, no almoço. Diz que Sartre visitava Araraquara a convite de Fausto Castilho, que mais pra frente fundaria o glorioso Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade de Campinas, vulgo ifíchi. Ao mesmo tempo o Santos jogava com o time da cidade, o Araraquarense. Sartre foi jantar num restaurante da cidade, e juntou-se um burburinho à porta do estabelecimento. Um cidadão chega e perguntou pro povo se o Pelé estava jantando, e disseram que não, que era o Sartre. E o cara lascou a dúvida, mas em que posição esse cara joga?
Voltando à cold cow. Hoje tive um dia atrapalhado mas produtivo, e acho que contribui a "limpeza de chaminé" no Meio, como dizia a histérica Anna O. para o dr. Breuer, no clássico caso que inspirou dr. Freud a pirar o cabeção e dizer em alto e bom som que histeria masculina existe ( histeria- hysterós, útero, mal do útero, como homem tem mal de útero? Segundo Freud tem). No caso minha coisa seria facilmente diagnosticada pelos drs. Freud e Breuer; pelo menos tenho a esperança de, no final, não me tornar uma megera indomada como tanta/os por aí.
E eu abri o volume em italiano dos textos de Hermes Trimegisto e lá está: "O divino é, portanto, a inteira combinação cósmica renovada: no divino, de fato, a natureza torna-se estável".

Come to the dark side, my son

Outro dia eu tava no ponto de ônibus e um senhor varria a terra, jogando o pó com eficiência pra cima do pessoal no ponto. Uma moça bonita, que depois conversou comigo o caminho inteiro pra Unicamp, começou a rir e disse de forma sacana, Jesus, apaga a luz pra eu não ver isso.


Pois a semana passada foi a semana "Jesus, apaga a luz". Espantos de todas as espécies. Eu sumi do Meio simplesmente porque tive que deixar de usar meu sabre de luz de manhã, pra cortar e ao mesmo tempo torrar pão, pra coisas mais bélicas. De todos os padawan e mestres menores da Academia dos Cavaleiros Jedi, Panda Kenobi sempre se destacou por utilizar a Força para fins lúdicos, culinários e, como se diz em ítalo-paulistano, divertentes. Mas semana passada tive, como mestre Yoda no último filme da série ( terceiro da primeira trilogia) pegar meu sabre e dar num crazy people aí.
Depois de muitos debates na Praça é Nossa virtual, ops, msn, com Dani Mônica diretamente das Alagoas e Dani Nenem diretamente do Cambuí, cheguei à conclusão que a terapia no SAPPE surtiu um efeito benéfico.
Todos nós temos nossa ambivalência: a gente ama e odeia ao mesmo tempo. Temos atitudes escrotas com quem mais gostamos, achamos que a intimidade é o canal das patadas e que quem nos ama precisa nos aceitar como somos ( leia-se, com todas as nossas manias, defeitos e agressividades latentes e declaradas). Nem nos passa pela cabeça que os outros são os outros, a fusão amorosa precisa, na nossa fantasia, ser total, simbiótica e meio maluca. Tudo bem, isso no plano da fantasia é ótimo. Mas justamente uma das tarefas do processo de individuação, segundo minhas parcas leituras, minha experiência e minhas terapias e análises, é diminuir o mais possível a ambivalência. Reconhecer a agressividade e canalizá-la, tematizá-la, vivê-la de uma forma mais saudável.
O problema é quando neguinho resolve do nada ser ambivalente com você, não te explicar o motivo e te causar aborrecimento, quando você tá no meio de sua jornada padawan, aprendendo a tirar naves do pântano, ficar amigo do Chewbacca e de quebra destruir a Estrela da Morte com sua intuição. Daí você, pequeno Skywalker, se vê diante de um Darth Vader que quer te estrangular, mas ao mesmo tempo é seu pai. Um homem que não é mais homem, uma máquina de destruir, mas que ao mesmo tempo foi o mais brilhante da Academia Jedi ( e que destruiu sem dó nem piedade essa mesma academia). Sabemos, porque vimos trilhões de vezes O Retorno de Jedi, que Darth Vader, ops, Anakin Skywalker, só ouviu o lado bom da Força no finalzinho, salvando Luke na hora H e deixando enquanto isso que os psicopatas da fofura ( sim, isso existe) Ewoks ferrassem com as tropas do império com sua meiguice e catapultas assassinas.
O que é triste é que tem muito Darth Vader por aí que não ouve o chamado bom da Força nem no final, deixando a cargo do Luke sua própria salvação, e dos Ewoks, a salvação da galáxia. Pior é quando o pequeno/pequena padawan, incauto, cai no dark side e entra na onda. Exemplo básico: neguinho combina com você e fura. O pequeno padawan fica vermelho de raiva e imagina milhões de coisas, sofre, vai no blog, torra a paciência da lista inteira do msn, sofre mais, estabelece hipóteses, todas baseadas em generalizações completamente furadas ( o clássico para as padawans-meninas: "Os homens têm medo de mulher inteligente", "Ninguém aguenta minha sinceridade, meu charme, minha autenticidade, piriri pororó").
Ó cara ou caro padawan, se alguém foi ambivalente com você, pense, isso acontece e a pessoa vai se arrepender. E volte seu olhar pras suas atividades na academia. Semana passada eu tive umas 15 ocasiões em que foram muito ambivalentes comigo. Passei por isso com o jeito tranqüilo de quem, sim, está do lado certo da Força ( só quero amar, como dizia Tim Maia).

Wednesday, October 03, 2007

Frases descabidas

-Só se permanece si mesmo quem muito sofre.


-Zica por zica, melhor as minhas.


-Dê-me uma razão para chorar e lhe darei cem razões para beber.


-De grão em grão é que se enche o saco.