Tuesday, October 30, 2007

Recomeçar

Ontem, foi a última sessão de terapia, no SAPPE.


Eu sabia que ia acabar, porque a duração era enquanto eu escrevesse e terminasse a tese. Então acabou, numa sessão maravilhosa. Elogiei muito o pessoal do SAPPE. Sem esse apoio, teria sido difícil pra mim terminar o trabalho, sem me estropiar tanto. Porque pra mim a coisa se resume no seguinte: quero viver, quero fazer e acontecer ,mas sem estropiar. Eu me torturava muito, e pra quê? Dava atenção demais aos outros. Eu venho nesse processo de fechar portas e janelas. Não acho ruim. Não dá pra se doar a todos, e eu andei me doando demais a quem não merecia, inclusive aqui e por intermédio do Meio. Mas águas passadas não rodam moinhos, e eu quero viver na aldeia dos moinhos, do último episódio do Sonhos, do Kurosawa.
Mas foi um recomeço também, cuidei da minha casa com carinho e vigor, falei com dois amigos amados e que estão longe no msn, fiz uma omelete que ficou divina e hoje eu passo minhas roupas. Sem rancores, nem ressentimentos, só vendo as coisas rodarem,girarem lentamente, como os moinhos da terra de parte dos meus ancestrais.

Friday, October 26, 2007

Cheek to cheek

Hoje eu acordei chateada pra variar. A universidade me deixa doente. Essa semana eu tive que permanecer mais do que o usual dos últimos tempos na cidadela zeferinítica. Daí eu fico com surtos de pânico, porque os últimos anos foram difíceis demais. Muito trauma pra uma panda só. Na minha terapia, discuti o fato de que preciso sair da Unipunk por uns tempos. Será bom. Todos os meus projetos a curto, médio e longo prazo não tem Unipunk no horizonte. Pela primeira vez em treze anos, dá um vazio e uma sensação de derrota, que eu sei, são ilusórias.
Na semana seguinte que entreguei minha tese, recomecei a dar aulas no velho canavial. Hoje por exemplo era a aula de Bernini escultor, que ficou da semana passada porque troquei os horários. Enrolei, e cheguei em cima da pinta, Begin the Beguine no i-pod, Ella é tão delicada.
Daí notei que tinha, no caminho, cantado junto com o Frank Cheek to cheek. Tão bom ouvir essas coisas. E me dei conta que já sou uma pessoa diferente de anos atrás, quando eu só ouvia rock e mpb, agora o jazz entrou na minha dieta. Em leve minueto, como escreveu Clarice, entrei no IA com Ella e Frank, que saudade de Chicago, que saudade de tanta coisa, e tanta coisa ainda boa por vir.

Wednesday, October 24, 2007

Tic Tic Tac do meu coração

Meu coração já bate diferente, dando o sinal do fim da mocidade.


Andei puta, porque vou receber 450 reais pra dar duas disciplinas na graduação, na Unipunk, ops, Unicamp. Andei puta porque neguinho me pagou a meia no cursinho. Mas tudo isso é problema velho, eu já tô ficando de saco cheio dessa minha vida de panda biscateira da História da Arte.
Ontem e hoje, pelo menos, dei sorte em algumas coisas. Dei sorte porque assisti Sonhos, do Kurosawa, e tive uma experiência do belo, total, uma entrega à quietude da contemplação. Fiquei tão feliz, porque num final de tarde assisti a um filme, no sossego do meu lar, deitadinha no colchão aqui do escritório. Fazia um ano que não parava pra assistir a um filme assim, o último foi Garota de Rosa Schocking na tevê.
Não gosto de falar isso aqui, acho pedante, mas o fato é que tenho sempre trocentas coisas pra fazer, desde lavar roupa e limpar casa até estabelecer hipóteses historiográficas pra uns quinze assuntos. Acho que passar roupa é pior que escrever artigo, mas enfim, os dois consomem o pouco fosfato da minha pobre cabeça.
Problemas no trabalho, o velho departamento me mata, mas dei sorte porque almocei com os meninos e eles me fizeram rir que nem doida, porque se a gente não ri, só pode chorar. Post assim, dia de chuva e Carmen Miranda no i-pod.

Monday, October 22, 2007

Veneno de abelha, pomada de arnica, e muita água

Tem gente que me deixa muito triste.


Não sei, deve ser ingenuidade minha, mas tem pessoas que me põem em verdadeiros desesperos de tristeza. Não consigo suportar o que algumas pessoas fazem. A minha sorte é que tenho sempre comigo anjos de candura e riso que se apiedam da minha pobre alma e que me ajudam a atravessar o cotidiano desolado. Esse final de semana começou com uma grande tristeza, mas depois tive momentos de felicidade, principalmente com a Nina fofa que foi muito simpática com a tia panda, inclusive procurando no peito da tia leite, e no colo consolo pras cólicas. Celo, Anselmo e Táta compartilharam coisas bonitas comigo, também.
Hoje fui receber as aulas do cursinho, depois de ir no anjo-dentista dr. Cláudio; varei o Centro inteiro de Campinas, fui da Prefeitura até a Rodoviária, pelo calçadão, nesse sol de quase dezembro, e recebi metade do que esperava. Depois ainda peguei o inferno do ônibus Rodoviária- Unicamp via Baixada Santista, e cheguei e descobri que tô devendo uma nota na cantina do IFCH. Fiz as contas e tenho metade do que preciso pra pôr meu combalido orçamento em dia. Ou seja, mais panda-Rambo, pondo a fita na cabecinha e ááááááá....
E a tristeza com certas criaturas, do mal e/ou fracas o suficiente pra ouvirem o chamado do lado negro da Força, resolvi curar com veneno de abelha. Explico: Michel me disse que pra sinusite o bom é creme de veneno de abelha, que uma apicultura premiada aqui de Campinas vende. Eu li faz tempo que todos os derivados da apicultura são bons anti-inflamatórios. Semana passada, não dormi um dia devido à dor de dente: fui no dr. Cláudio e era a minha crônica, clássica, surreal sinusite, que pra mim sempre tá ligada a essa tristeza. A apicultura fica perto do dr. Cláudio; saí de lá e escalei o morrinho da Barreto Leme, pra comprar o tal creme. Passei nos seios da face e na testa, e na hora senti um alívio muito grande.
Ainda vi armarinhos e sugeri à uma senhora de um deles a confecção de uma sacola para trabalhos manuais, com estojos pra linahs e agulhas dentro, de tecido de florzinha ( eu adoro florzinhas nas estampas)... e veneno de abelha, recomendo à todos com problemas de inflamação e de tristeza generalizada.

Saturday, October 20, 2007

L'occhio abbracia la bellezza


Esses tempos, tenho travado conversas fundamentais pelo... msn. É incrível como uma joça que, na maior parte das vezes, serve pra perder tempo ou piorar neuroses ( o clássico "ele/a me bloqueou! Que farei?" ou "vou bloquear esse/a filha/o da puta") tá me servindo pra me compreender melhor, graças às pequenas pandas mestres jedi Danis.


De surtos com eventualidades do cotidiano até verdadeiras confissões d'alma, eu e Danis estamos num processo, eu diria, terapêutico no melhor sentido do termo. Ontem, por exemplo, uma conversa com elas detonou uma das maiores reflexões que eu já fiz sobre eu mesma.



Eu saquei, de uma vez por todas, que, como diria messer Leonardo da Vinci, meu olho abraça a beleza, e não larga mais. Eu preciso de beleza. Tenho uma visão de espaço urbano renascentista: bela cidade, belos pensamentos. Quando o lugar é feio, tacanho, eu vejo essa beleza nas pessoas. Eu crio grandiosidades, Duomos de Brunelleschi de sentimentos, de sonhos. O problema é que, por não ter consciência disso, eu queria construir Campos dei Miracoli, como os de Pisa ( um pedaço aí dele em cima, foto tirada de quando tirei uma soneca no gramado do Batistério), em meio a canaviais, que também tem sua beleza. Existe o belo no feio, no mesquinho, no submundo da histeria, da neurose, nas valas dos condenados pelas penas mais horrendas.
O problema é que sou míope e também tenho minha neurose, o que sempre acarreta uma restrição do olhar. E vivi muito tempo sozinha com essa característica. Acho que escolhi ser professora de História da Arte pra pôr pra fora o incansável desejo de beleza, de alegria e de sentimento que existe em mim tão fundo, desde cedo.
Por isso que eu tive grandes amores e grandes amizades, frustadas, nos feios prédios da Unicamp ( eu tinha que pôr beleza em algum lugar: pus nas pessoas, poderia ter posto na paisagem e escrito ou desenhado algo), e São Paulo pra mim é um enigma insolúvel: lá existe o belo e o horrendo, pessoas lindas que me fazem vibrar e pessoas horríveis que me fizeram sofrer muito. Mas tenho trabalhado no sentido de ver beleza nos prédios ( tô percebendo que meu lance com a Arquitetura, com o espaço físico, é muito fundo) e nas pessoas, em diferentes escalas. Tô aprendendo, graças às Danis, a ver beleza em mim, o único lugar onde eu acreditava que isso não existia, e dar vazão às minhas utopias nos lugares corretos. E hoje acordei feliz por ter percebido tudo isso, aliviada porque minhas grandiosidades podem ser trabalhadas, vividas, compartilhadas. Ah, ia me esquecendo: em Pisa não vi tanta beleza assim nas pessoas, tomada de um amor profundo pelo Campo dei Miracoli, confirmando a tese panda suscetível à Arquitetura, paisagem e amor pelos outros.

Wednesday, October 17, 2007

Panda Quebra-Barraco

E com vocês, o funk da panda quebra-barraco! Sou feia e ainda por cima não tô na moda!


Sábado pensava em coisas tristes e terminava de fazer uma das minhas atividades favoritas, tomar banho. De repente, no meio do óleo de banho Pitanga revitalizante da Herbo Farma, presente dos bocos no meu aniversário ( comprem! É uma maravilha!), o chuveiro puft. Queimou a resistência. Que saco. Daí pensei, vou chamar seu Edmílson...
Seu Edmílson foi, durante anos, o zelador aqui do meu prédio. Além de zelador, depois das duas da tarde, ou seja, depois do expediente, seu Edmílson consertava tudo, de cano quebrado, vazamento, interfone. O problema é seu Edmílson se saiu tão bem nessas tarefas extras de faz-tudo que resolveu pedir as contas e abrir negócio próprio de faz-tudo. Ou seja, não tenho mais o homem da casa seu Edmílson, que agora anda tão ocupado que não atende mais os pedidos do prédio e dos outros prédios.
Fico feliz por seu Edmílson ter se tornado um homem de sucesso, mas e agora? Que fazer, como diria Lênin?
Daí ontem estava puta porque tem muita gente babaca no mundo e tal, e abri a geladeira, um tupperware com um resto de sopa, uma sopa que eu fiz, ficou horrível e ainda por cima estragou o resto. Puta, peguei o tupperware e entornei o restinho da sopa no vaso sanitário. Quando terminei, pensei, mas que porra eu fiz, porque o vaso, obviamente, entupiu.
Me vi, de novo, com o vaso entupido e o chuveiro queimado. Vou desconsolada trabalhar em Caronte, com sua risca azul chiquérrima. Nenem me exorta a ser uma mulher independente, comprar um alicate, a resistência, um desentupidor grandão e consertar os problemas. E hoje, eu recomecei a dar aulas no IA, substituindo o Paulo, em viagem, em dois cursos pra graduação: História da Arte 2 e História da Arte no Brasil 1. Hoje seria Debret.
Daí acordei com: uma aula sobre a Voyage Pitorèsque do Debret pra preparar em Caronte emperrado e riscado de azul, uma resistência pra trocar e um vaso sanitário pra desentupir.
Fui no Santarelli, uma loja monstro de coisas de casa aqui do lado. Comprei um bom alicate, a resistência, o desentupidor de vaso e cheguei em casa preparada pra tudo, panda num momento Rambo. Pus a fita na testa, e ááááááá....
O vaso continuou entupido, e eu troquei, sim, a resistência do chuveiro ( sim, crianças! No meio de tudo em pensava, qué isso perto de escrever uma tese sobre o tiozão narigudo mardito? E o pino da resistência entrava! Viva Dante!). Mas ano passado, numa faxina monstro, eu quebrei o cano do chuveiro. Seu Edmílson veio aqui e fez uma gambiarra, passou fita veda-rosca e o negócio, puft, caiu! Então, sim, caros leitores do Meio, o chuveiro caiu da parede, mas a resistência foi trocada!
Não dava mais tempo de fazer nada. Sentei, preparei a aula mais chulé sobre Debret que alguém viu nessa vida, e no torso de Gerião parti pra Unicamp, infringindo parte da suspensão da minha carteira de habilitação. Dei a aula. Os meninos dormiam e tal, mas a culpa não era deles. Depois fui encher o saco do crazy people na cantina do IFCH, e lá estavam Marcones e Vitão. Contei a eles minhas desventuras, e eles riam à socapa. Mulher moderna com problemas é isso aí.
Voltei pra casa com um plano maléfico. Entornei um quilo de soda cáustica no vaso ( depois de dois dias, se não fizer efeito, tacarei Diabo Verde Líquido e só em última análise peço pros negos do Santarelli virem porque são 60 pilas). E tentei enroscar o chuveiro. Nada. Fui no seu Luiz, lá eu resolvo tudo, pensei acertadamente eu.
Seu Luiz é dono do Frangos Ilimitados ( ou algo assim) aqui na esquina de casa. É um restaurante boteco maluquinho, que serve uma feijoada daquelas, já deu no jornal e tudo. Eles são super simpáticos, é limpinho, barato, gostoso e ainda vende tubaína, com batida de limão de grátis. Tem saladinha com molho de alho, maravilha total. Sentei pra enfrentar a feijoada e lá veio seu Luiz cheio de prosa. Falei, seu Luiz, os caras do Santarelli tão querendo me cobrar os olhos da fuça pra me enroscar um chuveiro, o senhor imagina! E ele, que absurdo, esse povo enfia a faca. E seu Luiz passa a coçar o queixo. Perguntei do Luizinho, outro faz-tudo do pedaço.
Luizinho trabalha há muitos anos na oficina do seu Hugo. Quando quebrava algo no seu Pedrão, lá vinha Luizinho, sempre em pé de guerra com o seu Hugo ( eles se odeiam mas não se desgrudam). Luiz teve leucemia e quase vira anjinho faz-tudo. Um dia, minha mãe ligou pro seu Hugo por qualquer eventualidade e veio... tchanam, Luizinho em pessoa. Minha mãe, que achava que o moço tinha morrido, achou que tava vendo assombração e teve o pior ataque de nervos da vida dela.
Pois o Luizinho, ressuscitado e tudo, agora tá brigado com dona Meire (mais um pra lista). Mas o Luizinho poderia me ajudar. Seu Luiz sensatamente observa que Luizinho também adora enfiar a faca no povo.
Veio a feijuca, beleza maravilha total, um guaranazinho diet ( meu, como sou hipócrita). E seu Luiz não se conforma, vira a rua atrás de um cavalheiro pra ajudar a senhora simpática que ama feijoada. E vem ele meio sem graça com um senhor moreno, baixinho, seu Leonel. Esse conserta e cobra 15 pilas ( meu, os caras do Santarelli cobram 40, pra vocês terem uma idéia, sem a peça inclusa).
Seu Leonel veio aqui e agora volta no final da tarde, pra consertar o cano. A resistência tá perfeita, segundo ele. E eu taquei os três quilos de soda caústica no vaso. Vejam, e sexta-feira dou aula sobre Bernini!

Tuesday, October 16, 2007

Favor não ultrapassar a linha vermelha

Andaram acontecendo coisas trash por aí, comigo e com pessoas amadinhas.


Eu já sofri muito com agressões, dos mais variados tipos. Tinha uma época que a panda vivia que nem preso chinês, ou seja. Saí dessa pra melhor, na linha Gandhi do pacifismo ativo ( "eu não revido e não te bato, mas enfio o dedo no seu olho e saio correndo"). Mas desse período nas trevas, eu saí com um pavor completo, total, absoluto, de todo e qualquer tipo de agressão, de todo e qualquer tipo de invasão de privacidade, de falta de delicadeza, de falta de de noção. Xingar, bater, seguir, humilhar, dar barraco, ler email dos outros, revirar gaveta, celular, carteira, tirar sarro de maldade, falar mal, difamar, desconsiderar o outro, são atitudes completamente injustificadas e idiotas. Quem bate, xinga, humilha, perde a razão que pensa ter ( se chegou nesse ponto da agressão, o cara nem razão tem, mas vamos fingir que tivesse).
Se eu pudesse, faria um Manifesto contra a Babaquice. Porque tem muito babaca por aí, pelo amor de Deus.

Friday, October 12, 2007

Tapioca é de Deus

E eu entreguei a tese pro meu orientador. Acabei. Pois é.

Imprimi a maledetta, tirei uma cópia, e encadernei. Enquanto rolava o processo, no xerox do IEL, chega uma moça que procurava a tradução do Manuel Odorico Mendes pro Virgílio, o famoso Virgílio Brazileiro. E o tomo do meu lado, na estante, enquanto minha mente emperrada nas paragens do reino de Lúcifer só esboçou uma reação: peguei o volume e entreguei pra moça.
Fiquei exausta essa semana. Terminei minha tese, e chegou a notícia do falecimento do meu tio. Os projetos pós-tese começaram a pipocar por conta própria, exigindo resoluções. Fiquei misturada, como dizia minha afilhada Camila, e veio um Mar Vermelho, de nervoso mesmo. Fraquinha, nesse calor desértico, terminei a saga da dupla sertaneja tiozão narigudo- tiozinho barrilzinho, ao menos por enquanto.
Daí hoje dormi, dormi horrores, e pretendo continuar hibernando, e fui ao shops com Nenem e Celo, ver vitrines e me descabelar diante dos lançamentos da Renner. Juntei uma braçada de roupa pra experimentar, mas não deu tempo, o povo tava nelvoso. Comi bem, e lá estava uma barraquinha de tapioca, lotada de gente.
Tapioca eu comia nos velhos Campos dos Goytacazes, norte do estado do Rio, na casa de minha avó materna, dona Maria da Conceição, com manteiga. Era bom. Mas nunca mais comi tapioca, nem lembro quando foi a última vez que fui a Campos. A tapioca vinha num saquinho plástico, já fria. Mas eu cheguei a ver aqui perto do Terminal Central de Campinas as frigideirinhas e um amigo se declarou entusiasta da tapioca quentinha, com queijo de coalho.
Hoje Celo deu a idéia e pediu uma, com recheio de banana, um pouquinho de leite condensado e canela. Não agüentei e comi uma com morango. Sei que deve ser sacrilégio pôr na tapioca frango com catupiry, morango, essas coisas de paulista. Tinha uma comunidade no Orkut muito engraçadinha, "Comida azul não é de Deus". Gente, tapioca, tapioca é, sim, de Deus.
E do lado do xerox do IEL tinha aula de forró. E a tapioca me deixou numa vibe que me fez lembrar de 1999, eu na Cooperativa com minhas amigas Dani e Camille, que hoje moram no Velho Continente. Era o início da onda do chamado forró universitário, o salão cheio de senhores nordestinos que ensinavam as paulistas a dançarem aqueles negócios tão deliciosos. Até a panda, sempre dura e desajeitada, sofrendo de falta gravíssima de coordenação motora desde a mais tenra infância, ensaiava passos nos xotes. O Trio Virgulino animava a moçada; eram simpaticíssimos, virtuoses, e hoje são o trio mais famoso das paradas do velho for all.
Eu adorava "Forró & Paixão", tão singela e doce, como tapioca. Depois a Cooperativa lotou de patricinhas e mauricinhos, os senhores professores sumiram, a coisa ficou esquisita e um clima de pegação daqueles dos piores se instalou. Nada contra pegação, acho até que tinha que ter uma lei obrigando o povo a se pegar, mas uma coisa é aquele clima bacana de safadeza e ingenuidade, outra coisa é o automático vamos nos catar.
Me deu saudade da música, quando tocava eu lembro que pensava, eu quero um amor. Não tinha tanta clareza, como hoje, que é a simplicidade que a gente, de fato, precisa buscar. Era muito atormentada e muito jovem. Hoje tudo é bem, bem mais simples, como tapioca, como dançar agarrado, gostoso.
http://www.triovirgulino.com.br/, tem na seção MP3 a "Forró & Paixão" pra baixar.

Wednesday, October 10, 2007

Segura, peão

Essas semanas tem sido respirar fundo, sentar e trabalhar. Respirar fundo, sentar e trabalhar. De novo, repitam comigo, respirar fundo...

Lá na terapia falei da necessidade de construção. Do quanto Eros, a força da vida, pra mim está relacionado com a rotina que transcorre sem grandes problemas, da calma e da clareza diante dos enroscos próprios e alheios, de eu não ser ambivalente e não cair no jogo neurótico dos outros. Estou desarmada e calma, pacificada e discretamente feliz. Não trago pedras nas mãos. Não pressuponho mais. Não interrogo motivos que não existem, ou que se existem, não me dizem respeito. Mágoas, eu tenho, ressentimento, raiva, eu sinto, mas prefiro canalizar em outras coisas, em fazer disso um trampolim pra saltos ornamentais. Estou distraída mas não distante, andando devagar, pensando no que eu quero com tanta força que mesmo momentos tristes ficam com sua beleza, modesta porque o que eu quero está longe, mas uma beleza que não é desprezível.
O ruim é segurar as rédeas e entrar no rodeio da defesa. Essa semana, tirei pros últimos preparativos da tese, para imprimir o exemplar do meu orientador e começar a correr atrás da data, formulários, e etcs. Aqui no IEL tudo fica a cargo do aluno, e hoje me informei dos procedimentos todos. Uma pasta de formulários e eu respirei fundo, mais uma vez e...
Tapo os últimos buracos da maledetta com uma dor indizível. Não pude fazer nem um terço do que me propus, e logicamente serei execrada pela banca. Fico bem ansiosa nesses momentos finais com o texto, decisivos, mas não tenho mais condições psicodélicas, ops, psicológicas, de vôos mais altos do que juntar parágrafos, cortar excessos, ligar de qualquer jeito pedaços. Está tudo muito desconjuntado; fico embaraçada de apresentar um resultado tão medíocre pra uma banca de estrelas da minha área. Enfim, fiz o que pude. Mas não estou no final de nada, o meu coração bate constante, a vida é constante, tudo está bem e assim fica, mesmo.

Tuesday, October 09, 2007

Saudades, tio!

Hoje fiquei sabendo do falecimento de meu tio Arthur.


Esse post, então, é uma despedida da sua sobrinha Paula. Eu compartilhava com você o nome; penso que talvez meu pai lembrou longinquamente do irmão que gostava mais dele quando me batizou Paula, porque depois de Arthur, nome do nosso avô holandês, você tinha o Paulo. E talvez essa lembrança me faça mais presente de você, hoje.

Vai em paz, tio. Sua sobrinha andou sentindo tanta falta dos Vermeersch, até na igreja do Cambuci foi, e agora sei que foi um pressentimento do seu falecimento. O senhor faleceu na sua casa, na velha Campos dos Goytacazes. Faleceu em casa, talvez o sonho de todos nós seja esse, na sua casa, comprada com tanto sacrifício, depois de anos e anos de esforço, parabéns, meu tio. Deixou algo pros irmãos, pros sobrinhos, o senhor que não teve filhos, que sofreu anos com uma doença terrível.
Mas me lembro de seu carinho, de seu afeto, das sessões do projetor antigo de cinema, onde assistíamos filmes de Chaplin, seus favoritos. Do senhor levo uma lembrança afetuosa. Meu pai faleceu, o senhor não veio; não se sentiu bem, me disseram. Mas gostaria que o senhor soubesse que, na tese que agora defendo na Unicamp, seu nome, o do vô, da vó, do meu pai e até de tio Salvador que não conheci, estão do lado do meu, agora doutora, doutora Paula Vermeersch. E com orgulho compartilho do sobrenome de vocês, vocês que tanto me amaram em criança e que estão comigo, no meu coração, para onde eu for.

Monday, October 08, 2007

A inteira combinação cósmica renovada

Hoje eu acordei cedo, e como diria Leminski, azul, tive uma idéia clara. Vou escrever no Meio.


Eu andei tão absorvida por processos kármicos, como bem diz a fofa Evelyne, que não reparei a falta de escrever esse bróugui amalucado aqui. Processo kármico é aquele que você enfrenta quando o indivíduo te pentelha/ enche o saco/ te ama mas te odeia/ te odeia só/ te ama só/ não sente nada por você e você precisa por razões sentimentais/ profissionais/ políticas/ metafísicas conviver. Difícil viver, como bem diria Sartre, o inferno são os outros, principalmente quando resolvem cair nas suas valas internas.
Isso me lembra a história que o João contou na sexta-feira, no almoço. Diz que Sartre visitava Araraquara a convite de Fausto Castilho, que mais pra frente fundaria o glorioso Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade de Campinas, vulgo ifíchi. Ao mesmo tempo o Santos jogava com o time da cidade, o Araraquarense. Sartre foi jantar num restaurante da cidade, e juntou-se um burburinho à porta do estabelecimento. Um cidadão chega e perguntou pro povo se o Pelé estava jantando, e disseram que não, que era o Sartre. E o cara lascou a dúvida, mas em que posição esse cara joga?
Voltando à cold cow. Hoje tive um dia atrapalhado mas produtivo, e acho que contribui a "limpeza de chaminé" no Meio, como dizia a histérica Anna O. para o dr. Breuer, no clássico caso que inspirou dr. Freud a pirar o cabeção e dizer em alto e bom som que histeria masculina existe ( histeria- hysterós, útero, mal do útero, como homem tem mal de útero? Segundo Freud tem). No caso minha coisa seria facilmente diagnosticada pelos drs. Freud e Breuer; pelo menos tenho a esperança de, no final, não me tornar uma megera indomada como tanta/os por aí.
E eu abri o volume em italiano dos textos de Hermes Trimegisto e lá está: "O divino é, portanto, a inteira combinação cósmica renovada: no divino, de fato, a natureza torna-se estável".

Come to the dark side, my son

Outro dia eu tava no ponto de ônibus e um senhor varria a terra, jogando o pó com eficiência pra cima do pessoal no ponto. Uma moça bonita, que depois conversou comigo o caminho inteiro pra Unicamp, começou a rir e disse de forma sacana, Jesus, apaga a luz pra eu não ver isso.


Pois a semana passada foi a semana "Jesus, apaga a luz". Espantos de todas as espécies. Eu sumi do Meio simplesmente porque tive que deixar de usar meu sabre de luz de manhã, pra cortar e ao mesmo tempo torrar pão, pra coisas mais bélicas. De todos os padawan e mestres menores da Academia dos Cavaleiros Jedi, Panda Kenobi sempre se destacou por utilizar a Força para fins lúdicos, culinários e, como se diz em ítalo-paulistano, divertentes. Mas semana passada tive, como mestre Yoda no último filme da série ( terceiro da primeira trilogia) pegar meu sabre e dar num crazy people aí.
Depois de muitos debates na Praça é Nossa virtual, ops, msn, com Dani Mônica diretamente das Alagoas e Dani Nenem diretamente do Cambuí, cheguei à conclusão que a terapia no SAPPE surtiu um efeito benéfico.
Todos nós temos nossa ambivalência: a gente ama e odeia ao mesmo tempo. Temos atitudes escrotas com quem mais gostamos, achamos que a intimidade é o canal das patadas e que quem nos ama precisa nos aceitar como somos ( leia-se, com todas as nossas manias, defeitos e agressividades latentes e declaradas). Nem nos passa pela cabeça que os outros são os outros, a fusão amorosa precisa, na nossa fantasia, ser total, simbiótica e meio maluca. Tudo bem, isso no plano da fantasia é ótimo. Mas justamente uma das tarefas do processo de individuação, segundo minhas parcas leituras, minha experiência e minhas terapias e análises, é diminuir o mais possível a ambivalência. Reconhecer a agressividade e canalizá-la, tematizá-la, vivê-la de uma forma mais saudável.
O problema é quando neguinho resolve do nada ser ambivalente com você, não te explicar o motivo e te causar aborrecimento, quando você tá no meio de sua jornada padawan, aprendendo a tirar naves do pântano, ficar amigo do Chewbacca e de quebra destruir a Estrela da Morte com sua intuição. Daí você, pequeno Skywalker, se vê diante de um Darth Vader que quer te estrangular, mas ao mesmo tempo é seu pai. Um homem que não é mais homem, uma máquina de destruir, mas que ao mesmo tempo foi o mais brilhante da Academia Jedi ( e que destruiu sem dó nem piedade essa mesma academia). Sabemos, porque vimos trilhões de vezes O Retorno de Jedi, que Darth Vader, ops, Anakin Skywalker, só ouviu o lado bom da Força no finalzinho, salvando Luke na hora H e deixando enquanto isso que os psicopatas da fofura ( sim, isso existe) Ewoks ferrassem com as tropas do império com sua meiguice e catapultas assassinas.
O que é triste é que tem muito Darth Vader por aí que não ouve o chamado bom da Força nem no final, deixando a cargo do Luke sua própria salvação, e dos Ewoks, a salvação da galáxia. Pior é quando o pequeno/pequena padawan, incauto, cai no dark side e entra na onda. Exemplo básico: neguinho combina com você e fura. O pequeno padawan fica vermelho de raiva e imagina milhões de coisas, sofre, vai no blog, torra a paciência da lista inteira do msn, sofre mais, estabelece hipóteses, todas baseadas em generalizações completamente furadas ( o clássico para as padawans-meninas: "Os homens têm medo de mulher inteligente", "Ninguém aguenta minha sinceridade, meu charme, minha autenticidade, piriri pororó").
Ó cara ou caro padawan, se alguém foi ambivalente com você, pense, isso acontece e a pessoa vai se arrepender. E volte seu olhar pras suas atividades na academia. Semana passada eu tive umas 15 ocasiões em que foram muito ambivalentes comigo. Passei por isso com o jeito tranqüilo de quem, sim, está do lado certo da Força ( só quero amar, como dizia Tim Maia).

Wednesday, October 03, 2007

Frases descabidas

-Só se permanece si mesmo quem muito sofre.


-Zica por zica, melhor as minhas.


-Dê-me uma razão para chorar e lhe darei cem razões para beber.


-De grão em grão é que se enche o saco.

Sunday, September 30, 2007

Prateleira


E eu, que não sou uma panda consumista nem nada, tive um surto de madame essa semana. Detalhe, não possuo um mísero real pra poder sustentar tal surto; então, no final das contas, considerei que é um daqueles surtos compensatórios, porque o voto de pobreza franciscana, feito por mim, já tá demasiado.


Começou que eu queria um relógio. Daqueles de ouro, delicados, de velhinha que vai no Municipal. Quando era jovem, minha tia tentou empurrar um desses pra mim, e eu preferi um Casio daqueles batatões, de mergulhador, indestrutíveis e nada delicados ( esse relógio só sumiu porque foi furtado num ônibus pra Unicamp, anos depois). Andando pelo centro de Campinas, vi um relógio lindo de morrer, numa joalheria; depois, na fatídica feirinha hippie, um senhor relojoeiro me mostrou um pequeno Seiko, e eu sem nada.
Roupa, lingerie, perfume, maquiagem, tudo eu ia vendo e fazendo uma wish list ensandecida, descabida e totalmente inverossímil. Mas o máximo do surto veio depois.
Eu vi na vitrine da Dascenzi, loja de sapatos finos e um tanto quanto cafonas, uma bolsa da Guess ma-ra-vi-lho-sa. Já tinha notado tais bolsas, inclusive perguntei pra uma moça bonita que carregava uma delas pelo shopping Dom Pedro, quando tomava um lanche com o Juam. Mas em plena rua Conceição, aquela bolsa foi demais pros meus nervos. Nem me aventurei a entrar na loja e perguntar o preço da tal maravilha. Mas em casa é lógico que procurei tais bolsas no próprio site da Guess e no Mercado Livre.
Daí vem a coisa mais engraçada. Algumas bolsas da Guess estão à disposição no Mercado Livre, como tudo nessa vida, incluindo essa linda aí de cima, chamada Sicily Hobo ( não é a que eu vi na Dascenzi, preta e cinza, mas eu aceitaria se algum leitor resolver me mandar uma de presente). Nos EUA custa 70 dólares; aqui na Dascenzi eles vendem por 500, 600. Um absurdo de caro. No Mercado Livre o povo faz um preço melhor, mas daí vem a discussão teológica.
Se você procurar no site, tem nego vendendo Louis Vuitton por 300 pilas. Uma Louis Vuitton nova custa 2000, 3000 reais, uma coisa assim, totalmente descabida e sem noção. Eu, no alto da minha falta de bom gosto, prefiro as da Guess. Uma Louis Vuitton dura a vida toda, dizem, e dizem que são as mais elegantes. mas ainda assim, do fundo do meu franciscanismo, acho indecente um preço desses. Peguei implicância da marca, na minha adolescência símbolo das negas patricinhas idiotas do meu colégio ( que ainda adornavam as cabeças com bandanas coloridas e vinham com as tais bolsinhas LV pra aula de Educação Física), implicância um pouco minimizada porque vi fotos lindas da Angelina Jolie defendendo as crianças pobres em Davos em tailleurs de lã impecáveis Saint John Knits e uma bolsona LV. Aliás, o site da Saint John traz Angelina, como sempre deslumbrante e doando o cachê pras crianças de, sei lá, Serra Leoa.
Enfim, eu teria tudo da Saint John, mas Louis Vuitton muito provavelmente não ( aquelas bem assim, realistas, quá quá quá). Mas como o milagre da LV de 300 reais? Então, a picaretagem brasileira não tem limites. Ora bolas, o neguinho vende réplicas, hierarquizadas pelo grau de perfeição na pirataria, ou contrabando. Mas tem gente que vende as legítimas. O interessante é que os vendedores do Mercado Livre criaram um dialeto todo próprio pro consumidor distinguir as bolsas umas das outras, e o próprio site fornece um guia pra pessoa reconhecer a bolsa LV verdadeira. Eu não tinha a mínima idéia disso tudo, na minha pobreza sempre distante dos bens do mercado de luxo; nem sabia que uma bolsa LV é como jóia da H Stern, com número de série e um bando de detalhes. Vejam lá o Guia pra não comprarem gato por lebre ou pra vocês terem uma idéia da profundidade da picaretagem:
Ah, e no sebo que comprei minha boneca Emília, meses atrás, vi dois Aquaplay em perfeito estado de funcionamento. Estão na wish list, bem como umas antigüidades da feirinha, uma cristaleira pra pôr as antigüidades e uma passagem para Londres.

Thursday, September 27, 2007

E no dia de São Cosme e São Damião...

Hoje, dia de São Cosme e São Damião. Minha avó enchia saquinhos de papel com doces e brinquedinhos de plástico, e distribuía para as crianças do bairro.


Celo acaba de ligar dizendo que nasceu Nina, irmãzinha caçula do Fefê e do Murilo, depois de, como toda boa menininha, deixar todo mundo esperando... E viva a Nina! Meus parabéns à Jana, ao Henrique, ao Felipe e ao Murilo e a todos nós, que temos mais uma amiguinha pra compartilhar a beleza da vida. Beijos na mais nova fofa do pedaço, e votos da felicidade mais completa, de saúde, de força e de tudo de bom. Quando nasce um bebê, eu queria muito ser daquelas fadas dos velhos contos, pra reforçar a alegria que sinto por uma nova pessoa legal surgir.
E hoje ainda é aniversário do Léo, pessoa infernal de plantão. Mandei uma mensagem no celular da pessoa, leitor contumaz e feroz do Meio, com suas críticas arrasadoras da minha necessidade de transcendência (leia-se, sr.Leonardo é ateu). Então parabéns também pra você, Léo, apesar de você achar o Meio do Caminho horrível e a panda uma looser nó cega! E me vinguei de você, porque você vai ficar com vergonha de ler isso aqui!

Wednesday, September 26, 2007

Del contrario ho io brama

Ontem terminei a numeração do Caderno de Imagens. Deu um trabalho pavoroso, e fiquei com a cabeça completamente fundida.

A tese cansa, demais, meu Deus. Pode ser que isso se deva ao meu total despreparo intelectual, e minha completa falta de vocação para uma tarefa tão complexa. Ou ao fato que a temperatura nas terras paulistas caiu 20 graus centígrados do dia pra noite literalmente, ou sei lá o quê. Também fiz muito café, e muito forte hoje. Daí eu acelero, eu durmo tomando chá de camomila, sou muito influenciável e hoje tive que mandar uma pessoa que eu amo muito à merda. Momentos de tensão, e um porta-lápis caiu sem nenhuma explicação da Física newtoniana, nem de Einstein nem da Mecânica Quântica. Medo de viver, de sofrer? Sei lá.

A saber, o título é o verso 94 do Canto XXXII do Inferno, fala de Bocca degli Abati, uma das almas danadas que cumpre pena por traição no último círculo do Inferno, no gelo eterno, por ter traído os seus numa das batalhas entre guelfos e guibelinos. Ítalo Mauro escreve "Minha vontade o oposto é o que reclama".

Monday, September 24, 2007

Do acaso e da utopia

Há uns dois anos atrás, recebemos a notícia da abertura do FAP Livros, o programa de compra de obras pros acervos das universidades paulistas, obra e graça da Madrasta FAPESP. Todos os pesquisadores doutores, inseridos em Projetos Temáticos, orientadores de bolsistas, etc e etc, poderiam enviar sugestões bibliográficas para a aquisição de livros.
Tanto o meu orientador, no IEL, quanto o Paulo, com quem trabalhei no IA, podiam enviar listas, e pediram colaborações, sugestões de todos. A recomendação era a mais doida possível: fazer listas de maravihas, ilhas paradisíacas e outros portentos da bibliografia internacional. Pensou-se que atirando pra cima, o tiro sempre cai um pouco mais embaixo, e no máximo os Tahitis em forma de livros não viriam, mas as Praias Grandes nos encantariam a vida.
Eu, sempre propensa ao pensamento utópico mais descabido, fiz listas fantásticas, com coisas surreais, baixando o catálogo das grandes editoras italianas. Claro que fiz isso de molecagem, pra compensar o desejo, no sentido mais erótico e deslavado que existe nisso, de ter em mãos a bela edição da Salerno Editrice de todos os comentadores renascentistas de Dante.
Pois bem. Estava eu em plena incursão da nau dos desvalidos do IEL, semana passada, chega professora Maria Bethânia, da área de Italiano. E ela me diz, Paula, chegaram livros belíssimos, raríssimos, Divinas Comédias ilustradas de sonho. Tudo isso ninguém sabe como veio parar aqui, porque tudo custou uma fortuna, uma fábula, ela me disse; uma edição lá custou nada mais nada menos que 2000 euros. E enquanto Bethânia falava, eu empalidecia e quase perdia os sentidos.
Por um motivo obscuro, a FAPESP aceitou minha lista absurda, e agora a Biblioteca do IEL possui um acervo completo de Dante ilustrado, comentado, e sei lá o quê mais. Hoje, livre dos compromissos do aniversário e calma diante do horizonte duvidoso e sofrido, habitual, da minha lascada vida ( o drama é fundamental numa mulher né não?) fui ter na biblioteca e saber dos portentos. E realmente, na estante já está esperando, pelos séculos vindouros, o Comentário de Piero Alighieri, filho do tiozão narigudo, e outras pérolas dantistas. E no processamento, porque não há estagiário nem funcionário, 90% das compras. Fizeram inglês, alemão, francês, espanhol, entrar primeiro no acervo; a brava língua de Leopardi ficou pra depois, talvez por ciúme das outras esquadras. Lá estava, numa caixa de papelão, a edição de 2000 euros das ilustrações de Federico Zuccaro, do séc.XVI, para o venerável poema do tiozão.
De vez em quando, por acaso, a utopia acontece. Fiquei me sentindo culpada, afinal o dinheiro do contribuinte paulista poderia matar a fome de várias crianças, ajudar gente que sofre de verdade. Isso que dá a pessoa ser doida.

Sunday, September 23, 2007

Risco azul sobre tela preta

Eu estava desanimadíssima, tendo uma crise de angústia atrás da outra. E na véspera do meu aniversário, resolvi tomar uma providência ( poderia tomar a cachaça mineira Providência também, mas só tava com uma pinga artesanal em casa, da qual tenho medo). Ou melhor, umas providências.
Eu tava sem vontade de ver ninguém, nem de fazer nada. Mas no meio de uma crise de angústia ( mais uma, nessa semana de recordes de crises de angústia) resolvi ligar pro Zé. O Zé, o Luís Fernando e o Flávio têm, em comum, uma rara capacidade: eles me salvam da angústia com três palavras idiotas e o riso franco de quem não leva a panda nem um pouco a sério. O Zé falou que o fundo do poço tinha mola, e no meu caso a mola era bastante elástica, e que era pra parar de bobagem e combinar logo de ir no Cambuci, pra espairecer. Detalhe, Zé vem do Cambuci, Luís Fernando de perto do Bauru e Flávio, de Minas, de modo que três partes da minha alma ficam contempladas ( Celso do Rio. Nunca tinha parado pra pensar nisso. Enfim, amigos e alma se espelham).
Liguei no Flávio a cobrar. Ele no CRUSP me informa bem delicadamente que se era pra ligar a cobrar, que eu ligasse do orelhão. E Luís Fernando fala no msn, sua orelhuda, vá passear um pouco, vai na igreja que você sossega o facho e dá um pouco de paz pra mim. Tão bom se sentir querida, né.
Daí no meio disso tudo me deu vontade de jantar no japonês de Barão e toca entrar no emeesseene pra combinar, e no meio da maluquice eu vejo um risco azul, fino, varar de ponta a ponta, verticalmente, a tela do Caronte. E taca falar com um, com outro, constato que o LCD ( vulgo tela) do barqueiro do inferno sofreu um abalo. Me chateio horrores, Caronte apesar de dar pau é bom companheiro diário,e a risca azul me irrita profundamente, um Poltergeist me lembrando que eu não vou ter grana pra consertar.
Enfim, com risco azul e tudo combinei japonês, caipirinha de saquê com morango e muito sushi. No dia seguinte, às sete da manhã, minha mãe como há trinta anos atrás me acorda pra vida. Me diz coisas bonitas, emocionada. Vindo dela seria o maior presente que eu poderia querer, porque há trinta anos, apresentada à minha pessoa embrulhada num cobertor pela dra. Iracema, dona Meire lascou, que menina feia.
Fui pro Piratininga, atrasada como sempre, eu sofro de várias coisas crônicas ( sinusite, asma, bronquite em geral, prolapso da válvula mitral, dislexia, déficit de atenção, esquecimento múltiplo, angústia, miopia de dez graus e atraso constante). Zé me busca no Paraíso e a gente se perde na cidade, em busca do tempo e do caminho pro Cambuci perdido. Mas uma hora começo a reconhecer coisas, coisas que não via há mais de quinze anos, sei lá eu. A saída pra Radial Leste, da Nove de Julho. A Baixada do Glicério, a rua São Paulo, onde moraram meus avós. Zé faz uma viradinha embaixo do viaduto, que em tempos idos foi a Rodoviária de São Paulo, e de repente eu me vejo com meu pai no carro, voltando pra casa. O INSS, e a gente vira mas a mão da rua tá do outro lado. E do nada surge a virada da Lavapés, e lá em cima, a Igreja Nossa Senhora da Glória, Paróquia de São Joaquim.
Tudo me comove, por estar exatamente igual. A especulação imobiliária ainda não chegou e as vilas, as casinhas operárias estão lá, bem cuidadas, as casinhas Volpi. O bairro é tranqüilo; não existe trânsito nem na Lins de Vasconcelos nem na Lacerda Franco, as duas artérias principais. As ladeiras. As casinhas. As lojas são as mesmas, vejo a ótica dum grande amigo dos meus pais, A Chapa, onde se come o melhor lanche da cidade, e do lado o Yokoyama, a pastelaria celestial. Não tem metrô, não tem ônibus, isso explica o isolamento, o ar de cidade do interior, e mesmo a deterioração é igual a trinta anos ( os mesmos cortiços, as mesmas crianças descalças na rua). Tudo me comove por brilhar, por estar lá, por existir sem grandes mudanças. Talvez eu não tenha mudado tanto também, algo dentro de mim é o mesmo.
A igreja reluz de tanta tinta suvinil, obra e graça dos paroquianos animadíssimos e que em termos de patrimônio histórico, equivale a uma bomba. Mas o que me comoveu fundo foi o fato de a igreja, no alto do morro, dar vista pro centro inteiro: a cúpula da Sé, o prédio do Banespa, resplandecem em meio à névoa, que é 99% poluição e 1% a mesma desde os séculos passados. Do morro se vê o caminho antigo pro litoral, hoje a Radial Leste, que realmente num momento vira o sistema Anchieta-Imigrantes. A igreja tem de um tudo; na verdade, um dos templos mais antigos da cidade. A paróquia do Cambuci seriam duas, a Glória e São Joaquim, mas a segunda igreja nunca foi construída, restando pro pequeno aguilhão neogótico o amor irrestrito do bairro. Na minha lembrança e nas fotos do meu batizado, a igreja era sóbria, fazendo par com a Sé. Eu e o Zé trocamos observações sobre milhões de coisas, e eu fiquei num estado de espírito muito peculiar que se convencionou chamar felicidade.
Fomos almoçar na Móoca, bairro da família dele, e depois rumamos pra Cultura do Nacional, onde encontraria o mineiro Flávio. No café, uma surpresa que foi um presente do acaso, dos deuses, do Deus hebreu: avisto o velho de olhos negros dr. Na Prática, acompanhado de lindas mulheres, dentre as quais a eleita do seu coração. Falamos sobre tantas coisas. Sobre o passado mas principalmente calamos sobre o mais importante, o laço de afeto, como convém às grandes ocasiões. Celso me conta do sucesso inesperado do Meio do Caminho no Banco Central (???), então aos meus leitores de lá, um beijo carinhoso.
Depois foi Flávio, me presenteando com Ataíde e com seus olhos azuis e sua mansidão das Gerais. Chorei muito. De felicidade. Depois amigos no celular, de longe, de perto, de todos os lugares. Sou feliz. No jantar, uma conversa sobre se existe justiça ou não no mundo. Se vale a pena ou não ser ético. Sim, vale. Porque a verdadeira felicidade só existe na beleza do momento em que a gente se reconhece gente.

Friday, September 21, 2007

Envelheço na cidade

E essa semana deu zica no Ira. Mari, esposa do Mário que toca com os caras, falou que o Nasi se arrombou com o irmão, mas que ninguém da banda tá ligando muito pra isso. It's rock and roll, all this... bullshit. Whatever. Mas desde a minha remota juventude não entendia Envelheço na Cidade. Agora entendo.


Corta pro Minhocão. No Fusca volto pra casa, no Cambuci. Corta por pátio do Divino, em Jundiaí, venta muito em Jundiaí e as vidraças de casa não tem vidros, meu tio roubou dinheiro do meu pai. Corta pra eu olhando a serra. E corta pra eu olhando o Lago Michigan. Nunca pensei que iria geograficamente tão longe, sendo exatamente eu mesma. Nunca pensei que aos nove anos começaria a roer as unhas e a ter sinusite, e eu com 30 e as unhas roídas e a cabeça atravessada pelo mesmo peso. Mas o lado bom é que não me dou tanta importância assim, de modo que sei que os cabelos brancos vão aumentar, e me sinto livre, leve, como há muito tempo não me sentia. Quando a gente é muito jovem, a gente acha que sabe quem é. Mas não sabe. Depois percebe que você é um monte de coisas das quais fugiu durante muito tempo. E pára de fugir. Corta pra mim em Madri, me olhando no espelho. Ou corta pro dia em que perdi um filho, sem o saber. Que perdi meu pai. Que conheci meu grande amor. Que enfrentei meu medo, e que deixei minha angústia me dominar. Que ganhei minha geladeira e meu fogão de brinquedo, de lata. E um Ursinho Carinhoso, o rosa com um arco-íris na barriga. Corta pro momento em que falei demais. E pros que falei de menos. Que escolhi o tema da minha tese andando no estacionamento da pós do IFCH com o Luiz, indo e vindo. Corta pros amigos, zoom no meu coração.

Thursday, September 20, 2007

Miscelânea

Madonna del Padiglione. Sandro Botticelli, c.1493. Têmpera sobre madeira, 65 cm de diâmetro. Milão: Pinacoteca Ambrosiana.

Quando eu era criança, tinha verdadeira paixão por estojos em geral. Lembro dos de madeira, com tampa deslizante, depois os de tecido, os fatídicos de botão ( a gente apertava botões e lá vinham uma lupa, uma régua e outros rejuntes) e os de lata, pesadelo da classe ( caíam no chão e já viu). Lembro dos de couro, com elásticos pra prender os lápis. Não tive muitos lápis, canetas e lapiseiras, nem estojos muito bonitos. Sofria nas aulas de Arte, no ginásio, porque só tinha lápis da Labra e a professora quase me bombou por isso, nem tintas e pincéis adequados.
Então, hoje resolvi escrever um post-estojo de presente. Uma Madonna do Botticelli das menos conhecidas, dos "amigos de Sandro" como dizia o historiador Bernard Berenson.
Nunca estudei com afinco a chamada Teoria Crítica, apesar de um amor infundado por alguns dos aforismas da Dialética do Esclarecimento ter me levado a um dia, surpreendemente nessa encarnação, ter defendido um mestrado sobre Adorno. Nunca havia lido Walter Benjamin, até o dia de hoje, onde o Rua de Mão Única me chamou, na estante. Me senti várias vezes ali, o que não me surpreendeu; uns trechos do Diário de Moscou haviam suscitado isso, e eu sou muitíssimo ignorante pra realmente compreender Benjamin. Mas lá vai uma frase do grande pensador: "O olhar é o fundo do copo do ser humano", Walter Benjamin. Rua de Mão Única, pg.49.
Não sei o que fazer no dia do meu aniversário, um sábado que promete ser um forno. Aliás, não sei o que quero fazer da minha vida, mas tudo bem. Andei angustiada e triste, como sempre, mas não desesperada. Sem São Paulo, o meu dono é a solidão, como entoa 365 no Neguinho do Pastoreio. Tinha pensado em ir assistir uma missa na igreja do Cambuci, tive vontade de ver umas pessoas e com toda a sinceridade, tive vontade de sumir do mapa e só aparecer cinco dias depois. Mas faço 30 anos, o tempo urge e ruge. Num telefonema, um amigo me devolve ao normal da vida. Segundo ele, não cheguei ao fundo do poço, que seria usar calcinha sem elástico ou com o elástico frouxo.
E hoje eu tenho lápis, canetas Stabilo, e um jogo completo de coisas da gatinha Marie, dos Aristogatas. Não derrotei tanto assim, apesar do sol maldito que peguei no meio-dia pra poder conversar com quem eu queria. Aquele calor, o sol e o nervoso fundiram meus miolos, mas a tudo a gente se adapta.