Tuesday, February 26, 2008

A mulher de Lot


Diz o Gênesis que Deus mandou destruir Sodoma e Gomorra, por motivos bastante conhecidos. A família de Lot, sobrinho do patriarca Abraão, foi avisada e os anjos vingadores avisaram: nada de olhar pra trás. Lot, a mulher e as duas filhas saíram correndo; mas a saudade, a curiosidade, a fraqueza fizeram a mulher olhar para trás, e ela virou uma estátua de sal ( Gênesis, Capítulo 19, versículo 26).



Hoje pensei, uma coluna de sal, de tantas lágrimas que verteu. Olhar para frente, olhar para frente.
Acima, La femme de Loth, escultura em mámore de Ciane, escultura francesa contemporânea. Academia Aix-Marseille.

Sunday, February 24, 2008

Mulher ansiosa e poeta chinês

Eu, hoje, sofro da tristeza que vem da impaciência bem feminina. É bem feminino esse dilacerar-se, querer resolver pessoas, coisas, situações, como se bate um bife, se descasca alho, se põe a roupa no varal: de estalo, de pronto, de supetão. Nessas horas, é preciso pensar como homem: o tempo distendido, dos quinze aos noventa os homens estão sempre iguais, a produção hormonal sempre igual, enquanto a gente dos treze aos cinqüenta tem esses picos de agonia e vales de profunda depressão, no mesmo mês.
Ok, ok, fisiologia não explica tudo, mas como diria Simone, anatomia é destino sim. Pelo menos numa sociedade que acha que a fisiologia explica tudo. Hoje estou impaciente, acordei zangada e quero resolver.
Essas horas são particularmente perigosas. As palavras, como se diz no Evangelho, escapam da barreira dos dentes com muita facilidade. Pra quê enviar email de desaforo? Pra quê revirar o passado e encontrar um fio, como Ariadne, e puxar não só Teseu mas o Minotauro e o Labirinto inteiro?

Lembro de Li Po e Tu Fu, na tradução de Cecília, na cabeceira, e os velhos chineses me salvam:
"Uma canção, ao longe... É um mendigo. Se ele canta, esse velhinho que jamais teve nada, porque gemes tu, tu que possuis tão belas recordações?"
Tu Fu, 712- 762 d.C, tradução de Cecília Meireles.

Thursday, February 21, 2008

Técnica em Astronomia

Há exatos dez anos atrás, eu perdi meu pai. Um pouco antes do falecimento dele, saiu um edital pra um mega concurso da Prefeitura aqui de Campinas, vagas em muitas coisas. Eu tava no último ano de Sociais, e começava já a me preparar para o mestrado. Lembro que comprei e estava lendo trechos da Formação da Literatura Brasileira, do Antônio Cândido, e ia conversar com a professora Élide. Pensei em me encaminhar pra área de Pensamento Social, estudar Caio Prado, e comentei isso com meu pai, ele já no hospital.
Ele faleceu, dias depois. Fiquei em casa, em estado de choque, durante muitos dias, tomando sedativos. Um dia acordei e parecia que uma manada de elefantes havia passado em cima de mim; resolvi não tomar mais os remédios e fazer alguma coisa da vida, reagir. Não podia prestar o concurso para a vaga de socióloga, não tinha ainda o diploma. Mas uma coisa no edital da Prefeitura me chamou a atenção.
Abriram, não se sabe porquê, uma vaga em Técnico em Astronomia. Era pra segundo grau, e pra trabalhar no Observatório de Capricórnio. O Observatório tem o maior telescópio ótico do Hemisfério Sul, uma coisa ultrapassada tecnicamente vamos dizer, mas por isso mesmo encantadora. O astrônomo francês Jean Nicolini montou o Observatório na serra das Cabras, em Joaquim Egídio, que é um dos lugares mais bonitos que já fui e um dos meus favoritos.
Não tive dúvida. Me inscrevi pro Técnico em Astronomia, e comecei a estudar. O programa era simples: Astronomia de posição ( ou seja, trigonometria), um pouco de Ótica, um pouco de Geometria euclidiana, coisas básicas de Astrofísica. Tipo, era pra alguém limpar as lentes do telescópio, falar pras crianças que astrólogo não é a mesma coisa que astrônomo e gastar as noites de inverno atrás de Marte.
Comprei um livro russo de Astronomia num sebo ( era uma versão em espanhol de um manual russo) e comecei a estudar, pus o Poliótico ( vocês lembram desse brinquedo? Era um conjunto pra montar binóculos, microscópios, lunetas, excelente) na sala e comecei a montar, com as lentes, pequenos objetos de observação. Desencavei a velha coleção das SuperInteressantes, uma coleção de Matemática que era o orgulho do meu pai e do meu irmão, o compasso e a régua, e gastava meu tempo calculando as posições da Beta do Centauro, entre zênites e esplendores.
Quando a gente olha pro céu estrelado, vê o passado: muitas daquelas luzes nem existem mais, a luz viajando tão rápida no espaço infinito. Às vezes, saía com meu ex-namorado, um químico, cientista brilhante, pra ver estrelas, e me consolava saber que olhava pro passado, antes mesmo do meu pai nascer, e que aquelas luzes atravessaram o vazio enquanto ele viveu. Eu saía da dor, do sofrimento, pensando na trajetória irregular de Plutão e enquanto limpava minhas lentes. Tantas vezes pensei que queria me transportar pra outras galáxias, outros sistemas planetários, e pensava no quanto a gente é pequeno, infinitamente pequenino, diante dos mistérios do Cosmos.
Fiz a prova sob a reprovação da minha mãe e meu irmão, no velho colégio Carlos Gomes. Lembro que o filho do astrônomo Ronaldo Rogério de Freitas Mourão prestou a prova ( era fácil saber que ele era filho do cara, era a cara dele).
Ontem, eu tava remexendo meus documentos atrás das coisas pra outro concurso, esse agora pra História da Arte. Nem sei se vou poder me inscrever, o meu título de doutorado não foi homologado ainda ( burrocracias da cidadela zeferinítica). Mas eu tava lá, atrás dos meus diplomas de Primeiro e Segundo Graus ( sim, eu sou desse tempo). Achei um caderninho de anotações do meu pai, instruções para mexer em alguma cenozóica versão do Word Windows, e no caderninho tinha umas contas na letra horrível do meu irmão e um mapa maluco da Unicamp, esse da minha lavra. Nem sabia que esse caderno existia. Não lembrava de nada disso.
E junto com meu diploma de Primeiro Grau, estava um jornal amarelado. Era a chamada do concurso da Prefeitura. Sim, caros leitores: a panda foi aprovada em Técnico em Astronomia Júnior, até com uma pontuação decente para quem na época cursava Sociologia e Antropologia. Evidente que jovens físicos passaram na minha frente, mas eu era candidata habilitada à vaga.
Pus isso no meu currículo LATTES. Fiquei feliz. Não é sempre que um Poliótico ajuda alguém a passar em um concurso público.

Wednesday, February 20, 2008

Firmar o pé

Nos últimos dias, coisas boas aconteceram. Fui pra SP, e encontrei por acaso a Patrix
, dona de um bonito blog que eu lia sempre. Coisas aconteceram na blogosfera, ela fechou o blog. A gente comentou, no metrô direção Jabaquara, como essa coisa de blog faz bem e como às vezes tem gente que confunde tudo, acha que o blogueiro é tiozinho do Big Brother. Falando em blog, achei o do Luiz Felipe de Alencastro, olha lá, sr. Na Prática:http://sequenciasparisienses.blogspot.com/

Vi Eduardo, Verônica e Zé, foi engraçadíssimo porque vi os três figuras no mesmo buraco do espaço-tempo, as pontas de SP vão se unindo e eu vou ficando com cada vez mais vontade de me pirulitar, de vez, pro velho Piratininga.
Resolvi prestar um concurso aí. Não tenho chance nenhuma, tem sete colegas mais velhos do eu que vão se inscrever, isso do que eu sei. Mas eu tenho que tentar, e fico escrevendo meu memorial sem o menor entusiasmo. Tô de mau humor com essa história, preciso melhorar.
Fui na casa de uma amiga consultar uns livros pra um dos pontos do concurso, sobre história da gravura no Brasil, e descobri o acervo que existe no Centro Cultural São Paulo, que tá fechado por causa do imbecil que jogou um balão, que caiu em cima do negócio ano passado. Esse balão pode ter destruído Rugendas, Matisse, o fantástico acervo que, agora eu sei, existe lá por obra de graça do Sérgio Milliet e da Maria Eugênia Franco, os antigos responsáveis pela Biblioteca Municipal Mário de Andrade. Fiquei emocionada ao ler o depoimento do Marcelo Grassmann, sobre a importância da Biblioteca no cenário artístico de SP, nas décadas de 40 e 50. Meu pai não entendia muita coisa sobre arte, mas quando eu manifestei o desejo de estudar "essas perfumarias", ele me levou à Mário de Andrade. Bingo pro seu Pedro.
Firmar o pé, firmar o pé. E o boco do Lelê me apresentou Nino Ferrer, conhecem? Taí Mirza:

Friday, February 15, 2008

L'Aurora

Eu não vou mais encher o saco de vocês falando que tô triste. Panda triste já tá uma coisa óbvia. Me falta grana, me falta saco, o carro enguiçou por conta de combustível adulterado ( meu, é o segundo posto daqui de Campinas que fode com o Gerião por colocar álcool demais na gasolina), eu salguei demais o arroz com ervilha e presunto, não recebi meu salário, confusões com jornalistas, enfim, de tudo, foi variado o nervoso.
Teve o aniversário de falecimento do meu pai, dez anos sem seu Pedrão. Saudade, muita. Mas tudo bem, eu revi gente querida, trabalhei em coisas legais, estudei, fiz coisas novas e vocês vão me desculpar, hoje vou falar de Eros Ramazzotti. Isso, Eros Ramazzotti. É brega mas como eu já falei aqui no Meio, a Itália é inteira brega, eu sou cafona e o Sarkozy deu o mesmo anel horroroso Dior de coração cor-de-rosa pra ex e pra atual ( vocês hão de convir que isso, mais a nova legislação de imigração que o cara quer fazer a francesada engolir, é mais terrível que pandinhas ouvindo Eros Ramazzotti).
Enfim, como todo bom estudante de italiano, você ouve Lucio Dalla e eu queria muito fazer uma Teoria da Tradução na Música Comercial Brasileira, porque você descobre que Tutta la Vita do cara virou Tô p. da vida do Dominó ( e quando vai estudar français, confere que Joe Le Taxi da Vanessa Paradis vira Vou de Táxi da Angélica). O Eros é de lascar, reconheço, tem umas coisas dele que dá vontade de chorar de... nervoso, de novo. Mas tem uma cançoneta dele que eu gosto demais, L'Aurora. Eu gosto demais da idéia que ter o sonho realizado é como a aurora. Hoje acordei cedo e vi a aurora na rua, é rápido ver um novo dia nascer. E quando o sonho calha de acontecer, é tão rápida a felicidade, também, e eu fiquei cantando a plenos pulmões, no meu italiano Adoniran, L'Aurora.
"(...)Forse un giorno tutto cambierà/ più sereno intorno si vedrà/ voglio dire che/ forse andranno a posto tante cose/ ecco perché/ ecco perché/ continuerò/ a sognare ancora un po'uno dei sogni miei/Quello che c'è in fondo al cuore non muore mai/ se ci hai creduto una volta lo rifarai/se ci hai creduto davvero/ come ci ho creduto io/ Sarà sarà l'aurora/ per me sarà così/sarà sarà di più ancora/tutto il chiaro che farà/ Sarà sarà l'aurora/ per me sarà così/sarà sarà di più ancora/tutto il chiaro che farà"...

Monday, February 11, 2008

Sonhos


Como sempre, ando perdida em pensamentos. Mas tive que enfrentar umas coisas não muito agradáveis, pro meu próprio bem, nos últimos tempos.



Durante muito tempo, tenho que confessar que preferi ser a dama de companhia, ou a amiga engraçada, a coadjuvante nas histórias de amor, de sucesso profissional, de viagens, de algumas amigas queridas. Eu sempre dava um jeito de estar perto, de ajudar, de torcer, de desejar tudo de melhor da vida para elas. Cheguei a agir, de forma concreta, no sentido de estabelecer uma ponte entre o que elas diziam querer e seus objetivos; às vezes essas pontes eram pontes Rio-Niterói, grandes construções da ditadura militar, muito concreto e milhares de operários nordestinos socando a lenha, noite e dia.


O que ocorre é que, nos últimos três anos, essas amigas se afastaram de mim, por motivos vários. Em alguns casos, evidente que me senti rejeitada, sozinha, e injustiçada. Mas, faz algum tempo, percebi que a responsável de toda a situação era eu mesma. No final, quantas vezes eu preferi não pensar nas minhas coisas, não correr atrás do que eu queria, não encarar o que me fazia sofrer.


Um amigo queridíssimo me disse dia desses, foque nos seus sonhos e nas amizades lindas que ficaram. Sim, ele tem total razão. É isso em que consiste o pão de cada dia, a matéria da vida.


Em cima, da série fotos panda ao redor do mundo, a entrada de um sobrado em Golden Coast, na Chicago que tanto amei.


Hoje, me sinto em alguns momentos solitária, sozinha, vazia. No final, fugi tanto dos meus sonhos, e eles é que me fizeram companhia, mesmo relegados ao terceiro, quarto plano; eles permaneceram comigo todo esse tempo. Sou grata a eles, por terem me acompanhado mesmo assim, por não terem morrido, por existirem com tanta força e beleza quando me apareceram pela primeira vez. Vi num relance, numa livraria, um livro de auto-ajuda entitulado "Dá trabalho ser feliz". Sim, dá. Muito.

Saturday, February 09, 2008

Da tradição clássica


Andei lendo, nos dias chuvosos e sem grana do Carnaval, coisas muito interessantes.


Li de uma sentada Nos Submundos da Antigüidade, livro já clássico de Catherine Salles. É interessantíssimo: a autora reconstrói a prostituição, a escravidão, em Atenas, Corinto, Alexandria e Roma, para demonstrar como o ideal clássico da igualdade entre o belo e o bom estava ancorado numa sociedade aristocrática e de mecanismos ambíguos. Dá muito o que pensar as análises da economia sexual greco-romana: ao mesmo tempo em que o poderio de Alexandre e depois dos romanos crescia, as desigualdades internas aumentavam, e com isso, os conflitos entre os setores sociais e a tensão sexual.


Me animei e depois peguei Os reis taumaturgos, do Bloch, que já li uma parte; mas me aborreci ao lembrar que preciso terminar antes A sociedade feudal, e nisso o Celo me emprestou O caminho de Swann, larguei tudo e entrei em Combray, e fiquei felicíssima, completa, ao ler as descrições da igreja de Combray, criações do Proust em cima do Émile Mâle, grande historiador da arte que, em volumes corajosos de 1948, L'art religieux du XIIe au XVIII siècle en France, desvendou as origens das iconografias cristãs.


Uma das coisas mais incríveis da minha vida foi visitar o Camposanto de Pisa. No início do século XIII, a peste assolou a cidade e os munícipes construíram um lindo cemitério, um prédio retangular com um pátio central, circundado por conjuntos de ogivas e colunas. Pois bem. Pisa é, na origem, um aterro etrusco, depois uma cidade romana, e assim vai. Os pisanos do Trecento não tiveram dúvidas: ornaram as paredes de seu cemitério com os sarcófagos antigos, gregos, romanos, etruscos.


Os americanos, além de enviar duas bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki, bombardearam a asa de mariposa que é Pisa; o Camposanto foi totalmente destruído, sendo depois reconstruído, pedaço por pedaço, pelos carcamanos teimosos. Os sarcófagos antigos se salvaram, bem como os afrescos, as ogivas.


Na manhã ensolarada, digna da Toscana, em que adentrei o prédio, vi, sem fôlego, o que ocorre quando a luz do sol bate nas ogivas e depois, nos sarcófagos antigos. Um rapaz indiano me perguntou se aquilo era um cemitério mesmo; respondi que sim, e ele falou, como o Taj Mahal.


A tradição clássica, pra mim, são livros, são as sombras das ogivas nos sarcófagos de Pisa, a manhã que passei lá, a pergunta do moço indiano.

Monday, February 04, 2008

Arlequim e Colombina

E estamos em pleno reinado de Momo.


Como sói acontecer no festival da carne, as atividades da panda no feriadão se resumem em pular loucamente... da sala pro quarto, do quarto pra cozinha e assim sucessivamente.

Tentei com todas as minhas (poucas) forças escrever um trabalho para inscrever num concurso. Mas, segundo o regulamento, eu precisaria entregar 100 páginas no dia 7. Não tive forças. Odeio não fazer o que me proponho, em termos de trabalho, mas nos últimos dias tive uns aborrecimentos foda, ando triste, cansada e cheguei a entrar num certo desespero. Às vezes, confesso aos caros leitores ser difícil por a fitinha de Rambo na cabeça, tomar duas doses de uísque e entrar na selva oscura da História da Arte.
O que me salvou, como sempre, foram os amigos e o Celo. Revi gente muito querida, e ganhei um super estojo Panda do Clis ( hihihihi, Clis, thanks!). Assisti também, de presente de Dani Mônica, "O Gangstêr", e adorei rever o Russel Crowe ( né, Dani).... Gustavo e Marilinha foram os anfitriãos perfeitos, e ainda tive tempo de jantar com o Milton, que há tanto tempo não via. E a commedia dell'arte da vida continua, entre confetes, serpentinas e Pierrôs apaixonados.

Thursday, January 31, 2008

Persianas

Essa semana fez aniversário minha afilhada Mi, que recentemente perdeu seu pai. Há muito tempo sou uma madrinha destrambelhada, que vê a Mi uma vez por ano. Acho que há muito tempo eu sou destrambelhada em tudo, enfim.
Uma vez, a linda Mi ouviu um desabafo meu. A minha vida estava complicada demais, o meu coração estava aturdido demais. Ela me ouviu ( foi só um parágrafo, tipo, Mi, essa vida é complicada demais pra quem ama, com um suspiro)- e calma, me respondeu: "a gente tem que tentar ficar perto de quem a gente ama, eu acho".
Talvez tenha sido uma das coisas mais verdadeiras, mais calmas, profundas e sinceras que alguém me disse. Como olhar o fundo de um rio, as águas, de turvas, ficarem cristalinas. Como ter que apertar os olhos, quando o sol aparece detrás da nuvem.
O problema é que, em termos de sentimento, muitas vezes a vida da gente é um quarto, às duas da tarde, com as sombras das persianas nas paredes.
Eu queria ser simples, não ter essa engenharia complexa dentro de mim, essas dores, essas memórias e esses arrependimentos. Queria estar onde estou, ver as coisas como são, e não como eu, um dia, quis que elas fossem. E que meus dias fossem tranqüilos, como a voz da Mi me dizendo uma das coisas mais difíceis da vida.

Tuesday, January 29, 2008

Bandeira Branca

Fui ministrar um curso em Araçatuba, na Oficina Cultural de lá. Foi super cansativo, idas e vindas nas rodovias Marechal Rondon e Washington Luís, nove horas no busão mais dois finais de semana, das 9 às 18, de aulas direto. O tema era História da Arte na Escola, então foi muito bacana conversar com professores, com o pessoal de lá, das redes pública e particular de ensino.
Enfrentei tudo como pude. O problema é que desde muito pequena, quando encarava o estradão para acompanhar meu pai nas subestações e usinas da vida, viajar pelo interior significa pra mim passar um pouco mal, no sentido físico, mas tudo bem.
Viajar é bom. Eu fiquei muito presa nessa casa, no Caronte, escrevendo a maledetta, no ano que passou. O ruim é que, nas idas e vindas do e para o Noroeste paulista, fiquei com saudades de queridos que estão longe. Como diria Dalva de Oliveira, saudade, mal de amor. Mas vamos ver se, pondo bandeiras brancas nas minhas janelas, os queridos reaparecem!

Sunday, January 13, 2008

Mora na filosofia

Faz tempo que eu queria escrever sobre a tal música popular brasileira. Ouço muito, há um ano, gravações da chamada Velha Guarda, por obra e graça de seu Raimundo Floriano, grande colecionador e que generosamente, através de algumas comunidades no Orkut, compartilha seu fantástico acervo de marchinhas, dobrados, frevos, sambas-canção, sambas de raiz e desse tudo que é a música brasileira. Me apaixonei por Francisco Alves, Marlene, Mário Reis, Orlando Silva e todos os heróis dos nossos avós, os talentosos e brilhantes cantores do rádio.
Muitas das músicas tem um sabor todo especial porque trazem vestígios da nossa sociabilidade mais profunda, mais íntima e mais dolorosa. Nos dias que correm, nenhum grande compositor como Lamartine Babo cometeria O Teu Cabelo Não Nega, Mulata: o sujeito que diria pra uma moça a cor não pega, então mulata, eu quero o seu amor, levaria uns bons e merecidos tabefes. Mas é inegável que por mais pós-modernismo, pós-estruturalismo, pós-tropicalismo e, mais grave para a MPB, pós-chicobuarquismo ( vai ser difícil emplacar com o Chico por uns bons vinte anos, se não mais) a nossa intimidade ainda tem muito de racista, sexista, misógina, agressiva, em uma expressão, ainda muito de império colonial ultramarino português.
Hoje eu esperava a anjinho Edna limpar meu escritório quando peguei distraída O Trato dos Viventes, do Luiz Felipe de Alencastro, da estante. Eu li esse livro e tive a oportunidade de discuti-lo, de perto, com o autor no Cebrap, que me fez uma bonita dedicatória. Numa parte, o Alencastro faz uma comparação entre Angola e Brasil: nos dois lugares, houve miscigenação, ou seja, o estupro sistemático das mulheres das populações locais. Mas no Brasil, a miscigenação deu origem ao fenômeno da mestiçagem, ou seja, os mulatos, mamelucos e cafuzos formaram um estrato social, enquanto que em Angola os mestiços se "africanizavam", não permaneciam perto de seus pais portugueses como escravos ou dependentes. E o Luiz Felipe cita belos versos de um poeta anônimo, degredado em Angola, à página 351:
Aqui onde o meu desejo
não chega ao seu fim
porque me acho sem mim
quando me busco
Aqui onde o filho é fusco
e quase negro o neto
e todo negro o bisneto
e tudo escuro.
O que, para o autor, é o oposto de versos de Gregório de Matos, uma ode às mulatinhas da Bahia que, para o eu-lírico embevecido, na hora dos fatos pediriam a violência nos gestos( no caso, gritando "arromba, arromba"). Quando li esse trecho do livro, pensei em vários sambas e canções antigas, de dor nas relações amorosas, assimetrias, perdições, zombarias, como o de raiz Mora na Filosofia, cantado por Marlene à moda das cantoras do morro ( Caetano, no seu Verdade Tropical, atesta o estranhamento, seguido de xingamentos racistas, dos estudantes paulistanos ao receber, num festival, Clementina de Jesus).
Os versos de Mora na Filosofia, composta por Monsueto e Pessoa, são um primor desse lirismo amargo da língua portuguesa, como os do poeta degredado nas terras d'Angola ( não esquecer que mesmo Chico, que subverteu séculos desse lirismo ao dar voz às mulheres, cantou a Morena de Angola como Lamartine cantaria):
Eu vou lhe dar a decisão / botei na balança e você não pesou/ botei na peneira e você não passou/ mora na filosofia /pra que rimar amor e dor /se seu corpo ficasse marcado por lábios ou mão carinhosas eu saberia, ora vai mulher... à quantos você pertencia/ não vou me preocupar em ver/ teu caso não é de ver pra crer/ tá na cara.
Pois é, tá na cara que a mulata, a tal, em matéria de fidelidade, não mora na filosofia. Como diz Alencastro, há tanta coisa rolando nesses versos todos.

Thursday, January 10, 2008

Pescaria


Hoje, vagando pelo site da mega loja Mini Kimono, na Liberdade( http://www.minikimono.com.br/), pra ver as novidades( quero comprar um obi, faixa de quimono, pra usar com camiseta branca e jeans), descobri algo lindo.
Nas páginas do site da loja, estão bonequinhos de sete divindades xinto, os chamados sete deuses. Eu não entendo nada de xintoísmo, apenas o óbvio e ululante ( o culto aos ancestrais, e os rituais de passagem, como o festival dos desejos nas árvores). Mas li no site, e depois fiz uma pesquisinha, sobre o deus que considerei, de cara, o mais simpático pra mim: Ebisu.
Ebisu é o deus xinto da pescaria e da felicidade. Fez todo o sentido pra mim. Viver é estar na margem de um rio, de caniço e samburá, mascando matinho e pondo minhoca pra nadar. De vez em quando, a gente pega dourado. E de vez em quando, nada. Mas ouve o vento, as folhas no vento, põe os pés na água fresca, pensa nas águas que já passaram, nas que vêm. Nos amigos, em outras pescarias; faz planos de trazer, da próxima vez, uma garrafa maior de água, e uma garrafa de batida de limão. Ops, fisgada na linha. E enquanto os pensamentos correm, quando a gente menos espera... e tem que pegar firme a tal felicidade.
Ebisu é sempre mostrado carregando um enorme peixe, pescado por ele, e quando os pescadores têm pesca boa, agradecem o generoso pescador lá de cima. Tem dias bons, tem dias ruins pra pesca. Épocas do ano que não dá nada mesmo. Mas a batidinha de limão...

Tuesday, January 08, 2008

Arroz com feijão

Depois de meia faxina ( a idade pesou e tive que parcelar a limpeza da casa em hoje e amanhã) recebi uma mensagem no celular da Jujuba, dando a feliz notícia que acharam o Picasso e o Portinari do MASP.
Enquanto não vi maiores informações, nos sites da CBN, Globo, Estadão e Terra, não sosseguei. Parece que estão intactos o belo lavrador e a cantora.
Além da idade, hoje pesou o fato de que preciso preparar um curso para a Oficina Cultural de Araçatuba; o curso começa semana que vem, e é de capacitação docente. Eu pus o nome de História da Arte na Escola, e selecionei uma bibliografia, que agora leio e/ou releio. No meio, eu fiz questão de por um velho livrinho que sempre me impressiona, O que é Arte, do prof. Jorge Coli.
A coleção Primeiros Passos, ou como dizia a mestre Amnéris, Primeiros Tropeços, foi decisiva na minha formação universitária. Lembro bem do Ideologia, da Marilena Chauí, bem escrito e que ajudava todo mundo na temível Sociologia de Marx. Em papel jornal, formato de bolso e escritos por especialistas, essa coleção é do tempo em que algumas pessoas acreditavam, como eu, ser necessário ampliar o acesso à cultura no nosso país.
Acompanhei, de coração na mão, a discussão sobre a administração do MASP, na imprensa e no blog do jornalista Daniel Piza, que me surpreendeu. Não gosto nada do Piza, mas ele teve a coragem de descer a lenha no Júlio Neves. Muitos pensam, no Brasil, que arte é luxo. Que o mais importante é dar comida. Como diziam os Titãs, a gente não quer só comida...
O velho livrinho do Jorge, escrito em 1981, tem na capa um quadro com um prato de arroz e feijão, o que é genial. Infelizmente, a Brasiliense não pôs o nome da pessoa que idealizou isso ( pelo menos na minha edição, a 12a., de dez anos depois, não aparece esse dado). Na discussão sobre o MASP, sei que muitos podem pensar que é futilidade se preocupar com Picassos, Portinaris, Poussins e etcéteras, num país como nosso. Mas isso é um erro crasso. Infelizmente, a pobreza do nosso país é agravada pela falta de amor à cultura, à erudição, à arte.
O livro do Jorge é atual, é exato, é contundente. No final do livrinho, o Jorge escreveu um pequeno texto intitulado "O acesso à arte", em que desdobra o problema da freqüentação das obras no Brasil. Dirigindo-se ao seu leitor, avis rara num país de analfabetos e de pessoas sem nenhum acesso à nada, Jorge escreveu: "Num sistema de ensino voltado para a formação a mais pragmática e tecnológica, sob o desinteresse e a incompetência dos 'responsáveis', e bombardeado por emissoras de rádio e TV regidas pelo princípio absoluto do lucro, você se encontra numa situação de grande miséria intelectual. As parcas manifestações artísticas de algum interesse neste país são pouco freqüentes, em geral muito caras e sempre se localizam nas grandes capitais. (...). E como, evidentemente, a solução não está nas lamentáveis operações demagógicas que aparecem de quando em quando, quem se interessa pelas artes no Brasil continua sendo um fruto bizarro e teimoso".
E o professor conclui, no finzinho: "Assim, as pessoas que, em nossa sociedade, têm consciência do papel fundamental desempenhado pela arte no seio da cultura, são forçosamente obrigadas a colocar o problema do acesso à obra. É necessário exigir os meios da freqüentação."
Eu quero lutar por uma administração melhor no MASP, por exemplo. Eu quero lutar porque eu era uma menina nascida na pobreza, e que vivia no Cambuci, e que aos seis, cinco anos foi levada ao MASP e teve um choque profundo. Ou que foi impedida de entrar no Museu para assistir aulas, porque sua bolsa foi passada para a filha bem produzida de um empresário. Ou que, depois de formada professora, dava aulas a uma servente de escola, que com muito sacrifício pagava a faculdade particular fuleira na qual eu dava aulas. E num sábado, essa senhora, na frente do Céu Estrelado do Van Gogh, me perguntou se aquilo era uma reprodução. Diante da minha negativa, ela chorou diante do velho holandês.
Quando li o livrinho do Jorge, tive a certeza de seguir a História da Arte. Diferentemente de alguns colegas, que assim o quiseram por madamice, por serem de origem burguesa e por que o mundo das artes traz status, eu quis por acreditar que devo permitir o maior número possível de pessoas tomar contato com que a humanidade já fez de belo, de grandioso, do que dá sentido aos dias.

Monday, January 07, 2008

Previsão do tempo

Eu tô pensando aqui que, às vezes, se relacionar é enfrentar condições metereológicas. Tem dia que sai lindo, o céu azul do bem querer, o sol do afeto, a brisa leve e gostosa da amizade fazem com que a gente ponha um vestido colorido e saia pra rua nem que for pra ver o vento nas folhas do viver.

Mas tem dia que ou os outros ou a gente estamos numa maré adversa, numa chuva de granizo da discórdia. Nem sempre chuva é problema; a água fertiliza a terra e não tem nada melhor que chuva fininha de carinho nas costas e o cinza das paixões físicas levadas ao seu término. Mas tem chuva de verão, aquela pancada de alegria que só a presença dos queridos traz, mesmo que rápido, e temporais, furacões, ciclones de desamor, de angústia, depressão e outros males d'alma.
Seria bom a gente ter uma previsão do tempo dos afetos da gente; você pegaria um jornal escrito só pra você e lá estaria escrito: Chefe- bom tempo com pancadas de chuva no decorrer do período, Namorado- tempo bom, com sol, temperatura mínima de 18 graus, Amigo, Amiga, Cachorro, Filho, Pai e Mãe, e assim por diante. Porque a maior parte das zicas com pessoas é que nem quando a gente sai de casa sem levar casaco e passa frio na rua, ou não leva guarda-chuva e além de se molhar inteiro ainda estraga o sapato bonito e o penteado- depois de dias de banho de creme e tentativas no espelho- por milagre, e pela Lei de Murphy, bem naquele dia, justamente naquele dia, que o ponto de ônibus que a gente tá não tem cobertura.

Seria necessário uma iniciativa nesse sentido. Depois de uma linda noite estrelada de amor, um amanhecer fabuloso de uma nova relação; ou depois daquela manhã nublada de mau humor, o sol, de novo o sol, sempre o sol do afeto, a nos aquecer e a nos guiar com ética e acerto de decisões. Eu tomei uma decisão: seja qual for o tempo agora, sairei com guarda-chuva, capinha e galochas, porque teve gente nos últimos dias que choveu demais.

Friday, January 04, 2008

SOS MASP

O prof. Luiz Marques, ex-curador do MASP e meu ex-orientador, estava na lista do meu email indignado com o roubo das obras no museu. A princípio muito cético e meio amargurado, o Luiz não achava que era possível fazer algo pra salvar o museu do descalabro da administração atual. Mas depois de uns dias, ele me mandou um email, dizendo que minha mensagem o havia encorajado, e ele havia escrito um documento intitulado SOS MASP: Um Apelo aos Poderes Públicos.
A idéia é a intervenção estatal no museu, o fim dessa administração, ou seja, a salvação do acervo, do prédio, do nome, de tudo. Agora, o movimento tem um site: http://www.sosmasp.com.br. No site, é possível assinar o abaixo-assinado, através de um simples cadastro, e conferir as assinaturas de quem já passou por lá. Em tempo: hoje, no Caderno Cidades do Estadão, saiu uma nota sobre o documento e o movimento, enfatizando a assinatura de João Cândido Portinari, filho do artista autor de uma das obras-primas roubadas.
Nem preciso dizer que o Mezzo apóia incondicionalmente a iniciativa do prof. Luiz e convida a todos a assinatura. Por favor, repassem aos conhecidos e etc e etc ( alô povo do Banco Central, tô precisando de vocês nessa! Alô povo querido que me lê!)

Thursday, January 03, 2008

Os prazeres deste mundo têm esta mesma leveza

Espero que os queridos leitores ( se é que o velho Mezzo ainda os têm) tenham passado bem suas Festas e feito todos os seus votos de um feliz 2008, porque estamos todos precisando de grana, amor, paz e saúde!
Andei bastante nos últimos dias. Pra vocês terem uma idéia da programação, depois de toda a maratona Centro-Oeste ( posso atestar que a crise aérea é algo muito, muito cacete, e que a Chapada dos Guimarães é um dos lugares mais lindos desse mundo), tomei banho de piscina, coordenei cozinha pra ceia de reveillón e dormi bastante, que tava precisada. Achei musiquinhas pra baixar, e retornei minhas atividades panda, como responder email de três meses atrás, lavar um pouco de roupa e dar um giro pelo centro da cidade.
Eu queria escrever sobre um monte de coisa, mas acho que tenho que parcelar, até porque minha alma anda leve, despreocupada e desatenta; não é um estado de espírito propício para a escrita, ainda mais com temas dantescos como os que eu deveria enfrentar. Não reparem, é o verão.
Citação do dia: "Os amantes podem andar nos fios de uma teia de aranha que balança com a brisa lânguida do verão e, mesmo assim, não caem. Os prazeres deste mundo têm esta mesma leveza", William Shakespeare na boca de Frei Lorenzo, Romeu e Julieta, Cena VI, Ato II. Tradução de Beatriz Viégas-Faria.

Wednesday, December 26, 2007

Boas Festas!

A todos os leitores do Meio do Caminho, meus votos panda de Boas Festas, diretamente do Centro Oeste do país, no ponto eqüidistante entre o Atlântico e o Pacífico, onde nasciam os bororo e onde segundo Caetano nascerá o índio, impávido que nem Mohammed Ali.
Meus votos de paz, saúde e prosperidade, que trouxe do primeiro banho de cachoeira que tomei, em meio a águas douradas, amigos, cheiro de mato e picolé de chocolate recheado com coco!

Friday, December 21, 2007

A memória, algo afetivo e inútil

Aprendi a cantar Guantamera em Roma, com uma senhora uruguaia, viúva de um guerrilheiro Tupac Amaro.
E lembro de um homem que amei muito, comendo arroz, feijão, bife e batata frita na minha frente, depois de perguntar se eu estava servida.
Também me vem à cabeça eu flutuando no mar de Búzios, esperando o entardecer.
E hoje cheguei rindo em casa, sozinha, porque lembrei que o Mussum, quando era chamado de preto, lascava na hora: "preto é seu passado e negra vai ficar sua situação"...

Thursday, December 20, 2007

O Portinari roubado


Gente, aqui vai o Lavrador de Café, do Portinari, obra que foi roubada do acervo do MASP nessa madrugada. Esperemos que, amanhã, os Cézanne, Van Gogh, Gauguin, Renoir, Dégas, Poussin, Delacroix, Rafael, Tiziano, Goya, Portinari, Anita Malfatti, Vítor Meirelles, Chagall, entre tantos outros, continuem nas paredes horríveis e mal iluminadas da atual tosca expografia do museu, sem conservação adequada, mas no museu.


O Lavrador de Café, 1939. Óleo sobre tela, 100x81cm.

Absurdo


Caríssimos,



Hoje acordei e dei com a nota no Terra: roubaram o MASP. Levaram o Retrato de Suzanne Bloch, do Picasso, e o Lavrador de Café do Portinari.


Escrevi indignada pra minha lista inteira de emails. É preciso fazer alguma coisa em relação ao MASP. Não dá mais pra gente, digo, a gente que trabalha com Arte, História, ignorar a situação e achar que o problema não é nosso.


Deixo aqui o meu protesto mais veemente contra a administração ineficiente, idiota, incompentente e tudo de ruim que se apoderou do Museu há anos e corrói acervo, prédio, o nome da instituição, e a minha paciência. Qualquer sugestão de manifestação, passeata, qualquer coisa, é bem-vinda.


Em anexo, Retrato de Suzanne Bloch, óleo sobre tela, 65x54cm, 1904. Rezemos pra que os bandidos que fizeram isso não destruam essa obra- prima. Em cima, o Lavrador de Café do Portinari.