Sunday, March 04, 2007

Citação, pra pequena Yna, e pra mim

"Apelli fuit alioqui perpetua consuetudo numquam tam occupatum diem agendi, ut non lineam ducendo exerceret artem, quod ab eo in proverbium venit".

Nulla dies sine linea.

Acima de tudo, era um costume regular de Apeles nunca deixar um dia ser tão ocupado a ponto de não praticar sua arte desenhando uma linha que fosse, o que se transformou para ele um provérbio: Nenhum dia sem uma linha.


Plínio, o Velho. Historia Naturalis. Livro XXXV, 84-85

Graças ao Celo, o ursinho arqueólogo, achei essa citação. A tradução, livre, é minha, em cima do inglês britânico do H. Rackham, da edição da Loeb. Apeles foi o principal pintor grego, e messer Sandro Botticelli foi considerado, por seus contemporâneos, o Apeles moderno. No Proêmio de seu Commento Sopra La Comedia, Cristoforo Landino cita Plínio sobre a arte grega, e dos gregos passa diretamente para Cimabue, Giotto e os artistas florentinos já falecidos em 1481, ano em que escreve. É interessante pensar que um artista próximo ao comentador estava a caminho de uma consagração tão absoluta, ser chamado pelo nome de quem, segundo Plínio, "Verum omnes prius genitos futurosque postea superavit Apelles Cos olympiade centesima duodecima", ou "Mas foi Apeles de Cos que superou todos os pintores que o precederam e que existiriam depois dele; e ele nasceu na 112o Olimpíada", aproximadamente de 352 a 329 a.C.

Felicidade

E tem uma hora, na vida, que a gente descobre que felicidade não é um estado geral, permanente, conquistado após guerras e guerras, e daonde se vê o resto da humanidade lá de cima, como num Forte Apache de brinquedo. Felicidade são momentos.
Hoje eu fiquei feliz porque acordei às nove da manhã e na minha janela me esperava um dia lindo, lindo, azul. Ontem eu fiquei feliz porque fui na feirinha hippie, do Centro de Convivência aqui em Campinas, e comi um espetinho de frango do japonês ( não sei qual é o tempero do cara, mas é muito bom), e depois esfarelei torta de palmito pros pombos. Saí da minha cadeira, veio um pai e sua filhinha e ela ficou feliz dos pombos estarem do lado.
Outro dia, eu fiquei feliz porque encontrei a Nenem e a gente tomou chuva indo pra DAC. E eu sempre fico feliz filando café no Luís Fernando.
Muitas vezes eu sou feliz escrevendo o Meio do Caminho, às vezes sou feliz escrevendo a minha tese, como no dia que eu descobri que o Cristóvão Colombo tinha os livros do Landino, o humanista que eu estudo, e isso é uma ótima desculpa pra ir pra Espanha ver livrinho do século XV.
E eu fico feliz quando escuto o Roberto cantando "Amor Perfeito", porque cada minuto é muito tempo sem você, e porque tristeza de amor vira parte da gente, com o tempo, vira o que talvez nos faça inteiros, mesmo quebrados.

Friday, March 02, 2007

A família Dó-Ré-Mi

Com essa comunidade Marchinhas de Carnaval, baixei músicas que eram verdadeiros sucessos no hit parade lá de casa.


Meus pais adoravam música, a gente ouvia música o dia inteiro. Todo tipo de música. Já falei aqui do Gradiente prateadão, que foi nossa alegria nos idos de 1982 ( pois é, a panda sofre de problema de dna, data de nascimento antiga)... e das fitas Basf laranjas, que eram ocupadas pelos pedidos de todos, dos meus pais, do meu irmão e meus, da Teresa, que durante algum tempo ajudou minha mãe nas lides da casa, dos nossos amigos, que partilhavam nossas famosas mesas de lanche ( lá em casa não tinha janta. Mas tinham os lanches, que começavam às três da tarde e terminavam de madrugada, se deixasse).
Mas umas músicas, digamos, mais antigas, eram esgoeladas nos nossos ouvidos, com letras trocadas, inventadas e/ou substituídas por infernais sucessões de pá pá pá, lá lá lá e tchubi tchubi du, pelo internacionalmente famoso seu Pedro, que vinha a ser, dentre outras coisas ( engenheiro, professor, torcedor enrustido do Parmeira e cantor) meu digníssimo pai.
O show de calouros começava cedo. Seu Pedro esgoelava nos meus ouvidos, enquanto minha mãe lascava a escova na minha cabeça sonolenta e preocupada com mais um dia de escola, a clássica Nega do Cabelo Duro, que ele entrecortava com trechos recitados de Nega Fulô, do Jorge de Lima. Não satisfeito, ele saía de casa gritando o lerê lerê dos Retirantes, do Dorival Caymmi.
Depois, no retorno, todos os dias, eu disse, TODOS OS DIAS, enquanto viveu, ele lascava Saudosa Maloca da porta de casa. Não, era um espetáculo, no coração do Cambuci, a poucas quadras de onde vivia Alfredo Volpi e Dani Mônica, da baixada do Glicério e da igreja neogótica agulhão, o cara trotava o samba do Adoniran na maior. Depois, no sopé da Serra do Japi, e no chapadão de Campinas do Mato de Dentro de Jundiaí, era a Saudosa Maloca, às sete da noite, de um lado, e o Guarani do Gomes no outro, anunciando a malfadada Voz do Brasil, e uma hora de rádio desligado, o que pra mim era uma tortura. Outra era ver o seu Pedro exigindo o café e o queijo minas dele, e chamando minha mãe de Flozudinha ( cara, daonde o cara tirava, eu não sei). De lascar.
Minha mãe tinha outro repertório. Ela é difícil de ficar alegre, sabe esse tipo? A própria rabugenta. Mas de vez em quando baixava o santo, e ela desfiava a Chiquita Bacana pra mim. Que lindo, pra um eu era a Nega do Cabelo Duro, pra outra, a Chiquita Bacana. A panda sofria. Mas às vezes, meu pai presenteava todos com sua fantástica interpretação do Leãozinho, do Caetano, ou de Eu Também Quero Beijar, do Pepeu ( vocês podem imaginar o que era!). E de Milton Nascimento, eu berrava os Peixinhos, do Sentinela, ou Não se Reprima, dos Menudos. Não é à toa que meu irmão se revoltou e anos depois era só Iron Maiden pra todos.
E era Elis, Chico, e era a rádio de música sertaneja, depois, em Campinas, pra agradar a Luzia, e todo mundo ficou fã escondido de Leandro e Leonardo. A coisa era feia lá em casa. Disso sobrou um enigmático e compulsivo amor por música, de todo naipe. Pelo menos, eu canto a letra inteira, se bem que num estilo heavy metal, segundo o Celo. Ah, e o filme preferido lá em casa era a Noviça Rebelde!

Thursday, March 01, 2007

Eita

Acharam as minhas coisas. Uma moça da minha agência, banco Nossa Caixa Nosso Problema, ligou dizendo que haviam entrado em contato. Jogaram meus documentos num quintal da irmã do namorado da minha amiga Marina. Eita.
E dá-lhe Vasari, falar com metade da banca e castigar o teclado batucando trechos da Comédia perdida. Como a Chris diz no blog dela, não é Coca-cola mas é isso aê.

Tuesday, February 27, 2007

Um conto, escrito em 1996 ou 7

"- A China já foi um império?
- Já, há muito tempo atrás. O imperador chinês ficava num grande palácio, na Cidade Proibida, onde após o entardecer só os seus criados e ele poderiam ficar. Mas, voltando pra história, naquela época, existia um grande sábio. Grande é maneira de dizer, por que ele era muito baixinho e corcunda, mas tinha uma inteligência enorme. Vivia numa casinha na beira do rio Amarelo, com umas mariposas e varas de pescar. As pessoas pediam conselhos pra ele, e ele nunca se negava a ajudar. Falava sempre por meio de metáforas.
- Meta foras? O quê? Então ele não era sábio coisa nenhuma, se só dava foras nas pessoas. Isso eu também sei fazer.
- Não é isso, espertinho. Metáfora quer dizer que você diz a mensagem que quer por meio de uma história, de outras palavras. Por exemplo, quando se diz “fulano é um leão”.
- E porquê ele falava assim?
- Isso era o segredo mais precioso da vida dele. Por que um dia, na sua juventude, ele estava pescando e de dentro do rio surgiu a deusa do amor. Era uma dama maravilhosa, de dois metros de altura, pele muito branca, rosto perfeito, manto vermelho com estampas de dragões coloridos com pedras preciosas, sapatos de bicos prateados e olhos pretos que pareciam dois vulcões. Ela não o assustou, porque sua voz era mais doce que todas as vozes do mundo, e lhe disse: “Você ganha de mim, a partir de hoje, o dom da sabedoria. Irá falar com outras palavras, mas suas mensagens indiretas tocarão o coração de todos como os meus olhares diversos, que fazem as pessoas se apaixonarem sem motivo.” A partir daquele dia, ele começou a viver sempre perto do rio, esperando ela aparecer de novo. A sua sabedoria vinha da deusa, ele pensava, e para ela deveria retornar, no dia em que assim o quisesse.
- Hummm...
- Bem, acontece que o imperador começou a ter um problema, um problema muito sério. Suas dez mulheres não conseguiam parar de engravidar. Já existiam vinte bebês e criancinhas, e todos os ministros previam a confusão que seria quando o trono tivesse que ser passado adiante. Seria inevitável a briga entre os irmãos, pensaram, o que era uma pena, porque eram crianças muito bonitas e inteligentes, que se davam muito bem, assim como suas mães.Até que um dia um dos conselheiros lembrou que perto da sua cidade natal, na margem do rio Amarelo, vivia o grande sábio. E só ele poderia ajudar o imperador de maneira sensata.
- Esses bebês davam muito trabalho?
- Não, até que não, por que existiam muitos criados para cuidarem deles. O problema estava no futuro. O tal ministro pegou o cavalo e viajou até o sábio. Chegou lá e foi tratado com muita amabilidade pelo velhinho, explicou-lhe a situação e pediu-lhe que o acompanhasse até a Cidade Proibida, para conversar com o imperador. O velhinho ficou com muita dor ao pensar que estaria longe do rio, da deusa, mas depois conclui que estava de acordo ajudar o imperador, já que o problema era causado justamente pelo amor de Sua Majestade das dez mil estrelas por suas esposas, e por um capricho da deusa que às vezes era muito brincalhona e que de mais a mais adorava crianças.
- E o velhinho gostou da Cidade Proibida?
- Era impossível não gostar dos palácios, da comida e da companhia daquelas crianças e damas que cantavam lindas músicas para as flores. O velhinho realmente não sabia o que fazer. Todas as criancinhas eram muito bonitas, e o primogênito, Yan-Kai-Sei, tinha dois olhos pretos que encantavam a todos. O sábio pegou um tal amor pelos filhos do imperador que um dia, triste de tanto pensar, correu ao lago artificial que existia no pátio de um dos palácios, cheio de carpas, e por onde os barcos das princesas estavam ancorados. Suspirou e uma lágrima sua caiu na água. E, de repente, a linda deusa do amor apareceu. O sábio esperou e logo aquela voz maravilhosa ecoou na sua mente: “Ó grande sábio, não esquecestes de mim todos esses anos, e agora o dom que lhe ofereci está sendo posto à prova. O amor é a pluma parada no ar, é o impossível de se resolver”.

Aborrecimentos

Ontem, arrombaram meu carro e levaram uma sacolinha listrada, que comprei no Carrefour por cinco reais. Dentro estavam meu RG tirado em 1988, CPF, Carteira de habilitação tirada em 2006, cartão de pobre Nossa Caixa Nosso Problema, um caderno da Hello Kitty, uma necessáire com escova e pasta de dente, o Purgatório de Dante Alighieri e meus óculos escuros, de dez graus de miopia. Não, não perdi dinheiro. Não, o celular estava em casa carregando a bateria, e o meu i-pod estava no bolso. Não, não levaram os xerox tirados em Pisa, nem o Inferno nem os desenhos do Botticelli.
Fui à clássica delegacia de Barão Geraldo. Fechada. Os policiais na porta me informam pra fazer o B.O via internet. Eu não paguei a Net esse mês, por descuido, estou sem internet em casa. Ligo numa amiga que faz a coisa pra mim. Acabo de receber um email da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo: o B.O não foi aceito porque entenderam que havia um "obstáculo" ao furto da vítima. Que saco.

Agora, a pergunta que não quer calar: pra que arrombar um carro popular chumbado e levar uma sacola barata do Carrefour? Vamu combinar, até pra ser ladrão o cara tem que raciocinar.

Sunday, February 25, 2007

Hello, Goodbye

Outro dia tava pensando nos Beatles (????). Gente escrevendo tese é fogo. Fiquei pensando neles, no Ringo, no John, no Paul e no George, e no quanto eles fizeram,na molecagem, na pilantrice, na maluquice, e no quanto eu os amo por tudo aquilo. Eu e a torcida do Flamengo, vamos combinar, como diria o imortal samba, pra mim quem não gosta dos Beatles bom sujeito não é, é ruim da cabeça ou doente do pé.
Come together, baby, let it be. E eu tinha muita vontade de aprender a costurar, pra fazer bonecos. Sempre, sempre, imaginei bonecos de todas as formas e espécies, e hoje vi um que me deixou maluca, na famigerada seção Boas Compras da Vejinha ( gente, é boa compra pra quem?), um monstrinho do pântano, feito de tecido de vestido de perua, 110 reais. Mas é praticamente a mensalidade do curso de Corte e Costura do SENAC. Eu sempre quis fazer bonecos. Será que ainda dá tempo de aprender? O trágico é que minha mãe tinha máquina, costurava bem pra burro, e não me ensinou porque "era coisa de pobre".
Quando eu tinha uns 15,16 anos, eu queria fazer umas coisas que depois viraram moda e fizeram neguinho ganhar rios de dinheiro. Naquela época, ( ou seja, no tempo dos dinossauros), eu desenhava umas carinhas tipo Smile, e pensava numa loja só de coisa de Smiles, de todas as cores e formatos, expressões e tal. Eu desenhava roupas, coleções inteiras.
E eu queria aprender a tocar violão. Outro dia fui buscar o violão do meu irmão, e pensei em depois comprar as clássicas revistinhas "Aprenda a tocar Tarde em Itapuã e mate seus vizinhos de susto". Cheguei na casa da minha genitora, o meu fratello lasca, mas tá quebrado! E o instrumento, não é que estava quebrado, estava rachado pra valer. Bom, ele me passou umas instruções, fui numa loja antiga, bonita no centro aqui de Campinas. Lindos violões, negros, cor de pudim de leite condensado, assinados por Zezé di Camargo, de todo o tipo. Pensei, mas é um desperdício, eu não sei nem tocar nada, mas será que dá tempo de aprender?
Tudo isso pra falar da extrema vontade que sinto, nesse domingo quente dos infernos, em fazer outras coisas que não uma tese de doutorado. Let it be.

Friday, February 23, 2007

Work in progress

Mais um trechinho da minha introdução. Se vocês lerem o primeiro post, depois o segundo e agora esse, aí está o iniciozinho da minha tese. Hoje eu pulei pro último capítulo e pro Purgatório, Canto XVII. Minha tese tem sete capítulos. Dois estão na rés-do-chão e os outros vão que vão, o primeiro praticamente pronto. Mas lá vai:


Passei muito frio em Chicago, Pisa e em São Paulo, talvez mais do que Dante e Virgílio nos últimos círculos do Inferno, e muito calor no Rio de Janeiro e em Campinas, seguramente mais do que os dois poetas nos primeiros círculos do reino de Lúcifer, mas consultei quase todos os incunábulos e edições da Comédia, de 1471 a 1564; infelizmente, as minhas forças não me levaram a Berlim, onde repousa a maior parte dos desenhos que estudei, e fui barrada no Vaticano por um dos guardas suíços. Tudo o que não esperava aconteceu durante as pesquisas, inclusive e principalmente os bons acontecimentos, contra os quais não existem sortilégios: se não pude ir a Berlim, parei em Madri por puro acaso e no Prado consegui ver as Histórias de Nastagio degli Onesti, e, por puro acaso, encontrei dois lindos incunábulos da Comédia no Brasil. Não tinha um Gerião a postos para voar comigo pelos ares, mas Virgílios, encontrei muitos, e isso é outro consolo meu; todos os meus queridos magos-poetas-guias vieram comigo até aqui. E daqui parto para o estilo impessoal que se requer nas teses de doutorado.

Terapia no msn

Ontem tive uma das minhas crises de angústia. Tava demorando. Insônia, bloqueio na tese, problemas profissionais, medos, e ontem o caldo entornou porque tentei telefonar pra um amigo e não consegui falar com ele. Um motivo banal e eu fico transtornada, achando que tudo acabou e que eu me ferrei.
Fiz sete anos de análise. Duas vezes por semana, às vezes três ( é, pois é) eu deitava no divã e lá ia. No início do ano passado, depois dos sete anos, eu desapareci e até agora não entendi porque fiz isso. Sei que precisava voltar a me ver por dentro, com ajuda profissional; isso vale pra todo mundo, na minha opinião. Mas o fato é que eu estava cansada, meio chateada com algumas coisas da própria análise, e resolvi dar um tempo.
Mas enfim, eu tava pirada ontem. Cheguei em casa parecendo uma assombração. E aí entrei na Praça é Nossa virtual, ops, msn. A tecnologia moderna é uma maravilha: pelo msn fala-se com os quatro continentes. Tinham que fazer um sambinha em homenagem ao msn. Em tempo: essa semana até com Moçambique falei!
E aí, Luís Fernando, sediado em Areiópolis ( segundo ele, Bauru é perto de Areiópolis), e recém-feliz proprietário de um Voyage preto, que está reconstruindo pra poder, digamos, andar, me diz algo que valeu uns meses de terapia. Eu falei das minhas paranóias, o cara ficou puto e lascou a seguinte frase: "Você está angustiada. É só isso".
Eu li outro dia que amigo é aquele que fala uma coisa e tua vida muda. Taí, o cara foi meu amigo. Nada de fazer drama, quem te ama fala, isso é angústia. Vai se distrair.
Celo na outra janelinha me diz algo lindo, que o futuro não existe. Que a gente constrói. Bingo. Outra fase que só um amigo de tantos anos falaria. Beijos pros dois, né.
Tinha uma série muito bonitinha do cartunista dos Pescoçudos na Folha, o Galhardo. Era assim: Ser chamado de elefante na escola= cinco anos de terapia. Ser demitido na frente de todo mundo na firma= mais dez anos de terapia. Fazer um carinho gostoso nas costas de quem a gente tem tesão= menos três anos de terapia.


Não tô menosprezando terapia, análise e as Obras Completas de Freud, não é isso. Mas o próprio Freud concorda, impulso de vida é isso aí.

Hoje acordei com o dia lindo, fui andar no Bosque, e fiz feira. Na verdade eu acordei feliz porque ia ter feira na rua da minha casa. Segundo o Xico Sá, jornalista, escritor e profundo sábio da alma feminina, ir na feira corresponde a menos três meses de análise. Moça bonita não paga, mas também não leva: o rapaz do queijo me olhou de um jeito tão bonito, o Bosque estava tão bonito, o rapaz da alface fez pra mim o pé pela metade do preço pra eu ficar freguesa, e eu voltei, almocei super bem, até café fiz, li muita coisa do blog e fiquei feliz. A angústia, sei lá onde foi parar.



E agora, aqui no prédio do lado, alguém está ouvindo "Mania de Você", da Rita, em alto e bom som. O sol brilha lá fora, e é tão bom rolar, rolar, rolar com você...

Thursday, February 22, 2007

Mais tese

Lá vai mais um trecho da minha introdução:



Em meio a tantos turistas que chegam a Florença, numa tarde fria de novembro adentrei na estação ferroviária de Santa Maria Novella, vinda de Pisa. Com uma bronquite crônica, enfrentei o frio e parte de minha desolação e espanto para entar na Galleria degli Uffizi e sua sala 16-B. Por ser um dia muito frio, cinzento e chuvoso, tudo parecia vazio, e o olhar dos personagens na Adoração Lama (fig.1) rebatia diretamente nos retábulos espetaculares, no outro lado do salão. Muitos historiadores afirmam que, na figura de manto amarelo à nossa direita, está Alessandro Marianni di Vanni Filipepi, conhecido pelos conterrâneos e por toda a posteridade Sandro Botticelli. Estudante precária da vida e obra do mestre florentino, bem sei que isso seria uma possibilidade entre tantas, uma aposta na tradição e na continuidade de certas formas e convenções. Se naquela tarde de novembro, eu me apresentei diante dos olhos argutos da figura de amarelo, e obtive uma resposta mínima, insignificante, mas uma resposta, vi reconhecido os esforços dispersos e desatentos que fizeram surgir essa tese.

Como historiadora, aprendi a escrever sobre coisas e acontecimentos. Mas tudo se perde numa névoa, quando se escreve sobre Botticelli. São poucos os documentos que atestam sua vida, poucos os que nos levam às suas realizações. E a minha tentativa, realizada no continente descoberto por um de seus contemporâneos, era mais canhestra que qualquer historiador poderia aceitar. Muitas vezes, nos anos desse doutoramento, tive que justificar minha escolha diante de interlocutores saudavelmente céticos, e diante de parte deles apresento os parcos resultados de minhas buscas. O meu consolo é que, no último exame de parte da bibliografia, percebi que não estava sozinha nas minhas incertezas e que pelo menos especialistas experientes e que puderam passar parte de suas vidas muito mais perto da Toscana do que eu, também incorreram em erros.

A idéia inicial das pesquisas surgiu da leitura de Visão do Paraíso, de Sérgio Buarque de Hollanda: o problema da visualidade do Renascimento, sua construção a partir da leitura e da transmissão de textos, e da produção de textos e experiências a partir dessa visualidade, me pareceu fascinante demais para permanecer no arquivo das leituras feitas por obrigações profissionais. Antes disso, tornou-se um norte, algo que sempre esteve no meu horizonte, mesmo quando tudo pareceu se esfacelar, por conta de vivências tristes. De Sérgio Buarque, passei para a tese de doutoramento de Aby Warburg, e o mundo da historiografia sobre o período se abriu.

Tuesday, February 20, 2007

Da condição feminina

Depois do post abaixo, sei lá tipo assim, resolvi escrever sobre o que tô pensando, fritando na cabeça esses últimos tempos.


Reencontrei algumas amigas queridas. Conversa vai, conversa vem, é aquilo: "os homens não prestam", "tô cansada de ficar sozinha, quero um cara legal, que faça tudo por mim", "ai, eu sofro, minha mãe foi e é muito ruim comigo, minha família não presta", "ninguém me ama, ninguém me quer, mas tem um cara a fim de mim, mas eu dei um fora nele, porque espiritualmente não me sinto pronta, mas chega a noite e eu te ligo pra dizer que queria alguém", a criatura te liga e fica três horas ali, martelando os ex, martelando teus ouvidos, e é a ansiedade, e é a ambiguidade, e é o caramba a quatro, e você ali.
Primeiro, não acho que os homens são todos uns filhos da puta. Tem muito homem que não presta, muito mesmo. Teve um que terminou comigo porque "queria uma mulher brilhante", outros terminaram porque "amavam a ex", outro fez isso na semana que eu tinha que entregar minha dissertação, outro me deixou de madrugada, chovendo, na rua, pegando um táxi, enquanto mandava um nas narinas, e assim sucessivamente. Já vi homem largar mulher e filhos, já vi cara que sumiu e nunca mais deu sinal de vida, já vi nego batendo e humilhando a companheira, etcs, e etcs. Mas ainda assim não acho que todos, todos, sem exceção, os seres do sexo masculino não prestam. E porquê?
Agora vem a segunda parte. Porque eu quero ser a responsável pela minha felicidade. 99% da vida é contingência: social, histórica, de gênero, etc e etc. Mas o 1% que me cabe, é meu. Portanto, eu quero cuidar do meu quintal. Eu muitas vezes não prestei, e muitas vezes não presto. Muitas vezes, por ansiedade, botei gente contra a parede, responsabilizei o outro pela minha alegria, pus o ônus da minha satisfação nas costas dos outros, e sim, fiz homens sofrerem. Não penso mais que o amor é ganho ou perda: é uma escolha. Não penso em conquistar ninguém: penso em compartilhar momentos, situações.
Terceiro. Parei de brigar com a minha mãe no pensamento. Minha mãe errou, e feio. Ela tem um gênio difícil, mas descobri que minha mãe fez o que pode, assim como eu faço o que posso. E que minha família tinha todas as neuroses que a família de todo mundo tem. Sofri, pra caramba. Assim como todo mundo. Errei, quebrei a cara n vezes, voltei atrás e fiz mais besteira ainda. Mas ponto. Dei o cano nas minhas amigas esse Carnaval, pra hibernar. Não quero ser mulher desse jeito, quero inventar outro jeito. Não sei qual é ainda, mas não quero me vitimizar, quero ir pra frente. Quero pensar em aliados, não em inimigos. Difícil explicar em palavras a sensação que me domina, eu fico brava e acabo brigando, briguei com as minhas amigas e disse: nessa vida, ninguém é santo. Tem homem que não presta. Mas tem mulher que, também, vou te falar uma coisa.

Bonequeiros, Dr. Lao, rede pública de ensino, que mais?

Gente, esses dias estão engraçadíssimos. Eu não tô fazendo nada, literalmente. Comendo que nem uma louca, tô chegando perto do meu peso-recorde ( believe me, tô gordinha), dormindo e enchendo o saco do alheio. Só no Ala-la-ô!

A única notícia que me chamou a atenção foi a dos bonequeiros do Carnaval de Olinda. Tenho paixão pelos bonecos de Olinda, apesar de nunca ter pisado na cidade fundada por meus ancestrais. Então, existe a profissão dos bonequeiros, que carregam os bonecos a R$60,00 por hora. Adorei as declarações de um deles: o pai era bonequeiro, e ensinou a não carregar boneco de barriga cheia, usar sunga e tênis, e a repórter pergunta: mas porque do tênis? E ele: porque às vezes o boneco dá um tapão em alguém, o povo quer bater no bonequeiro, que tem que sair correndo. A reportagem informa que não se tem notícia de bonequeiras, e cada um dos personagens pesa 20, 30 kgs. E que tem 500 bonecos rolando em Olinda esses dias.
A gente fez umas sessões de cinema na mãe do britânico Clis. Além da gente ver os filminhos do próprio na terra dos Beatles ( Clis, eu vi o pandinha no seu quarto) assistimos dois clássicos da nossa formação, "Fúria de Titãs" e "As sete faces do Dr. Lao". Bom, "Fúrias", bem convencional, e mistura todas as histórias da mitologia, mas o "Dr. Lao", é bom demais! Tem uma parte que eu tinha esquecido completamente, não sei se a Globo cortava, mas que é Dr. Freud puro. Tem muita gente que eu conheço que precisava de um Dr. Lao.
Hoje, conversando com a tia do Celo, que é professora na rede pública há mais de 20 anos, discutimos sobre a inviabilidade da política tucana pro ensino. Olha, partidarismos à parte, e hoje em dia nem faz mais sentido eu ficar com a bandeira vermelha hasteada, mas que os tucanos não dão certo na área de educação... depois dá no jornal que o ensino paulista nunca esteve tão ruim. Isso também acontece na rede particular; um dos motivos pelos quais penso duas vezes antes de um dia querer ser mãe é a porcaria das nossas escolas.
Tanto que pensei esses dias, tanto... post sei lá mil coisas. Ah, e tô colecionando Roberto Carlos, na FNAC comecei a ler a biografia não-autorizada do Rei ( aliás, o Rei entrou na justiça, reclamando da tal biografia). Não é bom o livro, mal escrito, mas vale pelas fofocas. E às vezes pela contextualização das musiquinhas que coleciono. Já peguei a música das gordinhas, das baixinhas, uma chamada "Símbolo Sexual", de 1985, que é legal demais, agora só tá faltando a das moças de óculos. E tenho dito!

Sunday, February 18, 2007

Prece na Catedral de Madri

Senhor, rezo nessa Catedral, a única coisa feia nessa cidade de Madri, nessa cidade capital de um Império, nessa cidade de homens e realizações, de espelhos e sacadas. Rezo nessa catedral e pergunto a mim mesma de onde meus antepassados espanhóis eram, não importa, em Madri me sinto em casa e em Madri enterrei minhas preocupações.
Peço, ó Virgem de Almudeña, ó mãe das flores e das mágoas, que eu seja amada pelos meus desacertos, que eu seja amada pelos meus desvãos, pelos escuros de sentimento, e não pelas minhas certezas, pelos meus momentos gloriosos, toda mulher erra ao pensar que os homens as amam por esses momentos; nos amam pela nossa fragilidade e não pela pretensa força da vaidade. Nos amam por amar; e amor não se pede nem conquista, amor não é território, é a luz do dia, existe por existir. As pessoas se encontram, não se pertencem. Peço humildade e doçura, e que eu seja flexível: é melhor que ser forte. Peço calma, paciência, serenidade: é melhor que sonhar. Peço para aprender a fazer pão, a usar as ervas na comida, a consolar, a rir e a chorar.
Meu São Francisco, que eu visitei e pedi, peço para não me deixar esmorecer, não me deixar desistir, não me deixar cair nas minhas fraquezas de caráter; que eu permaneça na simplicidade das cores. E que os momentos nessa Catedral cinza e triste se tornem o que eu preciso para viver, continuar, existir.

Friday, February 16, 2007

A chatice da panda

Os leitores amigos, tipo Dani Mônica e Chris, que me desculpem a chatice. Eu só falo da tese, só vivo na tese, tá demais.

Nem no msn entro mais. No Caronte deu pau, aqui no IEL resolveram cortar msn e Orkut ( desconfio um pouco dessas atitudes de cortar as coisas, acho paternalista demais, mas enfim). Ontem, excepcionalmente, tava no Celo e entrei no msn, e dei de cara com Nenem. Ela me contou da notícia de que 18 filhotes de panda foram batizados na China, por meio de concurso,e que os fofinhos brincam no playground e seguram suas mamadeiras:
Fiquei feliz de ver que os chineses batizaram meus amiguinhos de Sixue ( "saudade da neve"), Taotao ("brincalhão"), e que teve um baby-boom da minha espécie. Tá vendo só, Nenem? Os pandas vão dominar o mundo! Ainda mais se eles começarem a defender teses de doutorado!

É Carnaval...

E chegou o Carnaval. Tô pulando doidamente, da sala pro quarto, do quarto pra cozinha, da cozinha pro banheiro e assim sucessivamente, com paradas no camarote das bibliotecas do IFCH e do IEL. Ninguém merece tanta chatice.
Essa fase de final de tese, sinceramente, isso sim eu queria pular, acordar e ter a tese pronta. Como isso não ocorre, lá vou eu de parágrafo em parágrafo, consertando coisas. O que falta deixo em amarelo, e minha tese parece um queijo suíço, de tão amarelinha e cheia de buracos.
Ando com uma fome louca e com a bronquite a toda, acho que nunca estive tão panda em toda minha vida. Que miséria, só penso no Gerião, no Virgílio e nas duzentas páginas que já consegui ajuntar. Minha mãe foi super fofa, me mandou me concentrar na coisa e ir pra frente. Eu estou com a minha casa uma zona, dois dentes estourados esperando tratamento, IPVA pra pagar, roupa pra lavar, um inferninho, e no meio disso eu consigo quebrar todos os foninhos disponíveis. Vou na loja de 1,99 e compro foninhos que não duram uma semana, nessa rotina de ligar o Neguinho do Pastoreio a toda quando faço todo tipo de atividade, ouvindo de Milton Nascimento a Wando, de Pet Shop Boys a Barry White. Mas que desgrama.
Fico lendo os jornais, nos intervalos dos trabalhos de Hércules, e me deprimo ainda mais. Não tô podendo. Nesses anos de universidade, eu vi muitos colegas na fase de final de tese, e achava que o povo exagerava. Não, não, é um ritual de iniciação dolorido. Num certo sentido, é mais fácil que no mestrado: você já tá mais escaldado, preparou várias coisas, deixou o feijão de molho e a cebola cortada. Mas, ao mesmo tempo, é uma despedida de uma fase da vida. Depois, com o título, é outra história: você abraçou de vez a carreira acadêmica, é concurso, banca, aula, o caramba a quatro. Vejo alguns professores rodando IFCH e IEL, nesses dias, e colegas, e penso, todo mundo passou por isso um dia: o desespero de ter escrito uma mísera linha quando se deveria ter escrito cinqüenta páginas; o medo da banca te detonar; e a impressão de que se fez tudo errado, que tudo foi pro brejo sem remissão.
Que fazer, como perguntaria Lênin? Sentar a bunda na cadeira e castigar o teclado. Fazer o quê?

Wednesday, February 14, 2007

O início

Ontem, fiquei vagando pela velha biblioteca do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp, onde pra mim tudo começou e onde tudo recomeça, batucando em Caronte ( meu laptop, o barqueiro do Inferno) a tese onde tudo terminou e onde tudo termina.


Muito confuso isso de escrever. Peguei da estante a minha velha dissertação de Sociologia, defendida, vejo na capa assinada pelos mestres tão queridos, em 20 de fevereiro de 2001; pego uma tese, de um conhecido, e a minha dissertação parece infantil e sem sentido, perto da dele. Mas leio a lista de agradecimentos, e percebo que a minha me comove também: retorno a ela e vejo quão doce, apesar de ingênua, era a menina que "agradeceu às muitas pessoas queridas que fizeram com que meu sonho de escrever um texto sobre Adorno se tornasse realidade"...

Vejo as estantes, inexpugnáveis; a estante das monografias, onde a minha repousa também e onde celebro a memória da minha avó e de meu pai; e penso que lá em Campos dos Goitacazes, norte do estado do Rio de Janeiro, em 1950, eles não tinham a mínima idéia de que alguém escreveria sobre música popular, paixão dos dois, e que isso viraria um objeto, numa estante entre outras, numa biblioteca erguida no que naquela época era mais um canavial.


A minha mente vaga no presente, passado e futuro, e se não fosse pelo Beto, que estva junto na labuta, moquifados os dois na mal fadada salinha da História da Arte, eu ficaria com a cabeça emperrada na coroa de um monstro da Divina Comédia, nos idos de 1481.

Hoje acordei e me deparei com o início da minha tese. É assim:



No silêncio, repousam as coisas. Elas, em alguns aspectos, vencem os homens que as produziram: vencem no tempo e no espaço, atravessam séculos e giram os continentes. Um livro, uma série de papéis desenhados, três ou quatro telas pintadas com tintas feitas com ovos: depois de seis séculos, tais coisas parecem pairar sobre as cabeças de quem ousa se aproximar delas, têm vidas próprias, perderam o status de coisas e se tornaram invencíveis.

Seria possível retornar, das coisas, às pessoas que as fizeram? Ou pior, chegar às intenções desses homens, nas suas mentes, no que tinham em vista quando resolveram arrumar pincéis, papéis e palavras? Porque, materialmente, o que nos sobrou, da época em que viveram, foi isso. Jacob Burckhardt, em suas Reflexões sobre História ( aqui puxa nota, mais uma, hahahaha), diz que uma das tarefas do historiador seria, entre dar aulas, comunicando fatos passados às gerações seguintes ( como os aedos na Grécia e as velhinhas contadoras de história, em todas as partes), escrever sobre essas coisas que sobraram, para compreender melhor os homens que as fizeram. Essa tese seria mais uma frustada tentativa de se chegar perto dos florentinos do século XV, melhor dizendo, de um florentino do século XV. Talvez a inutilidade da tentativa a faça patética e mesmo bela, como todas as tentativas dos historiadores, de hoje, ontem e agora.

Sunday, February 11, 2007

Somewhere Over the Rainbow

Hoje, no msn, fiquei sabendo pelo meu amigo Flávio do falecimento duma figura querida da Unicamp.


Chegou causando polêmica no IA, contando da vida como travesti de rua, usando saias. Por onde passava, criava perplexidade, na cabeça bem comportada dos acadêmicos de plantão.


Uma noite, por acaso, fui parar na casa da figura, na moradia. Lá, ele me mostrou fotos antigas, outras nem tanto, atestando a trajetória, o caminho, tão diferente da maioria dos colegas. Depois, um dia, no café do IEL, me disse que estava no Nordeste, contou tudo do jeito debochado, inteligente e maluco de sempre, e disse que se lembrava da noite que tínhamos conversado, dez anos atrás. E se despediu. Ainda o vi na correria do campus, outras vezes, e eu botava fé na saia e no jeito maluquete.
Agora, Rogério, só te desejo muita luz, muita luz, cor e cor na sua nova morada, onde for; e que, além do arco-íris, você encontre a paz.

Noites com Sol

Ando nervosa, chata, tensa com a tese.


Nada me alivia. É triste essa fase. E o pior, a bolsa acaba, e o que vou fazer? Sei que tem gente com problemas bem piores que os meus, que isso não é nada perto de passar fome, etc, etc. No fim, até envergonhada fico, nesse escritório em plena Campinas, tamborilando sobre problemas de séculos passados, enquanto tomo chá inglês.
Também fiquei deprimida com a história do menino assassinado com brutalidade no Rio, e tudo o que se escreve depois, sobre a punição dos culpados, sendo que um é menor de idade e tal. Não tenho cabeça pra refletir agora, leio as colunas e vago num cinza de tristeza, sem conseguir proferir uma opinião inteligente. Fiquei olhando o rosto do garoto de 19 anos, suposto líder do grupo que fez o que fez, e não reconheço nem em mim nem nele piedade. O ódio é assim, frio, transforma sangue e carne em nada, uma criança num boneco, e uma mente num abismo.
No meio dessa fase delicada, triste pra burro, falta de grana, nervoso, ansiedade, vejo o jogo do Corínthians com o São Paulo, meu time, e ouço uma música que eu tenho a impressão, ser brega, do Flávio Venturini, Noites com Sol. "Hoje só tem o breu/ vem me trazer o sol/ vem me trazer amor/ Pode abrir a janela/ Noites com sol e neblina/ Deixa rolar nas cantinas/ Deixa entrar o sol/ Livre será se não te prendem/ Constelações/ Então verás que não se vendem/ Ilusões/ Vem que eu estou tão só/ Vamos fazer amor/ Vem me trazer o sol"...

Friday, February 09, 2007

O boêmio demodé e a nega do cabelo duro

Esses dias eu fiquei em casa, faxinando e tentando escrever a tese. Veio aquele bloqueio básico, o desespero que acompanha o bloqueio, a depressão e o mau humor. Lindo.
O que me salvou foi a selva escura do Orkut. Achei uma comunidade de Marchinhas de Carnaval, e gente que vive cavando em vinil as velhas marchinhas. Um senhor de Brasília muito gentilmente cedeu uma pasta enorme, compartilhando gravações originais de pérolas como Chiquita Bacana ( na voz linda da Emilinha Borba), O teu cabelo não nega ( Lamartine Babo acabou com o Carnaval de 30 e pedrinha, na voz de Castro Barbosa), Ala-la-la-ô, Aurora ( essa é uma das minhas favoritas) e outras que tais.
Nem precisa dizer que a tese foi pro buraco e eu baixei tudo que pude. Mas no meio da comunidade, representada por uma linda colombina, descobri uma música do balacobaco, como se dizia na época. Chama Boêmio Demodé, de autoria de Adelino Moreira, informa o pessoal da comunidade. Esse compositor era o favorito de ninguém menos que Nélson Gonçalves, mas na época dessa música ( 1969,70) eles estavam brigados, e quem gravou foi um cantor chamado Paulo Vinícius, de voz idêntica da do Nélson. Além de citar a conquista do homem à lua, Apolo 11, cita os acordes dissonantes tropicalistas. Demais! E peguei a original da minha querida Nega do Cabelo Duro, com os Anjos do Inferno. Pronto, tá bom, e ando morrendo de vontade de comprar confete e serpentina, andar de biquíni, e mandar a tese pro quinto dos infernos.

Monday, February 05, 2007

Bolo de fubá, autonomia universitária e Almeida Júnior

Hoje foi tese, faxina, supermercado, aquela coisa.


Resolvi fazer um bolo de fubá. Calma, gente, eu não tenho batedeira, e meus poderes bolísticos são super limitados, resolvi fazer Dona Benta mesmo pra não ter erro. Vamos ver se o bichinho sai. Tava com vontade de comer bolo de fubá.


A coisa anda preta nas universidades estaduais paulistas, quem acompanhou viu toda a discussão sobre os decretos do nosso novo governador sobre a autonomia das três Marias. Coisa horrorosa, o Serra está a fim de ferrar mesmo com a suposta elite do ensino superior brasileiro. É melhor apresentar pro eleitorado paulista, sempre inconstante, FATECs e programas como o Pró-Uni, do que segurar a barra de Unesp, Unicamp e USP da vida. Aconselho quem ainda não está a par a ler a documentação toda, no site da Unicamp.
No meio disso tudo, fui na Pinacoteca ver a exposição do Almeida Júnior. A exposição em si não está boa, mas o pintor vence a exposição. Lindos quadrinhos pequenos e uma aquarela maravilhosa,chamada Dengosa.
Tô meio dispersa, como vocês podem perceber, esse é um post sei lá mil coisas. Ah, nesses dias eu fico muito feliz em alguns momentos, e muito triste em outros. E a tese vai no ritmo de uma nota de rodapé por dia. Ando meio desligado, eu nem sinto meus pés no chão.