Monday, April 30, 2007

Faça o teste: você é panda?

Na comunidade "Eu sou Panda", da qual eu participo, uma menina fez o teste panda:
"O que mais é panda?
Pandas:
1 - Têm "olheiras"
2 - São fofos
3 - São branquelos
4 - São anti-sociais
5 - Parecem meiguinhos mas podem te matar com uma patada
6 - São meio devagar
7 - São uma nulidade quando o assunto é sexo
8 - Estão em extinção."
O legal é que ela mesma disse que o item 7, todo mundo pularia, na bucha. Mas eu vi no site do Terra que tá tendo um baby-boom de pandas, então pode ser que os adoráveis ursinhos de vez em quando assistam um pornozinho no DVD, sei lá!
Eu só acrescentaria: Pandas são acima do peso recomendável pela revistas Cláudia e Nova! E se pilham um doce de leite Aviação, comem tudo!

http://www.orkut.com/CommMsgs.aspx?cmm=239559&tid=2493288608363259540&start=1

Sunday, April 29, 2007

Samba da otária

Na linguagem antiga dos malandros da Lapa, eu seria uma otária. Otário, contrário de malandro. Otário é o cara que trabalha cedo, que é acolchoado no medíocre ( onde li essa linda expressão?), que não sabe usar navalha nem sambar na lama com sapato branco.
Gente simples na expressão. Agora, fora de brincadeira. Acho muita coisa esquisita e fora de moda. Por exemplo: que o tempo mostra a verdade. Mostra nada. Acho que toda boa intenção, vinda do coração, vale mais que mil projetos arquitetados na maldade e egoísmo. Algumas vezes pus desejos e vontades meus abaixo do bem de outros. Adiei satisfações. Se tem alguém na parada que vai se machucar, rezo pra me afastar. Não falo tudo que penso. Escondo muito do que sinto. E às vezes penso, no meio do meu sofrimento, que poderia ser bem pior, e me alegro com essa rematada e comprovada bobagem.
Nem sempre sigo meus impulsos. Sim, faço um monte de coisas cacete só pra agradar os outros, ou pra não ferir os sentimentos dos que eu amo. Sim, eu penso nos outros. Controlo meus impulsos de agressividade. Sou uma otária, no meio da Lapa, quarando roupa de sol a sol, enquanto a diversão, penso, está no carteado, no bar, no flerte, na maledicência. Talvez desse um sambinha, ou uma marchinha de Carnaval.

Friday, April 27, 2007

Serge Gainsbourg

Hoje finalmente esfriou, pela primeira vez no ano do Senhor de 2007.


Fiz uns bifes com saladas de batata e broto de feijão pro almoço, com farofa de raspinha. Na panela onde fritei os bifes, na manteiga Aviação, pus cebola e farinha, a farinha pode ser da sua preferência, torrada claro.


Dormi uma sesta prolongada e não fiz nada de útil, em termos tese, pareceres e tradução, pra minha vergonha. Estava um pouco deprimida, porque ontem tentei ir num analista. O cara me falou coisas super foda, e quer me cobrar o olho da fuça. Saí de lá me sentindo muito pior do que entrei, chorei o dia todo e só ontem à noite, no meio da insônia de sempre, lendo uns trechos do Freud, me toquei que o cara não me entendeu em nada.
Mas esfriou. No final da tarde, fui à padaria e lá estavam todos felizes, clientes e atendentes, porque o padeiro tinha soltado pasteizinhos, fritos numa alegria pelo pessoal do balcão. Comprei petit-fours, bons pro English Breakfast da Ahmad, e fiquei procurando a discografia do Gainsbourg pra baixar. Esfriou, mandioquinha e morango no supermercado. E é isso.

Tuesday, April 24, 2007

Musa blogueira

Do comentário do eminente Celso, sociólogo digno da Escola de Campinas, surgiu a idéia desse post.

Aliás, a musa blogueira é muito eclética. É uma música, é um filme, é um acontecimento, que vira o tal do post. Enfim, sei lá mil coisas, o momento, um lance subjetivo, morou?

Mas eu queria falar de umas expressões idiomáticas que eu e os meus queridos amigos utilizamos no nosso dia-a-dia, porque fiquei rindo do comentário do Celso do versículo abaixo: "Deus chegará e falará, perdeu preibói"!


1) "Deus disse pra mim, vai lá embaixo e arrasa": essa é do Camilo, uma pessoa modesta como se vê.

2) "que cacete!": imagine uma bonequinha em forma de menina; essa é a Jujuba, que pontua tudo com um cândido e doce "Que cacete!"; já adotei.

3) "chamar Jesus de Genésio e urubu de meu louro": confundir as bolas.

4) "dar um ninja": agarrar a pessoa amada. Sabe quando tá no embaço? Você chega lá e dá um ninja, meu filho.

5) "dar um Chuck Norris": resolver no braço. Qualquer coisa e/ou situação. Partir pra ignorância muitas vezes é saudável e necessário.

6) "ficar envorvido": o envorrrrvimento é múltiplo e variável, vai desde pessoas a cachorrinho na rua.

7) "você pra mim é problema seu", "ema, ema, ema, cada um com seus pobrema": base da nova Escola psicanalítica de Campinas, fundada por Luís Fernando.

Mandem contribuições! Canta, ó musa blogueira, as besteiras que o povo fala e tchururu pra vocês.

Monday, April 23, 2007

Desvirar

Nesses últimos dias, sinto uma coisa boa. Sabe quando a gente se machuca, e o machucado começa a cicatrizar? Quando você cuida do roxo, com pomada de arnica, repouso, e ele começa a desaparecer?
Para destruir, basta um minuto. Reconstruir ou construir demora mais. Um coração pode ser cortado em poucas palavras, mas pra voltar a bater, é necessário tempo, dedicação, dias de esforços inúteis. Tantas esperanças jogadas fora, tantas palavras doces mal compreendidas. Tantos sorrisos em direções erradas, mas tudo bem, as coisas voltam. Diz um ditado persa que quando a onda vem, a gente tem que se abaixar, pra furar; ou se pegar, tem que deixar o corpo ir até o fim. Muita areia no biquíni ou no calção, muito mico que se paga, o caldo é triste de levar, a mão fica ralada.
Tudo bem, não sofro mais por você, paciência. Passo e não perco meu tempo, me concentro em quem me faz feliz agora. Você me desculpe, a falta de sofrimento. Me desculpe eu não perder tempo com você, mas outras pessoas surgiram, outras situações, perigos mais graves que seu ressentimento, sua inveja, sua angústia. Te desejo tudo do melhor da vida, seja feliz; mesmo, sério, nesse dia azul e amarelo eu desejo isso. Aprendo, cada dia um pouquinho, a desvirar minha mágoa.

Friday, April 20, 2007

Silent pain and happiness

Eu acordei hoje destruída. Ontem e hoje vaguei pela casa, sem fazer nada de muito útil, sendo que, no final de tese, desempregada e com problemas vários ( não vou repetir porque é piada), eu tinha que estar me esmerando nas minhas atividades-panda. Mas que nada, como diria Benjor.
Falo com a Nenem no msn. Acho que é cansaço, ou início de depressão? Não sei. FAPESP, concurso, ursinho enfartado, na seqüência, e eu me sinto a Torre de Pisa de novo: diferente porém derrubada. Mas preciso daqui a pouco tomar um banho, me vestir ( o que tá sendo um problema, porque a panda está, como direi, mais redondinha ultimamente). Ontem esfolei uma camisa vermelha minha, linda, e não sei o que me fica bem nesse estado.
Que preguiça, bocejo gostoso, de robe, depois de leite gelado, pão integral e dois caquis. Meu Deus, a tese, a casa, a vida. E eu nessa preguiça Caymmi. Ontem era dia de São Expedito, e eu fiquei brava essa semana mas consegui resolver tudo. E tive momentos de uma dor lá no fundo, silenciosa, calma, e felicidade brilhante como o sol numa poça de água.

Tuesday, April 17, 2007

Emília, a boneca gente

Como bem disse Pepeu, "de uma caixa de costura/pano, linha e agulha/ nasceu uma menina valente, Emília/ a boneca gente".
Hoje acordei meio gripada. O incrível é que minha bolsa acabou, eu tenho uma tese emperrada e todos os problemas que todos já conhecem ( privada, chuveiro, carro, dente, tudo quebrado) e desempregada, reprovada em concurso pra professor substituto, e me sinto terrivelmente feliz. Vai entender.
Voltando. Com minha última grana, fui pagar o condomínio, net, e passar no Perda de Tempo pra pegar meu novo RG. Tô andando pela rua, distraída, com meu vestido do reveillón e a havaiana que cruzou Chicago, Pisa e aqui em casa, quando olho numa vitrine de um sebo de livros, e lá está ela. Com seu macacão Mondrian, um avental, e um medalhão dourado Brinquedos Estrela.
Nem precisa dizer que a Emília da Estrela era uma das minhas bonecas favoritas, junto com a Marquesa de Santos, uma boneca de pano loira e toda elegante que ganhei da minha tia e que assim foi batizada por conta da novela com a Maitê Proença, e a Mônica Larissa, um bebezão de vestido de nylon cor-de-rosa. Todas elas conviviam com Napoleão, o Snif-Snif ( um cachorrinho de pano, também da Estrela) que até hoje contempla meus livros na estante do quarto de bagunça.
Minha amiguinha, porém, foi roubada, e desde então eu procurava uma dessas Emílias. Hoje eu surtei! Ela é uma das pequenas, e agora está na sala, em lugar de honra. Tudo isso pra dizer que eu tenho 30 anos e não tenho juízo nenhum.

Monday, April 16, 2007

Oficina literário-sentimental

Quando eu fiz quinze anos, meu pai, cansado da minha indolência e tendência ao isolamento e depressão, me pegou pelos colarinhos, e me levou no posto do INSS, na rua Barreto Leme. Lá, tirei minha carteira de trabalho, e nós rodamos o centro de Campinas procurando emprego pra mim.
O único lugar que aceitava menores era o McDonald's. Duas semanas depois, me tornei funcionária da lanchonete da rede, na Norte Sul. Lá conheci muita gente boa, e um gerente filho da puta que levava as meninas no congelador e em troca de uns beijos e outras coisas geladas, botava as bonitinhas no balcão. Claro que a pequena panda, cuja tendência ao isolamento e depressão se explicava em grande parte às leituras de livros didáticos de Filosofia, com trechos de Simone de Beauvoir, Platão e Adorno, se rebelou contra isso, permanecendo no corredor da morte, o espaço retangular com as grandes cubas de óleo vegetal onde se fritam carnes do Mc Fisch e Mc Chicken, nuggets e tortas. Depois, o gerente tarado me pôs para dar as festas das crianças, quatro, cinco festas nos sábados.
No meio disso, me apaixonei, como sói acontecer com as moçoilas de quinze anos. Meu eleito era um moço esquentadíssimo, que um dia tacou a bandeija nas costas de um cliente, no estacionamento da loja. Evidente que o rapaz trocou alguns beijos com a panda, sabor sundae de morango, e depois de belas férias na praia, enquanto eu penava no corredor da morte e sonhava com o seu retorno, me ignorou solenemente. Desconsolada, escrevi os versos, com canetinha hidrocor, na agenda: "Seus olhos são grossos punhais/ são vítreos, e indecifráveis/ enigmas antigos e ancestrais/ bóiam indiferentes e distantes/ no meu mar de desejos".
Hoje, por acaso, alcancei da prateleira Poesia de Florbela Espanca. E lá estava, sob o título de Frieza: "Os teus olhos são frios como as espadas/ E claros como trágicos punhais/ Têm brilhos cortantes de metais/ E fulgores de lâminas geladas.//Vejo neles imagens retratadas/ De abandonos cruéis e desleais,/Fantásticos desejos irreais,/E todo o oiro e o sol das madrugadas!// Mas não te invejo, Amor, essa indif'erença,/ Que viver neste mundo sem amar/ É pior que ser cego de nascença!//Tu invejas a dor que vive em mim!/E quanta vez dirás a soluçar:/'Ah, quem me dera, Irmã, amar assim...!".
Fiquei tão emocionada! Detalhe, aos quinze anos eu não conhecia Florbela Espanca. Meu plágio foi involuntário. Talvez eu precisasse tanto das palavras dela, como sempre acontece com os grandes poetas, que recriei, de forma desajeitada, a primeira parte do soneto, com a força dos meus sentimentos.
O que é engraçado também é que eu cantava Adoniran enquanto fritava frango processado e montava dez sanduíches por vez ( teve um dia que uma cliente pediu o tal Mc Chicken sem maionese, e eu dei uma de Carlitos nos Tempos Modernos, perdi três fornadas de lanches porque automaticamente pegava o pistolão de maionese e lascava no pão). Depois vim a descobrir que a maior parte dos sambas do Adoniran, ele compôs caminhando, suando a camisa vendendo gravatas. E lógico, eu não tinha nenhum disco do Adoniran, pra mim os sambas dele faziam parte, vamos dizer, da História Oral. Meu pai todo dia, quando chegava em casa, arrepiava nossos cabelos com sua interpretação de Saudosa Maloca; eu enlouquecia o pessoal da cozinha com minha antológica Tiro ao Álvaro, que secretamente dedicava ao moço dos olhos-arma, nos meus momentos de descontração.
Mas da Florbela, deixo o Rústica, para vocês: "Ser a moça mais linda do povoado,/Pisar, sempre contente, o mesmo trilho,/Ver descer sobre o ninho aconchegado/A bênção do Senhor em cada filho.// Um vestido de chita bem lavado,/Cheirando a alfazema e tomilho.../- Com o luar matar a sede ao gado,/Dar às pombas o sol num grão de milho...//Ser pura como a água da cisterna,/Ter confiança numa vida eterna/ Quando descer à 'terra da verdade'...// Meu Deus, dai-me esta calma, esta pobreza!/ Dou por elas meu trono de Princesa,/ E todos os meus Reinos de Ansiedade".

Saturday, April 14, 2007

Minha bela Marília, tudo passa/ A sorte deste mundo é mal segura

Fiquei bastante triste ontem pelo concurso, mas passou. Descobri que tinha um problema político cabeludo no departamento, e que segundo fontes seguras é melhor fazer a coisa de outro jeito, em outro departamento. E ainda ganhei um convite para vir pra cá numas três atividades legais, como professora convidada, na maior badalação.
Na verdade, o concurso era meio genérico, e os convites rolaram em História da Arte, o que muito me alegrou. Veremos, mas fiquei feliz também porque mais uma vez percebi que não estou só nesse estradão. Por msn, telefone, sinal de fumaça, os velhos companheiros ficaram comigo durante todo o processo. O Juan ficava doido porque esse jeito italianado da gente levar a vida, nas terras paulistas, é meio diferente da mineirada. Enquanto o bonitinho assava pão de queijo pra mim, neguinho da cidadela de Zeferino Vaz desfiava todos os palavrões possíveis e as opiniões esdrúxulas nos quais somos especialistas. Teve gente que sugeriu, de forma cândida, que eu falasse das feministas pós-estruturalistas lacanianas; gente que mandou dizer que era pra consultar Merleau-Ponty; ou que era pra cantar um samba do Adoniran e picar a mula rumo a BH. Enfim.
A gente só percebe que a cidadela zeferinítica é algo surreal quando tomamos um ônibus qualquer e despenca por aí, sertões e outros labirintos. É claro que eu queria a aprovação, mas pra primeira vez tá bom, não é coca-cola mas é isso aê. Reforçou meus laços de afeto com os habitantes da cidadela e ainda por cima ganhei convite pra vir falar sobre Gonzaga, uma das minhas paixões mais inflamadas. Só queria dizer pra vocês que tô feliz. Hoje vou rever São Francisco de Ouro Preto, um ônibus e tô em casa, novos planos, projetos, pensei bastante, tive um monte de insights, revi Minas, fiz amigos, enfrentei questões íntimas super importantes, aprendi uma nova receita de frango, ontem usei meu vestido novo e tive vontade de dançar.

Friday, April 13, 2007

Os Argonautas do Pacífico Ocidental

Escrevo de Mariana, MG.


Vim para as Gerais, tentar um concurso de professor substituto na Federal de Ouro Preto. Aviso aos navegantes que não passei. Foi um stress, concurso sempre é, mas fiquei na casa do Juan, um anjo de menino que quer ser meu orientando... que foi um irmão pra mim. Conheci Virgínia, professora daqui, outro anjo, e isso valeu muito a pena.

Também valeu a pena ter vindo, porque eu pelo menos fiz alguma coisa, no sentido que estava me sentindo sem chão. Bolsa acaba, a tese tá no fim, e eu me sinto numa sinuca de bico, preciso ir pra frente, pra algum lugar. Tentei. A pandinha leu textos cacete, falou de Malinowski, lembrou dos tempos do Cebrap, imprimiu textos em impressora matricial, reviu a praça Minas Gerais e discutiu Mestre Ataíde. Enfim, tentei. No fundo me senti um João Bobo, sabe, levando um pouco de pancada e voltando pro mesmo lugar.
O que me consola é que preparei minha aula em cima do Malinowski, e ficar preso nas ilhas Trobriand por cinco anos não foi bolinho. Conhecimento sempre é um processo agonístico, preciso anotar pra sempre isso no meu caderninho Marco Aurélio ( o imperador gatão começa suas preleções com coisas que a gente tem que lembrar todos os dias quando acorda. Um pouco de estoicismo, com tão boa companhia, não faz mal pra ninguém).

Saturday, March 31, 2007

Ao sugo

Estou numa correria danada.
Explico: preciso entregar o último relatório pra FAPESP agora dia 10, e resolvi tentar um concurso, que será dia 12, mas nem sei se consigo me inscrever. Enquanto isso, na sala de justiça, fui tirar a segunda vida do meu RG, dei aula no IA pro primeiro ano sobre os afrescos de Giotto em Assis, cuidei da baixa na minha carteira de trabalho e entreguei as maquetes dos meus alunos do semestre passado, na PUCC( tarefa que me tomou toda uma manhã, porque as maquetes eram lindas, enormes: precisei parar o prédio, descer tudo de um jeito louco, lotar meu carro e encher a paciência de cinco funcionários da PUCC). Coisas que estavam atrasadas, enquanto outras ( o tratamento dentário, o vaso sanitário e o chuveiro quebrados, a vontade de comprar um violão e de aprender a tricotar) permanecem adiadas.
Acordo de manhã e a primeira coisa que penso, ainda dormindo, é "o que que eu tenho pra fazer hoje". Hoje, sabadão sertanejo, acordei cedo, fui tirar xerox de n coisas e zarpei rumo ao cartório da rua Barão de Jaguara. Fechado. Corri na loja central dos Correios, na Glicério ( um lindo prédio art-déco destruído por uma cor horrenda, o velho mau gosto campineiro). Depois, faxina.
Pois é. Eu que faço tudo, tudo, aqui em casa. Faxina, supermercado, banco, Perda de Tempo (ops, Poupa Tempo), pagar conta, arrumar dinheiro pra pagar as contas. Porque aqui é uma república de um, ou melhor, de uma panda só. Há dez anos, desde que saí da toca da minha panda-mãe, sou arrimo de família ( no caso, a família consiste na pequena curumim aqui). Se eu não faço, ninguém faz, por mais que Celo, amigos e dona Meire quebrem galhos imensos, ou melhor, árvores e florestas inteiras, muitas vezes. Eu tô acostumada, mas tem hora que cansa a beleza. Tipo hoje, eu preciso escrever umas linhas sobre o Tratado da Pintura, do Leonardo, mas tive que encarar um lerê-lerê básico, porque isso aqui tava uma zona.
E taca passar aspirador, lavar dois banheiros. O mais incrível é que eu gosto de fazer algumas coisas de faxina. Tipo lavar banheiro, eu ADORO lavar banheiro ( pois é, cada louco com sua mania). Lá em casa, durante muitos anos, nós não tínhamos faxineira. E aí, a gente fazia tudo, eu, minha mãe e meu irmão. Em contrapartida, eu odeio passar roupa e limpar a cozinha. Arear panela e peça de fogão é uma tortura pra mim, mas o pior é o chão da cozinha, o meu pesadelo constante.
No meio do segundo banheiro, a fome. E agora, José? Penso em descer na feirinha hippie e traçar um espetinho do japonês, mas a minha lombar começa a dar sinal de vida. Fico com saudade de anos atrás; quando tinha visita em casa, eu fazia a faxina com perfeição, descia, corria no supermercado, fazia o almoço, me arrumava, arrumava a casa, botava a mesa e até sobremesa tinha. Agora, com essa dor na coluna, não ando dois passos. Vou até a cozinha e espio o armário. No final comi farfalle no.65 da Barilla ( o famoso gravatinha) com um sugo que eu inventei.
Tinha uma lata de tomate pelado da Mastroianni, mas qualquer lata dessas serve. Tem que ser o italiano, que andou em promoção por aí, porque daí não fica ácido. Alho, manjericão, molho de carne e um pouquinho de geléia de pimentão. Isso, geléia de pimentão da Companhia das Ervas, doce, vale a pena o investimento. Queijo por cima e boa. Agora, ao chão da cozinha, depois, ao Leonardo, depois, ao nervoso com o concurso, e depois chega.

Tuesday, March 27, 2007

Leonardo da Vinci

De Chuck Norris a panda passa para messer Leonardo. Esse bróugui é uma beleza! Abalou Bangu, abalou Bangu!
Então, eu costumo dizer pros meus alunos, olha, o "Código Da Vinci" é legal, bom entretenimento ( se bem que eu achei cacete, bobo e mal escrito, mas enfim), agora esqueçam disso quando a gente estuda a obra do grande toscano. Leonardo foi genial, sem dúvida. Leonardo sabia de milhões de coisas que a gente nunca vai passar perto, isso nem se discute. Mas quando a gente estuda História da Arte, entende que falar que Jesus foi casado com Maria Madalena é fichinha perto das realizações de Leonardo.
Os seus papéis desordenados são a prova de que a mente leonardiana era um esplendor. Conta de açougue, piadas ouvidas na rua, pequenas fábulas convivem com os desenhos espetaculares e a invenção do helicóptero, da bicicleta e receitas de sopas. Giorgio Vasari, biógrafo dos artistas do Renascimento, nos conta da beleza excepcional de Leonardo, e de sua carreira como cortesão. Sim, messer Leonardo deixou de pintar e passava de corte em corte construindo catapultas, inventando danças, tocando músicas e escandalizando com suas túnicas curtas e de cores fortes. Amigo dos rapazes, Leonardo desenvolveu uma relação estranha com Salai, um de seus discípulos, e por onde passava deixava um cartão, um desenho, uma obra inacabada e consequentemente um rastro de destruição.
Eu amo com ardor o "Tratado da Pintura", compêndio de algumas anotações do mestre sobre a arte da pintura, que ele, de maneira heterodoxa e escandalosa, considerava maior que a poesia e a escultura. Agora, eu escrevo partes dos meus capítulos da tese, um trabalho cacete e horroroso, pra entregar como relatório à famigerada FAPESP. E Leonardo veio ao meu socorro, porque, como contemporâneo de messer Sandro ( os dois tinham três anos de diferença e estiveram juntos no ateliê de Andrea del Verocchio), alguma coisa poderia dizer sobre o embate entre poesia e pintura. O único artista que Leonardo cita no Tratado é justamente "o nosso Alessandro", de forma negativa: Leonardo critica o desinteresse de Botticelli pela paisagem, e diz que o pintor da Vênus afirmava que "para se fazer uma paisagem, era só molhar uma esponja com tinta e pronto". Mas é o único artista citado. E a primeira parte do Tratado, sobre o paragone ( a disputa) entre poesia e pintura... e toca citação do caso de Apeles, sendo que Alessandro foi o Apeles dos florentinos daquele tempo.
Na historiografia tradicional, século XIX, Leonardo passou como um homem do século XVI, e Botticelli, um artista um tanto quanto ultrapassado, do século XV, um homem ainda ligado ao gótico, ao decorativo e à tradição artesanal, quase nada perto da explosão de três das tartarugas-ninja ( a tríade Leonardo-Michelângelo-Rafael teria ofuscado os caminhos das gerações anteriores, incluindo Donatello. O que sempre me intrigou foi a escolha dos nomes das tartarugas-ninja....risos). Vasari contribui pra isso, porque coloca Botticelli na segunda fase da sua história das artes italianas, e Leonardo no início da terceira, com Giorgione ( um esquema bem bolado do biógrafo).
É duro ter que escrever sobre Leonardo, sendo que tanta besteira é dita sobre ele hoje em dia. Eu também vou escrever um monte de bobagem. Mas a minha idéia principal é que Botticelli e Leonardo estavam mais próximos do que usualmente se supõe.

Monday, March 26, 2007

Chuck Norris

Outro dia eu tava falando com os meninos do IA, Filipe, Mário e Vitor. Todos foram meus alunos, eu já tô no IA há tempo demais. O Vitor comentou que viu na tevê um filme com o velho Chuck Norris e o Carradine, e chorou de emoção.

O meu sonho era ser o Chuck Norris, chegar resolvendo no braço, na voadora, na porrada mesmo, o que não tá certo nesse mundo sofrido de Deus. Eu vou encher de porrada esses filhos da puta! Vou chegar no Chuck Norris! Tô de saco cheio de gente idiota, estúpida, medíocre, retardada, sem noção!
Número um. Você, pessoa nefasta que me lê. Desculpem os queridos leitores do Meio, mas tem gente nefasta nesse mundo, e por increça que parível, eles podem me ler a qualquer momento. Pra quem é querido, fofo, panda, desconsidere. Mas pra você, filho da putinha. Sim, você mesmo, que maquina tretas. Vai se fuder.
Número dois. Não pense, pessoa nefasta do quinto dos infernos do cacete da puta que te pariu, que suas ninharias, mixarias, idiotices, dramas ridículos, não são percebidos e devidamente postos na lata de lixo. Sim, todo mundo percebe o que você faz, mas é tão ridículo; todos os dias todos jogam fora sua idiotice e sua perfeita falta de sentido no mundo. Quando você nos irrita, é pelo acúmulo, é porque você já abusou da boa vontade, já passou dos limites do que a gente tolera porque sim, nós, que temos nossos defeitos mas não descontamos nossa infelicidade nos outros ( e essa é a diferença das pessoas boas e das ruins: a gente não acha que o mundo nos deve nada, a gente não desconta nada nos outros e ponto) não somos melhores nem piores que você. Somos apenas mais felizes. Morra de inveja. Isso, morra mesmo, vá pro inferno, como diria Dante.

Sunday, March 25, 2007

I'll be here where the heart is

Eu li os posts desse mês encalorado e sofrido de março de 2007. Vagando pelo Orkut, dei com a relação da trilha sonora de Flashdance e me lembrei de uma música ( tá meio Em busca do tempo perdido musical, esse bróugui). Vou falar um pouco dessa música, do filme, de mim, e penso que tudo isso faz um sentido, dentro do meu coração, no dia de hoje.
Eu amava o filme Flashdance. Lembro que minha melhor amiga, a Roberta, tinha em vídeo, e a gente assistia sem parar, na casa dela, ficando vermelhas quando as moças ficavam peladas ou eles transavam. Claro que a gente dançava que nem duas possuídas, ao som de "What a Feeling" e "I love rock'n roll". Claro que a gente não entendia patavina do que se passava, pra nós a garota do Flashdance era a irmã mais velha que a gente queria ter. Tudo da Alex, personagem da Jennifer Beals, a gente queria ter: o cabelo crespo com franja ( e isso a gente teve a bela idéia de ter, claro),o moletom cinza com decote canoa, o rebolado, a resposta pronta, a cara-de-pau de tirar o sutiã de dentro da blusa, o cachorro, a bicicleta, o trabalho de soldadora, o namorado velhão, a velhinha bailarina, as amigas birutas.
O filme foi muito criticado, pelas coisas meio inverossímeis: a diferença de idade dos dois ( ela tem 18, ele 36), o trabalho de soldadora combinado com o de dançarina, o complexo de Cinderela ( muito fácil conseguir uma audiência namorando o chefe do Porsche preto, alegaram as feministas, os machistas e tout le monde), enfim, mas virou um ícone. Eu tava pensando no filme, acho que muita crítica procede. Mas me lembrei dessa música, "I'll be here where the heart is", da Kim Carnes.
http://en.wikipedia.org/wiki/Flashdance, veja o artigo na Wikipedia.
Essa música toca quando a Alex sabe que a velhinha, sua professora, morreu, o cara deu no pé, a melhor amiga escorregou no show de patinação no gelo e foi parar numa espelunca, nua, dançando pra idiotas, o namorado da amiga, cozinheiro e que sonha em ser humorista, foi tentar a sorte impossível na Califórnia, e ela tá ferrada e mal paga. Olha, querer que um filme de Hollywood seja verossímil, é pedir que laranjeira dê banana. E a vida não é verossímil.
Justamente. Assim como a Alex era soldadora e dançarina de strip-tease, andava de bicicleta por Pittsburgh, eu muitas vezes na minha vida tive que encarar audiências de dança, e sem What a Feeling atrás. Enfim. Mas eu me lembrei dessa linda balada da Kim Carnes, outra ídola, que aparecia às vezes no Fantástico.
Essa é pra quando tudo já se esfacelou, e só resta a poeira dos dias. O aperto no coração, que era constante, virou uma dor aguda que dá no meio da noite, das noites longas de inverno, quando a gente acorda e percebe que há tanto tempo, o amor existiu, deixou de existir, o mundo girou tantas vezes que se perdeu a conta, a esperança virou um vago desejo de ver o outro, só ver, há tempos que não te vejo, a delicadeza do meu sentimento se transformou na luz amarelada do abajur, na madrugada, eu acordo e percebo que o tempo passou, mas continuo aqui, o meu coração ainda está aqui, comigo. Por incrível que pareça, porque a esperança já foi, eu não sei quanto vou te ver, tudo em mim é melancolia.
Todo esse mês, eu entendi que as memórias dos anos 80 se mesclaram aos meus sofrimentos de hoje, aos meus desvãos de sentimento. Os mapas do meu coração não me deixam perder o rumo, só me construíram e me fazem ser quem eu sou, com todas as minhas inverossimilhanças. A vida são os sonhos do meio da noite, as incertezas e as lembranças, as tristezas e as nossas glórias momentâneas.

I can't help myself

Em primeiro lugar, o Celo já está bem, em casa, e ontem até jantar japonês encarou. Fiquei super feliz de estar com ele nesse momento, com a coisinha, ops, Vanessinha, e o Lelê. A gente estava alegre, e entre sushis e refrigerantes light, comemoramos a volta do ursinho.
Porque, vamos combinar, essa semana foi uma das mais difíceis que já tive. Juro mesmo. O Celo ficou hospitalizado, da UTI saiu na quarta, e enquanto isso na sala de justiça a panda teve que encarar uma barra pesada. Se não fosse Dani Nenem, Vanessinha, Lelê, Ema, minha mãe, etcs, enfim, se não fosse a guarda montada canadense, acho que a panda teria ido parar, ela própria, no hospital.
Ontem e hoje de manhã, pensei nas trocentas coisas chatas que preciso fazer, num alívio que vocês não imaginam. Eu não queria me queixar, queria escrever pra vocês que está tudo bem, que eu vivo um dia de cada vez, que entre mortos e feridos salvaram-se todos. Até ganhei uma multa porque estacionei em lugar proibido, em plena Unicamp, e alguém bateu ou eu bati, sei lá, tá lá a lataria do Gerião amassadérrima, coisa de filme, sabe? E que eu fiz tudo o que podia, supermercado, palestra, cabelereira, ver ursinho no hostipal ( ops) e lançar livro.
Pois é, a panda começa a atacar no mercado editorial brasileiro. Escrevi textos sobre três Portinari que temos no acervo do Museu de Arte Contemporânea de Campinas José Pancetti, vulgo MACC Campinas. E esses textos foram publicados num livrinho, lançado entre amigos e colegas na sexta. Eu ainda consegui desencavar uma blusinha na Renner, que não sei como vou pagar, pra aparecer no vídeo do lançamento ( além de escritora, a panda ataca agora de VJ da MTV, uma coisa pop, entende?).
E ontem, com o Celo de volta, todo fofo e serelepe, eu pude relaxar e ouvindo "Band of Gold", do Sylvester ( trilha sonora da novela Guerra dos Sexos), me lembrei da minha vizinha fofa de Chicago. A carinha querida dela ia e voltava, e um bolinho recheado que era um crime e que eu comprava na Walgreen's, assim como uma melodia, lá do fundo da memória. Tentei cantar pro Celo, mas eu não lembrava de nada, nada, e ele rindo. Só lembrava do início da música, cuja melodia parece com a da "Band of Gold", o final do refrão, "and nobody else", daí fica difícil. Mas depois eu consegui juntar as peças, Freud explica. A minha vizinha fofonilda de Chicago me chamava de sweetheart, honey e de honey bunch. Honey bunch era o bolinho recheado, tipo uma Ana Maria mais perversa, e o refrão dessa linda sixtie song começa com "sugar pie, honey bunch"! Graças ao Carioca, da super comunidade Antena 1 RJ, taí pra vocês. 'Morning, honey bunch!

Wednesday, March 21, 2007

Celo

E o Celo, ursinho-arqueólogo-escrevedor de blog, tio do Felipe e do Murilo, companheiro da panda na estrada da vida, como amigo, colega, namorado, comentador de blog e faz-tudo geral, ficou muito, muito, muito dodói.
Foi um susto tremendo, um dos maiores da minha vida. Toda dor e angústia da semana passada, eram uma premonição, um alarme, um sinal. Agora o Marcelo vai bem, o quadro dele é estável, ele estava bem, falante ontem até, com a mesma carinha lampeira de sempre, e eu fui me cuidando da melhor maneira que pude. Eu queria pedir a vocês, queridos leitores do Meio, toda força, energia positiva, pro pronto reestabelecimento do ursinho, que ele fique bem, que cumpra seu potencial, que continue sendo aquele coração imenso, e que tenha o mesmo sorriso doce, a carinha lampeira, que volte pra casa são e salvo pra se cuidar, cuidar muito, pra encontrar a gente e continuar do nosso lado.

Saturday, March 17, 2007

Sopa de feijão com macarrão

Hoje fiz uma sopa de feijão com macarrão, no improviso. Choveu pacas em São Paulo, fomos encontrar o prof. Jorge Coli na Pinacoteca, o Jorge tava nervoso porque a exposição do Almeida Júnior, como escrevi posts atrás, está muito ruim: expografia confusa, abordagem antiquada, enfim. Era o dia de graça na Pina, milhões de pessoas, chuva, meu sapato me machucou o pé, tudo ruim, e as dores de ontem ainda no peito.

Quando estou muito angustiada, não como. Dormi no ônibus, e acordei com tesão e uma fome daquelas. Ou seja... a angústia volta outro dia. Chuva, chuva, frio, essa semana peguei chuva na quarta e passei frio, e a obturação do outro lado já dói, mais CECOM na cabeça. Vi meu casaco de lã cinza no armário, me deu vontade de levar e usar. Acabou meu dinheiro, mas hoje falei com uma amiga querida, e a sopa de feijão com macarrão deu conta do recado, refoguei bacon, cebola, alho, fiz torradinhas com azeite e orégano. Tô com um saquinho de feijão branco aí, esfriando mais, cassoulet na cabeça da galera.

Dor

Ontem, fui dar aula no IA, com Paulo e André. O André falava sobre a arquitetura de Florença, Brunelleschi e a picaretagem mais linda do mundo ( a cúpula inacreditável da Catedral) e Alberti e a robustez romana. Olhando os slides de Santa Maria del Fiore, lembrei do dia que cheguei na Toscana, com o Giovanni, vinda de Milão. Paramos em Firenze Rifredi, uma estação antes de Santa Maria Novella. E o Giovanni me falou, mas tá lá algo óbvio pra você. No meio dos morrinhos azuis tipo Minas de Guignard, a cúpula. E lembrei do dia em que tomei coragem e parti de Pisa rumo a Florença, pra descer em Santa Maria Novella, a estação fascista e feia encostada na velha igreja dominicana. Fazia frio, e tudo era muito elegante pra mim: as vitrines das lojas de grife, as pessoas, os preços nas tabelas dos restaurantes. Perdida no meio da cidade, virei uma esquina qualquer e tive um dos piores ataques de asma da minha vida, quando me deparei com a Catedral. Ouvindo o André, lembrei que não existe nenhum recuo da Catedral pra cidade, ela é grande, possante, 120 metros de altura no meio de uma cidadezinha Legoland. E como chorei, desnorteada, quando vi as portas de bronze do Batistério, que eram chamadas, por Michelângelo, as portas do paraíso.
E lembrei do que sentia e das minhas esperanças nos dourados, frios, solitários e magníficos dias toscanos. E uma dor me transpassou inteira, o corpo inteiro, a alma inteira, até os ossos. Uma dor nunca sentida antes, um acúmulo de angústia, de desesperança e tristeza. Se tudo o que eu esperava, ansiava, desejava nos meus dias na Toscana, for em vão, só me restará a dor, essa mesma dor que ficou insuportável, no meio da chuva de ontem? Saí da sala. Essa semana, tive o azar de sempre sair e dar de cara com figuras nefastas ( por exemplo, a nega que batia na mãe, minha vizinha fofa, pra roubar dinheiro, lembram dela?), e assim foi. Eu sentia uma dor funda na clavícula esquerda, e sem perceber pus a mão em cima, pressionando e andando meio de lado. Uma figura que nem é tão nefasta assim, apenas equivocada, me disse, mas que horror, que que você tem? E eu, dor.
Consegui chorar depois, consegui lembrar que sentei na Basílica de Assis e pedi a São Francisco, cuja prece, comprada numa lojinha de lá, adorna minha vista nesse instante, paz, saúde, amor, consegui me lembrar que tem gente que me ama, me lembrei que perto do túmulo do santo, muitas mães colocam almofadinhas bordadas com o nome dos bebês pedidos ou salvos pelo Poverello, e numa delas eu li, Davi. E lembro que tinha um monge alemão falando coisas que pareciam ser interessantíssimas, mas eu não entendo alemão, daí entrei numa das capelas laterais da Basílica Inferior, as dos santos padroeiros ou ligados de alguma forma à fé franciscana, e caí bem na de Maria Madalena. E me lembrei que tudo o que eu mais quero na vida é algo simples. E que eu nunca vou esquecer do dia em que quase duvidei do que me é mais caro nesse mundo.

Friday, March 16, 2007

Muro

E eu precisava dar dois, três telefonemas, marcar uns encontros, essa semana. Ontem, fiquei em casa, e aconteceu uma coisa maravilhosa, duas boas e uma ruim. A maravilhosa é que eu fui ao médico e está tudo bem comigo, tudo lindo, tudo azul. Dr. Antônio me examinou e falou que eu está tudo na mais perfeita ordem comigo. Saí do consultório, passei na Francisco Glicério, na frente da Matriz de Nossa Senhora da Conceição, nome de batismo da minha avó materna, e derramei uma lágrima por isso. Lindo, fui ao supermercado plena da mais delicada e linda vontade de viver.
As duas boas é que dois textos que eu escrevi/traduzi foram lançados, e as pessoas queridas que me arrumaram esses trampinhos lindos me contactaram, via emails que foram vistos porque limpei o Hotmail das porcarias acumuladas por três meses, pra me dizer pra buscar os livros. Aliás, na semana que vem, sexta-feira, dia 23, às 19 hs, estarei num debate sobre o Catálogo do Museu de Arte Contemporânea de Campinas, o velho e agora reestruturado MACC. No Catálogo, escrevi sobre os Portinari do acervo.
A ruim, é que bati num muro, numa impossibilidade. Era uma coisa tão simples, e eu não consegui. Era uma coisa tão boa, e virou uma tristeza, uma aflição medonha, daquelas tão fundas que no sono, some, mas no primeiro momento do despertar, vem com toda força estrangular o peito da gente. A pimenteira daqui de casa secou, e amigos legais me falaram, que beleza. Então, senti/pressenti e digo aos sete mares: invejosos de plantão, gente mesquinha e pequena, essa semana eu consegui me sentir como vocês, ou seja, no chão. Eu que estava alada e frágil, porém alada. A culpa não é de vocês, não se sintam tão poderosos assim: o mal é algo que se nutre de si mesmo. Mas não tem importância, prossigo no velho esquema vão-se os anéis, ficam-se os dedos, e modéstia às favas, possuo lindos dedos de pianista.

Wednesday, March 14, 2007

E lá se vai mais um dia...

Hoje o meu dia não foi muito bom. Aliás, tudo deu meio errado, sabe como?

Em primeiro lugar, eu tô em plena atividade na barraca de correio elegante da panda. Hoje, três amigos muito queridos, amados e tal, estavam com seus problemas sentimentais a toda. O problema é que eu não dei conta, pifei. Primeiro, porque ando muito, muito pensando nessas coisas, e segundo porque tese, fim de bolsa, relatório FAPESP, dente quebrado, privada quebrada... pifei, pifei. Só não pifei total porque Deus enviou Jujuba, Luís Fernando, Beto, Senhor e Lori. Moral da história: não vai dar mais pra levar barraca de correio elegante, tese, e tudo o mais, conjuntamente. Encerrei as atividades de consultora sentimental, não tô podendo nem pra mim. Estou numa ansiedade monstro, como em poucos momentos da minha vida, sofrendo ainda com as coisas do ano passado, meio depressiva, triste, melancólica e com dois capítulos pra escrever.
Eu no almoço pensava tudo isso, vendo minha amiga triste. Não deu. Me senti péssima, Jujuba me salvou e me acompanhou no que eu realmente precisava fazer, o que eu tinha que fazer, por mim, infelizmente às vezes eu preciso fazer coisas, pra mim. Não acho que o mundo deve girar ao meu redor, não acho que quem eu amo precisa me pôr em primeiro lugar, EU preciso me pôr em primeiro lugar. Ando insegura pela hora da morte. Mas não posso querer dos outros a solução. Sei lá, eu tô vivendo num countdown fudido, e aí tudo vira bosta, como diria Rita Lee. Tudo vira. Até o que seria o melhor da vida. Até o que seria o meu melhor. Até o momento mais importante, mais decisivo, pra mim, pra mim. E eu deixo passar muitas oportunidades, muitas chances de ser feliz. E lá se vai mais um dia. E eu que vou ter que correr atrás do prejuízo. Enfim. E quando eu fico assim, eu me escondo no meu bambuzal. Não, dessa vez, não, eu vou correr atrás do que eu realmente quero. Mesmo que pra isso meus amigos queridos fiquem, por uns tempos, em segundo plano.