Wednesday, February 16, 2011

Justine



Justine vive em Montmartre, nos bares e restaurantes. Posa para artistas, e é também, ela própria, uma artista. Às vezes as coisas apertam e ela precisa arrumar um bico de costureira, mas logo ela aparece, toda serelepe, onde os homens das cores e das formas estão.

Apesar da origem muito simples, ela compreende esses homens, os seus sonhos. Sabe que os lilases de Montmartre só ficam mais bonitos com eles, e para eles. Mudos, muitas vezes imersos na sua dor, ou alegres beberrões, esses homens a admiram por ser quem ela é. E hoje, pelas mãos da fada Lili, Justine vive também numa mesa de laca branca, perto do Chat Noir de Steinlen e de um verão de Monet, num bistrô escondidinho. E dentro do meu coração tão cansado, que sonha Toulouse-Latrec.

Express Yourself

Aconteceu uma coisa engraçada nos últimos tempos. Tava ali na Praça é Nossa virtual, vulgo msn, com dois amigos, falando algumas coisas que eu andei matutando. E os dois meio que deram risada, falaram assim, o que é isso, andou lendo livro de auto-ajuda, e tal.
Claro que literatura de auto-ajuda é uma das cabeças da Hidra de Lerna, pro povo que se formou em Humanas na Unicamp. Acho que é até é mesmo, junto com outras coisas como a preocupação com a aparência física, a propaganda e o Campeonato Brasileiro. Mas não, eu não me rendi à literatura de auto-ajuda. Eu cheguei à essas conclusões por mim mesma, penando muito. Talvez, se eu tivesse lido auto-ajuda, teria sido mais fácil, do que sofrer o tanto que eu sofri!
Paralelo a isso, a semana foi marcada pelo lançamento do novo single da minha ídala Lady GaGa, Born This Way. O povo logo caiu de pau matando, falando que é cópia da velha, e ótima, Express Yourself, do antológico Like a Prayer da Madonna. A própria GaGa se antecipou e explicou tudo no Leno, parece, confirmando as semelhanças entre as duas canções, super pra cima, super momento glitter... com você mesmo.
Pois é, porque é tão mais fácil a gente ter momentos glitter com o namorado, com as amigas, com os amigos, com a mãe, o filho, o sobrinho, a prima, o porteiro, mas tão foda ter com a gente mesmo. A gente mesma, quem é essa chata, cheia de problemas, feia, sem graça, sem glamour, que a gente tem que enfrentar todo dia? Tem quem prefira pagar outra pessoa pra lhe fazer companhia, só pra não ter que encarar a si mesmo no espelho. Estar sozinho? Tão sem sal. Você prefere ter um marido que te bate, um namorado que tá casado com outra, um amante que não te satisfaz, do que ficar consigo mesma, quieta, tomando chá chinês medicinal. Tudo, menos ter que ficar com a gente mesma.
E outro dia me ocorreu uma coisa óbvia. É auto-ajuda? Não sei porque nunca li, mas se for, então o Meio do Caminho vai começar a me dar dinheiro, o que não seria de todo ruim. Mas lá vai. Eu prefiro eu. Eu me amo. Prefiro tomar chá chinês medicinal, e ouvir GaGa e Madonna a todo o vapor!

Friday, February 11, 2011

O próximo amor

Quando eu amar de novo um homem, quero ser feliz. Não quero amar do jeito torto que sempre amei, sofrendo, me desvalorizando, esquecendo de mim. Quero me lembrar, quando olhar nos olhos dele, que aqueles olhos são espelhos, e não punhais.
Quero o prazer, a alegria, o encontro, o abraço, não a dor e a desesperança. Tenho que aprender a amar melhor, eu sei. E isso começa por mim: quero me amar mais, quero acreditar mais em mim, na minha beleza, nos meus princípios, na minha origem, na minha história, nos meus valores. Não estou derrotada; guardo dentro de mim a certeza inabalável da vitória, e parte da vitória pra mim será essa: eu serei amada.
Porque hoje eu tenho por mim mesma uma ternura inabalável; hoje sentei sozinha num dos meus restaurantes favoritos e pensei, estou na melhor das companhias, sou ótima companhia. Olhei para mim como quem olha pra uma velha amiga, uma pessoa querida que mora longe, mas que às vezes vem me visitar e sempre traz novidades, um pão de queijo e pede pra que eu passe um café. E a gente senta na mesa e conversa horas, fofoca, chora, ri, eu tenho certeza que irei me encontrar mais vezes, aqui em casa, na esquina, na viagem tão sonhada para Buenos Aires. E quando eu me encontrar, quando eu estiver comigo, encontrarei meu próximo amor, como se nada fosse.
http://www.4shared.com/audio/vofudmi_/Jacques_Brel_-_Le_Prochain_amo.htm

Wednesday, February 09, 2011

De quem foi

Na terça-feira, encontrei uma colega de graduação que não via há mais de dez anos. Minha turma de graduação era muito desunida. O povo teve brigas homéricas, durante todo o curso, muitas pessoas se detestavam e no final até hoje não sei porquê, mas pessoas que eu adorava simplesmente pararam de falar comigo, depois que entrei no mestrado.
Tentei entrar em contato com esses colegas de quem ainda guardo boas lembranças, pela internet. Mas foi em vão. Não consegui achar ninguém, e olha que o Orkut taí desde 2003 atazanando a minha vida. Google, Facebook, nada. Nem Diário Oficial. Desconfio que as meninas casaram e mudaram de nome, porque nunca encontrei mais nada sobre elas, depois da nossa formatura.
Os dois primeiros namorados que tive também sumiram na névoa dos tempos. O primeiro menino que beijei não, o Cláudio vira e meia aparece e me diz que tá vivo, mas os meus dois primeiros amores... não, não sei onde estão. Sei que casaram, um deles mudou de Estado, acredito que já tenham filhos. Mas mais nada apareceu.
Sempre senti muita falta dessas pessoas. Mas hoje lembrei de um trecho de A Casa dos Espíritos, de Isabel Allende, onde a Clara, a personagem principal, diz que não pode achar, mesmo sendo médium, quem não quer ser encontrado. E de repente, pensei que o que importa foram as pessoas que ficaram ao meu lado todos esses anos, e me imaginei num salão, numa grande festa, com todos que foram. E pra cada um deles disse que eu os amei muito, e que era grata por tudo que vivi com eles. E eles se iam, um a um, afinal, o baile acabou.

Tuesday, February 08, 2011

L'ombra

Estou bem ansiosa. Quer dizer, eu sou bem ansiosa, mas ontem e hoje estou nos dias de ansiedade máxima. Tudo dói e eu sofro por tudo. Enfim.
Detesto estar assim, desse jeito. Há muitos anos fujo como o diabo da cruz dessa sensação de perigo iminente, dessa dor, dessa aceleração do tempo. Já fiz muita besteira nesse estado: liguei pra quem não devia ligar, falei com quem não devia falar, fiz o que não deveria fazer. Me afobo, troco os pés pelas mãos, tiro conclusões precipitadas, me desespero. Estou um barril de pólvora perto de um fósforo, o pote até aqui de mágoa. Cansada demais.
Agora, faz uns anos, aconteceu que eu arrumei um jeito de fugir desse sentimento. Esse jeito correspondia a uma pessoa, a uma situação, que me amortecia, supostamente me apaziguava e me deu a ilusão de que nunca mais eu me sentiria desse jeito. Como toda ilusão, me protegeu de fato do que eu considero a minha sombra; mas hoje sei que quem me amar de verdade não anulará isso, apenas me dará a mão quando eu me sentir assim. Abraço, hoje, minha sombra, agradeço por ela existir, agradeço todos os momentos que pra mim foram horríveis, porque neles, simplesmente, eu estava viva.

Sunday, February 06, 2011

Compartilhar

É difícil a gente se colocar por inteiro nas situações. Existe sempre o perigo da rejeição, o medo da incompreensão... enfim. Antigamente, por carência, eu acabava falando demais, mostrando demais, me ligando rápido demais. Hoje, ando rabugenta, e meio distante. Não sei se vão me aceitar assim, mas fazer o quê, é o meu jeito e quem me agüenta sabe que tudo isso é pose, no fundo eu continuo a pandinha de sempre, que adora carinho e é super sentimental.
Ando compartilhando. Tudo. Tem sido gratificante. Também, selecionei melhor com quem compartilhar. Foi duro cortar algumas pessoas e situações, mas agora o retorno tem sido tão completo que penso que, de fato, rabugice funciona melhor nos começos.
Acima, prédio da Cricoletti, na frente da Estação Ferroviária, aqui da antiga vila de São Carlos das Campinas do Mato de Dentro de Jundiaí.

Thursday, February 03, 2011

Manual de sobrevivência Panda na selva

Continuando o tema Panda e Homens.
Durante muitos anos, por questões profundas e trágicas, me envolvi em relacionamentos abusivos, de co-dependência, nada saudáveis, prejudiciais à saúde mesmo, com homens que só me fizeram mal. Me envergonho disso, claro. Outro dia desses, uma pessoa me disse que estava cansada do meu papo "Sofri muito" e que meu blog era um saco por isso. Enfim, não obrigo ninguém a me ler, no entanto um monte de gente me lê e até hoje eu não sei o motivo mas tudo bem. Não vou deixar de escrever e acho que preciso de fato encontrar as palavras pra tanto sofrimento, mas também pra tantas alegrias que eu vivi. Descobri muitas coisas sobre o lado ruim das pessoas e do mundo, mas não deixei também de ver a luz do sol, de me encantar com árvores em floração e de amar as pessoas.
Durante muitos anos, meu tormento me fez uma figura de quem se diz "é louca". De fato, eu sou muito maluca. Apesar disso, sou doida mansa, incapaz de fazer o mal pra alguém. Mesmo nos piores momentos, mesmo nos momentos em que eu vivi no lado escuro da Lua ( e acreditem, lá faz muito frio) não tive o ímpeto de matar ninguém nem de prejudicar os outros. Portanto, isso faz de mim uma pessoa de fato louca, e ao mesmo tempo rara: sei o que é conviver com muita dor e não revidar, sei o que é sentir desamor e não partir pro ódio, pra guerra.
Hoje vejo tudo muito mais colorido e legal. Me vem horas de felicidade extrema, simplesmente porque passou. O lado ruim passou. E eu recebo agora as coisas boas com tanta gratidão, me sinto plena em mim mesma; esses momentos são os melhores da vida pra mim. Antes, eles estavam embaixo dos escombros, agora, eles brilham nas minhas paredes.
Mas como passar pelas tormentas? Tem que ter sonho, tem que ter graça, sempre.

Tuesday, February 01, 2011

Pandas e Homens: Convergência Impossível?

Dri e Marcelo me convenceram, depois de uma pizza, um suco muito gostoso e várias risadas, a escrever um livro sobre curiosidades do mundo masculino. A idéia seria escrever crônicas, ao estilo da velha panda, sobre suas experiências com os machos de sua espécie. O título do post é uma brincadeira com as teses que o povo anda defendendo por aí, com títulos escalafobéticos e dois pontos, seguidos por títulos explicativos.
De fato, a pequena panda tem histórias curiosas sobre homens, bem como tem sobre Dante, Catedrais e receitas de biscoito. Esses animais aparentemente racionais já brindaram a habitante do Tibete campineiro com experiências trágicas, cômicas e tragicômicas. Algumas delas, em resumo. Já vi:
1) um homem terminar um namoro no dia do aniversário de alguém;
2) um homem terminar um namoro na semana que alguém tinha que entregar dissertação de mestrado;
3) um homem dar em cima de todas as suas amigas e achar isso natural;
4) um homem dizer que você não é atraente mas no entanto te agarrar sempre que possível;
5) um homem apostar uma caixa de cerveja que ia te beijar ( leia-se, a garota considerada a mais feia da classe) e perder,porque além de não te beijar você fechou uma janela no dedo dele;
6)um homem te dar um par de brincos de safira e um mês depois dizer que faria esse gesto para qualquer mulher com quem ele saísse;
7) um homem ser absolutamente generoso com uma menina que não o conhecia;
8) um homem levá-la para comer um filé num sábado simplesmente porque você queria;
9) um homem dar uma casinha de bonecas pra filha no Natal;
10) um homem escrever a Divina Comédia.
Elaborações posteriores em futuros posts. Aguardem a nova série Panda Sex in the City!

Monday, January 31, 2011

Carta a alguém muito longe

Você está muito, muito, muito longe. Na verdade, sempre esteve. Continua a viver tão longe que nem sei o lugar ao certo, é um lugar aonde nunca fui, e não faço idéia de como seja. Não faço idéia de nada do que pertence a esse lugar que é tão longe e é tão seu. Não sei se as mesmas estrelas que brilham aqui brilham onde você está, se vemos a mesma lua e se as nuvens que passam aqui, de repente, passam perto da árvore embaixo da qual você se senta, com sua felicidade e a mulher que o ama tanto a ponto de até eu, que estou aqui do outro lado do mundo, saber.
Sei de você as coisas públicas e portanto totalmente desnecessárias para mim. Seu cheiro, o brilho dos seus olhos e o calor do seu abraço, que seriam os meus tesouros máximos, permanecem mais longe de mim quanto Marte. Marte é algo possível; posso me inscrever nas listas das primeiras colônias humanas do planeta vermelho e me mudar pra lá, posso facilmente me inscrever também na Legião Estrangeira, ou atravessar a Cordilheira dos Andes, posso deixar de ser eu mesma e tudo isso será mais fácil do que meu caminho cruzar com o seu.
De tão longe que estou, observo algumas constelações da sua vida, que brilham a ponto de me cegar. Respeito e admiro a mulher que está ao seu lado; ela vive um sonho que eu não ousei sonhar. A vida dela está repleta de você, e eu aqui, no Pólo Norte, me acostumei a viver nesse frio. Fazer o quê, nem nos meus sonhos mais loucos você aparece, minha solidão é total e a escuridão é completa. Mas mesmo assim, eu olho pra cima e vejo o Cruzeiro do Sul, o símbolo da minha utopia que foi estar com você. Porque no fundo, no fundo, um domingo de sol, um mamoeiro e algumas palavras foram o suficiente pra construir a minha felicidade.

Sunday, January 30, 2011

As vidas passadas

Vim para o Piratininga natal. Compromissos profissionais e afetivos lotaram meus últimos dois dias, nesse calor do Malebolge.
Vi amigos muito queridos, passeei, comi comidas gostosas, fiquei cansada, comprei um vestido de malha vermelho e fui a uma exposição excelente, do gravurista Carlos Oswald, no Centro Cultural da Caixa no Conjunto Nacional (recomendo vivamente).
Assisti "Tio Boennme", o filme do cineasta tailandês Apichatpong Weerasethakul, que ganhou a Palma de Ouro de Cannes do ano passado, um dos filmes mais bonitos que eu já vi na vida. Fiquei toda embaralhada, como acontece quando assisto um filme excepcionalmente bom; sou particularmente suscetível ao cinema. Lembro de quando assisti "História Sem Fim" com minha mãe, no Cine Gazeta, na Paulista, com 8 anos. Um mundo se abriu pra mim. Acho que o filme do Apichatpong abriu outro mundo também.
Junta com uma sensação estranha que tive nesses calorentos e suados dias paulistanos. Algo morreu dentro de mim. Não sei explicar. Mas algo morreu dentro de mim. Algo antigo, sofrido. Morreu. Não faz falta. Acabou. Passou. O filme conta a história de um homem que lembra de suas reencarnações. Eu lembro de todas as vidas que tive em São Paulo. Lembro e não lamento mais. Lembro e não quero que o tempo volte. É isso.

Friday, January 28, 2011

Silêncio

Acho que sempre tentei cobrir com palavras o medo que sinto de outras pessoas, de situações novas, de me colocar e dizer, gosto disso, não gosto daquilo e assim por diante. Era reconfortante saber que podia ser tagarela, falar qualquer coisa e esconder a timidez, a insegurança, o medo da rejeição. Afinal, assim eu era forte; podia ir em frente. Podia esconder de mim mesma que no fundo estava em pânico, pedindo pelo amor de Deus para ir pra casa, me esconder no meu quarto e ouvir música.
Tudo isso era mesclado também pela certeza da incomunicabilidade. Sim, a grande tagarela e piadista no fundo não punha fé na capacidade dos outros em ouvi-la, e muito menos compreendê-la. No fim, depois de muito me ferrar, resolvi que várias coisas que eu fazia e pensava ficariam encerradas dentro de um baú do meu coração. Hoje vejo que o medo me impedia de tentar mostrar algo daquilo, das imagens, canções, memórias e sentimentos. Também ocorria a falta de oportunidades para que eu pudesse "mostrar meu futebol"; claro que eu me aproximava de gente que de fato não estava nem aí para o que eu pudesse falar ou mostrar.
Agora, prefiro ficar em silêncio. E esperar. E um pouco de mim se revelou, mais, esta semana.

Tuesday, January 18, 2011

My favorite things

Dias aborrecidos e tristes. A Convergência do Atlântico Sul é um fenômeno climático extremamente f&**, se me permitem o comentário adolescente.
Daí a gente lembra da fofa Julie Andrews em The Sound of Music, ela e os meninos todos ilhados pela chuva e cantando suas coisas favoritas:
Perfume
Abraço
Pão quente
Café com leite
Sorriso
Reencontro
Forró
Boneca de pano
Cílios longos
Fitas de cetim

Wednesday, January 12, 2011

Verão na laje

Na velha Campinas do Mato de Dentro de Jundiaí, tem feito um calor digno das valas do Malebolge. Pra piorar, outro dia achei que o famoso Exumóvel ia virar carro anfíbio, em plena Norte Sul transformada num idílico braço do rio Atibaia. No final do dia, cai cada toró que é melhor ficar em casa.
Dito isto, e sempre considerando a atávica preguiça da panda, não tenho feito nada de muito útil nos dias que correm. Apesar da minha indolência e falta de vergonha na cara, recebi uma linda notícia na segunda-feira: fui premiada como Tradutora do Ano por uma das fundações ligadas à Biblioteca Nacional. Como o feito se liga à nobre língua do tiozão mais sexy da História da Poesia Ocidental, achei por bem destacá-lo no Meio, sempre no Meio.
Acima, um dos desenhos de Delacroix para a Barca de Dante, lápis sobre papel, 20,4 x 30,7 cm, Louvre.

Sunday, January 02, 2011

As fadas e a política

Um tempo atrás, prestei um concurso público numa universidade de renome. Tudo,absolutamente tudo, deu muito errado. O colega que se considerava favorito na disputa fez uma das piores coisas que um ser humano pode fazer, no meio do processo. E um dos integrantes da banca portou-se da pior maneira possível. Paralelo a isso, enfrentei uma situação super dolorosa, no plano pessoal. Enfim.
Deste pesadelo, resultaram duas coisas: uma aula sobre as máquinas da Revolução Industrial e um texto sobre a importância das fadas no imaginário político do século XVII.
Foi assim. Eu descobri que o último capítulo do Leviatã de Hobbes é dedicado às fadas, comparadas com os padres, pelo arguto filósofo inglês. Do outro lado do Canal da Mancha, Charles Perrault, homem forte de Luís XIV, terminou a vida publicando os Contos da Mamãe Ganso, os famosos contos de fada, porque uma das narrativas é a corte das fadas. Claro que essa corte é a corte do Rei Sol, recriada.
Fiquei com as fadas na cabeça. Até porque um dos meus filmes favoritos é Peau D'Âne, obra prima de Jacques Demy. Pele de Asno é um dos contos de Perrault, que Demy recriou magistralmente no cinema. O cineasta escreveu as canções do filme, todas inspiradas no francês perraultiano, cheias de fórmulas jurídicas e de politesse, e justamente a Fada dos Lilases é, vamos dizer assim, uma pequena Maquiavel, grande filósofa política.
Juntei tudo e escrevi, no meio de tantas dores e azares, esse texto das fadas. Resolvi retomá-lo, afinal, se as fadas ajudaram Hobbes e Perrault, talvez se apiedem dessa pobre e triste panda.
Acima, o frontispício da primeira edição dos Contos de Perrault, Paris, 1697.

Friday, December 31, 2010

Vita Nuova

E com os meus votos mais ardentes de um 2011 feliz para todos...

Hoje tive a felicidade de passar a virada na casa de uma amiga muito querida, que eu chamo de cabeçudinha, carinhosamente. Ela é muito fofa, e apelidou a velha panda de pandola. Pois então. No meio do caminho, no meio da ceia, minha amiga falou pra tia, olha, essa pandola aí é especialista em Dante Alighieri.
Fiquei toda feliz por entrar em 2011 com o meu lindo ao meu lado, e depois de comer muito e encher a fuça de prosecco e champanha, repenso a velha história do "eu sou eu e as minhas circunstâncias". De fato, tem coisas que eu não vou conseguir mudar: o fato de ser panda, de ter sofrido como os monges do Tibete e o fato de amar desesperadamente um homem que morreu em 1321. Mas é sempre possível começar, ao lado do que se é e do que foi, a olhar para o futuro. E a imaginar, sempre, novas constelações com as mesmas estrelas.
Acima, Retrato Alegórico de Dante Alighieri. C. 1530, autor desconhecido. Óleo sobre madeira. Washington, National Gallery of Art.

Wednesday, December 29, 2010

Desejos


Depois de dias cansada, e pior, dias em que eu simplesmente não me amei, ontem tive uma lembrança de um sonho lindo, que me salvou de tanta dor. Não sei se meu sonho ainda pode virar realidade, talvez os sonhos venham com prazo de validade, não sei mesmo. Mas hoje, acordei com um desejo imenso de ver Degas.
Acima, Place de la Concorde, 1875. Óleo sobre tela, 78,4 x 117,5 cm. São Petersburgo, Hermitage.

Wednesday, December 22, 2010

Pequeno Dicionário Paulistano

Augusta- rua comprida que tem de tudo e que todo mundo vai.
Bauru- sanduíche muito gostoso, com variações. O melhor ainda é o original, do Ponto Chic.
Cambuci- bairro simpático, cheio de ladeiras, com igreja neogótica e terra natal de pandas que estudam Dante.
Demônios da Garoa- com Adoniran, instituições da intelectualidade da cidade.
Ermelino Matarazzo- bairro simpático no extremo leste, tipo, extremo mesmo. É tão longe que puseram uma USP lá.
Feira Livre- ver pastel.
Guarulhos- no final da Marginal do Tietê, fica o Aeroporto Internacional de Cumbica ( em tupi, lugar enevoado).
Hipopótamos- tem muitos no Zoo, na Água Funda.
Ibirapuera- parque muito grande, no meio da cidade, que tem até Bienal de Arte.
Jaraguá- pico na entrada da cidade. Muito, muito alto. Vive enevoado, como o Aeroporto de Cumbica.
Lapa- bairro simpático, cheio de ladeiras, com padarias excelentes e ponto final de todas as linhas de ônibus da cidade.
Móoca- bairro simpático, plano, cheio de palmeirenses, e o outro ponto final de todas as linhas de ônibus da cidade.
Nair Bello (1931-2007)- a maior intelectual da história do município.
Ofner- confeitaria muito boa porém cara, meu pai só comprava lá uma vez por ano. Compete com a mais conhecida Kopenhagen.
Praça da Bandeira- praça que virou terminal de ônibus, cheio de conduções Lapa-Móoca.
Q! Bazar- bazar onde os sacoleiros vão pra comprar tudo com muito desconto. A Daslu do resto da cidade.
Rodovia dos Bandeirantes- rodovia que leva pra Campinas.
Sé- praça muito grande que com a graça de Deus não virou terminal de ônibus. Assim como o Cambuci, possui interessante igreja neogótica.
Terraço Itália- restaurante chiquérrimo, no alto do lindo Edifício Itália. Aceito almoços ou jantares lá.
USP- lugar muito longe, no Butantã, cujo ônibus nunca passa. Diz que as pessoas estudam lá.
Vírus do Amor- cançoneta pop da Rita Lee, dos anos 80, que possui um dos melhores versos sobre a cidade.
Xis Tudo- sanduíche com tudo dentro. Virou nome de um dos excelentes programas infantis da TV Cultura.
Záccaro, Maestro Augustinho (1948-2003)- maestro que comandava uma orquestra, que sempre tocava os hits da colônia itálica da cidade. Quando menina, participei várias vezes do programa de TV desse senhor, que apesar de bom músico, era janista.

Tuesday, December 21, 2010

Tiozão de Natal

E para adornar o Meio, no meio dos preparativos natalinos, um dos retratos mais antigos do tiozão mais amado do planeta.
Iluminura, depois de 1436, 29 x 20 mm. Biblioteca Riccardiana, Florença.

Monday, December 06, 2010

Finalmentes

Correria de final de semestre. Hoje estou na labuta, na entrega dos diários, notas, avaliações.... a desmiolada panda perdeu alguns de seus diários, nas viagens intergaláticas entre sua toca e a cidade do rio das lágrimas. Enfim.
Paralelo a isso, a pequena habitante do Tibete resolveu, numa iniciativa revolucionária, ligar a tecla foda-se para umas criaturas e situações que há anos atravancam meu desenvolvimento e alteram meu humor. Foi lindo e maravilhoso, a sensação de libertação, de compromisso único e exclusivo com uma coisa só: a minha felicidade.
Pois hoje, estou cansada pra burro, mas estou feliz.

Thursday, December 02, 2010

Chanukah


Por volta do segundo século antes de Cristo, a família dos Macabeus lideraram as revoltas que libertaram Israel do domínio selêucida. O Templo de Jerusalém foi reconstruído, e depois de tempos de perseguição religiosa, com Torás e outros objetos de culto sendo queimados, pode-se voltar a rezar para O Que É (tradução do tetragrama do nome de Deus).
Para comemorar, se acendem luzes, é o alegre Chanukah, que às vezes bate com o Natal cristão, outras vezes vem antes. Nos dois casos, se acendem as luzes, comidas gostosas são feitas, trocam-se presentes e todo mundo fica satisfeito. Então, em pleno Chanukah, hoje, me senti renovada e feliz.

Tuesday, November 30, 2010

Nóis trupica mas num breca


E provando que a panda está muito saidinha, amanhã falarei no nobre Desencontro de História da Arte que ocorre todos os anos na cidadela de Zeferino, sobre o patrimônio arquitetônico da velha e sempre detonada Campinas do Mato de Dentro de Jundiaí.
Falar sobre o patrimônio de Campinas é heróico, é hercúleo, porque o tal está sempre na ameaça de ser tombado, não pelos órgãos competentes, mas tombado mesmo, literalmente, no chão.
Agora, a gente não se aperta. Acima, colunas de uma casinha daqui perto de casa, obra dos bravos capomastri itálicos que modelaram a Campinas do café.

Monday, November 29, 2010

Sem palavras

Tenho um conceito muito ruim de mim mesma.

Na maior parte do tempo, me deprecio, acho que sou torta demais, feia demais, tonta demais. Talvez eu seja tudo isso, e um pouco mais, até. Sou muito zangada comigo mesma; não tenho paciência com minhas chorumelas e pequenos dramas cotidianos. Já vem de longe uma voz severa, que me assiste e comenta o que vivo, sempre dizendo que não tenho razão e que passo por coisas tão banais, que, sinceramente, pra que chorar e sentir...
E outra voz que não tem palavras, ecoa um canto, suave e doce, tão sem lugar no mundo que a outra pergunta se vale a pena cantar algo tão etéreo, tão de outro planeta. Sinto que uma parte de mim ainda não aterrisou neste mundo, como se eu fosse de outra época, alguém preto e branco num mundo technicolor... as outras pessoas parecem sólidas em seus propósitos, mesmo que sejam maus. Eu pareço, ao contrário, alguém transparente, que voa, asa de borboleta. Me pergunto se um dia esse canto que eu canto ecoará em alguém, ou se permanecerá sem destino, enquanto meu coração bater.

Sunday, November 28, 2010

Fim


Amanhã, é a última aula que ministro neste ano letivo. Depois, provas e trabalhos encherão os dias dos alunos e os meus, mas o drama de eu chegar, pedir silêncio, ligar o equipamento, pedir silêncio de novo, começar a falar, dar recados, pedir silêncio de novo e entrar nos meandros da História da Arquitetura, desde o Pathernon de Atenas até a Ópera de Arame de Curitiba... não, isso encerrou, pelo menos até 2011 começar de fato.
Encerro falando da virada do XIX pro XX, as estações de metrô de Paris, de Guimard, todas do período de 1890 a 1900. Todas, de ferro retorcido, no belo estilo Art Nouveau, que tanto fez sucesso no Brasil, também.
É lógico que tinha me planejado para falar de muito, muito, muito mais coisas... o caderninho de anotações ficou lotado de datas, mapas, rabiscos, que ficaram pra trás, nas corridas segundas-feiras. Aprendi muito mais que ensinei, me surpreendi com a festa surpresa no meu aniversário, e levo no coração o susto deles quando viram pela primeira vez a Catedral da Sé. Apesar de tudo, e talvez por isso mesmo, valeu muito a pena.
Acima, um cartão postal da Estação Bastilha, de Guimard, hoje demolida.

Saturday, November 27, 2010

Na terra de Almeida Júnior

Essa semana, depois de passar a segunda-feira em Piracicaba e a terça em Indaiatuba, fui ter na terra que viu nascer o pintor Almeida Júnior.
Consegui, miraculosamente, ser aceita num importante congresso no Museu Republicano de Itu.
Eu fui a Itu na infância, com meus pais, almoçar no Bar do Alemão e ver o semáforo gigante na praça da Matriz. Depois, nunca mais.
Saí de casa meio nervosa, porque a FAPEPANDA (Fundação de Apoio às Pesquisas da Panda) não possui, atualmente, de fundos muito consideráveis. Pra falar a verdade, a FAPEPANDA não tem nenhum fundo, internacional, nacional, nenhum apoio de nenhum banco nem de organizações governamentais ou não-governamentais. Dito isto, a pequena habitante do Tibete saiu de casa um tanto quanto aflita, e foi imprimir seu texto na lan house da esquina.
Eu simpatizo bastante com o pessoal da lan house aqui da minha esquina, mas os dois atendentes resolveram namorar e no meio do idílio deles e da minha pressa... peguei o ônibus correndo pra Rodoviária, comprei a passagem pra Itu e... me dei conta que a pen drive tinha ficado na lan.
Chorei, chorei, chorei muito no Terminal Rodoviário Ramos de Azevedo. Uma grande ironia do destino, já que eu me propusera a falar dos colaboradores italianos do grande engenheiro-arquiteto paulista... chorei de nervoso, de mágoa, de desespero, de aflição... e de tristeza. Há muitos anos eu faço as coisas totalmente no improviso, sem apoio, sem estímulo, só na dureza, e o lado duro e negro da vida... bem, quero conhecer o lado brilhante da vida, se vocês me permitem o desabafo.
Mas sou persistente (na verdade, não tenho outra alternativa a não ser persistir), e fui pra Itu assim mesmo, depois do consolo de um amigo querido no celular. Chegando em Itu, a anjinho Fran me resgatou e me levou pra conhecer sua terra... no Museu, amigos e gente querida me acolheram, e mesmo sem meu Power Point, mandei brasa e honrei os nobres itálicos construtores do interior paulista.
A anjinho Fran, num rápido tour pela cidade republicana, me mostrou uma das primeiras pinturas de Almeida Júnior, o São Paulo aí de cima, na bela e detonada Matriz deles. São Pedro não contribuiu muito com nosso passeio, mas as conversas na fábrica sem luz, e depois o cocktail do congresso, valeram o chuvão e reacenderam no coração da velha panda a chama da esperança de dias melhores.

Monday, November 22, 2010

No lugar onde o peixe pára

Hoje, acordei cedo e sem nenhuma disposição fui ministrar minha aula sobre a Paris do XIX para meus fofos alunos de Arquitetura, que não aguentam mais minhas arengas e meu mau humor proverbial das segundas-feiras de manhã.
O responsável pelos horários da veneranda instituição onde falo dos pintores do Impressionismo e da importância da mandioca na alimentação brasileira ( às vezes, na mesma aula) me pregou uma peça: nas segundas-feiras, dou aula em dois campi diferentes, mas um longe do outro, e num intervalo de 10 horas entre as aulas. O segundo é o mais longe da toca da panda, e fica no centro de Piracicaba, a ensolorada cidade das quedas d'água. Semprei gostei muito de Piracicaba, mesmo sendo este simpático município de uma amplitude térmica impressionante: Pira consegue ser mais quente que Campinas (sim, isso existe) e mais fria que Campinas (o que, por outro lado, não é muito difícil). Outra coisa que me impede de interagir mais com os nativos locais é o dialeto que eles falam: o piracicabês tem horas que é mais incompreensível que outras línguas menos nobres do mundo conhecido, como o francês, o inglês e etc.
Nesse semestre, portanto, fiquei de castigo pelos campi, tentando trabalhar ou fingindo que eu trabalho, tomando picolé e chegando ao requinte de tirar sonecas no Exumóvel.
Bom, resolvi variar a programação e dar uma volta a pé pelo centro de Piracicaba. Deixei o Exumóvel no campus e fui caminhando pelas ruas da cidade, cheia de casas das décadas de 10 e 20 e esquinas Art Déco. Pensei, em qualquer cidade do nosso abafado interior paulista, vai ter a sorveteria que dignifica o homem no meio da tarde. Outra coisa que adorna a terra dos bandeirantes é que qualquer cidade tem n confecções ou lojas que deságuam as criações do Brás e do Bom Retiro: lojas cheias de roupas de malha para as senhoras e senhoritas enfrentarem com garbo o clima pesado do verão.
Encontrei primeiro uma dessas lojas, cheias de blusinhas que viraram a cabeça da panda, de bolinhas e laços. A vendedora foi gentil e me informou o endereço da sorveteria mais próxima, uma graça de sorveteria, de esquina, com cadeiras verdes e sorvetes de graviola e cupuaçu. Tomei um sorvete de tapioca delicioso e fiquei vendo a tarde passar.
Entrei na igreja mais próxima, por curiosidade. E não é que o teto era afrescado com uma cópia da Transfiguração do Rafael? Achei um barato... e um casal totalmente virado no jiraia quebrava o pau na frente da igreja, a ponto de uma senhora chamar a polícia.
Continuei meu passeio e me deparei com uma lanchonete chamada Brasil Líbano, com um velhinho dentro com uma cara de quem ia me pedir em casamento, e uma loja espetacular, a Daslu da panda: Loja do Cido, tudo a 10 real.
Totalmente em estado de graça, a panda adentrou o estabelecimento e logo separou uma carssa e duas brusas, dentro da minha habitual falta de elegância e do meu orçamento. Comprei uma sedutora e principalmente discreta blusa pink pela quantia anunciada na placa da loja, e a mocinha ainda me informou que quando o Cido se encontra ele ainda dá desconto ( desconto em blusa de 10 reais é digno de um Adam Smith).
Fiquei feliz com o meu passeio e tirei muitas fotos mentais (já que estava sem máquina) das casas e sobrados de Piracicaba, o lugar, diziam os ameríndios, onde o peixe e a panda param.

Peso



Entramos no Advento, a preparação do Natal, e eu até biscoito de Natal já comi; nada passa incólume das patinhas gulosas da velha e sempre desmiolada panda. Mas me preparar que é bom, nada, consegui o feito histórico de não me preparar para nada nesse ano de 2010.

Foram tantos esforços, mas tão dispersos, desatentos e indisciplinados... e o coração que pesou demais, atrapalhando um pouco o funcionamento mental. Escrevi vários projetos e não levei a cabo nenhum; tomei muitas iniciativas saudáveis mas algumas ficaram pra trás, no torvelinho do dia-a-dia, da tristeza e do passado que sempre voltava. Infelizmente, caí também numas daquelas armadilhas que a gente põe na nossa frente, pra nos sabotarmos, mesmo. Enfim. Queria, sinceramente, ter feito mais em 2010; estou com saudade da esperança e do ânimo do início do ano. Agora me passa pela cabeça que sentirei falta da esperança que senti, em 2010, esperança que há anos não sentia; e dos momentos felizes que tive nesse ano, momentos verdadeiramente felizes, como há anos também não os tinha. 2010 foi um ano que trouxe surpresas, boas e ruins, mas surpresas. Ontem, fiquei pensando longamente que a vida é assim mesmo, pega a gente de surpresa sempre, nunca é do jeito que a gente quer, assim, certinho, mas é tão, tão boa.

Acima, um dos atlantes do coreto da Praça Carlos Gomes, Campinas.

Friday, November 19, 2010

Lubnan

Porque onde estão os cedros,
sopra o vento,
porque traz uma canção;
o sentido do rosto,
e o significado dos gestos.

Tuesday, November 16, 2010

A Deusa do Amor

Esses tempos foram de enfrentar coisas dolorosas. Lembranças trágicas do passado voltaram à tona. Enquanto isso, a vida segue, lenta, com alguns percalços, mas segue.
Mas eu aposto, e muito, ainda, no amor. Se não for por isso, a gente apostaria em quê? Aposto nas pessoas.
Semana passada, infelizmente perdemos um amigo, e uma outra amiga casou. Tudo na mesma semana. Encontrei tanta gente, vi tristeza, vi alegria. Com os olhos do amor. Pra mim, isso é o que importa.

http://www.4shared.com/audio/ICEH9aRo/Pepeu_Gomes_-_A_Deusa_Do_Amor_.htm

Friday, November 12, 2010

Rute e Boaz

Rute era moabita, ou seja, vinha da Jordânia. Casou com um dos filhos da judia Noemi. Apesar de sua sogra ser judia, quando o marido, o cunhado e o sogro morreram, Rute não quis deixar Noemi sozinha, e, enfrentando o medo e a angústia, foi para Israel, para a cidade de Belém.
Chegando lá, as duas não tinham nenhum recurso. Nada, estavam condenadas a passar fome. Rute então foi para os campos de trigo e cevada, recolher as sobras, os restos da colheita. Nessa condição tão triste, nesse desespero, Boaz, o dono dos campos, olhou para Rute, que gerou quem gerou o rei Davi.
A coisa mais bonita que um homem faz para uma mulher é olhar para ela.
Acima, A história de Rute. Nicolas Poussin, 1660-1664. Óleo sobre tela, 118 x 160 cm. Paris, Louvre.

Saturday, November 06, 2010

Tu sei il mio maestro e'l mio autore


Uma das edições renascentistas da Comédia que consultei em Chicago, na Newberry Library. Faz cinco anos, mas eu não esqueci do dia em que vi esta maravilha, obra do veneziano Aldus Manutius, 1502. Tá no Mezzo, nos guardados da panda.
No título do post, Canto I do Inferno.

Wednesday, October 27, 2010

Espelho

Então, você se olha no espelho. E o que vê? Uma moça já com alguns cabelos brancos. Os olhos tristes. Não, a roupa que eu visto não está na última moda. Não, eu não tenho dinheiro pra ir em lojas de grife. Até porque... bem... as roupas de grife não caberiam em mim.
Sim, eu sou mais pra redonda que pra reta. Tenho mais curvas que paralelas. Meu cabelo não é liso. Eu uso óculos. Sou descendente de libaneses, negros, índios, espanhóis, portugueses e um holandês perdido. Não sou uma top model. Não, eu não estou no padrão de beleza atual.
Sim, e eu sofro com isso, claro, como toda mulher. Eu tento me arrumar, dentro do que sou. Compro batom nas Lojas Americanas, e arrumo meu sempre desarrumado cabelo. Às vezes, dói não ser uma moça como as das capas das revistas. E dói não ter grana pra comprar as roupas da moda, como as camisetas de malha leve que estão 100 reais nas lojas mais simples. Eu não tenho tantos sapatos e bolsas assim.
Mas, no final, será que eu não consigo ser bonita? Será que toda mulher, no fundo, não tem um traço de beleza, algo que a faz ser única, o brilho dos olhos, a expressão do sorriso? Será que a doçura do meu caráter não vale nada, no final? Porque toda mulher quer ser bonita pra ser amada. Lembro que eu era pequenina, dois anos, e observava minha tia se maquiando. Minha tia é muito linda, e eu a adorava, e falei pra ela que ela estava tão bonita que meu tio "ia ficar muito apaixonado". Tão pequena e eu já sabia do cerne do problema: tantas vezes eu me arrumei, me maquiei, escovei meu cabelo, esperando o elogio do outro. Se o elogio do outro viesse, meu coração se aquecia; se não, eu morria um pouco por dentro, e, sim, algumas vezes me disseram que eu era feia, que eu não era atraente, e isso me quebrou inteira.
Hoje, no dia de hoje, eu pus uma camisa nova, uma corrente de ouro que foi da minha mãe, a calça velha de guerra, pra ir trabalhar. Olhei pra dentro dos meus olhos e falei, você é linda.

http://www.4shared.com/audio/rInSlpbY/Zeca_Baleiro_-_04_-_Salo_de_Be.htm

Tuesday, October 19, 2010

Aaaaaaaaa

Além de asma, dez graus de miopia, cabeça no mundo da lua, a pequena panda sofre de ansiedade. Isso desde muito pequena. Lembro de não dormir nas vésperas de viagens, de morder drops e de sempre me adiantar nos relacionamentos. Claro que isso não serve pra nada, junto com a culpa a ansiedade é dessas coisas do demo, mesmo.
Agora tô num esforço titânico de viver o momento. De não me antecipar. Fantasiar, eu ainda não consigo parar de fazer. Mas se minha vida tem ausências, aprendi que fugir do vazio não adianta nada. Então, é melhor abraçar o vazio, aceitar, entender.
Sinto falta de muitas pessoas. Mas também já vi que não adianta chorar pelo passado, ad infinitum. A vida taí. Algumas coisas que plantei ao longo desse ano já começam a frutificar, eu já vejo o resultado dos meus esforços. Tão difícil ser mulher, ser gente, mas também, tão gratificante.

Sunday, October 17, 2010

Lavou tá novo

Amanhã falo sobre o Palácio de Versalhes, pros meus fofos alunos arquitetos mirins.
E só pra não perder o hábito, escarafunchando na memória do Caronte, achei esse retrato do tio mais amado e idolatrado do Universo conhecido.
Só fiquei curiosa pra saber o que ele tá fazendo na propriedade de Luís XIV. Dá um artigo isso. Será uma galeria de grandes poetas?
Acima, Retrato de Dante, de Vincenzo Scamuccini (1773-1844), óleo sobre tela, 51 x 43 cm. Versalhes, Palácio.

Thursday, October 14, 2010

The business is black

Outro dia eu criei, conversando com a Carol no msn, uma camiseta: eu vou pôr uma foto do Mussum e embaixo, a frase que dá título a este post. Sim, meus caros, the business is black, totally black.
Faz tempo que eu não comento com os poucos e digníssimos leitores deste venerando blog as desventuras da pequena panda desmiolada no universo de seus interesses profissionais. Aconteceu o seguinte fenômeno paranormal com a panda: depois de terminada e defendida sua mui amada maledetta (vulgo tese), a habitante do Tibete resolveu exercitar seus talentos, tentando entrar pra vários circos, no número de equilibrar pratos nas varetas. Explico: atrás de emprego, prestei concursos, montei projetos, escrevi artigos. Que ótimo, pensarão os leitores; sim, que ótimo, penso eu, seria ótimo se não fosse cada um destes citados produtos sobre temas completamente diversos, que vão das relações da Comédia com as obras dos artistas pisanos do século XIII até o patrimônio arquitetônico campineiro.
Atrás de oportunidades de trabalho, escrevi um monte de emails, contactei pessoas, fui atrás de cursos de línguas, pintei e bordei. Mas, como bem escreveu Drummond, e agora, José? Tenho 5 projetos inacabados, não sei o que vou fazer da vida e dinheiro, que é bom, até agora.... e pior, tô num cansaço... e o foco, que também é bom, necas. Enfim, me ferrei. Não, e eu não aceito sugestões!

Tuesday, October 12, 2010

Apareceu nas águas


Uma pequena imagem de Nossa Senhora da Conceição, de madeira, apareceu nas redes de pescadores no Paraíba, no século XVIII. Fato banal. Mas que tanta alegria traz aos brasileiros, todos os anos. Salve, Nossa Senhora Aparecida!

Tuesday, October 05, 2010

Fragmento

"Deve-se também aos italianos o tipo de casa dita de operário, que se difundiu pelos bairros proletários e médios, feitas pelos próprios moradores ou pelos mestres e pedreiro. Eram simples, geminadas, iguais, no alinhamento das ruas e divididas entre si por um parede fina. Obedeciam sempre ao mesmo esquema, que se repetia em casas de bairros médios, em maiores proporções, seguindo as posses do proprietário: entrada lateral, fila de cômodos dando para o corredor, até chegar à cozinha e abrir-se para um quintal. Definiram-nas como cubos ou caixotes com decoração aplicada ao gosto neoclássico.” Maria Cecília Naclério Homem, O prédio Martinelli: a ascensão do imigrante e a verticalização de São Paulo. São Paulo: Projeto, 1984, p.35
A casinha acima fazia par com outra, igual, aqui nas cercanias da toca da panda, na velha Campinas do Mato de Dentro de Jundiaí. Foi demolida, como todo "caixote com decoração aplicada ao gosto neoclássico" que se preze. A minha máquina fotográfica quebrou. Fim.

Monday, October 04, 2010

Onde

Por favor, me diga, onde você está.

Porque, se eu o encontrar, não serei mas eu. Mas o som dos seus passos, o eco do seu sorriso, o brilho do seu riso, o som do seu abraço, o calor do seu amor. Serei sua ausência, sentirei sua falta, e só na saudade sua as estrelas brilharão. Me diz, onde você está. Eu vou correndo te encontrar, só me diga onde te encontro. Em que esquina, em que dobrada, em que virada, em que cilada, será que você pegou o avião, foi pra tão longe, não volta mais! Sumiu, evaporou...e eu só tenho uma lembrança sua, uma lembrança Renoir, um almoço de domingo, um barco, sol. Hoje é noite, dor. Onde, onde, onde...

Sunday, October 03, 2010

Boitatá, Mula-sem-cabeça e Caipora

Num serviço de utilidade pública, a pequena panda resolveu alertar seus poucos, mas muito fiéis, leitores, de mentiras, mitos, lendas urbanas, figuras do folclore brasileiro, que aterrorizam os habitantes da Terra Brasilis e outros reinos da galáxia. Sim, meninos, eu vi: a destruição que essas mentiras causam na vida de muitas pessoas, incluindo na que assina estas mal ajambradas linhas.
1) "dinheiro não traz felicidade": essa é perigosa, pois se trata de uma meia-verdade. É claro que os bens materiais não determinam o bem-estar de ninguém ( senão, uma vaca holandesa seria a criatura mais feliz do planeta) mas ficar sem dinheiro nenhum porque o "capitalismo é selvagem" é coisa de quando temos 20 anos, somos jovens e intrépidos e... alguém paga as nossas contas. Dinheiro não é tudo mas é 100%, já dizia nosso ídolo Falcão.
2) "sexo não é tão importante assim num relacionamento": essa é a base de tanta infelicidade conjugal que não dá nem pra acreditar. Vou ser agora radical, mas é minha obrigação: sexo é fundamental, primordial, crucial, é tudo. Não caia nessa, nem com 70 anos. Ninguém merece. Hindus, judeus, romanos, vikings, cossacos, gregos e baianos escreveram sobre a importância do sexo na vida dos casais. Alguma razão esse povo todo tem, né?
3) "ah, mas no fundo aquela pessoa é legal": essa a panda caiu tantas vezes que já não é nem mais um buraco, mas um Grand Canyon. Não, aquela pessoa não é legal nem no fundo, nem na superfície, nem de ladinho! Se alguém da sua convivência já mostrou as garras, corte. Sério. Faça isso por mim e por todas as pessoas de bom coração. Sai pra lá, Exus!
4) "ah, mas eu nem queria tanto assim": não, você queria, e o pequeno Exu foi lá e te ferrou. Diga isso. Pra todo mundo. Quéisso! Eu cansei de ver gente de bem sendo passada pra trás. A gente precisa ter uma Liga da Justiça! Me avise quando alguém te ferrar, que eu bato! Kung Fu Panda!

Monday, September 27, 2010

Graças, Marília bela

Acontece uma coisa curiosa comigo.

Há muitos e muitos e muitos anos atrás, escrevi um trabalho de final de curso, quando estava no mestrado, sobre a interpretação dada por Antônio Cândido, em Formação da Literatura Brasileira, para Marília de Dirceu. Essa disciplina foi ministrada por um professor com quem, vários anos depois, tive uma história de amor bela, mas também muito sofrida. Hoje entendo porque escolhi o tema, na época; Antônio Cândido fala que Gonzaga virou a página da história da literatura brasileira ao se apaixonar, quarentão, por uma menina, ser rejeitado pela família dela, finalmente conseguir ser seu noivo e depois, numa das maiores catástrofes amorosas de todos os tempos, ir para o degredo em Moçambique, tudo porque Joaquim Silvério resolver dar com a língua nos dentes.
Na época, eu, jovem e intrépida, achava simplista a explicação dada pelo grande mestre uspiano: puro biografismo, pensei, toda envolta em teorias e teorias da ação social, dos acordos feitos pelos agentes e tomos e tomos de Sociologia. Depois de tudo, vejo que de fato alguém pode deixar de ser árcade e virar romântico, depois de um grande amor, da traição, do calabouço e do degredo. Gonzaga em Moçambique não escreveu mais nada e se casou com uma moça analfabeta, segundo consta. Eu também nunca mais me aventurei a escrever nada sobre Gonzaga e às vezes me fica difícil viver, com tantas dores no coração.
Mas, às vezes, no meu exílio, recebo garrafinhas com papel dentro, mensagens de pequenos náufragos dos mares da internet. Explico: depois do artigo apresentado num congresso, eu ainda o publiquei, numa pagininha dos alunos, no início do meu doutorado. O link da pagininha foi deletado do site do instituto quando a direção mudou, e o cargo de administrador da sala de computadores ficou a cargo de um docente poderoso e sem paciência para nossos textinhos. Anos depois, eu já doutora, a nota da CAPES do programa de pós-graduação caiu, e um dos motivos foi a falta de publicação dos discentes. Enfim.
Por obra e graça do Google, às vezes minha caixa de email recebe singelas mensagens de pessoas, no Brasil inteiro e em Portugal, que me consideram grande autoridade nas liras de Dirceu. Tento com muita delicadeza desfazer o equívoco; fico constrangida de pensar no sofrimento que isso traria ao bravo Gonzaga. Mas não adianta. Hoje, recebi uma mensagem de um internauta, inconformado com as respostas dadas pela banca de um concurso público, do qual algumas questões foram tiradas da leitura de uma das liras. Conferi o gabarito, não sem refletir nas artimanhas do destino e no quanto os caminhos do mundo são tortuosos. No final, escrevi o artigo porque estava apaixonada já, sem o saber; mais feliz foi Gonzaga, que sempre o soube.

Sunday, September 19, 2010

Romance ruim

Eu, do alto de sapatos altos gastos, com o topete já todo grisalho, com as esperanças já todas falidas, com o orçamento estourado, manchete de jornal popular, bolero de churrascaria, cantada de rodoviária, filme queimado, jaca pisada, sim, essa mesma que vos fala, essa criminosa que não se regenera, essa cafonice que não sara, essa febre que não passa, coloco de novo a jaqueta jeans esfolada, passo um batom e saio.
Dirijo pela cidade, claro que desse jeito a polícia me para, a multa vem embaixo da porta, mas eu não estou nem aí. Que falem de mim, eu já sou assunto mesmo. Que tirem sarro. Melhor isso que não existir. Pois é, de novo o mecanismo roda, de novo o mesmo pneu na mesma direção, de novo a mesma estupidez, tudo, tudo, tudo de novo.
E de novo a louca do vestido de carne me salva o ano de 2010. Porque é tudo de novo. E porque dessa vez, sim, dessa vez posso me salvar.

Saturday, September 11, 2010

Coração partido

Tenho lutado muito para sair de um fundo do poço em que me meti, nos últimos anos.

Sinto uma culpa terrível por coisas que deram errado. Me sinto infeliz ao lembrar de frases, situações, pessoas. E nisso tudo me menosprezo. Não me sinto digna do meu próprio amor. Isso não é justo, percebo agora. Porque eu preciso ser a responsável por tudo que me disseram? Por tudo que me fizeram? Fiquei paranóica, amargurada, triste. Não, não é justo se sentir sempre a que errou, a que deu mancada.
Fiz o melhor que eu pude... dei o melhor de mim. Tantas vezes eu fiz o que estava ao meu alcance, e era tão pouco, mas era o que eu tinha. Eu vejo a lua brilhar no céu e penso nas tantas vezes em que também estive cheia de amor, de brilho. Sinto o coração partido em tantos pedaços, estilhaços de memórias tristes. Cato um por um, e às vezes me corto. Não, eu não estava errada em amar. Porque desses caquinhos se fazem as estrelas.

Monday, September 06, 2010

Links para História da Arte

Primeiro link:

http://www.4shared.com/dir/kUDViyTb/Histria_da_Arte_Geral-_Unimep-.html

Esse é pra História da Arte Geral. Tem Arte Rupestre, Arte Grega, Arte Romana. Tudo em pdfs. E pequenas apostilas em Word.

Coragem

Tem fases da vida da gente que são lutas incessantes. E é preciso ter coragem o tempo inteiro.

Tô numa fase dessas. Preciso ter coragem 24 horas por dia. Pra conquistar o que eu quero. Às vezes, algo de bom acontece ou eu consigo resposta positiva pros meus esforços, eu descanso um pouco mas logo vem no pensamento a quantidade de coisas pra fazer, a quantidade de coisas pra resolver, e eu vejo que é necessário mais coragem ainda, pra estar de pé, e ser quem eu sou.
Decidi que não vou mais fugir dos meus sentimentos. Isso é particularmente difícil. A vida tem horas que faz de tudo pra te mostrar que você está errado. Eu me equivoco, é claro, como todos os outros seres humanos no planeta Terra. Mas eu faço o melhor que eu posso. Tento ser a melhor que eu posso. Minhas possibilidades nem sempre são das mais vastas, mas é melhor alguém que tenta fazer de coração dar o melhor de si do que alguém que não está nem aí pra nada. Bom, pelo menos eu acho isso. Estou de pé. E luto.

Friday, August 20, 2010

Shahrazad


É por piedade que se enfrenta o medo, é por compaixão que se propõe a contar histórias. Para salvar vidas. Para se mudar o destino. Para encarar, frente a frente, a injustiça. E cada alvorada é uma vitória. Cada palavra, a tábua de salvação, de si e dos outros.
Conta-se histórias porque é preciso. Leu-se em algum lugar, ouviu, sofreu. É por paixão que por três anos se conta histórias. Definitivamente, é preciso narrar. É urgente narrar. É necessário encher as noites do som da voz e de palavras. É pela inteligência que se vence. É pelo amor que se vence. Senão for por isso, a voz se cala e só existe o negro da noite, da solidão e da morte.
Odalisca. Delacroix, 1857. Óleo sobre madeira, 35,5 x 30,5 cm. Coleção particular.
Ya Shahrazad, Fairouz. Olympia, Paris.

Sunday, August 15, 2010

Dose dupla

Começo de semestre, correria, trabalho duro. No meio disso, tanta novidade, que eu me perco dentro de mim. Também voltei a sair pra dançar. Fazia anos que eu não dançava e em duas semanas já virei a nova Lady GaGa: quero roupas, maquiagem, sapato de salto, só pra sair pra dançar, sair pra dançar. Minha vida virou um intervalo entre as pistas de dança, entre a nova cor da sombra e o desejo de ter uma blusa de paetês.

Saturday, August 07, 2010

Alegria


E o Amor se fez carne
e o Verbo habitou entre nós.
Teto da Igreja de São Francisco de Assis, Ouro Preto, Mestre Ataíde.

Saturday, July 24, 2010

Retorno ao clássico

Tive um julho particularmente feliz.

Vocês não reparem meu sumiço, foram por boas e más causas, como sempre. Acho que a tônica do período foi um retorno ao clássico. Explico: comecei julho com uma sinusite daquelas, um clássico na minha vida, sofri em vários jogos da Copa e me irritei com as coisas clássicas: carro quebrado, gente sem noção, pó da reforma no prédio e lembranças ruins.

Conforme julho foi passando, a paz daqui de casa se reestabeleceu, e eu acordei e curti o barulho dos pássaros no Largo de São Benedito e do Bosque. Amigos muito queridos ressurgiram de viagens. E eu aos poucos comecei a ter a sensação de reencontrar uma velha conhecida minha, uma moça que já tem seus cabelos brancos e que hoje comprou sua primeira caixinha de morangos do ano.
Pra completar os retornos, voltei a escutar Bruce, que era uma coisa que fazia tempo que eu não fazia. Old school, baby, old school.

Sunday, July 11, 2010

Ik zal handhaven


Hoje, fui assistir à final da Copa com duas amigas num bar muito famoso aqui de Campinas, o Giovanetti.


Vivi um dilema a semana inteira. Se eu torcesse pra Holanda, honraria parte dos meus nobres ancestrais, que me legaram um sobrenome difícil e cheio de ês, que entorta a cabeça dos meus patrícios. Também honraria a minha simpatia pelos laranjinhas, simpatia existente em todas as Copas e tal. Mas, claro, meu coração brazuca ainda estava ressentido e de luto pela desclassificação, o que é compreensível.


Mas não esperava chegar no local e me deparar com um monte de marmanjos que viraram espanhóis de carteirinha só porque o Dunga foi imbecil. A princípio, fiquei quietinha, mas acho que depois de um chope, o sangue falou mais alto e a pequena panda quase morreu linchada porque honrou seus ancestrais batavos (os espanhóis que me perdoem, minha bisavó dona Luzia onde estiver deve ter ficado irada!).
Senti uma grande solidão, eu torcendo pra Laranja Mecânica rediviva em meio à brutamontes, que, grosseiramente, não entendem nem a regra do impedimento. Os garçons pararam de me atender, e um cara se deu o trabalho de sentar do meu lado pra me espezinhar. Enfim, os espanhóis cavaram um gol na prorrogação, e acredito mesmo que a Fúria jogou bem e mereceu a taça. Mas hoje, mais do que nunca, meu coração é de um lugar onde se fala uma língua incompreensível, se come queijo, se anda de bicicleta e se vê Rembrandt em qualquer museu da esquina.
Na hora da dor, só me ocorreu ligar pra Mari, que deve ter sido a única brasileira que torceu pra Holanda, assim como eu e mais sete velhinhos que moram em Holambra. Sempre brinco com ela pela particularidade dela estudar coisas holandesas, e de eu ter esse sobrenome tranca-cartório. Mas hoje, nós fomos duas almas perdidas que se encontraram. Falei pra ela que hoje, mais do que nunca, honrei meu sobrenome, porque torci pra Holanda no meio do Giovanetti em meio a um bando de toscos. Hoje, nós duas concordamos num ponto: nós mantemos a fé!

Saturday, July 03, 2010

Vontade


Porque hoje seria isso, cor, abraço, carinho.

Shunga (gravura erótica, que na maior parte das vezes era uma xilogravura, apresentada numa série em livro) atribuída a Utagawa Kunisada (1786-1864), c.1830/40, 91 x 121 mm.

Saturday, June 26, 2010

Fora-da-lei


Toda grande história de amor é um crime.


Toda vez que duas pessoas se amam, cometem um delito contra a ordem social. Ofendem a moral, os bons costumes, a tradição. Amar é andar com uma arma. Amar é assaltar um banco.


Não, senhores, amar de verdade não é obedecer as regras. Se dizem que você precisa amar alguém bonito no sentido convencional, que mora perto e que a altura regula, não ouça. Se dizem que você precisa amar alguém que seja da sua cor, da sua idade, da sua classe social, que vota no mesmo candidato que você, que torce pro mesmo time que você, que concorda com sua escalação hipotética da Seleção Brasileira, fuja, fuja enquanto é tempo, porque você não precisa amar ninguém. Amar é acidente de percurso, é você achar uma mala cheia de dinheiro no meio de uma viagem de trem pra Sibéria. Se você tiver essa sorte, lembrará de mim, e pulará com a mala do trem no meio do nada.
Eu me lembro das noites que passei cometendo esse delito; paguei com lágrimas amargas minha condenação. Mas não me arrependo, eu cometeria o mesmo crime, eu incorreria de novo na norma jurídica. E sem telefonema pra advogado.

Friday, June 25, 2010

Panda na Copa


Rufem as vuvuzelas! Está no ar Panda na Copa!
Devido à uma gripe dos infernos de Dante, acompanhei os dois primeiros jogos da Seleção Dunguística na cama, e sem nenhum jogador argentino ou italiano gatão pra me consolar. Enfim.
A primeira exibição da Seleção foi digna do reino das trevas, a segunda foi um pouco melhor. Explico: na minha modesta opinião, Dunga mexe pouco no time, e ele poderia fazê-lo, em horas infelizes, como foi o segundo tempo do jogo de hoje.
Mas é aquela coisa, se eu fosse treinadora da Seleção, não estaria na cama gripada e sim com a cabeça enfiada numa Jabulani.
Destaques para o fraco desempenho das seleções africanas ( que pena, tava torcendo pros caras, tirando a destemida Gana), pro fato da Azzurra ter azulado, dos franceses terem de novo dado cabeçada ( e sem Zidane) e do Cala boca Galvão ter virado um movimento social universal. Aliás, CALA BOCA GALVÃO! Como diz um amigo meu, a transmissão dos jogos da Copa no Inferno vem com narração do Galvão Bueno e comentários do Neto!
Acima, a prova irrefutável de que o início da iconografia da vuvuzela está no Juízo Final de Michelangelo, na Sistina!

Friday, June 18, 2010

Da última flor do Lácio

Da última flor do Lácio, inculta e bela, hoje caiu uma pétala. Vá em paz, José Saramago.

Friday, June 11, 2010

Temperança


Hoje despertei às seis e meia da manhã. Pensei em várias coisas, organizei outras, e voltei a dormir. Tive um dos sonhos mais bonitos da minha vida, um sonho de integração: meu pai me mandava ir cuidar da vida, eu ia e no final me encontrava com um homem que considero ser ótima pessoa.
Acordei com essa vontade, essa gana, de viver. Fui me cuidar, como mandava meu pai no sonho; arrumei meu cabelo, minhas unhas, me maquiei, me vesti de azul e encontrei uma amiga muito fofa. E resolvi um problema profissional grave, que durava desde 2003.
Hoje, descubro o quão importante é manter a esperança, a calma e a fé, mesmo quando tudo parece conspirar. Hoje, tenho a certeza que só consegui resolver o problema porque, durante muitos meses, me calei, sofri sozinha, pensei que não fosse resistir, mas não revidei na mesma moeda, não prejudiquei ninguém, fui fiel aos meus princípios, agi de acordo com os meus valores, sofri sim, mas não fiz ninguém sofrer. E hoje, vi o sonho se realizar. E digo pra vocês: o mais importante da vida é a esperança.


Acima, o arcano maior da Temperança. The Mythic Tarot, de Juliet Sharman-Burke e Liz Greene, concepção da artista plástica Tricia Newell ( pintura a guache). Editado no Brasil pela Editora Siciliano, 1988.

Saturday, June 05, 2010

Maus bofes

Hoje acordei num puta mau humor. Não, não estou naqueles dias. Não, não aconteceu nada de novo no meu universo particular, como canta a Marisa Monte. Sim,estou num puta mau humor,

1) com alguns dos meus alunos. Aluno às vezes cansa a paciência do professor;

2) com a campanha presidencial. O Serra me deixa de mau humor quando diz que os bolivianos são todos traficantes;

3) com a Copa chegando, porque meu vizinho já estreou a corneta dele;

4) com os diários de classe que eu preciso preencher;

5) comigo mesma, por não acreditar, por não fazer direito, por reclamar e por estar de mau humor.

Thursday, June 03, 2010

Cansaço

"O homem que hoje me amar
Encontrará outro lá dentro.
Pois que o mate".

Elisa Lucinda

Tuesday, June 01, 2010

Autoridade Nacional Palestiniana


Reconhecemos o direito da existência do Estado de Israel. Sentimos solidariedade, fraternidade pelos irmãos judeus que pereceram no Holocausto, e lutaremos para que nunca mais aconteçam tamanhas atrocidades. Mas, nos termos da Resolução 181 da Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas, assinada em sessão datada de 29 de novembro de 1947, e nos termos dos chamados Acordos de Oslo, de 1993, reconhecemos o direito da existência do Estado Palestino. E sentimos solidariedade, fraternidade, pelos irmãos palestinos que perecem, dia após dia, neste novo genocídio.

Monday, May 31, 2010

A cura

Hoje foi um dia longo e cheio de problemas. Pra vocês terem só uma idéia, comecei o dia sem gasolina, com sono e com brigas entre meus alunos que pareciam insolúveis.
Quando tudo não só parecia perdido, como estava perdido de fato, de repente, aconteceram pequenos milagres. E, no meio de tanta dor antiga, tantos machucados e durezas, gente amiga trouxe alívio, e eu lembrei de uma música velha, boba, do Lulu Santos ( pois é, do Lulu Santos) que dizia direitinho do meu sentimento, algo muito antigo, uma alegria de saber que as coisas estão no lugar, mesmo com tanta quebradeira. E viva aquela, aquela mesma, que é a última que morre.

http://www.4shared.com/audio/3c8AvDTu/Lulu_Santos_-_A_Cura.htm

Sunday, May 30, 2010

Virgílio e Dante no prato!

Dante e Virgílio, projeto de prato. Guache em porcelana de Limoges, 49,4 cm de diâmetro. Séc. XIX. Limoges: Musée Adrien Dubouché.

Friday, May 28, 2010

Final de conversa

Nos últimos anos, acontece uma coisa curiosa comigo.

Encontro sempre gente muito querida, da velha Universidade Estadual de Campinas. E essas pessoas me contam coisas escabrosas que andam acontecendo na cidadela de Zeferino: cantinas muito boas são fechadas a troco de nada, proíbe-se todo tipo de atividade nos recintos da instituição ( inclusive estudar) e docentes fazem todo tipo de jogo sujo para colocar favoritos em concursos totalmente roubados, roubar projetos de discentes e/ou simplesmente encher a paciência de quem passa.
Em algumas unidades, a situação chega a ser tão crítica que o observador, mesmo o mais desatento, se pergunta como as pessoas fazem para limpar seus posteriores, visto que não existe nem papel higiênico nos banheiros. A crise, no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, virou a normalidade, e se você fala qualquer coisa, é identificado como alguém das hostes neoliberais, que mata os pandas na China e persegue docentes do lugar.
Eu sempre renovo minha indignação, e desfio o rosário das lembranças, mágoas, desacertos, pepinos, monstros e todo tipo de desvão de comportamento e de linguagem que acomete as plagas outrora fundadas por Zeferino Vaz. Meus últimos dias não tem sido diferentes. Mas o que ocorre, agora, é que percebo a minha total impotência em relação a tudo que se passa na Universidade. Não sou docente contratada, e sim mera professora palestrante convidada, e recebo menos que o salário mínimo para ministrar um curso na graduação. Não tenho nenhum tipo de acesso às esferas decisórias da instituição. Nada sou, nada posso, nada consigo. Nunca fui chamada para nada, nos últimos anos, a não ser ministrar cursos na graduação, ganhando menos que o salário mínimo, e eventualmente contribuir com minhas pesquisas pessoais para as estatísticas da Pró-Reitoria de Pesquisa e da FAPESP.
Ou seja, percebo que virei, talvez, uma figura trágica, aquela à qual as pessoas endereçam suas queixas, graves e justificadas, mas que é apenas uma figurante indignada. Sinto-me triste por isso. Gostaria de poder efetivamente contribuir para a vitalidade daquela alma mater que me formou, tanto profissionalmente quanto pessoalmente, mas esta mesma que me formou não me dá chances de crescer, de prosseguir meus estudos, de ser alguém no sentido mais pleno. É duro demais chegar no final do salário com muito mês sobrando, é duro demais ver as coisas caírem, quebrarem, ver todo tipo de filhadaputice, e não poder fazer nada, nada, nada. Não existe nada que eu possa fazer, não adianta chorar, espernear, gritar, encher o saco dos amigos, falar um monte de bobagem na cantina, na mesa de bar, e continuar sendo a mera figurante indignada de sempre. Não é justo comigo nem com a Unicamp. Fim de papo.

Sunday, May 16, 2010

Je t'aime encore


"Six pieds sous terre, Jacques/ Tu chantes encore/Six pieds sous terre tu n'es pas mort/ Six pieds sous terre, Jacques/Tu n'es pas mort/Six pieds sous terre, Jacques/Je t'aime encore"
Jojo, Jacques Brel
Túmulo de Jacques, na Polinésia Francesa, a poucos passos do túmulo de Paul Gauguin.

Friday, May 14, 2010

A barca do tiozão



Messer Masiero acaba de me recordar, gentilmente, que hoje faria anos o tiozão mais amado pelas pandas no mundo afora. Nascido por volta de 1265, o narigudo cidadão apagaria em torno de 725 velinhas.
Essa semana, fui convidada a dissertar sobre o legado do grande vate florentino, nas plagas unicampísticas. Resolvi inovar a abordagem, e falei dos conjuntos ilustrativos dedicados à Comédia na virada do XVIII para o XIX, e o XIX: Delacroix, Ingres, Blake, Doré, Rodin, Manet, Degas, Puvis de Chavannes, dentre outros, dedicaram tempo, lápis e tintas para dar vida às paragens infernais, tão bem conhecidas dessa que vos escreve, por leitura do Dante e por experiência própria.
Essa semana, apropriadamente, meu carro, conhecido internacionalmente como Exumóvel, resolveu ir para a UTI, o que causará despesas no meu sempre combalido orçamento e já motivou uma discussão acalorada com a minha progenitora. A panda sempre se esforça para comemorar datas festivas em grande estilo!
Acima: Eugène Delacroix (1798-1863), 1822. Óleo sobre lona, 189 x 242 cm. Paris: Musée du Louvre.

Sunday, May 09, 2010

Cabeça ruim

Eu começo a considerar, cada vez mais, que minha cabeça é ruim demais.

Eu acredito no que os outros dizem pra mim, e de mim.
Eu quero tanta coisa.
Eu sonho tanta coisa.
Eu lembro tanta coisa.
Eu não aguento o tanto de desejos que eu guardo dentro de mim.
E tudo isso é tão atrapalhado, que às vezes eu queria passar o dia na cama, olhando pra parede, pra tentar ordenar, pelo menos um pouquinho, essa zona toda que não consegue ser eu.

Tuesday, May 04, 2010

Deu na Reuters III: protesto na Acrópole deixa filósofos de cabelo em pé


Hoje o velho Partenon, construído pelo grande escultor Fídias no coração da Acrópole, em 450 a.C., amanheceu assim.
As autoridades gregas não sabem como os manifestantes entraram no templo, que é fechado para os visitantes.
Já dizia José de Arimatéia que uma imagem vale mais que mil palavras. Deu na Reuters: essa foto aí deixou filósofos no mundo inteiro, particularmente nos departamentos de Filosofia nos EUA, de cabelo em pé!

Monday, May 03, 2010

Reza pra subir

Hoje eu preciso fazer uma oração. Pedir humildade, paciência, amor, paz de espírito, pra qualquer ente superior que venha a existir ou não, nessa altura do campeonato não importa.

Ando, de novo, com o pavio muito curto, curto demais. É muito difícil! Não aguento mais um monte de gente, um monte de situações, e acabo ficando de saco cheio mesmo. Pronto, eu não preciso ser simpática, eu não preciso ser popular, eu não preciso suportar. Quero algo diferente pra mim, só não sei o quê, ou como.

Wednesday, April 21, 2010

Fatos da canção

Hoje, feriadão, cabulei meus estudos. Sério. Não corrigi prova ( tenho 80 provas) e não estudei a tonelada de coisa que tenho pra estudar. Peguei mal num livro. O dia estava lindo, minha mãe me chamou pra almoçar no restaurante favorito dela, e depois little Carol e eu encaramos o Fran's Café básico.
Pra piorar o estado letárgico da pequena e sempre desmiolada panda, encontrei isso aqui:
www.songfacts.com. Pra quem é "I wanna be Nick Hornby", é lindo. Explico: é uma enciclopédia on line de significados, histórico completo e apresentação de qualquer coisa que, entre 2:50 a 4:50 minutos, fez sua cabeça, a cabeça do seu pai e a do seu avô no rádio, MTV, vinil, CD, fita cassete, I-pod ou estéreo tijolão da Gradiente nas últimas décadas que Deus pôs no mundo.
Então, fui atrás de pérolas como "Video killed the radio star", do Buggles ( quer saber o que é? procura lá, mizinfio). O negócio, como diria meu avô, é um azougue: se você sempre quis saber o significado profundo de "She Bop", da Cyndi Lauper, mas nunca teve pra quem perguntar, seus problemas acabaram. E, sim, bop é algo relacionado às atividades de reprodução da espécie, só pra constar nos autos!

Monday, April 19, 2010

Tuesday, April 13, 2010

Pas de nouvelles, bonne nouvelles

Estou naquelas fases em que está tudo meio parado. Explico: depois de anos de sofrimentos dignos do Inferno do tiozão renascentista, minha vida aos poucos apresenta um aspecto normal, digo, normal dentro dos termos pandísticos de levar a vida.
Isso às vezes me dá uma certa frustração: queria estar com novidades incríveis, de quem acabou de ter um filho, ou foi viajar, ou publicou um livro pela Harvard Press. Não, caros leitores: nada disso ocorreu com a velha e asmática panda, que continua com seu jeito melancólico e com seu hábito de sofrer. Pelo menos, agora, tem umas horas que eu sinto que, lentamente, as esferas começam a se mover. O caso mais notável dos últimos tempos foi que eu fiquei no rádio fofoca com a Pri, plena Livraria do IFCH, e ela pintando de preto uma arara que achou no lixo, e eu perdi uma camisa branca, que virou de petit pois pretos. Também, num raro momento de fúria dantesca, bati meu carro no estacionamento do shopping, o que não ocasionou nada nem pro meu carro, nem pro da pessoa que eu bati, nem pra ninguém, graças ao bom Deus que está nos céus e que é Pai, e não Padrasto.
Minha nova mania é ler o Casa-Grande & Senzala, do Gilberto Freyre. Decidi que ia fazer um Programa Esclarecimento da Panda 2010, e que ia ler inteiro livros que li trechos na graduação, na pós ou por aí, nas quebradas da vida. Devo dizer que já surta resultados o Programa Esclarecimento da Panda, porque eu aos poucos tô me sentindo um pouco mais esperta. Nesse Programa, também pus como meta a leitura de vários jornais, e o que espanta é que, provando que eu tô mais esperta, eu tô achando todos os jornais iguais demais.
Ou seja. Pas de nouvelles, bonne nouvelles.

Saturday, April 03, 2010

Comidas retrô

Hoje eu tava expondo minha figura no shopping Dom Pedro, comprando maquiagem com a Carol, quando de repente vejo numa barraquinha de produtos japoneses uma caixa cheia de... Dip n'Lik! Sim, aquele pirulito que vem num saquinho, com açúcar colorido, que foi febre nos sempre relembrados anos 80.

Fazia uns vinte anos que eu não comprava essa porcaria. Antes, o Vitão achou um Dip n'Lik de uva pro Mário, que saboreou a iguaria na nossa frente em estado de êxtase puro. Agora sou eu que escrevo essas mal ajambradas linhas com um Dip n'Lik de laranja do lado. Uma coisa continua igual: o açuquinha sempre termina antes do pirulito.
Outro dia, comprei um Dan Top. Quem se lembra? O Dan Top é o nome artístico pra aquele marshmallow coberto com chocolate, que na Kopenhagen se chama Dona Benta e na Ki-Pão, padaria do lado da minha casa, atende por teta de nega ( o que o caro leitor prefere: Dan Top, Dona Benta ou teta de nega?). Minha mãe sempre punha nossos Dan Tops na geladeira.
Penso que Dip n'Lik e Dan Top são as madeleines de muita criatura por aí. As balas Juquinha, ainda existem? Eu sempre que como os salgadinhos de queijo da Piraquê, lembro do dia que levei um saquinho de merenda na escola, fui abrir e todos os salgadinhos foram pro chão, o que trouxe um sofrimento horrível, porque eu tinha ganho o pacote de presente da minha mãe. Até hoje, não gosto de perder, quebrar ou dar um fim ao que a minha mãe me dá, e salgadinho Piraquê foi algo que herdei dela diretamente.
Outra coisa que procurei no supermercado, mas acho que não existe mais: os recheados quadrados da Tostines, de morango e de limão, quem se lembra? Acho que deixaram de existir. Outro que não existe mais é Chandelle de doce de leite, meu favorito. Outro dia no supermercado só tinha Danone de doce de leite, edição especial, que não fazem mais, não sei porque, deve ser porque só eu gosto, e compro de vinte em vinte anos.