Friday, September 30, 2005

É verdade que...

Aproveitando a deixa, já respondo algumas questões que eu sei que vão rolar pela cabeça dos brazucas:

1)"É verdade que todo americano é gordo?"
Por increça que parível, não. Pelo menos não em Chicago, no centro da cidade. Muita gente muito, muito magra. Moças anoréxicas. Quanto mais alto o nível social, mais magra a pessoa é. Onde estou, ainda tem um shopping center de cirurgia plástica, ou seja, aquela coisa Melrose Place. Moças maquiadérrimas, magérrimas, com bolsas Louis Vouitton e roupas Diesel. Mas nos subúrbios, entre a gente pobre, a obesidade é a regra.
2) "É verdade que só tem porcaria pra comer?"
Não. Em Chicago, não. Come-se comida do mundo todo, ou uma boa Ceasar Salad, por 10 dólares. Em alguns lugares, gasta-se até menos. Lógico que tem restaurante muito mais caro, e muita trash food no supermercado e redes de fast-food e tudo o mais. Mas dá pra viver comendo saudavelmente. Hoje almocei salada, salada de frutas e suco de laranja natural. Mas ontem pisei na jaca e comi o melhor hamburguer da minha vida. Sorte que no meu prédio, existe uma mini-academia de ginástica!
3) "É verdade que todo americano é arrogante?"
Não. Mais uma vez, os chicagoans de Golden Coast desmentem os estereótipos dos gringos. Primeiro porque são imigrantes ou descendentes de imigrantes do mundo todo. E são simpatcíssimos. Os negros, então.. são ótimos.

Hoje, Chicago

Para os meus queridos leitores, o primeiro sinal de vida neste blog, em terras chicagoans.
Pois é, meus caros, consegui burlar a segurança do governo Bush e, depois de dez horas de vôo e uma tremenda insônia, escrevo diretamente da Newberry Library. Ao meu redor, muitos livros sobre iconografia renascentista da Divina Comédia.
Bom, voltando. Depois de dez horas num vôo horrível, com muita turbulência em cima da Amazônia, cheguei mais cedo do que pensava no monstruoso O'Hare International. Mas não adiantou em nada chegar mais cedo, porque peguei mais três horas de fila, entre Serviço de Imigração e Alfândega. Como era a primeira vez que pisava em solo gringo, neguinho me pegou pra Cristo, e tive todas as minhas malas abertas. Os funcionários, gentis, mas mesmo assim é muito pé no saco. Ter suas roupas reviradas e ler cartazes do tipo Mantenha sua comida longe da América, é demais pra cabeça.
Depois disso, fui pegar um táxi. O oposto de lá de dentro: um senhor com cara de indiano, e outro negro, me atenderam super bem. O motorista, da Jordânia, muçulmano e divorciado, disse que casaria comigo e aceitou três bucks de gorjeta.
Chegando no prédio, um outro senhor, esse mexicano, demorou uns quarenta minutos para me entender. Tive tempo apenas para tomar um chuveiro, trocar de roupa e vir pra Biblioteca.
Quem quiser ver onde estou, clique no www.newberry.org. Fui atendida espetacularmente e já estou com uma escrivaninha própria, com net e tudo o mais.
As pessoas aqui nessa região, que se chama Golden Coast, são muito, muito, muito amáveis, sorriem, fazem brincadeiras, entendem seu inglês Tabajara. Pessoas de todos os jeitos, de todas as cores, e usando havaianas. Se não fosse pelo inglês, diria que estou numa Florianópolis, coisa assim. A comida, famosa no Mid-West, é muito boa. Comi saladas espetaculares, frutas muito doces, e um hambúrguer divino, além de um expresso digno de uma paulistana.
Tudo limpo, tranquilo, nessa parte da cidade. Já me disseram que nos subúrbios, a coisa não é assim. Depois preciso contar o que descobri sobre a história da cidade, que ajuda a entender um pouco a situação política e cultural daqui.
E o Lago Michigan? É azul. Dá pra acreditar nisso?

Monday, September 26, 2005

Amanhã, Chicago!

Pois é, o tempo passou e essa escrevedora de blog amanhã voa para Chicago.
Vamos ver como me saio. É a primeira vez que vou para os Estados Unidos. Lógico que a era Bush, os furacões e a invasão no Iraque não ajudam ninguém. Mas enfim, é a vida.
Há oito anos, fui pra Itália. Roma, Nápoles e a Sicília. Agora, a pátria do tio Sam, estágio pra ir de novo pra Itália.
Como diria Aristóteles, fui!

Sunday, September 25, 2005

Está aí um tema difícil, para nós, que encaramos quatro ou mais anos de Ciências Sociais.
Meu pai e minha avó eram muito católicos. Minha avó dona Penha em especial. Meu pai tinha como amigos os padres salvatorianos, que tanto nos ajudaram em Jundiaí, quando a gente mais precisou.
Íamos à missa com meu pai. Minha mãe é de uma religião indefinida. Tenho pra mim que o pessoal da família dela é meio espírita, meio macumbeiro, sei lá. Ela às vezes sonha, tem uns pressentimentos, mas às vezes usa seus poderes para o mal, ou simplesmente para encher o saco dos outros.
Eu fui educada no catolicismo humanista dos salvatorianos, muito próximos dos franciscanos de Petrópolis, por exemplo. Isso significava, na década de oitenta, humanismo, Teologia da Libertação. Meu livro de religião, no colégio, era bem avançadinho: citava Cazuza, descia o pau na alta burguesia, e a principal personagem era, sem sombra de dúvida, São Francisco de Assis.
Depois que entrei na Unicamp, fui perdendo a fé. Na adolescência, aprendi a jogar tarô, e ganhei duendes. Fiquei muito impressionada com o espiritismo, e rezava quando o negócio apertava.
Depois de ler Marx, é difícil a gente manter a ingenuidade.
Mas a vida é difícil. Acho que sou cristã, no básico. Não acredito nos dogmas nem na hierarquia eclesiástica. Senti uma dor verdadeira ao ver o Ratzinger papa, e achava um horror Paulo II ser contra a camisinha e os homossexuais. Não acredito na virgindade de Maria, e tenho muita desconfiança na instituição Igreja. Aliás, todas as igrejas. Mas a moral cristã, permanece no meu dia-a-dia. Será que tenho que ler Nietzsche?
Dois milagres. Ou graças alcançadas aconteceram comigo. Uma vez, estava muito desesperada, sofrendo muito por amor. Por acaso, estava na Praça da Sé. Entrei na igreja e fiquei pedindo pra quem fosse que afastasse o indivíduo de mim. Deu certo...
Outra vez, estava muito dura. Mas dura mesmo. Uma amiga foi à Aparecida do Norte, porque quase morreu quando era criança e a mãe fez promessa que todo ano, se a menina vingasse, eles iriam pra Aparecida. Ela me trouxe um pequeno São Francisco. No outro dia, me chamaram pra dar aulas num colégio católico, pra falar de Giotto... em Assis.
Tudo bem que me despediram depois, porque irritada com os moleques sem-educação, soltei um palavrão. Isso, nem São Francisco consertaria!

Mangia che ti fa bene- a parte carcamana da família

Eu não tenho nenhum ancestral italiano. Minha família era pura de sangue carcamano até agora, porque ao tudo indica o pai dos meus filhos vai ser neto de gente da Puglia.
Mas mesmo assim, sempre me senti meio italiana. Explico: em São Paulo, é quase impossível passar incólume às hordas de netos e bisnetos dos camponeses da Puglia, da Campania, da Calábria, da Sicília. E alguns vênetos, poucos, mas que existem.
Pra começar, sempre tive o dom de me apaixonar pelos Ricardi, Fantinato, Barbarasso da vida. Tudo bem que em Jundiaí, eu não tinha muita alternativa. Mas minha ligação com a velha Bota começou bem, bem antes disso.
Dona Ofélia morava no prédio da Teodureto de Souto, onde meu avô era zelador e aprontava todas, e minha avó infernizava a vida da minha mãe. Meu pai com seus cinco empregos ( seu Pedro sempre dando nó em pingo d'água) quase não ficava em casa. No primeiro andar, morava Dona Ofélia, que fazia macarrão pra fora. Dona Ofélia cuidava de Roberta, sua única neta. Seu filho casou-se com uma moça que, depois de ter a Roberta, se suicidou. Quando eu nasci, a Roberta tinha onze anos, e decidiu que eu seria sua boneca e mascote.
Dona Ofélia se dava bem com seu Armando, mas detestava dona Penha. Sabendo da minha condição de neta sem avó, tomou as rédeas das coisas e me deu os primeiros banhos e tudo o mais. Talvez minhas lembranças mais remotas sejam da mesa cheia de farinha, e da senhora que por muito tempo achei que fosse a Dona Ofélia da televisão. Vaidosa, com suas camisas estampadas, seu gosto pela cozinha, e a italianice.
Depois, na Miguel Telles Júnior, conhecemos no playground uma moça chamada Mara. Ela e seu marido eram filhos de italianos. No caso do Laerte, napolitanos da velha cepa. Gente que bota presépio com Menino Jesus em tamanho natural no Natal, que gosta de comida, discussão, livros e coisas assim. A Mara e o Laerte foram meus super-tios durante anos, era Natal, era passeio, era tudo com eles. Eles tentaram ter filhos, mas os dois bebês, Gabriel e Rafael, nasceram com uma doença muito rara, e morreram.
Anos depois, a Mara estava em casa no dia do meu aniversário. Seu obstetra ligou dizendo que uma menininha havia nascido e sua mãe não a queria. A Mara adotou essa bebê, que compartilha comigo o dia do nascimento, e que tem o nome do meu irmão, Marcela. Em homenagem a nós dois.
Daria pra escrever um grande romance sobre a Mara e o Laerte. E a italianada toda, família deles. Mas o que não dá é pra descrever a gratidão eterna que vou ter pelos italianos de São Paulo. Com eles, aprendi a gostar da comida da Península, de ir ao MASP, de ler, da maioria das coisas que me fazem hoje. E de lascar O Sole Mio no chuveiro!

Para Dani e Evandro: essa é do seu Armando!

Ontem, tive uma felicidade genuína. Na minha despedida, recebi um casal de amigos muito querido, que veio de Vinhedo especialmente para me ver! Então, Dani e Evandro, essa é pra vocês...
A Dani me contou que de vez em quando passa por aqui, e que leu e se emocionou com a história das minhas avós. Dani, que é minha conterrânea de Cambuci, e que também tem uma família de figurinhas. Contei pra ela a pior história do seu Armando, meu avô paterno.
Seu Armando era filho de belgas-holandeses, sabe como? Pois é, parente longínquo mas nem tão longínquo assim do pintor Vermeer. Os famosos flamengos, que se dividiram entre os dois países, e que vieram dar às costas brasileiras algumas vezes. Católicos e mercadores.
Meu bisavô, seu Arthur, era dono do Hotel Fluminense, em Campos. Casou-se com dona Arminda, filha de portugueses, e dessa união nasceu a figura. A família perdeu tudo, segundo a lenda, porque Gastão, o filho mais velho, gostava de jogar nos cavalos. Outro dia encontrei na Internet um neto do seu Gastão, meu primo, que mora no Rio. Não comentei nada, vai que é mentira!
Voltando. Seu Armando era alto, loiro, de olhos azuis e estrábicos. Magro, e meio rebelde. Entrava e saía dos empregos, era meio malandro, mas gostava muito dos seus seis filhos homens. Pobre, pobre, mas comprava presentes de Natal para todos: carrinhos de madeira, bolas e outros brinquedos. Mesmo na pobreza, guardou suas delicadezas burguesas, européias. E um sotaque meio diferente.
Quando o filho mais velho quis vir para São Paulo, trazendo os irmãos, seu Armando não titubeou. Veio junto. No frio Piratininga, sentia-se melhor. Aqui, conseguiu o emprego de zelador num prédio, na rua Teodureto de Souto, no Cambuci. Morava lá, no apartamento reservado ao zelador, e era lembrado muitos anos depois como um dos melhores funcionários do prédio. Lavava com ardor a escadaria do primeiro andar, de mármore branco, deixando-a brilhando.
Minha mãe trouxe a discórdia e a primeira neta que ele teve a oportunidade de conviver de perto. Escondido da minha avó, seu Armando ia me visitar, me levava pra passear no parque da Aclimação, e tirava fotos comigo no colo, com vestido de joaninha.
Meu pai deu nó em pingo d'água e conseguiu um financiamento. Saímos da Teodureto e fomos pra Miguel Telles Júnior, num prédio novo. Seu Armando ia lá, e cuidava dos netos, já que meu irmão nasceu com seus incríveis cinco quilos e meio.
Um dos meus tios conheceu uma moça, de Osvaldo Cruz, interior de São Paulo. Ficaram noivos. Às vésperas do casamento, uma das irmãs da minha tia veio para São Paulo, para prestar um vestibular ou um concurso, não sei direito, e minha avó ofereceu sua casa e ajuda para a mocinha. A mocinha, carregando a mala, inocente e caipira, chegou na Teodureto. Seu Armando estava na calçada, com seu rayban, sua calça de tergal e suéter. Não é que o velho lascou uma cantada barata naquela irmã da sua futura nora? Foi aquele escândalo...
Seu Armando era muquirana, e não deixava dona Penha comprar pó e ruge. Pouquíssimo católico, dava dores de cabeça na minha avó, homéricas. Não sei porque, mas ele perdeu o emprego, o povo todo teve que sair da Teodureto, e eles foram pra um conjunto de prédios perto da antiga Rodoviária, ali quase dos lados da Baixada do Glicério. Onde o Maluf tava construindo o monstro Radial Leste.
Nas fotos do meu batizado, aparece de rayban. E apertando a gente. Logo depois, a fatalidade. Teve um AVC, depois outro, depois outro. Ficou nove anos na cama, com um dos lados paralisado, o estrabismo cada vez pior. Eu tinha medo do meu avô, preso naquela cama, sem falar direito. Muito medo. Meu pai irritado com minha falta de jeito me obrigava a ficar perto. Minha mãe, numa das poucas vezes que teve sensibilidade para comigo, explicou pra ele que eu tinha medo do seu Armando, que isso era normal.
O que não é normal foi seu sofrimento. Sofria muito, e no final pediu para que Jesus o deixasse ir. Sofreu demais para falecer, o que ocorreu dois anos depois da morte da minha avó materna, e no mesmo mês de tia Júlia e tio Esmeraldo, seus cunhados e padrinhos de meu pai.
Meu avô deixou para mim a lembrança de que, mesmo sendo zelador de prédio, é necessário ter uma certa aristocracia de espírito. Uma delicadeza de alta burguesia. O dinheiro, esse é detalhe.

Saturday, September 24, 2005

Dona Penha, minha outra avó

Hoje, deu vontade de escrever sobre os campistas. Comecei com dona Maria. Agora vou falar da minha avó paterna, dona Penha.
Que também era uma figura. Dona Penha foi mãe de seis filhos, mesmo se casando tarde com o filho de um belga dono de hotel, meu avô seu Armando. Ela me contou sua história, eu com meus quinze anos, ela quase com oitenta. E me disse sabiamente: ainda bem que alguém se interessa e escuta essas histórias, porque daqui a pouco eu não estou mais aqui.
Ela me contou que seu pai trabalhava na Ferroviária, a Leopoldina, e chamava-se Franklin. Por alusão, compreendi que ele era mulato muito escuro, explicando os cabelos pixaim, os lábios grossos e olhos esverdeados de toda a nossa família. Sua mãe era doceira, trabalhava em casa e se chamava Antônia. E tinha os cabelos lisos e negros.
Seu pai faleceu quando ela era mocinha e sua mãe teve uma longa e terrível doença: câncer. Minha avó explicava que por isso, ela ficou em casa até mais tarde, cuidando da mãe até ela vir a falecer. Isso era compreensível. Uma das vergonhas de minha avó, além da mulatice do pai, era que havia se casado tarde, aos trinta anos, e com um rapaz mais novo, que conheceu passeando com uma amiga. Ele namorava outra, mas minha avó deu um jeito de conquistá-lo. Essa é a melhor parte da história.
Casada com ele, teve uma vida de privações e sofrimento. Perdeu o filho mais novo, meu tio Salvador, afogado no Paraíba do Sul, e viu os filhos migrarem para a distante São Paulo. Até hoje não sei porque meu tio mais velho decidiu vir pra São Paulo, e não para o Rio, como seria natural aos norte-fluminenses. Mas enfim, vieram todos, até meu avô, que simplesmente amou e adotou São Paulo como sua terra. Minha avó não se conformava com isso, e todas as férias brigava e obrigava um dos filhos a levá-la para Campos. Numa dessas, meu pai, cabeludo e fã dos Beatles, quase noivo de uma nissei, foi obrigado a ir e na fila da Caixa Econômica, conheceu a internacionalmente famosa minha mãe, Dona Meire. Qualquer dia desse eu falo dessa criatura que me gerou.
Claro que dona Penha implicou com Dona Meire. As duas se odiaram e no início do casamento dos meus pais, minha mãe, que foi morar com os Vermeersch no prédio no Cambuci onde meu avô era o zelador, e que para o desgosto de todos engravidou logo desta que dá o testemunho, foi colocada no limbo pela sogra megera.
Minha avó pagou todos os seus pecados. No final da vida, a única nora que cuidou dela, e que a acompanhou na morte, foi minha mãe. E a neta que ela jurava não ser filha do meu pai e que não foi ver quando nasceu, foi adotada por uma senhora italiana do prédio, dona Ofélia. Dona Ofélia, arquiinimiga de Dona Penha, cuidou de meu umbigo problemático e me deu os primeiros banhos e as primeiras macarronadas. Essa neta resistiu a tudo isso, e causava orgulho a dona Penha, porque sabia tocar piano ( mal e porcamente, é bem verdade), e entrou na Unicamp, instituição citada na televisão.
Minha avó era muito católica. Gostava de cozinhar, mas não fazia doces. Minha mãe, implicante, dizia que a casa da minha avó era suja e não nos deixava comer lá. Lembro-me do primeiro presente que ganhei de meus avós: uma boneca de plástico, dura, com um vestido xadrez azul. Até hoje existe.
Lembro-me também que adorava suspiros. E que era baixinha, baixinha. E que quando fez oitenta e dois anos, surpreendeu todo mundo. Pela primeira vez na vida, aceitou que as senhoras amigas da igreja fizessem uma festinha de aniversário para ela. Teve bolo, salgadinhos e docinhos, que ela mandou para nós, junto com uma foto. Onde estava maquiada, elegante, de roupa nova comprada pela nora. Logo depois, partiu desse mundo.
Sua morte foi a primeira dor verdadeira que senti na vida. Caloura na Unicamp, senti que fui transportada para uma outra dimensão, naquele final de semana. Virei motivo de chacota entre alguns colegas de classe, porque sofri de um início de depressão e só falava da sua morte. Tive que procurar ajuda e no centro médico da universidade, encarei minha primeira terapia.
Hoje, sei que minha avó me ensinou que é importante termos memória. É importante respeitarmos os mais velhos, e que do mesmo jeito que meu pai teve que se despedir dela, tive que me despedir de seu Pedro, e alguém um dia terá que fazer isso por mim. Aprendi a ter fé, e aprendi que do sofrimento, da dor, podem vir coisas boas. E que tudo passa, mesmo implicância de sogra.

Minha avó

Ontem, ouvi na Nova FM "Escrito nas Estrelas", da Tetê Espíndola. E me lembrei da minha avó, Maria da Conceição.
Aliás, minhas duas avós chamavam-se Maria. Maria da Conceição e Maria da Penha. Nomes antigos, como diz Érico Veríssimo em Incidente em Antares, nomes avoengos.
Minha avó materna, a da Conceição, adorava essa música. Ela, muito pobre, muito simples, morava na velha Campos dos Goytacazes. Que antes de ser a terra do casal Garotinho, foi a terra natal de meus ancestrais, de meus avós e de meus pais. Mas gostou tanto da canção, que concorria num festival, em 85, que comprou o LP especialmente para ouvir. Essa música marcou o último ano da vida dela.
Eu deveria ter uns quatro anos quando conheci minha avó. Nós morávamos exilados em São Paulo. Quando nasci, ela quase faleceu devido a um mioma, que não havia tratado por falta de recursos e de coragem para ir ao médico. Só pude vê-la no meu batizado. E tive a indelicadeza de lhe perguntar do velho José Ferreira, morto muitos, muitos anos antes, e que foi sua única e grande paixão. Minha avó ficou com os olhos cheios de água, e minha mãe ou alguém ao lado me explicou que ele era uma estrela.
Foi a mesma explicação que minha mãe deu a minha priminha, desconsolada com a morte de quem cuidava e educava dela. Eu tinha nove anos, vi minha mãe com o rosto vermelho de chorar. Na hora não compreendi direito, mas hoje sei que minha avó era muito simples, muito doce, e que partiu desse mundo cedo, na quadra dos cinquenta, devido a um erro médico.
Lembro-me que sua cozinha, geladeira, fogão e armários, era toda vermelha, comprada a prestações pagas pelo meu pai. E que no velho terreno do seu José Ferreira, ela ocupava uma meia-água nos fundos e alugava a espaçosa e verde casa da frente a uma moça. Seu banheiro inteiro era escuro, de cimento queimado, e da primeira vez que fui a Campos visitá-la, cometi outra indelicadeza, no alto dos meus cinco anos: dei um verdadeiro chilique e não queria tomar banho num lugar tão pobre. Lembro-me que saí de São Paulo a Campos no Voyage do meu pai pensando que minha avó era uma fada, e morava num lugar mágico como as estampas fofas dos cadernos.
Outra lembrança forte foi a bronca que ela me deu quando eu chorei e pedi de volta à minha prima, abandonada pelos pais na casa da nossa avó, uma bermuda branca e de listas coloridas que havia sido minha. Acho que dessa terceira vez, dona Maria perdeu a paciência com a neta birrenta e enjoada. Eu era uma verdadeira chata.
E ela tinha um quadro, com uma estampa, mostrando os hebreus atravessando o Mar Vermelho. E gostava de tapioca com manteiga, e de pudim no Natal. Fazia galinha ao molho pardo, e caranguejada, indo com meu pai ao velho Mercado de Campos e comprando os bichos vivos. Tinha flores, frutas e ervas no quintal, incluindo um imenso mamoeiro, onde uma vez fui fotografada fazendo birra, pra variar. Mas que vergonha.
Hoje, sei que uma das melhores influências que tive na vida foi da minha avó, que conheci tão pouco e que perdi tão cedo. Foi com ela que aprendi a lição da simplicidade de caráter. E gostaria muito que ela estivesse aqui para poder ir a Campos comer tapioca com manteiga. E chuvisco, e doce de mamão verde.

Friday, September 23, 2005

Leituras de Rousseau

Li Rousseau uma vez na vida. O Contrato Social.
Queria ler de novo.
Em outra encarnação, fui de um negócio chamado Programa de Formação de Quadros Profissionais, no Centro Brasileiro de Análise e Planejamento. Isso mesmo, estive na Estrela da Morte do Império, no Antro arqui-inimigo do Gláuber Rocha e do Gilberto Vasconcellos. E não virei Darth Vader, aparentemente.
Nesse troço, a gente ficava dois anos fazendo programas de estudo. Doze pessoas, de todas as áreas das Humanidades: advogados, filósofos, sociólogos, antropólogos, cientistas políticos, e até mesmo historiadores da Arte. Escolhíamos o que queríamos estudar, e aí, era mandar bala, toda terça e sexta-feira.
Teve um programa de Filosofia Política. O básico: Aristóteles, Maquiavel, Rousseau. O Contrato Social começa com a concepção aristotélica de política: um ramo da Física. Os fenômenos da política são da ordem das investigações naturais. No Príncipe, Maquiavel parte do mesmo pressuposto.
Mas no Rousseau, o negócio dá pau. Ele começa considerando a política como algo passível de ser compreendido com regras, como a geometria de Euclides. E logo descarta esse tipo de argumento, porque os homens têm seus afetos, suas paixões, que, inversamente do que pensavam os autores do século XVII, não são calculáveis nem previsíveis. Rousseau reivindica o abismo dentro de cada um, o diferente.
No meu pouco entendimento, ficou a impressão do livro ser algo grande. E afetivo, e generoso. Gostaria de estudar um pouco mais isso...

Thursday, September 22, 2005

Dance Little Lady Dance

Uma das minhas paixões no pop sempre foi, e sempre será, a música que bombava nas pistas no momento do meu nascimento. Viva a disco!
Uma play list básica, pra comemorar os quase 30 anos da moça que escreve e desse fenômeno musical:
1)Dance Little Lady Dance- Tina Charles
2)Shake Shake Shake- KC and The Sunshine Band
3)Dance a Little Bit Closer- Charo
4)Give it Up- KC and The Sunshine Band
5)That's the way I like- KC and The Sunshine Band
6)Zodiacs- Roberta Kelly

Aniversário, quase embarcando

Aniversário. Pois é, aniversário.
Hoje faço 28 anos. Brincadeira... quando eu tinha uns quinze, achava que aos quase trinta, estaria velha. Bom, velha estou ficando mesmo. Daqui a pouco, vou ter que comprar Renew. Como diria Balzac...
O mais doido deste aniversário é que estou quase embarcando para Chicago. Quem acompanhou o blog sabe que desde o Carnaval estou às voltas com as burocras, daqui e de lá, pra poder ir ver livros velhos às margens do Lago Michigan. De forma surpreendente, esta escriba convenceu Consulado e Fapesp que ver ilustração renascentista da Divina Comédia é algo importante para o progresso das Ciências Humanas brasileiras. E de forma mais surpreendente ainda, conseguiu se convencer que ir pros United é legal, em tempos Bush.
Então... daqui a uns cinco dias, Illinois. O blog vai virar diário de bordo... por enquanto, escutando Cabelo Raspadinho, do Edu Casanova, na gravação do Chiclete com Banana. BRASIIIIIIIIILLLLLLLLL!!!!!!!!

Wednesday, September 14, 2005

Aula de História do Brasil

Hoje, me despedi dos meus alunos no cursinho. Pois é, ao que tudo indica, e está na passagem que comprei, vou encarar mesmo o lago Michigan.
Até que dei uma aula sobre o estabelecimento da cana-de-açúcar e as características da sociedade colonial brasileira boa. Fizemos dois exercícios, de universidades federais, e tasca o açúcar no povo. Sociedade patriarcal, religiosa e escravocrata. Como essas coisas se combinavam?
É uma loucura acompanhar o raciocínio, eu sei.Por que não escravizaram os índios? Por que os africanos? Por que o açúcar? A mandioca é mesmo venenosa?
Como eu queria ser uma boa professora.

Aleijadinho

Algumas notas sobre o Aleijadinho.
Hoje dei uma aula sobre Imaginária Brasileira. Já está provado, pela professora Myriam de Oliveira, da UFRJ, a maior estudiosa de Arte colonial brasileira, que surgiram várias escolas de artesanato artístico, durante o período. Existem aspectos estilísticos que diferenciam as peças do Maranhão das de Pernambuco, e as duas das da Bahia, Minas Gerais, a região das Missões Jesuíticas, São Paulo.
O ponto alto da tradição mineira, sem dúvida, é o Aleijadinho. Que consegue, em Congonhas do Campo, ser o ponto alto de toda a história do artesanato artístico no Brasil, de todas as regiões. A professora Myriam se preocupa, no livro mais recente, em demonstrar que a arte colonial brasileira não pode ser chamada de barroca: ela seria rococó. Acho que essas discussões estilísticas são um pouco estéreis.
Mas o fato é que, para estudar a obra de Aleijadinho, é preciso tomar alguns cuidados. Em primeiro lugar, é necessário se desvincular do mito romântico, criado pelo primeiro biógrafo, Bretas, e pelo ensaio crítico de Mário de Andrade. O Aleijadinho não era um gênio isolado, um homem que tirava tudo da sua cabeça: original, sim, mas em diálogo constante com a tradição, um homem que se entendia como parte de um universo colonial marítimo português.
Tampouco a mulatice explica a força criativa e criadora. É um fator interessante, mas não explica um artista que se quer reconhecido como universal. Também é necessário saber que muitas peças ditas do mestre são de oficinas próximas a sua: o mercado dá a autoria que quer, como bem demonstram as exposições de coleções particulares.
Lembro de uma ( não vou citar o nome do colecionador por gentileza) que fui no Museu Nacional de Belas-Artes, no Rio. Você chegava e dava de cara com um enorme banner, onde o colecionador propunha algumas características formais que seriam constitutivas da marca da oficina de Antônio Lisboa. Bom, se você seguisse tais critérios, nenhuma peça da coleção restava como sendo da oficina do mestre.
Tirando esses vexames e a situação sempre precária do patrimônio artístico nacional ( o site da Polícia Federal traz muitos casos de obras roubadas que andam por aí, nas salas chiques e atapetadas da alta burguesia), além da escassa documentação, resta a eloquência do conjunto de Congonhas. Talvez seja um dos conjuntos escultóricos mais bonitos do mundo. Dois estrangeiros deram conta do problema: Germain Bazin e Robert Smith, em monografias fundamentais e há muito fora de catálogo. Interessante que já vi muita gente estudando peças isoladas, ou a atuação do artista como arquiteto, mas sobre Congonhas, existe muito pouca coisa. Além de Bazin e Smith, existe um livro da professora Myriam, um artigo de Nancy Davenport na revista Barroco, e as propostas de uma historiadora de Minas, que prova com uma argumentação muito fraca que os profetas seriam os inconfidentes. Além da médium que recebe o espírito de Tomás Antônio Gonzaga, cuja turma domina as comunidades relacionadas no orkut.
Enfim, em preparação um artigo sobre os profetas. Não, infelizmente eu não recebo o espírito de ninguém. E sim, concordo com Bazin: os profetas vieram de um conjunto florentino de gravuras do século XV. Como o Aleijadinho viu isso? E eu sei?

Monday, September 12, 2005

Leopardo do Visconti

Assisti o DVD do Leopardo, do Visconti. O DVD vale a pena, o segundo disquinho traz entrevistas com algumas das quinze ( é, quinze) pessoas que estavam na equipe técnica do diretor. A Cardinale continua linda, e os velhinhos contam histórias engraçadíssimas, tipo do Visconti não querer o Burt Lancaster para o papel principal e se recusar a falar com o ator. Que, fazendo laboratório para o papel, descobriu o melhor aristocrata para se inspirar: o próprio Visconti. Os dois ficaram amicíssimos, e descobriram que faziam aniversário no mesmo dia. Na festinha, no set, deram-se presentes iguais. Não é ótimo?
Mas o filme é de chorar. O detalhismo é impressionante:a seda dos estofados é seda mesmo, as flores são todas de verdade, e tem, na sequência do baile, uma cena fantástica: meia tela, o Lancaster desfeito, suando, no fraque, e na outra metade uma porta aberta, e prateleiras de urinóis de louça branca, cheios.
A conferir as diferenças entre o romance e o livro. Os velhinhos, incluindo o sobrinho do Lampedusa, que inspirou o Tancredi, insistem em análises detalhistas sobre as diferenças. Eu, na minha ingenuidade, achei o filme tão parecido com o livro... vou ter que ler e ver de novo!

A-HA

Se você, nos oitenta, era como eu, e tinha preconceito contra os escandinavos do A-HA, você, como eu, era uma besta quadrada.
Eu não gostava do A-HA porque eles eram bonitos demais, arrumadinhos demais, e as minhas colegas da quinta série morriam por eles. Tinha preconceito mesmo, achava que eram uns New Kids on The Block mais velhos.
O que eu não queria admitir era que as músicas deles eram parte da minha vida diária; como sempre escutei muito rádio, "Hunting High and Low", "The Sun Always Shines on TV", "Take on Me" eram eu naquela época. E eu teimosamente não queria ver.
Preferia o rebelde dos Titãs, que, hoje eu vejo, era de butique e chato. Tudo bem, "Cabeça Dinossauro" é um clássico, mas o resto era porcaria, prova é o que eles fizeram depois.
Que arrependimento! O A-HA era legal, as músicas eram pop da melhor qualidade, os caras vieram várias vezes ao Brasil, e eu, agora aos meus trinta anos, vejo que "Take On Me" tem um frescor, uma alegria que me faz falta. Ouça A-HA. É honesto, vale o que eles pedem, pop mesmo, sem vergonha de ser feliz, bem-feito, bonito. Coisa de gente grande.

Tuesday, September 06, 2005

Dragostea Din Tei

Agora, vamos falar do lixo!

Eu havia escapado ilesa da Festa no Apê do Latino, até que um conhecido meu desavisado me explicou que a pérola do nosso ídolo nacional era a versão tranqueira de uma música romena, sucesso no mundo inteiro na versão putz-putz.
Entro no site do Terra Rádio, uma das minhas manias. Tenho uma rádio com umas duzentas músicas, que vou escavando na chatice que é uma rádio cuja maior parte das músicas só toca 30 segundos (???), e me deparo com o Latino. Escutei e reconheci a melodia da, essa sim, cráçico da curtura popularrrr de massa corrida Dragostea Din Tei. Descubro que essa porcaria já havia grudado no meu cérebro, entrado no meu inconsciente, no meu, no seu e no de milhões de vítimas pelo mundo!
Esse meu colega, antropólogo, disse que depois de dias com os neurônios sendo destruídos por essa língua desconhecida mas familiar, porque latina, que é o romeno, achou na Internet um estudioso afirmando que a melodia e a letra de Dragostea Din Tei merece uma pesquisa, porque demonstra que algumas melodias, de origem popular, grudam mesmo. É o mesmo fenômeno de Fata Morgana, do Dissidenten ( sim, você se lembra disto. Ouça no Terra Rádio, porque essa, assim como a Dragostea, tá inteira!).
Meu filho, não adianta. Você foge do Latino e cai no O-zone, nome dos caras. O que me consola é que a letra romena ( sim, eu vi a letra e a tradução) é uma cantada inocente: o cara no telefone convencendo a mina a sair com ela, porque ele pode ser o seu Picasso. Melhor do que o ex-marido da Kelly Key!

A Divina Comédia- para escutar

Gosta de coisas diferentes? Emoções fortes? Preparado pra falar com gente morta, ver neguinho nadando em lava fervente e de quebra encontrar os velhos Dante e Virgílio?

Seus problemas acabaram! O portal Italica, de cultura italiana ( bem-feito, completo, uma beleza) oferece o serviço La Divina Commedia Parlata, com os cantos do Inferno recitados magistralmente pelo inesquecível Vittorio Gassman. Ele mesmo, nosso líder máximo, o Brancaleone! O texto vem junto, no toscano, mas você pode acompanhar com sua edição brasileira. Imperdível, e o que é melhor, de grátis!
http://www.italica.rai.it/principali/dante/index.htm

7 de setembro: pra quê tanto, meu Deus?

Eu ando deprimida com o desfecho de tanta luta pelo PT. É muita picaretagem. Não se pode mais confiar no velho sonho vermelho. 7 de setembro, pra quê?

Exposição Histórias da Pré-História-CCBB

Depois do post anterior, percebi que cometi uma injustiça. Na minha estadia paulistana rumo à pátria do Tio Sam, reencontrei um velho, e querido, amigo na Exposição Histórias das Pré-História, no Centro Cultural Banco do Brasil.
Muitas, mas muitas crianças. Com vários monitores. Tudo organizado e bacana. Uma animação linda com as pinturas rupestres do Piauí, um fóssil de um bicho-preguiça maior que meu carro e um universo de coisas espantosas, como os muiraquitãs, as urnas amazônicas, as litogravuras abstratas... sambaquis, e animais Henry Moore. Se estiver por São Paulo, vá ver. E tome um café no Girondino e veja as velhas São Bento e São Francisco por mim.

Vida cultural nula

Nesses últimos dias, minha vida cultural anda nula, pra não dizer negativa. Estou indo em médico, cabelereira, vou ter que voltar no Consulado, mas a boa notícia é que, sim, passei no IELTS ( tirei mais do que a nota mínima exigida pela FAPESP)...
Numa ansiedade pela viagem, e mandei uns e-mails mas os caras lá estão no Labor Day. Fazer o quê, né? E a gente aqui nesse 7 de setembro duro de engolir.
O que me salvou esses dias foi a leitura desatenta, pedestre, das Meditações do Marco Aurélio. Esse mesmo, o imperador do Gladiador, o velhinho amigo do Russel Crowe, lembra? Pois é, ele não está só em filme: tem livro também. Li alguns trechos na tradução do Mário da Gama Kury, Ediouro.
O padrão ético do estoicismo é altivo demais para mim, para você e para todos nós desta Era Cristã. Porque a gente erra, erra, mas Deus perdoa, e tem a vida do além. Agora você acreditar que mesmo Deus existindo, mesmo tendo vida post-mortem, o Universo é soberbamente indiferente a você, e que só existe o presente... tente fazer isso em casa. Dá nó na cabeça. Você precisa seguir uma conduta séria, reta, digna. Resumindo: a humanidade já teve dias, e pessoas, melhores.