Saturday, November 04, 2006

Na terra de Dante, Botticelli e a turma toda

Hoje resolvi investir dois suados euros e entrar numa lan house pra escrever, messenger, essas coisas. E porque precisava dividir uma das mais bonitas experiencias da minha vida.

Depois de uma dura semana pisana, lavoro, lavoro e muita reflexao sobre a vida, tomei coragem e fui pra cidade aonde Dante nunca mais pisou.

Peguei il treno, aquela toda coisa italiana basica, e desci em Santa Maria Novella, ontem. Bom. O dia estava lindo, céu azul, azul, friozinho de outono, a luz dourada da Toscana. E andei e dei de cara com o Duomo e o Batistério. Chorei muito, precisei por os olhos escuros pra disfarçar. O Duomo é um sonho, as portas de bronze do Donatello, no Batistério, sao realmente as portas do Paraiso, como dizia Michelangelo.
Depois, Palazzo Vecchio, Piazza della Signoria, Ponte Vecchio, Santo Spirito... Santa Croce... a Galleria dos Uffizi, tudo, tudo, mais lindo do que eu sonhava. Marina foi um anjo, me levou pra passear, me ofereceu hospitalidade e ainda me aguentou chatissima, eu que ando cheia de tristeza por eventos anteriores. Mas no claustro de Santa Croce ela me afirmou o quanto é importante a gente ser a gente mesmo. E Florença, bela e orgulhosa, na verdade traz a liçao da simplicidade de carater.

Thursday, November 02, 2006

Mais Pisa

Sumi do hiperespaço por um motivo muito simples: to sem telefone nem internet no cafofo de Via Marche, so tenho acesso aqui no San Matteo mesmo.

Aqui em Pisa, existem duas grandes instituiçoes universitarias. A primeira é a Universita degli Studi di Pisa, fundada em 1300 e bolinha, a segunda depois de Bologna, se nao me engano. Os institutos sao espalhados pela cidade. O Instituto de Historia da Arte, como eu disse, é aqui no convento de San Matteo, nas margens do Arno ( a avenida na frente se chama justamente Lungarno). Olhada no www.unipi.it.

Ja a outra instituiçao foi fundada no periodo da invasao napoleonica, e é a prestigiada Scuola Normale Superiore di Pisa, www.sns.it. A Normale fica na Piazza dei Cavalieri, lindissima, com prédios antigos. Anteontem, fui encarar a biblioteca de la, tambem espalhada e imensa, imensa. Pra voces terem uma ideia, eu estava pesquisando na famosa torre della Gherardesca. Nos idos de 1260, um nobre daqui de Pisa, o conde Ugolino, foi traido e encerrado na torre com seus filhos. Conta-se que os filhos morreram de fome, e o conde comeu parte dos corpos para poder sobreviver, mas morreu também. Essa historia escabrosa esta na Comédia, no Canto 33 do Inferno. A torre é conhecida como a Torre da Fome, e tem uma placa explicando o tenebroso episodio.
Nem precisa dizer que a biblioteca é algo de celestial, tem tudo, tudo, eu entrei num desespero... porque so tenho um mes aqui. Pouco pra explorar essa biblioteca de sonho. Ontem foi feriado aqui ( na Italia eles comemoram Finados no dia 1), tutto chiuso, de modo que fui tirar fotos do Campo dei Miracoli. O Campo dei Miracoli é o espaço da Catedral, do Batistério, do Camposanto e da torre tortinha. Tirei varias fotos, mas ainda nao consegui tirar a craçica foto segurando a torre porque tava sozinha!!!!!!!!!!! Entao, para os fas, um pouco mais de paciencia, please.
obs) desculpem os erros de ortografia, é que o teclado italiano aqui do venerando San Matteo nao ajuda em nada...
obs2) ja tomei muito sorvete e comi muita coisa boa em homenagem a todos os leitores!

Monday, October 30, 2006

Piazza San Matteo

Escrevo daqui do Instituto de Historia da Arte da Universidade de Pisa. A famosa Piazza San Matteo.

A biblioteca é fantastica, e o acesso é livre. Conversei com um professor daqui que foi super simpatico. Hoje mudei pro meu cafofo pisano, um apartamento térreo, na casa de uma velhinha. Tudo antiguinho, moveis anos 50, mas comodo e limpo. Beleza. Estou feliz por estar aqui e poder trabalhar num lugar tao bom. Vediamo.

Pros meus alunos, um abraço especial nessa segunda-feira, e começam as palestras. Terei acesso a internet aqui no Instituto, por breves periodos, porque os micros sao pra todo mundo. Observem a diferença de fuso, quatro horas a mais, ok?

Bacci pisani a tutti!

Sunday, October 29, 2006

A cidade da torre torta

Primeiras notícias pisanas no Meio do Caminho!

Depois de uma saga que não recomendo pra ninguém ( São Paulo- Madri- Milão-Pisa), cheguei viva, sã e salva na cidade da torre torta. Bom, avião é sempre aquele tédio, cheguei em Barajas e a zona era completa. Um monte de gente perdeu a conexão e eu só não fui parar em Estocolmo porque sou insistente. No final, descobri no vôo pra Milão Giovanni, calabrês birutinha ( ops, pleonasmo, todos os calabreses são doidinhos) que estuda Direito em Pisa, e essa criatura me rebocou até a Toscana. O fato é que o Giovanni tinha comido algo de estragado e estava passando mal, mas mesmo assim veio falando de Milão a Pisa, com direito a uma parada na segunda estação de Florença, de onde vi o Duomo.
Cheguei em Pisa mais morta que viva, e fui resgatada por Patrícia, outro anjo em forma de gente, que me hospedou nesses primeiros dias. Além de cama, mesa e banho, Patrícia foi comigo procurar lugar pra ficar, forneceu passagem de ônibus e até bicicleta me arrumou. Ou seja...
No final, aparentemente consegui alugar um quarto na casa de uma velhinha, que nesse domingo desapareceu. Estou um pouco ansiosa com isso, mas acho que tudo correrá bem.
Fui super bem recebida no Instituto de História da Arte da Universidade de Pisa, o famoso San Matteo. A biblioteca de lá é excelente e o acesso é livre. Também fui na Scuola Normale Superiore, a outra biblioteca de Babel, e com um euro você consegue a carteirinha. Enfim, acredito que a pesquisa vai correr de vento em popa.
Ontem fomos jantar, sorvete, e vi Pisa by night, super agradável. Pisa é um sonho, molto carina. E a torre? Realmente, a torre é torta. O Campo dei Miracoli é um lugar celestial, o Batistério e o Campo Santo, além da Catedral, fazem felizes o coração de qualquer um, principalmente de quem é historiador da arte mirim. Estou muito feliz de estar aqui e ter a oportunidade de pesquisar, ainda que rapidinho, tanto na Universidade quanto na Normale. Ah, sim, eu chorei muito depois de ter visto a torre.

Tuesday, October 24, 2006

A Ibéria agradece e deseja a todos uma boa viagem

A todos os passageiros... uma boa noite!


Amanhã será a saga rumo a Pisa. Paro em Madri, depois em Milão, depois em Pisa. Acredito que só terei acesso a Internet no final de semana. Ou seja... estou ansiosa, nervosa mesmo, mas acredito que tudo correrá bem.
Depois da correria toda, preparativos, mil providências, o frio na espinha. Mas tudo bem, uma missão necessária. E agradável! Novas aventuras no Meio do Caminho!
E para vocês, um grande beijo, e uma indicação de música: "Sete Desejos", do Alceu Valença, que me acompanhava na época da minha primeira viagem à Itália, e agora me acompanha mais uma vez, nove anos depois. A caminho da Itália, me sinto eu mesma novamente.

Friday, October 20, 2006

I Don´t Feel Like Dancing

Dias loucos sempre antecedem viagens. Preparativos de todas as espécies: seguro, grana, levar e buscar roupa em costureira, fazer mala, segurar a ansiedade, contratação na PUCC, cansaço, aulas, tudo, tudo.

Como um ano atrás eu tava nessa, parece que só vou descansar realmente quando retornar. A mesma ansiedade, eu morro de medo de avião, fico com medo do avião cair, da imigração me encher, da mala sumir, do meu italiano sbagliato e da torre tombar de vez. Mas enfim, nessas horas do medão e da ansiedade, eu firmo pé e penso, vamos lá.
O chato foi que juntou a contratação na PUCC, um troço sinistro. Pra começar, exame de sangue, e o cara arrebentou minha veia. Estou com um roxo digno de filme de horror. Mas nada perto do alívio que foi vir a biópsia.
Muitas coisas aconteceram essa semana, fichas de anos caíram, dias que antecedem viagens são dias mágicos, dias de vida intensa. E no meio dessa, no msn, a Vivi, leitora fiel do Meio desde seus primórdios e uma das minhas cobaias de vida docente no IA me passou uma musiquinha.
Os meus fiéis companheiros, Gerião ( meu carritcho) e Neguinho do Pastoreio ( meu I-Pod, lembra dele?) rodaram essa semana. E Neguinho do Pastoreio tocou sem parar esse hit de agora, sim, de agora... na primeira vez que eu ouvi, presente da Vivi, achei que fosse algo desconhecido dos 80 que neguinho desencavou. Não, que nada, os caras são jovens, de Kentucky ( olha lá o meu querido Mid West de novo), gays lindos que chamaram o Elton John e compuseram esse chiclete ma-ra-vi-lho-so pra dançar, pra acompanhar a vida, pra queimar calorias, pra festa. Então terminei a minha semana cruzando a Moraes Salles entupida gritando, I Don´t Feel Like Dancing, a vida começa a ser uma festa colorida, boba pode ser, mas colorida.

Tuesday, October 17, 2006

Ciao!

Dando sinal de vida no Trópico de Capricórnio...


Agora que passou posso contar. Fiz exames e apareceu uma suspeita de câncer. Vocês podem imaginar o desespero, a angústia e o desamparo que senti nas três semanas em que esperei o resultado da biópsia. O povo amigo de sempre ajudou e a barra pesou, ma non troppo. Ontem fiquei sabendo que o troço era, como se diz, benigno.
Eu não contei antes aqui no Meio porque depois de dois assaltos, ficar sem bolsa, crises existenciais múltiplas e problemas variados, os queridos leitores iam se encher de tanta patacoada acontecendo com a panda. Preferi sublimar e escrever os textinhos poéticos aí de baixo, pra falar de coisas boas e não ficar chorando no meio do caminho, literalmente.
Pois passou o pesadelo, quer dizer, esse pesadelo, e, daqui a uma semana, vou pra Itália. Quer dizer... a passagem mais barata que consegui arrumar foi Ibéria, pára em Madri, e depois sigo para a imensa Milão. Fortes emoções aguardam a pequena panda, na terra de Dante, Botticelli, Brancaleone e imperadores narigudos.
Hoje e ontem entrei num desespero, porque tenho um monte de coisa chata pra fazer antes da ida: banco, conta, médico, PUCC, e convencer os germânicos colegas do Gabinete de Estampas e Desenhos de Berlim que preciso ver desenho lá. Tô com medo, vocês não imaginam.
Primeiro, da movimentação toda que vai ser, segundo, porque eu tô de FAPEPANDA, os recursos estão exíguos, pra não dizer mínimos. Ou seja, não percam o próximo episódio da saga, A fome da panda na Toscana.

Sunday, October 08, 2006

Paixão

Derrubar as paredes que existem entre nós, consumação.


De todos os nós que nos prendem, fazer um ninho e destruir os entraves da língua, do peito, de tudo que nos constrói e ensina.


Porque essa dor atravessada quando não te vejo, essa insensibilidade extrema e essa vontade de ler Pessoa sem parar, Camões sem parar, Bocage parando. Porque essa vontade louca de se fazer o que não se deve, se andar na diagonal para não pisar nos outros que afortudanadamente, naquele instante, não amam.
E saber-se só na multidão, porque no céu estrelado das possibilidades nada existe a não ser seu sorriso sem graça quando eu surjo, morta de fome, sede, de olhos turvos e faces rosadas. Porque há muito tempo aquele homem que amo tanto escreveu, trazia no rosto, do Amor, tantas de suas insígnias, que não podia mais ocultar, e porque ele escreveu assim se fez.
Vivo na curva do tempo, suspensa por fios de pérola que me prendem a mim mesma, e no entanto sou incapaz de fugir, de correr, de esconder-me de você, onda, onda cada vez maior que me arrasta para dentro do mar do meu absurdo.
Porque no meio da tarde a luz amarela na veneziana das janelas me lembra você, porque meu suspiro frustrado entre as refeições me lembra você, porque deveria pensar no trabalho e não o faço, e porque no meio de minha angústia sei, e você também sabe, morrer disso deve ser doce.

Thursday, October 05, 2006

40 Anos de Unicamp

E hoje a Unicamp faz 40 anos.

As comemorações, no meu ponto de vista, foram as piores possíveis. Tudo no tom oficialesco dos órgãos da Reitoria, tudo centrado na figura do Zeferino Vaz, que fez muito mas não fez sozinho.

Fecharam a rua na frente do Ginásio, onde a elite foi se encontrar. Os funcionários não foram dispensados, mas as aulas não aconteceram. Ninguém no campus, tudo calmo, calmo até demais.
Achei tudo um porre. Nesses doze anos que estou na gloriosa Universidade Estadual de Campinas, deixaram de vender cerveja, fecharam a única farmácia do campus ( que era embaixo da Biblioteca Central; hoje, se você fica menstruada, não tem onde comprar um absorvente sequer), não tem mais festa, seguranças e carros por todos os lados, os alunos assistem aula e vão embora, e pra piorar o bandeijão se tornou algo pior do que já era.
Outro dia, li no oficial e chato Jornal da Unicamp que os caras gastaram uma grana pra fazer uma pesquisa e constataram que o número de alunas grávidas no campus aumentou. Claro, não tem onde comprar um preservativo!
Não tem piscina decente, pros alunos e professores da FEFI, não tem Brigada de Incêndio, Controle de Zoonoses, o prédio da BC não tem escada de emergência nem extintores e pra completar, as ambulâncias do HC não podem atender a comunidade do campus. Já teve caso de professor enfartado, aluna tendo filho, empregado das empresas terceirizadas que caiu de andaime... e você tem que ligar no SAMU, no Hospital Municipal Mário Gatti ( onde fui super bem atendida quando de um acidente grave de carro que quase fez a panda virar anjo-panda) no outro lado da cidade.
Descobri isso num dia que uma moça, conhecida, teve um ataque epiléptico na cantina do IFCH. Ligamos pro HC e eles falaram que não podiam fazer nada. Comentei com seu Paciência, restaurador de livros da Seção de Obras Raras da BC ( sim, ele se chama Paciência)... ele me disse que alertou a Prefeitura do Campus para o fato de que as muitas pombas no forro do prédio ( sem reforma desde sua fundação) estavam fazendo suas necessidades e que isso corroía o concreto armado da fachada do edifício. Ninguém veio atendê-lo. Seu Paciência tentou descobrir se havia Controle de Zoonoses na Unicamp. Não, não há ( pra quê, com capivaras, cachorros, gatos, morcegos, insetos no campus???). Seu Paciência foi pro bandeijão, um pedaço da brise de concreto caiu na sua cabeça, e sim, não há ambulância para levar o acidentado no HC.
Parece piada, mas aconteceu mesmo. Eu queria um dia que na Unicamp, as pessoas pudessem fazer festas, comprar camisinha, treinar natação em piscinas adequadas, ter uma Biblioteca Central transada, segura, com canais de comunicação entre os professores, alunos e funcionários.
Gastaram uma grana pra construir os novos Ciclos Básicos. As salas são ótimas, munidas de bons equipamentos, mas não puseram cortinas nas janelas, então no solão campineiro a tela do Data Show vira um Gasparzinho.
Aqui vai minha homenagem pro Seu Paciência, pro seu Luís do xerox do IFCH, pro Mundinho do café do IEL, pros meus amigos, pra idéia que norteia e norteou nossos sonhos nesses quarenta anos, e que os próximos sejam melhores.

Saturday, September 30, 2006

Azul Giotto

Catas Altas, Minas Gerais
filha linda
céu estrelado
cozinhar frango com ora-pro-nobis e polenta com molho de tomate
Cecília Meirelles
olhar, conversar

pensei em ficar invisível só pra te ver, só pra te ver, ficar perto, bem perto


porta aberta
posso entrar?

Fase Re

Assim como nosso Ministro da Cultura, estou na fase Re. Refazenda, Realce, Refavela, Renascimento, Rever a canção e que tais. Realizando e reapropriando, algo assim tipo sei lá entende.
Revi muita gente esses dias, com acidentes de percurso cabíveis nesse tipo de processo. Mas um beijo especial vai pra Tatinha e Márcio, leitores antigos do Meio e amigos antigos, adorei (re)vê-los.
Fechando a semana em ritmo de Elis, é com esse que eu vou sambar até cair no chão. Revendo as roseiras do IEL. Alguém já notou nas lindas roseiras do IEL? Tem uma amarela no caminho da biblioteca. Reavaliando muita coisa, mas já percebi o seguinte. Eu não dou conta de muita gente. Pra mim, o negócio é no tête-a-tête, luz de vela e carta escrita com caneta borrando. Isso na minha ( primeira) juventude era diferente, lidava com multidões no maior estilo. Agora só dois ou três e olhe lá. Com esse negócio de ficar na Unicamp dois dias seguidos, tive uma crise de angústia que não tinha há muito tempo, acúmulo de informações e deu tilte.
Roubei uma citação da Clarice Lispector do perfil da Deborah, beijos pra você Deborah, e desculpe o roubo, mas que esssa frase tá calhando pra mim:
"Não pense que a pessoa tem tanta força assim a ponto de levar qualquer espécie de vida e continuar a mesma. (...) há certos momentos em que o primeiro dever a realizar é em relação a si mesmo." (Clarice)

Wednesday, September 27, 2006

Evento panda!

Dia desses, baixei na cantina do Instituto de Estudos da Linguagem, vulgo Amarelinho do IEL. Encontrei a pandinha Natália, revoltada com as péssimas condições de trabalho e pesquisa no Instituto de Artes, vulgo Casa da Mãe Joana.

Fomos, eu e ela, pra reunião da Matilha, que é o grupo dos alunos em torno da professora Lygia Eluf, grande artista e educadora. A Lygia andava puta da vida com uns debates, que aconteceram tanto na Unicamp quanto na USP, a respeito da guerra no Líbano. Nos dois casos, teve gente que reivindicava o fim do Estado de Israel. A comunidade judaica protestou e começou a zona.
Eu ouvindo e pensando, Israel precisa sair imediatamente do Líbano, é certo. Mas em 1945, todo mundo literalmente assinou um tratado, criando o Estado de Israel, o Palestino, e a ONU. Porque ninguém respeita essas coisas, a gente sabe, o problema do petróleo, EUA e afins.
Depois falamos da comemoração dos 40 anos da Unicamp. Um fiasco. O pessoal do Arquivo Central pôs algumas fotos antigas no site, mas não há identificação das pessoas que aparecem nas fotos.
Vai daí, eu falei, poxa, mas a gente precisava fazer algo sobre isso. Sobre o problema da intolerância, que acontece em todos os níveis, no nosso dia-a-dia, e sobre a memória.
A Andréia, também artista panda, sugeriu um evento em que nós fizéssemos retratos das pessoas que vivem na Unicamp. Me empolguei, e falei, mas isso parece a Ronda Noturna do Rembrandt, a gente podia fazer uma coleção de retratos, de todas as pessoas que estão na Unicamp, falar com elas, todo mundo mesmo, do faxineiro ao reitor, pra gente viver mesmo a diferença, a diversidade, essa coisa holandesa de ser. E amanhã a Ronda vai sair da frente do IA e a gente vai desenhar.
obs) eu não tô na reportagem porque o pessoal ficou com preconceito contra os batavo-descendentes... ehehehe, brincadeirinha...

Monday, September 25, 2006

Something Happened On The Way To Heaven

Caríssimos, e a panda aniversariou.


Teve de tudo nesses últimos dias. Fiz exames de saúde que detectaram possíveis problemas na panda. Fiquei mal, mal mesmo, chorei, chorei, mas decidi que disso não morro, dessa vez é que eu não entro em extinção não. Farei todo o possível para me reestabelecer, vocês vão ver.
Sinto, como disse nos últimos posts, que tudo de ruim que aconteceu comigo, nesse ano, foi pra corrigir minha rota.Às vezes, a verdade está na nossa frente, a gente passa por ela todos os dias, mas teima em não ver, ou até vê, mas finge que não está lá ou que não vai dar tempo de consertar tudo que tem pra consertar. Bobagem, é sempre tempo de recomeçar, é sempre preciso tirar coragem e iniciativa daonde a gente não tem pra perseguir nossos sonhos.
Sei que tudo isso é muito brega, mas eu sou cafona até a raiz dos meus agora repitados cabelinhos.
Meu aniversário esse ano foi tudibão, dei aulas, almocei com os amigos queridos e ainda ganhei presentes de quebra, além das centenas de recados carinhosos, no Orkut, na secretária, foi lindo. Me senti super querida, e isso me dá uma força pra continuar que vocês não imaginam!
Fui pra minha cidade natal, o Piratininga, com Paulo, o anjo em forma de amigo, jantar bacanérrimo, e no outro dia qualificação. Foi um desastre, apanhei, apanhei, mas de lá ( acho ) que finalmente saí com uma pálida idéia do que será a tese e uma nova admiração intelectual, o professor Maíque.
Voltei mal, fiz uma macarronada pra ver se melhorava, mas a panda alquimista pintora escrevedora de blog e comentadora de Dante tava cansadinha. No outro dia, mais macarrão, a Lala veio me maquiar ( tá vendo? o curso surtiu efeitos), e lá fui eu para casamento de amigos queridos e dois anos de namoro com o Celo.
Pra vocês verem. E agora começa a corrida Panda rumo a Pisa, chegou a passagem!!!!!!!!!!!! Então, brega, maquiada e meio gordinha, estou rumo a um lugar que vocês vão concordar comigo, é simpático porque deve ser o único lugar do mundo que as coisas tortas tem que permanecer tortinhas para todo o sempre!!!!!!!! Me aguardem...

Wednesday, September 20, 2006

Dos símbolos alquímicos e da necessidade de viver

Eu descobri uma coisa. Pequena, insignificante, quase, mas para mim uma coisa legal.
Estudo para o meu doutorado os desenhos que o Botticelli fez, ilustrando a Comédia. Momento feliz esse, o final do século XV. Grandes caras se encontram, conversam, e deixam o mundo bem mais belo.
Descobri que o Virgilinho do Botticelli, que me acompanha há quatro anos, e que literalmente paga as contas lá de casa ( via a Fundação de Amparo, não se esqueçam) tem a mesma fuça, o mesmo jeitão, do Hermes Trimegisto do piso de mármore de outro mundo da Catedral de Siena. Os dois são a mesma pessoa, o mesmo sujeito. O Hermes Trimegisto que é o pai da alquimia, dos processos de transmutação dos metais, dos materiais, dos sentimentos e das idéias.
Fiquei feliz porque, conversando com menino João Francisco, alquimista e fofo nas horas vagas, percebi que meus últimos posts são sobre isso, no fundo. O retorno de Saturno, pra mim, acaba agora. A crise dos 30 passou, tenho certeza disso. Agora quero ser alquimista, quero transformar tudo numa grande atmosfera brilhante, como no gloss do curso de maquiagem, como no porco a porchetta, e quero viver simples e linda como London, London do Caetano.
E estou nisso, com Hermes Trimegisto, quando sei que uma tragédia aconteceu na Unicamp. Um menino, calouro do curso da História, almoçou com um amigo, subiu a torre da caixa d'água do Ciclo Básico e se jogou. Morreu no meio-dia do campus. Amigos meus estão chocados, muita gente comentando, uma tristeza infinda. O Chris no blog dele afirma ter o pressentimento que tudo está muito, muito ruim, Getúlio no msn concorda, eu com saudade de tanta gente, porém, sinto que infelizmente no meio-dia tragédias como essa podem acontecer.
Gostaria de deixar uma mensagem de carinho ao menino, aos seus familiares, aos amigos, a nós. Ultimamente, no meio da correria em que tô metida, no meio literalmente, sinto um amor profundo por tudo e todos, como em London, London. Na minha cabeça Caetano sentiu algo parecido. Tudo é muito ruim, escuro, mas a gente continua transmutando a tristeza em riso, o som em música, o peixe em assado, a cor em vida. Mesmo com tanta tristeza, com tanta tragédia, com tanta dor.

Tuesday, September 19, 2006

Tá acabando...

Não acredito em Astrologia. Sempre duvidei desse negócio de ser virginiana, logo seria uma pessoa racional e organizada. Só pelo Meio vocês podem ter uma idéia do que é minha organização. Depois que eu li o livro do Adorno sobre isso ( The Stars Down the Earth), aí fiquei mais incrédula ainda. Pra quem não sabe, o Adorno, exilado nos EUA, teve a pachorra de ler as colunas de astrologia por um ano, e depois fez uma análise descendo a lenha nesse ramo dos conhecimentos esotéricos.
Pois bem, mas talvez astrólogos, tarólogos e afins estejam certos quanto a esse lance de inferno astral. O meu esse ano foi expandido, começou cedo, mas segundo a crença, daqui a pouco acaba ( sim, completo 29 primaveras, e daí?).
Um vizinho aqui do prédio começou uma obra faraônica, literalmente. Às sete da manhã em ponto começa a barulheira insuportável. Eu e Celo quase piramos. Eu precisando preparar aula pra Pucc, ele com as coisas dele, e ninguém consegue fazer nada com um estrondo desses. Eu fui descer a lenha via interfone, o dito não funciona.
Tive um trabalho do cão pra preparar aula, saio de casa arrumada, banho tomado e tudo o mais, na saída do prédio tem uma pequena porém íngreme ladeira. O Celo usou o carro antes, e ele é duas vezes e meia maior que eu. Arrumei o banco antes de sair, mas na ladeira o bicho foi lá pra trás. Agarrei o volante com força e enfiei o pé no acelerador, porque senão o portão de ferro da garagem me pegava. Passado o susto, vejo que abri o pulso esquerdo. Uma dor, e aula pra dar. Paciência, fui pra Pucc.
Não sei o que acontece com alguns alunos. Eles falam, falam sem parar, e eu dando esporro. Daí uma menina fala, mas professora, passe a lista no início da primeira aula e eles vão embora. Talvez ela tenha razão, mas eu não me conformo, não estou dando aula pra quinta série ( talvez quinta série fosse melhor).
Então é isso, uma semana quebra o dente, na outra abre o pulso, e o saco vai enchendo. E o conteúdo, inexpugnável, Expressionismo e Fauvismo na mesma aula.

Friday, September 15, 2006

Atmosphère Brillant

Hoje fiz uma coisa bacanérrima.
Andando pela Renner do Shopping Iguatemi com as meninas, daqui a pouco aparece Vanessinha com um folheto. Descobrimos que a rede oferece, nesse mês, vários cursos de maquilagem, patrocinados por grandes empresas de cosméticos, como Payot, Revlon, e até a boa e barata Elke ( dela mesma, da rainha Elke Maravilha). Mas pra quê, a mulherada se assanhou toda.
Passou a semana, e desencontro vai, desencontro vem, descubro que as meninas marcaram o curso e eu fiquei sem vaga, porque elas não sabiam se eu ia ou não. Fiquei triste mas a linda elfinha, ops, Vanessinha, conseguiu cavar uma vaga pra mim.
Acordei, dei duas aulas ( gratuitas, uma num cursinho aqui de Campinas e outra na velha Unicamp), almocei num japonês muito bom que tem aqui, porque não sou de ferro, e às quatro horas descubro da vaga. Voei pro Shopping Dom Pedro, entrei na Renner e sou atendida pelas meninas do famigerado balcão de cosméticos. Elas me levam pro interior da loja ( lá dentro é imenso, imenso), no segundo andar, e no salão de treinamento está a mulherada. Nenhum sinal das meninas, fico triste.
A marca ( não vou falar qual é porque senão parece propaganda) manda uma maquiadora profissional, toda equipada, bem maquiada e simpática. Uma mulher bonita, dos seus 4o e poucos anos, impecável, auxiliada por uma menina da Renner, não tão bem maquiada assim ( mas aí dá um desconto, a menina era super novinha). Lanchinho ( biscoitinhos), Leite Ades de Soja, guaraná e café. Presentes duas meninas chinesinhas fofas, duas mocinhas e duas amigas um pouco mais velhas. As duas mocinhas eram filhas de uma das mais velhas, muito despachada, que foi escolhida pra ser a cobaia. Não sei porque, mas era a mais esteticamente desfavorecida, no sentido tradicional ( não estou me incluindo).
A moça senta na cadeira, e a maquiadora começa. Limpa bem a pele, e fornece os produtos pra gente limpar a pele também. Que delícia, tudo cheirosinho. Daí, a base. A base é um negócio horroroso. Se é vagabunda, a cara da cidadã fica caiada, artificial, no calor derrete e é um estrago. Atualmente, as marcas se esforçam pra fazer bases e pancakes muito naturais. E não dá outra, pele de porcelana em cinco minutos. Muitos, muitos pincéis, de diferentes formas e tamanhos, que a maquiadora vai molhando de levinho na loção tonificante.
Tudo é delicado. Não se usa o indicador, dedo que pesa, mas o pai-de-todos e o anular. O blush é um show à parte, passa-se da têmpora pro osso da face, não o contrário. O olho é o que dá mais trabalho, primeiro o delineador ( eita coisa difícil, esse pra errar é três segundos), depois a sombra clara em cima, a sombra mais escura, e todo mundo desanda a perguntar. Cada passo é acompanhado por um "uau! mas tá super bonito!"... a cobaia pede um espelho, e se vê mais bonita sim, é verdade. Tudo truque, mas quem disse que mulher não pode usar truque? Sou super a favor de truque nessa vida. Salto alto, lingerie mágica, pancake, eu sou uma perua enrustida. Tudo vale, pra se sentir bem e ficar feliz.
Cada pozinho é usado supermegaultra pouquinho. Bom, pelo menos isso, considerando que toda a maquinaria é literalmente o olho da fuça, a maquiadora é a mais econômica do mundo. Por exemplo, o batom, que toda cidadã tem ( eu tenho dois, não uso nunca, never, jamé, em tempo algum)... e que a gente passa na boca direto. Errado, pega um pincelzinho chinfrado, daquele pequeninho, e três passadinhas são o suficiente. Depois, gloss delicados.
Daí vira espetáculo. A filha da cobaia se anima. Porque agora é a vez do pancake, seco, que se usa molhando a esponjinha, e alguém pergunta de delineador colorido. Mas nem precisa de delineador colorido, diz a orientadora ( nos termos do questionário da Renner). Molha o pincelzinho no tônico, e pega a sombra azul que você tem no seu estojinho básico. Pra quê, uma linha lápis-lázuli Giotto aparece no olho. Chiquérrimo! Truque do bom esse.
Uma das chinesinhas quer ir no casamento da amiga. Reclama que os olhos puxados são barra de maquilar. A representante da multinacional, essa filha de Eva que te entende como ninguém ( entende o mais profundo desejo de todas as filhas de Eva, ser bonita) não se dá por vencida. Pele de seda em cinco segundos, puxa delineador, sombra e o olho da chinesinha abre como um leque. Truque em cima de truque.
Nem preciso dizer que adorei. Sei que muitos vão pensar, a moça do Meio pirou, pirooooooou... sei que aparência não é tudo na vida, e que muitos passam fome e etcs. Sei que é peruíce. Mas um pouco de cor, de sabor, não faz mal. Lógico que no final a menina da Renner te oferece tudo. Não comprei nada, a socialista-marxista falou mais alto, mas que fiquei com vontade fiquei. No final, as meninas não apareceram porque foram no curso no Iguatemi ( êêê cabeças-de-pudim)! E eu mofando no Dom Pedro.
E um detalhe: um dos gloss se chama Atmosphère Brillant. Gente é pra cintilar, não pra morrer de fome.

Tuesday, September 12, 2006

Aqui, já, nesse instante, agora mesmo

Aqui da minha janela vejo o relógio do Itaú. Relógio de neon, aparece Itaú, listas azuis, estrelas laranjas, a hora em dígitos brancos a orientar as noites desoladas de Campinas.


Agora escuto Led Zeppelin, "All my Love", e penso nos sentimentos por tantas, tantas, tantas, pessoas que passaram na minha vida, deixaram marcas na minha alma e iluminaram minhas cavernas interiores. Amigos, amores, pessoas vão e vem e que estão em vários lugares agora, nesse instante em que minhas unhas, compridas depois de tantos anos, batucam Caronte iluminado pelas estrelas do relógio do Itaú.
E tudo é muito simples e ao mesmo tempo complicadíssimo e hoje me espantei. Fiz as contas e me espantei, faço 29 anos. E tudo é o mesmo e tudo é tão diferente. A primeira vez que fui aos dentistas da Unicamp, eu era uma menina de 17 anos com quatro dentes de ciso obstrusos e vontade de vencer na vida. A segunda, era uma jovem combalida de 22 com guna, gengivas vermelhas e vontades desesperadas espatifadas num chão de ardósia. E hoje sou alguém de 29 anos com duas obturações, dores perfuradas no peito e nenhuma vontade sobre o sol.
E tudo fica lindo com Robert Plant me mandando todo, todo seu amor, como ele sempre fez desde 1979, e fará por toda eternidade, isso foi antes, antes, muito antes do dentista, do meu dente pré-molar quebrado em um terço e tudo isso acontece agora, porque o Jobs lançou o mini-Ipod shuffle, e claro que se eu estivesse às margens do Hudson eu iria correndo comprar, apesar de achar que o capítulo sobre o fetichismo da mercadoria no Capital é como os versos de Safo, belos, intocáveis e eternos como a bateria do Bonham, a guitarra do Page, e tudo isso na minha janela, como diria Caetano lá atrás.
E como seria entrar num velho templo e me apresentar aos deuses e dizer, vocês podem ser eternos, e eu eterna duro no instante que a vida passa, segundos e a vida passa, e o compasso me mostra que, sim, a vida é tudo isso e mais um pouco, é sempre mais um pouco, e nunca será o bastante para mim, para quem eu amo e até mesmo para quem eu desfaçatamente desgosto. E tudo isso, vocês me perdoem, mas vive dentro de mim e eu não posso disfarçar, agora não mais, agora e sempre, agora e ainda já.

Monday, September 11, 2006

Pequenos desastres cotidianos e o Dadaísmo

Hoje bati o carro e minha obturação caiu. Graças a Deus, no carro não deu nada e na boca não sinto dor. Fila do CECOM amanhã, será que eu consigo ser atendida? Dinheiro não tenho pra pagar um dentista, que saco. Tô com medo, sou hipocondríaca e acho que vou morrer, e nunca me aconteceu de chupar bala e cair o negócio.
De resto, aula na PUCC. Hoje, cubistas e Duchamp. Uma aluna perguntou, e o Duchamp, era o quê? Eu respondi, era o Marcel Duchamp, oras. Essa coisa de classificar artista é complicado. Em alguns livros, ele aparece, no início da trajetória, como ligado ao Futurismo. Num texto de 1946, que está no Teorias da Arte Moderna, H.B Chipp, Martins Fontes, o Duchamp diz que não, que nunca teve a ver com a italianada. Enfim, pelo menos a gente chegou nos ready-mades.
Já a aula de Teoria anda meio desastre. Hoje comecei o Aristóteles. Meu programa é um curso com a leitura de pequenos trechos de Estética. A gente leu o Mito da Caverna do Platão e agora vamos ler a Poética. Mas tive que explicar o Édipo e me enrolei.
Vi uma nega que eu não gosto, fiquei impressionada e fui tirar o carro. Estacionado na ladeira ali do IFCH, sabe quando o bicho cai e bate? Daí me aparece do nada uma figura famosa do IEL, famosa pela chatice e inconveniência. Ele: mas você bateu nesse aqui ( o carro da frente era dele)? E eu, engraçado você me perguntar isso.
Como diria Picasso, só decompondo a forma mesmo pra se agüentar. Mas fiquei feliz porque vi o Luis e a Deborah, agora minha amiga no Orkut e que me disse via scrap que de vez em quando passa pelo Meio. Legal, né?

Sunday, September 10, 2006

Una giornata particolare

Se você ainda não viu esse filme, veja correndo... gente, tinham que usar o poder da ciência e clonar o Mastroianni. E de preferência mandar um clone aqui pra casa porque eu não ia reclamar.... mas enfim...
Hoje eu tive "una giornata particolare".... acordamos, e saímos de Campinas do Mato de Dentro de Jundiaí, rumo ao velho e combalido Piratininga. E vamos para a Pinatoteca, ops, Pinacoteca, ver amigos, e o Calder.
A exposição está lindíssima. Pequena e bela, como os móbiles-mini do tiozinho.Fiquei emocionada vendo o "Lufada de Neve"... o tema da exposição é a atuação do Calder no Brasil; pra quem não sabe, ele foi um grande amigo do crítico Mário Pedrosa, e veio ao nosso país três vezes... nas três ocasiões, trabalhou, expôs, fez e aconteceu. Pegou o MASP no seu início, a Lina e o Bardi a todo vapor... lindo, lindo. Uma grande ironia a exposição acontecer no velho e acadêmico Liceu de Artes e Ofícios, e não no Assis Chateaubriand. E uma grande ironia uma das mais belas obras do Calder ser do Instituto dos Arquitetos do Brasil, o prédio magistral do Rino Levi, que hoje está no osso, literalmente. O Brasil já foi melhor.
Depois, a mini-excursão rumou para o Acrópole, o restaurante grego do Bom Retiro que virou moda, depois que a Veja São Paulo botou estrela e tudo. O restaurante é um barato, com decoração pseudo-grega, gente saindo pelo ladrão e preços, digamos, nada módicos. Mas a comida é di-vi-na, comemos mussaká ( aquela "lasanha" de carne e berinjela, com purê em cima), um risoto de frutos do mar que está dentre as melhores coisas que eu já comi na vida ( vermelho, com camarões gigantes e polvo macio), e lula recheada. Depois disso tudo, ainda teve um doce folhado, com molho doce de laranja e cravo, e recheio de creme de semolina, recém-saído do forno.
Olha, o Acrópole vale cada centavo investido, vale até pelo dono, um velhinho biruta que tira os pratos correndo e é, digamos, um casca-grossa daqueles. Nada limpo nem organizado, o Acrópole chateou muito uma conhecida minha, nega metida a grã-fina, besta e chatérrima, que se escandalizou com a zona e com o fato do local supracitado não ter cardápio ( o preço é feito de acordo com a sua cara, eu acho). Eu, como adoro um moquifo ( acho que nunca fui tão feliz como em Nápoles, a cidade-moquifo por excelência, comendo pizza no meio da rua, daqueles fornos que os caras constróem fora de casa, pizza de massa grossa mas deliciosa, tomate, manjericão, queijo e uma cantada em dialeto do maluco que está naquela janela cheia de varal de roupa) me realizei no Acrópole.
Só não gostei muito da exposição do Oscar Pereira da Silva, pintor acadêmico, muito do chatonildo, que nem essa nega que não gostou do Acrópole. Pra mim e pro Paulo, o melhor do cara foi uma cópia que ele fez da Bunda do Amoêdo ( outro pintor acadêmico brasileiro, Rodolfo Amoedo em 1887 escandalizou o Rio de Janeiro, mandando de Paris, onde era bolsista do Imperador, seu quadro Estudo de Mulher, um nu fantástico; o centro da composição é a parte transversal da supracitada moça)...
Depois, café no sempre bagunçado e caro café da Pina, alguns pensamentos infelizes, e muita alegria de ver o delicado equilíbrio das formas.

Thursday, September 07, 2006

Santos, a cidade heróica dos Andradas

Anda tão frio que hoje tive minha dor de dente chicagoan.

Os leitores antigos do Meio sabem que, devido ao frio intenso das margens do Michigan, eu tive dores de dente inacreditáveis, por conta da única obturação que possuo ( a maldita é muito perto da raiz). Então, tá tão frio nesse início de setembro que a dor de dente Al Capone me visitou.
Estranho fazer tanto frio em setembro, mas enfim. Correndo que nem uma louca, prepara aula daqui, email, telefonema, reunião, o escambau. Qualifico o doutorado finalmente nos idos de setembro, no meu aniversário.
E hoje foi dia da Independência. Quando eu era criança, era meu feriado favorito. Nasci às margens do Ipiranga literalmente, no hospital Leão XIII, quase no monumento. Meu pai me levava lá, e eu tinha uma boneca de pano que adorava, a Marquesa de Santos. Mas não lembro de um 7 de setembro tão frio, só lembro de um poema que recitei numa festa da escola, e começava com o verso do título.
A professora me abraçou porque consegui decorar tudo: "Santos, a cidade heróica dos Andradas/ O príncipe voltava feliz e satisfeito/ Com a luz da justiça a iluminar-lhe a alma/ e o fogo da justiça a queimar-lhe o peito/ Quando vê cartas ofensivas/ Vindas do antigo Portugal glorioso/ sua voz vibrou como um clarim/ gloriosamente forte/ e o vento acariciando as faces do colosso/ em breve repetiu, Independência ou Morte"... e hoje não cozinhei, não declamei poemas, só estabeleci hipóteses e sofri dor de dente gringa.