Sunday, December 24, 2006

Feliz Natal

Esse ano foi corrido e sofrido, o Natal chegou bem antes do que eu esperava. Hoje devido ao calor, ao sono e às reflexões atrasadas, não pude contribuir muito pro espírito natalino, e os queridos e queridas que apareceram via telefone, msn, orkut, pessoal e espiritualmente, também estavam todos atribulados. A vida não está fácil, me diz o amigo querido via Telefonica; não, não consegui comprar um cartão na padaria pra ligar pros outros queridos que estão espalhados pelo mundo. Nem a torta de morango consegui encomendar na padaria, mas em compensação fiz camarão com molho branco, e servi panetone rodeado de suspiros de diferentes formatos.
Agora vou embrulhar os presentinhos trazidos da Velha Bota, tomar um banho e ajeitar qualquer roupa decente, ceia na mãe, e daqui do meu cantinho mando bons votos a todos os leitores.
Em outro blog, de um conhecido, leio a velha cantilena que o Natal é enganação, que devemos dizer não ao consumismo e bla bla bla. Eu gosto do Natal por duas razões: primeiro porque adoro panetone ( hahahaha) e segundo, e mais importante, porque no Natal a gente revê ou vê melhor quem a gente ama. Feliz Natal!!

Tuesday, December 19, 2006

Retrospectiva 2006?

Esse calor tá matando e tá deixando todo mundo louco. Não consigo dormir e estou num cansaço inacreditável, imagino que os queridos leitores do Meio estão me lendo embaixo do ventilador.

Resolvendo pinimba. Seguro do carro, PUCC ( que foi um horror), e finalmente a panda resolveu encarar um tratamento dentário, sério, no CECOM. O dr. Ricardo, que foi o dedicado profissional que tirou meus sisos, há muitos anos atrás, muitos mesmo, me deu uma das maiores broncas que eu levei na vida. Merecida. A panda é desmiolada no quesito saúde. Acordei ontem e hoje num mal estar, num cansaço novo pra mim, mas rumei pro CECOM, e assim vai ser. Preciso passar no banco, e esqueço a maldita senha da PUCC em casa.

E assim, aos trancos e barrancos, acabo 2006. Ano comprido, custou a passar pra mim, coisas muito, muito ruins, e coisas muito, muito boas. Como contrabalançar a dor pela amizade perdida, com a visão da torre torta? O sofrimento da suspeita do câncer, com a alegria de ver o Duomo? O rostinho dos meus queridos e queridas e os assaltantes? O dente quebrado, a mancada, o sorriso? As lágrimas e as alianças, antigas e novas? O Prado, o Thyssen Bornemisza, os Uffizi, os dois relatórios FAPESP, qualificação, artigos, congressos, Toscana e Minas Gerais? Curso de maquiagem, Hermes Trimegisto, músicas no i-pod, insônia, cozinhar, os segredos passados e futuros? Principalmente segredos, esses dentro do coração. Não é pra menos essas olheiras panda, no dia de hoje.

Thursday, December 14, 2006

Reflexões leves

Volta, crises emocionais, calor, chuva, pobreumas burrocráticos ( seguro de carro, diário de classe, tratamento dentário) me tiraram do sério nos últimos dias. Chatices, chatices sem fim. E eu torrando o saco do meu Sancho Pança, o Luís Fernando, e achando que os dragões na verdade são moinhos, e vice-versa.
Sabe aquelas fases onde as coisas ficam mal paradas, o camarão no congelador espera a receita, aliás no meio de tudo isso inventei uma receita nova de molho de atum, frita-se cebola e alho em azeite libanês ( vai por mim, é gostoso demais, é caro mas os libaneses sabem o que fazem), pega-se tomate italiano pelado cortado em cubos ( custa mais eu sei, mas vale a pena porque o tomate dos caras realmente não é ácido), tempera-se na panela com bastante manjericão, pimenta do reino, sal a gosto, um tiquinho de nada de noz moscada, atum light ( sei que é frescura, mas se não der pega o normal e tira aquele óleo). O toque seria gergelim torrado, põe no final e não exagera porque senão já viu. Veja, é o velho molho de atum de sempre com ingredientes bacanas. Enfim, o segredo é fazer o de sempre inovando nos fatores? Ah, eu servi com penne da Barilla, al dente, pelamor.
Recebi mensagem que me acalmou a alma, eu tava aflita demais. E botei no I-Pod Martinho da Vila, Chris Rea, Nina Simone, xotes de Elba, muito Milton, mas principalmente Tudo, do Sentinela. Essa canção do Milton fala do que eu queria falar nesse post, mas eu não sou o Milton, então vai a receita de molho de atum mesmo.
Ah, o gergelim foi invenção do Celo.

Friday, December 08, 2006

To Love Somebody

Voltei. Depois dos últimos dias em Pisa, que foram uma correria ( textos e textos pra xerocar na Normale e na Universidade), de tropeços e desacertos, e tristeza por abandonar aquela cidadezinha tão querida, fui pra Madri e foi aquela maravilha, salas e salas de obras de arte no Prado, no Thyssen-Bornemisza, parques e tortillas, amigos e risadas. Madri foi lindo.
Voltei, pra tese, pra terminar o semestre na PUCC, pra acertar contas e cortar as pontas. E aí um amigo me estraga o dia, a vida, com um sentimento novo, na voz de Nina Simone. E com To Love Somebody, começo a tese e termino o doutorado.

Sunday, November 26, 2006

Pisaaaaaaaaaaaa

Pisa continua insuperavel no quesito coisas legais. A comida é legal, a cidade é linda, as pessoas que conheci sao fofas e a cidade guarda um segredo. Voce anda no Lungarno, que é a avenida ao longo do rio Arno como bem diz o nome, aparece um lugar lindo, com arvores, depois uma viradinha, e se chega na bela igrejinha romanica de San Michele. E la se ve, a outra torre tortinha. Sim, Pisa tem DUAS torres tortas... tirei fotos para todos verem e comprovarem tal fenomeno.

Em quesito de comidas, eu e Patricia, minha amiga brasileira que faz o doutorado aqui, descobrimos dois restaurantes otimos, um do lado do outro, num bequinho. Olha, um nhoque com molho de legumes e um negocio chamado tagliata: picanha mal passada cortada em tiras, perto da gordura, poe no prato com rucula e queijo parmesao ralado grosso em cima, vinho, pao do mais rustico, e vai com Deus meu filho, a Toscana é linda demais.

O milagre do cachecol

Sim, depois de uma semana dificil, estou viva e ainda perambulo pela Toscana.


Dificil porque a sinusite veio matando, esfriou, muito xerox na Normale, e duas dias pra Roma. Bom, essas duas idas foram de matar: eu precisava ir ao Vaticano, problemas da tese e curtiçao tambem. Saio de Pisa, atraso em trem, enfim, todo tipo de percalço que nao vou narrar pra nao aborrecer a paciencia dos meus santos leitores. So digo que depois do Ratzinger a coisa piorou muito e que eu sou brasileira e nao desisto nunca, entrei duas vezes na Sistina. Foi o milagre do cachecol. Explico. A vo do Celo, meu ursinho arqueologo, tricotou um cachecol azul no ponto apertadinho no qual sempre fez as coisas pra familia dela. Esse cachecol foi comigo, emprestado, pra Chicago, e agora esta na Italia.
Precisei acordar cinco da matina pra pegar o trem pra Roma, e pus o cachecol azul do Celo. Enfim, depois de uma saga, chego na Sistina. Sento, faço anotaçoes, como todos os visitantes aguento a grosseria dos muitos funcionarios do Vaticano, que se dividem entre nao fazer nada, serem grossos e paquerarem as turistas. E saio empurrada como todos, depois de alguns minutos diante de tudo aquilo.
No corredor da volta, que é estreito, apertado e cheio de gente, e que nao se pode voltar atras, percebo que o cachecol azul do Celo, feito pela dona Nair, de noventa e oito anos, catolica de tudo, ficou na Sistina.
Nao tenho como voltar atras. Fico triste, afinal o cachecol pode ser simples, tem ate furinhos porque dona Nair distraida errou os pontos, mas é uma coisa de valor sentimental. E eu no meio do povo sem saber o que fazer. Dou uma volta, e retorno ao caminho da Sistina, que é um inferno.
Escolho um dos caras pra falar, um com uma aliança grossa no dedo, e jovem. Penso, esse vai me entender. Explico a situaçao no meu melhor italiano, que ate que vai bem, e o cara se comove com a historia. Me deixa furar a fila, e eu entro de novo na Sistina, de olho no Botticelli na parede, no Juizo Final, em tudo. O cachecol estava no cantinho em que sentei, embaixo da Historia de Moises, do meu mestre.
Enfim, depois eu peguei um desses onibus cata-turista, so pra rever a cidade. Nao vou ter dinheiro nem tempo pra voltar dessa vez, e estava com muita saudade de Roma. Roma foi o primeiro lugar que conheci fora do Brasil, e la fui eu ver tudo de longe, sei que numa coisa super brega, mas foi muito legal rever o Coliseu e etcs e etcs.
Bom, hoje sai pra tirar fotos de Pisa. Mais no proximo post...

Saturday, November 18, 2006

Sinusite na Umbria

Mais da serie Pequena Panda na Toscana, Parte III, O Retorno de Jedi.


Ontem fui pra Assisi. Sim, doida pra ver o Giotto, peguei il treno basico pra Firenze Santa Maria Novella, pra depois pegar outro pra Foligno, que para justamente em Assisi. No trem, em Empoli, entram varios africanos, que lotam o vagao e sentam do meu lado, espremendo eu e um italiano com uma cara de antipatico. E ai começa meu drama.

Eu desde criança tive crises de sinusite. Quando ia pra praia, piscina, quando esfriava em Jundiai, onde eu morava. De vez em quando rola, e é um Deus nos acuda, porque como ja tomei muito antibiotico pra isso, nem trezentas Bezetazil resolvem. Tem que comprar muito lenço de papel, tomar muita agua, no maximo uma aspirina, e sentar e esperar. Mas no meio da Toscana, o negocio começa a doer, doer, e o diluvio apareceu.
Gente, passei muito mal nos dois trens. Porque detalhe, cheguei em Firenze e precisei correr pra nao perder o outro, a viagem, o Giotto, tudo. Corro de um binario pra outro, graças aos britanicos atrasos dos trens de Pisa pra Firenze ( todos que eu peguei atrasaram religiosamente) o trem pra Umbria estava indo embora, sem tempo de ir a um banheiro, a uma farmacia, a uma igreja pra rezar. Sento no trem. Na estaçao Firenze Campo di Marte, sobem varios professores italianos de escola media catolica, que estavam indo pra alguma reuniao em Assis. Uma delas, uma senhora mal educadissima, me espreme na cadeira e sem olhar pra minha cara, começa a falar todo tipo de besteira: fofocas da escola, intrigas, maldades, uma enciclopedia. Eu passando mal, fico pior. Levanto e vago pelo trem, observando a paisagem que começa a se elevar em morros, rios, lagos, belissimos. Estou na Umbria, sim, e estou com sinusite. Felicidade com dor de cabeça, ja ouviram falar?
Chego em Assis. Tomo um cafe, como uma focaccia bonita, gostosa, na estaçao, e me sinto melhor. Ja sabendo e tendo a experiencia de Siena, compro o bilhete de onibus e pego a unica linha de Assis rumo a Basilica de Sao Francisco. Bom, nem precisa falar, Assis é linda, linda, preciosa, como uma pérola: simples, elegante, comedida. Uma doçura. A Basilica é tudo e mais um pouco, o Giotto é algo celestial, enfim, felicidade pura, simples, completa.
Na volta, tiro fotos da paisagem, da cidade, das outras igrejinhas, compro medalhinhas e terços, lembrancinhas da peregrinaçao, e encontro um rapaz mineiro, com quem volto pra Firenze conversando e com a cabeça doendo. Ainda tive forças pra em Pisa ir numa Osteria comemorar, comer bem, tomar vinho, fazer tudo como manda o figurino. E fiquei pensando, ainda bem, ainda bem que mesmo com sinusite, eu peguei aquele trem pra Umbria.

Wednesday, November 15, 2006

Aventuras da Panda na Toscana

Mais da série Panda na Toscana II, A Missao.

Ontem fui pra Siena. Peguei il treno pra Firenze Santa Maria Novella, desci em Empoli, um desses lugarejos no meio do verde toscano, e segui pra Siena. A paisagem linda, daqueles cartoes postais classicos da regiao.

Cheguei na cidade, estranhei nao ter um posto de informaçao pro turista na estaçao de trem. Voce chega e ta no meio do nada, com uma construçao monstro de um predio desses rayban ( espelhados) na frente e nada, nada. A moça da banca com muita ma vontade me vende um guia com um mapinha, onde a Estaçao nao existia. Resolvo seguir o povo.
Um velhinho com um saquinho de pao começa a subir uma ladeira. Ué, vou atras. Porque, penso, Siena deve ser como Firenze, Pisa: essas cidades nao sao nenhuma metropole, pititinhas, logo se chega no centro com o classico Duomo deslumbrante, a Piazza del Campo ( onde tem o Palazzo do governo sienense e a praça em forma de concha do Palio, o jogo medieval dos cavalos que é a gloria da cidade e o horror dos defensores de animais).
A ladeira vai ficando pesada, a ladeira vai ficando pesada, e de repente vejo a muralha medieval. Gente, nunca andei tanto na vida... quase morri. Descubro que Siena é tipo Ouro Preto, e a estaçao, detalhe, fica na depressao mais deprimida da cidade.
Depois de muito subir, subir, subir, subir, chego na beleza aristocratica, na fineza, do detalhe do mais puro luxo estetico e delicadeza de alma. No Duomo, que é simplesmente um show a parte, toda animada pego Matelda, a nova maquina fotografica, pra tirar foto do meu homem sienense, o Hermes Trimegisto do piso decorado de marmores coloridos ( sim, isso existe e existe em Siena). E a maquina pifa.
Depois, pra descer foi outra loucura, despenco na estaçao mais morta que viva e sigo de novo pra Empoli. Chegando la, os trens estao parados. Sim, dois trens pra Pisa Centrale, um no binario 2 outro no 3, lado a lado, lotadissimos ( tipo sete e meia da noite, manja?) e nada. Sim, senhores, o trem tava com duas horas de atraso!!!!!!!!!!!!

Faço amizade com uma moça, no meio da italianada em revolta. Gente, o pessoal aqui tem duas coisas pra dar e vender: nariz grande e braveza. Os narigudos tavam querendo por fogo na estaçao. Cheguei em Pisa mais morta que viva- detalhe, tres horas depois do que a Trenitalia tinha me prometido, com a Matelda pifada e muita, muita, muita Siena no coraçao.

Friday, November 10, 2006

Oficios

Carissimo Messer,


Ontem fui para Firenze, sua terra, pela segunda vez. Trem, Duomo, e uma intuiçao. Cheguei nos Oficios, construido pelo outro mestre em honra dos mecenas, e a intuiçao estava correta. Sem fila, sem ninguem, adentrei nas galerias do predio cinzento.

De sala em sala meu coraçao batia ao ver as obras de mao dos outros mestres. E me perdi no meio de tanta beleza conhecida nos livros e em sonho. Mas a sua sala nao avistei. Cai no outro corredor, diante do Tondo Doni, de um dos alunos do Jardim de Lorenzo,o Magnifico. E nada. Uma senhora me informou onde o senhor estava, sala 10-14.

Na terceira porta, depois de fra Fillipo, eu avistei a beleza vindo ao mundo, chegando nua de seu nascimento na praia. Sozinha. A intuiçao estava certa, e tive vinte minutos de solidao frente ao esplendor.

Carissimo mestre, nesses anos de convivio sempre sonhei com o momento de ve-lo pessoalmente, em meio a corte da Adoraçao Lama. E ontem finalmente pude me apresentar diante de seus olhos argutos que construiram esse mundo onde a beleza é possivel.

Tuesday, November 07, 2006

Manias italianas

Voltando a vaca fria.


Bom, os dias na Toscana tem sido azuis e dourados, muito lavoro nelle biblioteche, etcs e etcs. Florença é linda, mas muito fresca. Voce chega na cidade, sai da estaçao que da de cara em Santa Maria Novella, a igreja do Trecento construida pela Ordem Dominicana, e cai nas butiques das grifes de luxo: Armani, Dolce e Gabanna, Versace et caverna. Uma loja imensa da Victor Hugo, etcs e etcs. E ai voce se depara com uma das manias nacionais italianas: o prestigio das marcas consagradas.
Porque no inicio, tudo era artesanal, o Valentino fazia um vestido a cada cinco anos pra Jacqueline Kennedy. Depois dos anos Berlusconi, a Italia se desindustrializou: voce vai no supermercado e ate o iogurte é alemao. Mas ao mesmo tempo, esse pais que era pobre ate ontem virou a patria da frescura da marca.
E ai, é aquela coisa nouveau riche: eles usam marca até o pé. Tudo carissimo, tudo cheio de strass, peles, estampa de oncinha, cores berrantes, laque no cabelo e muita, muita, muita maquiagem. Saias irregulares com botas de cavalaria, usadas com casacos de pele e muita, muita, muita, muita joia ou bijuteria, ai entra no bolso de cada um. A antiga elegancia italiana? Ainda se ve nos velhinhos e num moço ou moça ou outro, de tweed, cashmira e um jeito simples.
Bom, aqui em Pisa eu fiz um amigo. Dei sorte, no dia que cheguei em Madri e precisava voar ate Milao, conheci o Giovanni, que faz Direito aqui em Pisa. Ele me rebocou de trem ate a Toscana e agora a gente se encontra quase todo dia. O Giovanni estuda num predio na frente da Normale, que é onde eu fico de manha. Bom, toda vez que eu encontro o Giovanni, que é calabres e tem uma namorada brasileira ( de Belem do Para), ele ta com seu tenis Puma dourado gritando no celular. Outra mania italica: o telefonino. Todo mundo, ate o mendigo na rua, tem um. E a coisa se passa da seguinte forma: o Giovanni, que tem cara mesmo de calabres ( ou seja, de arabe) grita, grita, grita no celular, desliga, olha pra mim e começa, mas voce precisa comprar um celular, mas é um absurdo, como eu vou falar com voce? Voce some ( detalhe, a gente se ve quase todo dia) e eu tenho que fazer o que, sinal de fumaça? Ta ficando maluca? Vou te falar uma coisa ( ai esquece, quando a italianada te diz, vou te dizer uma coisa, esquece, eles começam e nao param nunca mais), essa sua mania de ficar sem telefone, e bla, bla, bla, bla...
Depois, o Giovanni te introduz na outra mania italiana: reclamar. Ele começa a reclamar de voce, do tempo, de Pisa, da Normale, da Universidade, do papa, da selecao italiana, da politica italiana, mundial e brasileira, e ta, ta, ta, ta, ta, ta... Ou seja. Uma comedia. Eu dou risada ( porque alem de tudo eles ainda nao se unificaram, tem sotaque dos mais diferentes jeitos na Bota) e so fico escutando.
Os italianos sao assim: ou eles nem olham na sua cara e sao os mais grossos do mundo, ou eles te adoram e ai, sinceramente, eu acho pior. Porque eles querem falar, falar, falar, falar... ontem o Giovanni me deixou quase maluca, porque alem de reclamar de tudo ele ainda desceu a lenha no meu casaco (!!!!!). So falei assim, Giovanni, essa semana a gente enche a cara, ele riu e falou, seu italiano ta otimo.

Aos meus queridos aluninhos...

Esse post é pra galera que tem a infelicidade de ser meu aluno...


Entao, como estao as coisas? A profa. Paula me escreveu falando sobre o andamento do processo das palestras. Gostaria de noticias, se ta todo mundo ainda vivo, etcs e tal, duvidas sobre os trabalhos, blablabla.
Lembrei de voces no dia em que fui a Livraria Feltrinelli. Essa Feltrinelli é a maior rede de livrarias aqui da Italia, e toda loja tem uma seçao imensa de Design. Bom, aqui nem precisa falar, ate cadeira do bandeijao é assinada, italiano tem a mania de coisa bonita, colorida e arrojada.
Outro dia, lembrei dos meus queridos estudantes quando estava lendo o comentario do Jacopo Alighieri, filho do Dante, a obra do pai. Bom, os renascentistas so conheceram a Poetica do Aristoteles a partir de 1520. Ou seja, nem o Dante nem o filho dele, nem nenhum dos comentadores, conheceu as indicacoes aristotelicas sobre os generos artisticos.
E outro dia em que meus queridos vieram na minha lembrança foi aqui no Istituto di Storie delle Arti, na biblioteca cheia de livros sobre as Artes no século XX.
Por enquanto é isso pessoal. Mandem sinal de vida...

Saturday, November 04, 2006

Na terra de Dante, Botticelli e a turma toda

Hoje resolvi investir dois suados euros e entrar numa lan house pra escrever, messenger, essas coisas. E porque precisava dividir uma das mais bonitas experiencias da minha vida.

Depois de uma dura semana pisana, lavoro, lavoro e muita reflexao sobre a vida, tomei coragem e fui pra cidade aonde Dante nunca mais pisou.

Peguei il treno, aquela toda coisa italiana basica, e desci em Santa Maria Novella, ontem. Bom. O dia estava lindo, céu azul, azul, friozinho de outono, a luz dourada da Toscana. E andei e dei de cara com o Duomo e o Batistério. Chorei muito, precisei por os olhos escuros pra disfarçar. O Duomo é um sonho, as portas de bronze do Donatello, no Batistério, sao realmente as portas do Paraiso, como dizia Michelangelo.
Depois, Palazzo Vecchio, Piazza della Signoria, Ponte Vecchio, Santo Spirito... Santa Croce... a Galleria dos Uffizi, tudo, tudo, mais lindo do que eu sonhava. Marina foi um anjo, me levou pra passear, me ofereceu hospitalidade e ainda me aguentou chatissima, eu que ando cheia de tristeza por eventos anteriores. Mas no claustro de Santa Croce ela me afirmou o quanto é importante a gente ser a gente mesmo. E Florença, bela e orgulhosa, na verdade traz a liçao da simplicidade de carater.

Thursday, November 02, 2006

Mais Pisa

Sumi do hiperespaço por um motivo muito simples: to sem telefone nem internet no cafofo de Via Marche, so tenho acesso aqui no San Matteo mesmo.

Aqui em Pisa, existem duas grandes instituiçoes universitarias. A primeira é a Universita degli Studi di Pisa, fundada em 1300 e bolinha, a segunda depois de Bologna, se nao me engano. Os institutos sao espalhados pela cidade. O Instituto de Historia da Arte, como eu disse, é aqui no convento de San Matteo, nas margens do Arno ( a avenida na frente se chama justamente Lungarno). Olhada no www.unipi.it.

Ja a outra instituiçao foi fundada no periodo da invasao napoleonica, e é a prestigiada Scuola Normale Superiore di Pisa, www.sns.it. A Normale fica na Piazza dei Cavalieri, lindissima, com prédios antigos. Anteontem, fui encarar a biblioteca de la, tambem espalhada e imensa, imensa. Pra voces terem uma ideia, eu estava pesquisando na famosa torre della Gherardesca. Nos idos de 1260, um nobre daqui de Pisa, o conde Ugolino, foi traido e encerrado na torre com seus filhos. Conta-se que os filhos morreram de fome, e o conde comeu parte dos corpos para poder sobreviver, mas morreu também. Essa historia escabrosa esta na Comédia, no Canto 33 do Inferno. A torre é conhecida como a Torre da Fome, e tem uma placa explicando o tenebroso episodio.
Nem precisa dizer que a biblioteca é algo de celestial, tem tudo, tudo, eu entrei num desespero... porque so tenho um mes aqui. Pouco pra explorar essa biblioteca de sonho. Ontem foi feriado aqui ( na Italia eles comemoram Finados no dia 1), tutto chiuso, de modo que fui tirar fotos do Campo dei Miracoli. O Campo dei Miracoli é o espaço da Catedral, do Batistério, do Camposanto e da torre tortinha. Tirei varias fotos, mas ainda nao consegui tirar a craçica foto segurando a torre porque tava sozinha!!!!!!!!!!! Entao, para os fas, um pouco mais de paciencia, please.
obs) desculpem os erros de ortografia, é que o teclado italiano aqui do venerando San Matteo nao ajuda em nada...
obs2) ja tomei muito sorvete e comi muita coisa boa em homenagem a todos os leitores!

Monday, October 30, 2006

Piazza San Matteo

Escrevo daqui do Instituto de Historia da Arte da Universidade de Pisa. A famosa Piazza San Matteo.

A biblioteca é fantastica, e o acesso é livre. Conversei com um professor daqui que foi super simpatico. Hoje mudei pro meu cafofo pisano, um apartamento térreo, na casa de uma velhinha. Tudo antiguinho, moveis anos 50, mas comodo e limpo. Beleza. Estou feliz por estar aqui e poder trabalhar num lugar tao bom. Vediamo.

Pros meus alunos, um abraço especial nessa segunda-feira, e começam as palestras. Terei acesso a internet aqui no Instituto, por breves periodos, porque os micros sao pra todo mundo. Observem a diferença de fuso, quatro horas a mais, ok?

Bacci pisani a tutti!

Sunday, October 29, 2006

A cidade da torre torta

Primeiras notícias pisanas no Meio do Caminho!

Depois de uma saga que não recomendo pra ninguém ( São Paulo- Madri- Milão-Pisa), cheguei viva, sã e salva na cidade da torre torta. Bom, avião é sempre aquele tédio, cheguei em Barajas e a zona era completa. Um monte de gente perdeu a conexão e eu só não fui parar em Estocolmo porque sou insistente. No final, descobri no vôo pra Milão Giovanni, calabrês birutinha ( ops, pleonasmo, todos os calabreses são doidinhos) que estuda Direito em Pisa, e essa criatura me rebocou até a Toscana. O fato é que o Giovanni tinha comido algo de estragado e estava passando mal, mas mesmo assim veio falando de Milão a Pisa, com direito a uma parada na segunda estação de Florença, de onde vi o Duomo.
Cheguei em Pisa mais morta que viva, e fui resgatada por Patrícia, outro anjo em forma de gente, que me hospedou nesses primeiros dias. Além de cama, mesa e banho, Patrícia foi comigo procurar lugar pra ficar, forneceu passagem de ônibus e até bicicleta me arrumou. Ou seja...
No final, aparentemente consegui alugar um quarto na casa de uma velhinha, que nesse domingo desapareceu. Estou um pouco ansiosa com isso, mas acho que tudo correrá bem.
Fui super bem recebida no Instituto de História da Arte da Universidade de Pisa, o famoso San Matteo. A biblioteca de lá é excelente e o acesso é livre. Também fui na Scuola Normale Superiore, a outra biblioteca de Babel, e com um euro você consegue a carteirinha. Enfim, acredito que a pesquisa vai correr de vento em popa.
Ontem fomos jantar, sorvete, e vi Pisa by night, super agradável. Pisa é um sonho, molto carina. E a torre? Realmente, a torre é torta. O Campo dei Miracoli é um lugar celestial, o Batistério e o Campo Santo, além da Catedral, fazem felizes o coração de qualquer um, principalmente de quem é historiador da arte mirim. Estou muito feliz de estar aqui e ter a oportunidade de pesquisar, ainda que rapidinho, tanto na Universidade quanto na Normale. Ah, sim, eu chorei muito depois de ter visto a torre.

Tuesday, October 24, 2006

A Ibéria agradece e deseja a todos uma boa viagem

A todos os passageiros... uma boa noite!


Amanhã será a saga rumo a Pisa. Paro em Madri, depois em Milão, depois em Pisa. Acredito que só terei acesso a Internet no final de semana. Ou seja... estou ansiosa, nervosa mesmo, mas acredito que tudo correrá bem.
Depois da correria toda, preparativos, mil providências, o frio na espinha. Mas tudo bem, uma missão necessária. E agradável! Novas aventuras no Meio do Caminho!
E para vocês, um grande beijo, e uma indicação de música: "Sete Desejos", do Alceu Valença, que me acompanhava na época da minha primeira viagem à Itália, e agora me acompanha mais uma vez, nove anos depois. A caminho da Itália, me sinto eu mesma novamente.

Friday, October 20, 2006

I Don´t Feel Like Dancing

Dias loucos sempre antecedem viagens. Preparativos de todas as espécies: seguro, grana, levar e buscar roupa em costureira, fazer mala, segurar a ansiedade, contratação na PUCC, cansaço, aulas, tudo, tudo.

Como um ano atrás eu tava nessa, parece que só vou descansar realmente quando retornar. A mesma ansiedade, eu morro de medo de avião, fico com medo do avião cair, da imigração me encher, da mala sumir, do meu italiano sbagliato e da torre tombar de vez. Mas enfim, nessas horas do medão e da ansiedade, eu firmo pé e penso, vamos lá.
O chato foi que juntou a contratação na PUCC, um troço sinistro. Pra começar, exame de sangue, e o cara arrebentou minha veia. Estou com um roxo digno de filme de horror. Mas nada perto do alívio que foi vir a biópsia.
Muitas coisas aconteceram essa semana, fichas de anos caíram, dias que antecedem viagens são dias mágicos, dias de vida intensa. E no meio dessa, no msn, a Vivi, leitora fiel do Meio desde seus primórdios e uma das minhas cobaias de vida docente no IA me passou uma musiquinha.
Os meus fiéis companheiros, Gerião ( meu carritcho) e Neguinho do Pastoreio ( meu I-Pod, lembra dele?) rodaram essa semana. E Neguinho do Pastoreio tocou sem parar esse hit de agora, sim, de agora... na primeira vez que eu ouvi, presente da Vivi, achei que fosse algo desconhecido dos 80 que neguinho desencavou. Não, que nada, os caras são jovens, de Kentucky ( olha lá o meu querido Mid West de novo), gays lindos que chamaram o Elton John e compuseram esse chiclete ma-ra-vi-lho-so pra dançar, pra acompanhar a vida, pra queimar calorias, pra festa. Então terminei a minha semana cruzando a Moraes Salles entupida gritando, I Don´t Feel Like Dancing, a vida começa a ser uma festa colorida, boba pode ser, mas colorida.

Tuesday, October 17, 2006

Ciao!

Dando sinal de vida no Trópico de Capricórnio...


Agora que passou posso contar. Fiz exames e apareceu uma suspeita de câncer. Vocês podem imaginar o desespero, a angústia e o desamparo que senti nas três semanas em que esperei o resultado da biópsia. O povo amigo de sempre ajudou e a barra pesou, ma non troppo. Ontem fiquei sabendo que o troço era, como se diz, benigno.
Eu não contei antes aqui no Meio porque depois de dois assaltos, ficar sem bolsa, crises existenciais múltiplas e problemas variados, os queridos leitores iam se encher de tanta patacoada acontecendo com a panda. Preferi sublimar e escrever os textinhos poéticos aí de baixo, pra falar de coisas boas e não ficar chorando no meio do caminho, literalmente.
Pois passou o pesadelo, quer dizer, esse pesadelo, e, daqui a uma semana, vou pra Itália. Quer dizer... a passagem mais barata que consegui arrumar foi Ibéria, pára em Madri, e depois sigo para a imensa Milão. Fortes emoções aguardam a pequena panda, na terra de Dante, Botticelli, Brancaleone e imperadores narigudos.
Hoje e ontem entrei num desespero, porque tenho um monte de coisa chata pra fazer antes da ida: banco, conta, médico, PUCC, e convencer os germânicos colegas do Gabinete de Estampas e Desenhos de Berlim que preciso ver desenho lá. Tô com medo, vocês não imaginam.
Primeiro, da movimentação toda que vai ser, segundo, porque eu tô de FAPEPANDA, os recursos estão exíguos, pra não dizer mínimos. Ou seja, não percam o próximo episódio da saga, A fome da panda na Toscana.

Sunday, October 08, 2006

Paixão

Derrubar as paredes que existem entre nós, consumação.


De todos os nós que nos prendem, fazer um ninho e destruir os entraves da língua, do peito, de tudo que nos constrói e ensina.


Porque essa dor atravessada quando não te vejo, essa insensibilidade extrema e essa vontade de ler Pessoa sem parar, Camões sem parar, Bocage parando. Porque essa vontade louca de se fazer o que não se deve, se andar na diagonal para não pisar nos outros que afortudanadamente, naquele instante, não amam.
E saber-se só na multidão, porque no céu estrelado das possibilidades nada existe a não ser seu sorriso sem graça quando eu surjo, morta de fome, sede, de olhos turvos e faces rosadas. Porque há muito tempo aquele homem que amo tanto escreveu, trazia no rosto, do Amor, tantas de suas insígnias, que não podia mais ocultar, e porque ele escreveu assim se fez.
Vivo na curva do tempo, suspensa por fios de pérola que me prendem a mim mesma, e no entanto sou incapaz de fugir, de correr, de esconder-me de você, onda, onda cada vez maior que me arrasta para dentro do mar do meu absurdo.
Porque no meio da tarde a luz amarela na veneziana das janelas me lembra você, porque meu suspiro frustrado entre as refeições me lembra você, porque deveria pensar no trabalho e não o faço, e porque no meio de minha angústia sei, e você também sabe, morrer disso deve ser doce.

Thursday, October 05, 2006

40 Anos de Unicamp

E hoje a Unicamp faz 40 anos.

As comemorações, no meu ponto de vista, foram as piores possíveis. Tudo no tom oficialesco dos órgãos da Reitoria, tudo centrado na figura do Zeferino Vaz, que fez muito mas não fez sozinho.

Fecharam a rua na frente do Ginásio, onde a elite foi se encontrar. Os funcionários não foram dispensados, mas as aulas não aconteceram. Ninguém no campus, tudo calmo, calmo até demais.
Achei tudo um porre. Nesses doze anos que estou na gloriosa Universidade Estadual de Campinas, deixaram de vender cerveja, fecharam a única farmácia do campus ( que era embaixo da Biblioteca Central; hoje, se você fica menstruada, não tem onde comprar um absorvente sequer), não tem mais festa, seguranças e carros por todos os lados, os alunos assistem aula e vão embora, e pra piorar o bandeijão se tornou algo pior do que já era.
Outro dia, li no oficial e chato Jornal da Unicamp que os caras gastaram uma grana pra fazer uma pesquisa e constataram que o número de alunas grávidas no campus aumentou. Claro, não tem onde comprar um preservativo!
Não tem piscina decente, pros alunos e professores da FEFI, não tem Brigada de Incêndio, Controle de Zoonoses, o prédio da BC não tem escada de emergência nem extintores e pra completar, as ambulâncias do HC não podem atender a comunidade do campus. Já teve caso de professor enfartado, aluna tendo filho, empregado das empresas terceirizadas que caiu de andaime... e você tem que ligar no SAMU, no Hospital Municipal Mário Gatti ( onde fui super bem atendida quando de um acidente grave de carro que quase fez a panda virar anjo-panda) no outro lado da cidade.
Descobri isso num dia que uma moça, conhecida, teve um ataque epiléptico na cantina do IFCH. Ligamos pro HC e eles falaram que não podiam fazer nada. Comentei com seu Paciência, restaurador de livros da Seção de Obras Raras da BC ( sim, ele se chama Paciência)... ele me disse que alertou a Prefeitura do Campus para o fato de que as muitas pombas no forro do prédio ( sem reforma desde sua fundação) estavam fazendo suas necessidades e que isso corroía o concreto armado da fachada do edifício. Ninguém veio atendê-lo. Seu Paciência tentou descobrir se havia Controle de Zoonoses na Unicamp. Não, não há ( pra quê, com capivaras, cachorros, gatos, morcegos, insetos no campus???). Seu Paciência foi pro bandeijão, um pedaço da brise de concreto caiu na sua cabeça, e sim, não há ambulância para levar o acidentado no HC.
Parece piada, mas aconteceu mesmo. Eu queria um dia que na Unicamp, as pessoas pudessem fazer festas, comprar camisinha, treinar natação em piscinas adequadas, ter uma Biblioteca Central transada, segura, com canais de comunicação entre os professores, alunos e funcionários.
Gastaram uma grana pra construir os novos Ciclos Básicos. As salas são ótimas, munidas de bons equipamentos, mas não puseram cortinas nas janelas, então no solão campineiro a tela do Data Show vira um Gasparzinho.
Aqui vai minha homenagem pro Seu Paciência, pro seu Luís do xerox do IFCH, pro Mundinho do café do IEL, pros meus amigos, pra idéia que norteia e norteou nossos sonhos nesses quarenta anos, e que os próximos sejam melhores.