Em meio a tantos turistas que chegam a Florença, numa tarde fria de novembro adentrei na estação ferroviária de Santa Maria Novella, vinda de Pisa. Com uma bronquite crônica, enfrentei o frio e parte de minha desolação e espanto para entar na Galleria degli Uffizi e sua sala 16-B. Por ser um dia muito frio, cinzento e chuvoso, tudo parecia vazio, e o olhar dos personagens na Adoração Lama (fig.1) rebatia diretamente nos retábulos espetaculares, no outro lado do salão. Muitos historiadores afirmam que, na figura de manto amarelo à nossa direita, está Alessandro Marianni di Vanni Filipepi, conhecido pelos conterrâneos e por toda a posteridade Sandro Botticelli. Estudante precária da vida e obra do mestre florentino, bem sei que isso seria uma possibilidade entre tantas, uma aposta na tradição e na continuidade de certas formas e convenções. Se naquela tarde de novembro, eu me apresentei diante dos olhos argutos da figura de amarelo, e obtive uma resposta mínima, insignificante, mas uma resposta, vi reconhecido os esforços dispersos e desatentos que fizeram surgir essa tese.
Como historiadora, aprendi a escrever sobre coisas e acontecimentos. Mas tudo se perde numa névoa, quando se escreve sobre Botticelli. São poucos os documentos que atestam sua vida, poucos os que nos levam às suas realizações. E a minha tentativa, realizada no continente descoberto por um de seus contemporâneos, era mais canhestra que qualquer historiador poderia aceitar. Muitas vezes, nos anos desse doutoramento, tive que justificar minha escolha diante de interlocutores saudavelmente céticos, e diante de parte deles apresento os parcos resultados de minhas buscas. O meu consolo é que, no último exame de parte da bibliografia, percebi que não estava sozinha nas minhas incertezas e que pelo menos especialistas experientes e que puderam passar parte de suas vidas muito mais perto da Toscana do que eu, também incorreram em erros.
A idéia inicial das pesquisas surgiu da leitura de Visão do Paraíso, de Sérgio Buarque de Hollanda: o problema da visualidade do Renascimento, sua construção a partir da leitura e da transmissão de textos, e da produção de textos e experiências a partir dessa visualidade, me pareceu fascinante demais para permanecer no arquivo das leituras feitas por obrigações profissionais. Antes disso, tornou-se um norte, algo que sempre esteve no meu horizonte, mesmo quando tudo pareceu se esfacelar, por conta de vivências tristes. De Sérgio Buarque, passei para a tese de doutoramento de Aby Warburg, e o mundo da historiografia sobre o período se abriu.
