Friday, April 07, 2006

Paulistânia

Tenho a alma deveras paulistana.


A padaria da esquina, os sobrados, os vários tons de cinza e azaléias. O trânsito na Paulista, o Fauno do Trianon, o pastel do Yokoyama, corre e atravessa a Sé, corre e atravessa a Brigadeiro, desce a Arcoverde e sobe a Teodoro Sampaio. Da Lapa a Móoca, a nova estação de metrô no Ipiranga. Volpi, Adoniran, Oswald e Mutantes. O peso das palavras quando ditas na USP. O café e a Oscar Freire. O caldo de cana e a Pinacoteca. E um dia me perdi e achei o Lasar Segall, me perdi e achei o Ibirapuera, mas entrei no portão errado, e tudo nessa cidade é longe e não tem retorno.

Thursday, April 06, 2006

Documentos

Hoje fui tentar resolver duas pinimbas.
Minha carteira de habilitação venceu em setembro, e eu não votei nem justifiquei no referendo das armas.
Bom, chegando na Justiça Eleitoral, uma senhora me pede que eu não faça a regularização do meu título porque o negócio estava burfado de gente. Essa semana é a semana da transferência dos títulos de cidade pra cidade e regularização da situação de gente que nunca teve título...
Fui no Poupa Tempo. Precisei tirar uma foto 3x4, onde obviamente saí com cara de doida, e pagar sessenta pilas. Descobri que vou ter que fazer um curso na auto-escola, mais sessenta pilas, na semana que vem. Que beleza.
Vou no Bradesco, também lotado, pagar uma taxa de um congresso que quero participar, no final do mês. A maquininha dá um pau danado. Depois fui na Renner pagar prestações vencidas e ver se achava algum paninho pra mim. Nada ficou bom, eu tomei chuva na rua e meu cabelo tava um desastre. Vi uma roupinha na vitrine, a blusa M ficou grande demais, a calça 44 pequena demais, e a jaqueta jeans uma estopa. Fiquei parecendo um espantalho!
Na outra loja, um vestido lindo de morrer, estampado, fundo preto e estampa verde. Totalmente fora das possibilidades econômicas do momento, o vestido me deixou uma pessoa decente, quiçá interessante. Mas pensei, cara, nem sapato tenho pra usar com essa coisa linda.
Na auto-escola, tinha uma maquininha pra verificar digitais (???) e meus dedos não batiam. Eu fiquei me sentindo uma ET, pensando no vestido e no fato de ter que gastar grana com besteira como auto-escola, segunda via de documento, e foi estranho ver roupas de inverno nas lojas. Depois do frio de Chicago, isso aqui é bolinho!

Wednesday, April 05, 2006

Romântica, muito romântica

Com esse negócio de baixar MP3, as lembranças vêm e vão.

E comprovo um traço da minha personalidade que é fogo. Eu sou muito romântica, chego a ser brega demais, é horrível.
Um olhar mais doce, um telefonema, uma atenção,e eu me derreto. Nossa, tive tantas paixões platônicas, daquelas platônicas mesmo, tipo Castro Alves, Álvares de Azevedo, um bolero sem fim essa minha vida.
E ao mesmo tempo, esse mundo vive dentro de mim, porque a timidez me acompanha. Não tenho coragem de me declarar, nunca; tento chegar perto, brincando ou inventando uma desculpa mais ou menos racional, sempre.
Eu tinha uns quatorze anos e gostava dum cara do colégio, que não dava a mínima pelota pra mim, claro. E um dia, na saída das aulas, criei uma coragem absurda e perguntei as horas pra ele. Detalhe: no pulso, eu tava com um relógio Casio gigante, amarelo... o cara olhou pra mim pensando, mas essa mina é louca... e eu, esse relógio tá quebrado...
Agora, eu resolvi escancarar. Tô com quase 30, não vou mudar nem melhorar. Durante muito tempo, meu projeto era virar uma mulher desencanada, solta, relaxada e moderna. Mas não adiantou nada, então é melhor assumir. Sim, eu gosto de Roberto Carlos, sim, eu adoro flores, e sim, eu me apaixono com uma facilidade ridícula. Se chorei ou se sorri, o importante é que emoções eu vivi!

Monday, April 03, 2006

Pérolas musicais

Descobri que uns maluquinhos adoráveis estão disponibilizando, no Orkut, links pra baixar músicas. Ou seja, essa noite eu não dormi porque fiquei baixando pérolas dos cancioneiros internacional e nacional.
Gente, tem de tudo, e isso me alegrou, porque minha velha mania, a Rádio Terra, foi por água abaixo. Os caras decidiram do nada que não se pode mais ouvir as canções por mais de 30 segundos, um verdadeiro saco. Um menino muito inteligente montou uma comunidade no Orkut, "A Rádio Terra perdeu a graça", e eu entrei, lógico...
E aí, é um problema. Se você ouve a Rádio Yahoo, não pode escolher a seleção, e só pode pular cinco músicas. E se você quer baixar MP3 por aí, é sempre aquela preocupação com a infestação de vírus.
Mas o pessoal no Orkut resolveu usar um site alemão de compartilhamento de arquivos, e o processo fica rápido e seguro. Consegui músicas que queria há anos, desde o tempo eu que eu gravava tudo que queria em duas fitas cassete, gravadas e regravadas de forma absolutamente esquizofrênica.
Baixei coisas que são caras ao meu coração, mas que são verdadeiras porcarias musicais. Outras nem são tão ruins assim, como as do Pepeu Gomes, que eu acho um puta músico injustiçado. Isso me deu um pouco de alegria. Ontem me olhei no espelho e me vi envelhecida e sofrida, olhar em viés, anguloso e dolorido. Agora preciso ir dormir, insônia é fogo.

Friday, March 31, 2006

Quiproquós culinários

Se eu pudesse, teria um cozinheiro ou cozinheira trabalhando pra mim. Já imaginou o luxo, você chegar num profissional e falar, hoje quero comer bolo de fubá?
O problema é que, se tem uma coisa que me deixa louca, é errar com comida. Lembro de uma vez que, meio sem grana, comprei uns bifes e couve. Mas não é que eu salguei demais a couve? No domingo, gosto de estourar pipocas. É um costume antigo, quando eu era criança meus pais estouravam pipoca na hora dos Trapalhões. Estourei, as pipocas ficaram lindas, mas eu salguei demais.
Essa semana foi corrida, mas precisei enfrentar a cozinha em duas ocasiões. Na primeira, esquentei um macarrão que estava estrategicamente na geladeira e fiz uma omelete. Graças a Deus, o meu anjo da guarda cuidou para que a dita cuja ficasse bem gostosa, se bem que meio esbodegada, porque na hora de virar eu sempre desmonto a supracitada.
Hoje, descongelei dois pedaços de filé mignon, gentilmente cedidos por minha sogra, e fritei no clássico esquema pouco óleo e frigideira pelando. Depois, passei uma cebola e lasquei farinha de rosca. Essa é a clássica farofa de raspinha, inventada pela minha mãe e que era a nossa paixão nos dias do bife e da salada de agrião.
De outra feita, fui fazer um bolo,a receita tirei do jornalzinho dos alunos do IA. O bolo embatumou. Que raiva.
Mas me orgulho de uma canja que fiz, na madrugada, pra mim e pro André, que estava em casa estudando. Ou das lentilhas, agora que começar a esfriar vou atacar de lentilha, sopinha de feijão, e mandioquinha... agora, arreda o Exu tranca-panela!

Monday, March 27, 2006

Águas passadas não movem moinho, mas a SANASA cobra

Às vezes, tantos anos passam diante da minha frente... tantas coisas. Tantas recordações. Algumas eu perdi no meio do caminho, outras se transformaram no pão de cada dia, outras incomodam tanto que ficam anos na gaveta, até um dia ressurgirem e reabrirem feridas.
Tantas coisas... mas não dá pra viver no e de passado. Quero planejar meu futuro. No sábado, meu irmão veio, de Belo Horizonte, e estava na casa da minha mãe.
Quando meu irmão nasceu, eu tinha dois anos. Ele foi o meu grande afeto na infância, era tão ligada a ele que na hora de pôr o caçula na escola, a coordenadora pedagógica do colégio aonde eu estudava aconselhou meus pais a matricularem o pequeno em outro lugar, porque senão eu o sufocaria de mimos e atenções na hora do recreio. Eu sou uma Felícia, aquela menininha psicopata do desenho animado, que ama e aperta tanto os bichinhos que os esfola vivos. Dá vergonha, eu não consigo me controlar, se gosto de alguém chego a ser meio agressiva.
Depois, na adolescência, o meu grande amigo se transformou em alguém que a princípio me odiava, e depois demonstrava uma frieza tão grande que me desconcertava. Tivemos uma fase terrível, depois que nosso pai se foi. Ele chegou a fazer coisas muito horríveis, mas depois que saiu da casa da minha mãe, meu irmão vem se tornando em alguém afetuoso, às vezes engraçado, que me surpreende. No sábado, eu combinei de ir almoçar com eles na casa da minha mãe. Estava com muita enxaqueca, e liguei pedindo uma carona. Meu irmão veio me buscar, com torcicolo e tudo, e quando eu entrei no carro, pela primeira vez em muitos anos, ele me sorriu um sorriso igual ao da infância.
Eu sei que as coisas não são perfeitas. Que a vida é difícil. Sei que sou muito equivocada, que tenho defeitos graves e que muitas vezes errei. Mas também sei que depositei muito, muito afeto, em muitas situações, com muita gente. E é engraçado, você planta aqui, colhe ali. O mundo não é tão caótico quanto parece. Um sorriso, um abraço, um olhar de boa vontade. E você ganha o dia e conquista um continente.

Wednesday, March 22, 2006

Ainda mais essa...

No meio da zona que está minha vida ( que vocês podem bem imaginar, entre seguro de carro, pegar ônibus, fazer comunicaçao pra Encontro de História da Arte, etc, etc), ainda tem mais um episódio da série Pequenas Tragédias Cotidianas.
Cheguei dez horas da noite em casa na segunda-feira, carregada com umas comidas que minha sogra gentilmente me cedeu, devido a atual situaçao precária do meu lar. Pisei num envelope pardo com o temível simbolinho da FAPESP.
Neguinho resolveu me cobrar uma grana preta da viagem pros EUA. A conta deles nao bateu com a minha. Mas é uma grana preta, e eu, lendo tal correspondência, quase tive um ataque cardíaco. Estou sem grana pra nada, e ainda mais essa. Tô sendo cobrada por uma grana que eu nao gastei indevidamente.
Entrei em desespero. E aí acho que bateu tudo, o trauma do assalto, a tristeza por várias coisas, que ando sentindo há meses, e chorei. Chorei a noite toda, literalmente. Nao consegui dormir, fiquei literalmente em pânico.
Ontem precisei resolver rolos do carro, que é outra novela. Infelizmente, acharam meu carro depenado, e na sexta-feira eu e Celo fomos pra Sumaré buscar o falecido. Hoje, no meio da zona do meu sogro, liguei na Fundaçao e falei com a moça responsável pelo meu caso. Como eu desconfiava, eles nao entenderam que eu tive que pagar três meses de aluguel em Chicago, mesmo ficando dois meses e meio ( nao importa, aluguel é uma coisa mensal no mundo todo, como se sabe). Moral da história: preciso escrever um ofício explicando que Jesus nao é Genésio, e esperar a misericórdia do povinho FAPESP. Gente, ainda mais essa. Tá demais a urucubaca.

Saturday, March 18, 2006

Minha primeira coluna

Então, aí está minha primeira coluna pra Folha Popular, jornal de Lençóis Paulista, SP:

A Pequena Notável


É com grande satisfação que inauguro minha participação na Folha Popular. Meu projeto é escrever, semanalmente, sobre livros, exposições, CDs, filmes, revistas e notícias, ou seja, esquadrinhar e compartilhar impressões sobre a chamada vida cultural.
Um lançamento editorial de peso do final do ano passado, e que está em destaque nas livrarias, é a biografia de Carmen Miranda, escrita pelo consagrado jornalista Ruy Castro ( Carmen, Editora Companhia das Letras, 632 páginas, R$55,00).
O livro, fruto de exaustivas pesquisas no Brasil e nos EUA, impressiona pela acuidade nas descrições de alguns episódios, como seus primeiros espetáculos na terra do Tio Sam, o show mal sucedido, no Cassino da Urca, para os homens fortes de Getúlio Vargas, em 1940, e sua morte trágica e prematura.
Um dos pontos fortes da biografia está na reconstrução do cenário musical e artístico do Rio de Janeiro das décadas de 20 e 30, de onde Carmen emergiu, ao lado de cantores legendários como Mario Reis, Sylvio Caldas e Aracy de Almeida, gravando as composições de Ary Barroso, Dorival Caymmi, Cartola, Lamartine Babo, Assis Valente, Noel Rosa... os nomes já dizem por si próprios. No Rio dos primeiros carros, primeiros playboys, das patuscadas e dos corsos no Carnaval, a portuguesinha chapeleira encontrou a forma máxima de sua expressão artística: o canto.
A maestria de Carmen como cantora, como bem ressalta Castro, é imbatível. Suas interpretações cheias de recursos e colorido, sua vivacidade e seu perfeito controle da voz levaram a música popular ao nível de grande arte e, ao mesmo tempo, numa história que põe muita teoria sociológica no buraco, artigo de consumo de massas.
Talvez a única observação a ser feita ao monumental trabalho de Castro é o fato do biógrafo acreditar ter encontrado a “verdadeira”Carmen, numa espécie de positivismo nas explicações das ações da personagem. Um exemplo é a narrativa sobre as relações amorosas mal fadadas da artista, especialmente o longo relacionamento com o músico e líder do Bando da Lua Aloysio de Oliveira e o casamento com o americano David Sebastian. Não resta dúvida que nos dois casos Carmen foi vítima de circunstâncias sofridas e seus parceiros não souberam amá-la e cuidar de sua saúde e bem-estar. Mas alguns detalhes íntimos, Castro deduziu de alusões feitas por suas fontes e o jornalista, que tanto pretende encontrar a ‘realidade’ sobre a vida da artista, cria uma narrativa de romance com poucos elementos documentais.
Mas o desejo principal é que a biografia de Castro, enfim, traga uma nova visão desta que foi, sem sombra de dúvida, nossa maior estrela, de vida tão sofrida e de memória tão injustiçada, como tantas outras figuras da vida nacional. Talvez esse tenha sido o maior pecado de Carmen: ser brasileira demais.

Homens na Cozinha

Escarafunchando meus arquivos, achei a receita do macarrão que comi na casa da Ana e do Gabriel, em Chicago! Essa receita é da dona Ercília, avó do Gabriel. Gente, é muito fácil e fica uma delícia! Eu e Celo fizemos hoje, é perfeitaaaaaaaaaaa....
Ingredientes:
1/2 quilo de macarrão tipo penne;
20 tomates bem maduros (mas firmes);
sal;
pimenta-do-reino;
azeite extra­-virgem;
farinha de pão (tipo italiano, de preferência); se não achar, farinha de rosca serve;
um punhado de queijo parmesão e
manjericão fresco.

Modo de fazer:
Para 1/2 quilo de macarrão cozido em muita água (o sal deve ser acrescentado depois de já fervida a água), prepara-se o seguinte molho: distribui-se numa assadeira 20 tomates bem maduros (mas firmes) cortados quatro vezes, com casca e semente. Adiciona-se sal e pimenta-do-reino a vontade, e rega-se fartamente com azeite extra-virgem. Joga-se a seguir dois fartos punhados de farinha de pão (tipo italiano, de preferência), um punhado de queijo parmesão e leva-se ao forno pré-aquecido por cerca de 20 minutos. Serve-se em prato fundo também previ­amente aquecido, sobre o macarrão. O toque final é dado por raminhos de manjericão fresco, e o prato está pronto.
Olha, a receita do bolinho de chuva é perfeita. Essa aí de cima não tem erro, por isso mesmo se chama Homens na Cozinha! Ah, esqueci, rende pra umas quatro, cinco pessoas, querendo fazer pra menos, diminuir os tomates e o macarrão... tô pensando em adicionar, da próxima vez, alho... o bom que isso aí é barato de fazer, comprei tudo e deu menos de vinte reais...

Geraldo Alckmin, a recuperação da panda e graças a Deus, Mozart

Muito obrigada aos meus queridos leitores pelas mensagens de apoio e carinho nessa semana tenebrosa que passei.
Pra variar, o No Meio do Caminho foi a válvula de escape. Eu me sinto com muito ódio, frustrada, impotente. Ontem, fui buscar meu carro em Sumaré. A seguradora me informou que eu tinha direito a uma assistência, um dia de táxi. Fomos eu e Celo pro 4o DP de Sumaré, que fica no bairro do Matão. O motorista alegou outro compromisso e nos deixou lá, dizendo que depois era só ligar no 0800 da Companhia e solicitar outro carro.
A escrivã preparou os documentos, mas o delegado desse DP está de férias. Precisávamos ir para o 3o DP, no bairro de Nova Veneza, do outro lado da Rodovia Anhanguera, pegar a assinatura do delegado de lá, e depois ir para o pátio onde estava o carro. Ligamos no 0800 e fomos brutalmente atendidos por uma vagabunda do telemarketing ( desculpa a revolta, gente) e ela nos informou que tínhamos direito a apenas UMA assistência, ou seja, "vocês que se virem, a pé, num município imenso como Sumaré, pra buscar o carro de vocês". Nem precisa dizer que o Celo resolveu a parada no método de seus antepassados pugliesi ( da velha Apúlia, sul da Itália), ou seja, no grito.
Enfim, no 3o DP, no meio do nada, desolado como as pessoas que estavam lá pra serem atendidas, pensei na situação política nacional. Na terça-feira, soubemos que o PSDB escolheu Geraldo Alckmin pra candidato a presidente. A situação nunca esteve tão preta. Esses quatro anos de PT, um sofrimento ver o partido desmantelado e corrompido. E agora, esse filho da mãe, um cara absolutamente conservador, da Opus Dei, do lado do mal mesmo. E que ainda faz esse discursinho "não sou político, sou responsável e competente". Sei, sei, a gente viu a competência do senhor no governo do Estado, o seu pessoal é bom pra pedágio.
Enquanto isso, busco um consolo em alguma coisa. Fui pra cozinha, fiz sagu, macarronada, e li numa sentada "Mozart, Sociologia de um Gênio", do Elias. Fico escutando sem parar o Quarteto de Cordas K. 387, na gravação do Mozarteum Quartett Salzburg. Tem no Terra Rádio e ainda dá pra ouvir, porque esses dias eles modificaram todo o site e agora a gente não consegue ouvir mais quase nada. Lá se foi meu i-pod de pobre.
Mas que é lindo esse universo do Mozart... salva a gente de qualquer coisa.

Thursday, March 16, 2006

Exorcismo

Sim, eu perdi meu pai aos vinte anos;
sim, eu quase morri aos quatro;
sim, eu quase morri de novo aos vinte e seis num acidente de carro;
sim, eu perdi um bebê aos dois meses de gravidez;
sim, eu amei um cara por cinco anos, e ele não queria nada comigo;
sim, é chato admitir, mas eu ganhei trinta quilos em dez anos de universidade;
sim, eu fui vítima duas vezes de assalto à mão armada e perdi muita, muita coisa nessas jogadas;
sim, eu me ferrei várias vezes. Levei vários foras, perdi várias amizades e empregos, a oportunidade de ficar calada, a paciência, muitas vezes me desesperei e tive ataques histéricos, fui infeliz e fiquei amargurada, teve horas que não tinha grana pra nada, nem pra comer, e precisava me humilhar de pedir emprestado pros amigos, tomei vários porres, dormi com os caras mais errados, fiz fofoca e falei mal dos outros, briguei horrores com minha mãe e com muita gente, fui acusada de várias coisas e fui traída e traí. E boto a cabeça no travesseiro, e ainda consigo dormir. Porque sou normal.

Wednesday, March 15, 2006

Carinho

Não consegui dormir depois do ocorrido de ontem.

Passamos a madrugada na delegacia, briguei com meu sogro e fui deitar cinco da manhã.

Acordei e me pus de pé porque precisava vir pra Unicamp, entregar uma papelada pra querida tia Lygia. Vim de carona com o Lucas Cabeção, primo do Celo e cabeça de abóbora nas horas vagas. Foi a primeira pessoa fofa do dia, tirante minha sogra e o próprio Celo.
Vim pra velha Unicamp, encontrei Pri. A minha velha comadre Pri, que sofreu o mesmo que eu ontem. Fiquei desesperada ao saber que a Camila, minha afilhada e grande paixão, sofreu esse susto horrível. Mas abraçar a Camila hoje foi uma das melhoras coisas da minha vida, assim como abraçar minha sogra e o Celo.
Encontrei milhões de amigos queridos de todos esses anos de Unicamp nesse longo e sofrido dia. E todos tiveram pra mim uma palavra de afeto, de conforto, de carinho... os velhos mestres Fernando e Josué. Lygia, Yna e as meninas do IA. Beto, Luiza, Luis Fernando. Camila e Pri. Rogério... tantos anos, tanta luta e alegria. Tive uma felicidade genuína ao ser reconhecida pelo grande mestre Gabriel Cohn. Simone. Cláudio. Gente que vai e vem, que pode ficar longe um tempo, mas que está junto no coração. Isso bandido nenhum tira da gente.

Violência

Infelizmente, aconteceu uma coisa muito chata com a gente ontem.
Saímos, eu e Celo, de nossa aula de italiano, felizes. Fomos para a casa da família dele, aqui em Barão Geraldo. Chegando em frente à casa, reparei em dois rapazes, bem vestidos, com jaquetas e mãos nos bolsos. No calor dos idos de março campineiros, pensei, mas são assaltantes. Demos um tempo, e os caras foram embora.
Entramos, janta na mesa, fui até o escritório fazer um telefonema, passou-se uma meia-hora, quando vejo o Celo na soleira da porta, me chamando. Pensei que fosse pra jantar.
Não era. Do lado dele, o cara da rua, encapuzado, com uma arma na mão.
Ficamos quatro horas no quarto do meu cunhado, de bruços na cama, rendidos e assustados. Levaram nossos cartões de banco, e os dois assaltantes, com celulares modernos, comunicavam-se com caras que recebiam os cartões, e iam nos caixas retirar o dinheiro. Percebi que tinham muitos cartões em seu poder.
Brincaram de roleta-russa nas nossas cabeças; um deles buscou a bombinha de asma da minha sogra. Depois de um determinado momento, eles resolveram limpar a casa, já que as vinte e duas horas chegaram e com elas o limite do saque nos bancos.
Foram quatro horas de pesadelo. No final, o que estava com a gente nos deu seu celular, e o outro nos ameaçou de morte. Foram embora com muitos objetos de valor ( computadores, a Porpetta, etc, etc) no meu carro.
Na 4a DP, no Taquaral, soubemos de quinze casos parecidos em Barão. Chego no IFCH hoje, aconteceu o mesmo com a Pri, sendo que os caras puseram a arma na cabeça da minha afilhada Camila, de doze anos.
O policial civil, gentil, que nos atendeu, disse o que eu já desconfiava. Campinas está na mão dessas máfias, o assassinato do Toninho foi só o sintoma mais grave do desamparo que a gente vive. Na delegacia sem piso, lembrei do Hospital Mário Gatti, onde fui parar depois de um acidente de carro que quase levou minha vida. As forças do mal estão reinando em Campinas.

Monday, March 13, 2006

Sonhos

Uma vez sonhei que estava no Inferno, abraçada ao Grande Lúcifer. Era tudo escuro e ele era peludo, pêlos longos de velho urso de pelúcia. Estava bom lá, quente e escuro, mas de repente pensei, aqui não é o meu lugar. E comecei a rezar Pai Nossos, e a cada Pai Nosso eu subia, subia um pouco mais. Me desgrudei do Caramunhão e passei a ver uma luz forte lá em cima. O Inferno era um grande poço, e eu subia, subia, à medida das orações. Terminei o sonho lá em cima, na luz.
Outra vez sonhei que tinha morrido. E estava num lugar como a Unicamp. Era igual à Unicamp, um lugar de estudo, com muita gente. Era como a Biblioteca Central, e eu consultava grandes listas, como listas telefônicas, amarelas, cheias de nomes. Procurando pelo sobrenome, vinha a lista de todas as pessoas de uma família, mortas, vivas ou a nascer. No meu sobrenome, vi uma lista e no final, o nome de dois homens, com datas vazias. Alguém ao meu lado me explicou que eram os nomes de pessoas que iriam nascer. E fiquei feliz e pensei, mas são meus filhos! E depois constatei que não, seriam meus sobrinhos, porque afinal eu já estava morta.
Mais um sonho, o último. Sonhei que o velho Instituto de Filosofia e Ciências Humanas era o prédio da minha infância. Eu subi as escadas e cheguei ao último andar. Lá, vi, à direita, o homem que amei sem ser correspondida por alguns anos, chegando, de preto, muito gordo. À esquerda, vi minha amiga querida Dani, de preto também, muito magrinha. Ela me disse: isso aqui não dá mais pra gente, essa estrutura aqui tá velha, passou, datou. Vamos embora. E me pegou pela mão e começamos a descer as escadas rápido. Meu antigo amor foi atrás da gente, e a certo momento disse, mas espera, eu ajudo vocês a descer. E nos pegou nas costas, e nos levou para fora.

Desconforto ligeiro

Tem dias que a gente sente um desconforto.
É a conta que vem alta demais, é a lembrança do que poderia ter sido e não foi, é o que não dá certo, é algo que parte a delicada casquinha com a qual a gente envolve o dia-a-dia.
E você fica ali, sem saber por onde recomeçar a delicadeza, o equilíbrio, a pureza da alegria dos dias.
Hoje de manhã cedo estava feliz e despreocupada. Desci e veio o condomínio alto demais. Fui pra universidade dar minha palestra, o Data Show se recusou a conversar com meu lap, cuja bateria descarregou de vez.
Um olhar mais duro de uma pessoa que admiro muito. Um almoço com amigas queridas e gente muito chata. É o café que veio frio, e você se lembra do mal estar, da angústia.
A vida às vezes dói de leve.

Thursday, March 09, 2006

Palestra, ou um pouco de marketing

Vou dar uma palestra na segunda-feira.
De vez em quando, o povo na Unicamp pede para eu dar umas canjas... eheheheheh, sabe como é a vida de panda pop star!
Vou falar no curso de Folclore, na sala AP 07 do velho Departamento de Artes Plásticas, no IA, Unicamp, Cidade Universitária Zeferino Vaz ( mais conhecida como o canavial que fica onde Judas perdeu as botinhas)...
Enfim. O professor Amir, responsável pela disciplina, junto com minha ídola Lygia Eluf ( uma das maiores artistas plásticas desse país), me convidaram para um momento panda assassino. Explico: os garotos manifestaram na primeira aula do curso insatisfação com as discussões sobre a antinomia cultura popular e cultura erudita. Quero dar uma de louca, vou lascar que esse negócio não existe, é coisa de burguês que coleciona Mestre Vitalino. I'm crazy, I'm very crazy, capisce?

Tuesday, March 07, 2006

Celo e a faxina

Esse post é pra declarar meu amor pelo Celo, meu fofo e adorável ursinho canadense.

Seguinte. Ontem, recomeço de aulas na Unicamp, e lançamento do livro do meu orientador em São Paulo. Entreguei artigos encomendados. Depois de dois meses de caos completo, o Celo, enquanto eu singrava a Rodovia dos Bandeirantes de volta a Campinas do Mato de Dentro de Jundiaí, trouxe a Júlia e os dois botaram ordem na toca da panda desmiolada.
Gente, eu cuido da minha casa, durante muito tempo fui faxineira, cozinheira, passadeira, lavadeira, do lar. Mas nesse verão eu realmente precisei escrever. Questão de vida e morte. E não deu tempo de lidar com a economia doméstica. Minha casa ficou um lixo, nem eu que vivi em república e tenho tolerância grande à zona, não tava mais suportando. E eu me conheço, quando chega nesse ponto, eu vou limpando, limpando, mas não tenho ânimo para a GRANDE FAXINA, sabe como, aquela que você começa de manhã cedinho e termina com o Jornal Nacional?
O Celo ainda deu um jeito no escritório, que tava uma filial do Inferno de Dante. Agora está totalmente fofo, estou com minhas roupas todas lavadas, e queria dizer, Celo, eu te amo muito, muito, muito, só você pra me aguentar... e, ah, você está aprovado de ursinho faxineiro!

Sunday, March 05, 2006

Brinquedos Estrela

Esse post veio de uma conversa nostálgica com o Clis no msn... beijinhos, Clis!
Eu morro de saudades de vários brinquedos Estrela que tive e não tive... vivo procurando no Mercado Livre e vendo a "cotação" de um Genius, de um Jogo da Vida... alguns vou comprar, mais pra frente.
A Estrela é uma fábrica brasileira, e nas décadas de 60, 70 e 80 tornou-se uma das melhores marcas de brinquedo, ganhando prêmios internacionais e tudo o mais. Como muita coisa no nosso país, quebrou com a abertura para importações e a concorrência com os brinquedos chineses de 1,99. Agora a fábrica parece estar melhor das pernas, e eles têm um site bonito e alegre. Também organizaram, em São Paulo, um museu do brinquedo Estrela.
O engraçado é que muitos brinquedos que eles próprios fabricaram, eles não têm. Não faziam arquivos, e aí... muita coisa vem de doação de colecionador.
Genius e Jogo da Vida, eu não tive, bem como o Arthur, aquele robozinho dourado que era febre e atravancava o armário de quem tinha. Eu e meu irmão tivemos um Ferrorama, três Aquaplays ( um quebrou, os outros dois estão inteirinhos e funcionando), e um negócio que eu vou comprar custe o que custar... era um brinquedo chamado Mini-Cine Disney Estrela. Vocês se lembram?
Era uma espécie de pistola vermelha, onde se encaixava um retângulo azul. Girava-se uma manivela e a gente via um filminho... no caso, era um filminho do Mickey como João do Pé de Feijão. Eu adorava a parte que o Mickey enrolava o gigante numa corda e o forte porém estúpido brucutu caia na terra....
Esse Mini-Cine foi relançado, mas agora é bem menor e só passa um filminho. No Mercado Livre é caro pra caramba... mas quero comprar. Também quero a boneca Emília. Eu tinha uma e uma faxineira roubou... chato, chato. Também queria achar um mini-aspirador de pó que perdi porque minha mãe esqueceu as pilhas dentro!
Lá em casa a gente moía os brinquedos... moía tanto que minha mãe decidiu separar os ditos em dois tipos: os que ficavam nas caixas e nos maleiros, e a gente só podia brincar em ocasiões especiais, e os de bater na parede, jogar na caixa de areia e assim por diante, que ficavam num cesto de vime ( os pedaços deles ficavam no cesto de vime, hahahahaha)... todo dia era esse cesto revirado e a gente querendo escalar o armário pra chegar no maleiro. O ser humano nunca tá satisfeito!

Saturday, March 04, 2006

Escrever para viver

Um dos melhores livros que li na vida foi o "Um Teto Todo Seu", da Virginia Woolf.
A escritora nesse livro defende a seguinte tese: de que uma mulher ( e homem também, o ser humano de forma geral), para escrever, precisa de um canto seu. Precisa ter um espaço físico e psicológico para ficar ensimesmada. Não adianta, enquanto a realidade te cobra lá fora ( é faxina, é família, é conta pra pagar, é almoço pra fazer) você não tem tempo nem cabeça pra adentrar no mundo das letras.
Por vários motivos, nos últimos anos dei aulas, muitas aulas, trabalhei em livraria, em instituto de pesquisa, etcs, etcs. Desde a minha experiência em Chicago, vivo algo inédito: eu escrevo pra viver. Literalmente. Nesses meses do verão, pela primeira vez precisei atender com urgência a FAPESP e encomendaram artigos pra mim. Os da Folha Popular ( a primeira coluna sai essa semana) e outros, que mais pra frente eu aviso aonde vão sair.
É legal e ao mesmo tempo, estranho. Minha casa virou uma bagunça. Nada da arrumação perfeita que minha mãe e a Luiza davam enquanto eu estava fora o tempo inteiro. Vivia fora de casa. Só nos finais de semana reparava no quanto meu apê era uma casinha de bonecas. Agora tudo está uma grande zona de guerra. Uma amiga veio aqui essa semana e eu vi pelo olhar que ela lançou no meu escritório que tudo está uma verdadeira peroba.
Eu, que vivia nas Renner, C&A e brechós da vida tendo que me virar pra me vestir pra trabalhar, agora uso as mesmas roupas velhas de guerra. Me dei conta essa semana que preciso comprar alguma coisa, volta às aulas, seminários e congressos e eu não posso usar a mesma saia florida que já está no bico do corvo.
Por outro lado, não me aborreço mais com gente chata que precisava encontrar, com cafés intermináveis, com o trânsito, com coordenadores pedagógicos e alunos rabugentos. No fundo, quer saber? Gosto de escrever pra viver.

Friday, March 03, 2006

Abandono de bebês

Nos últimos três meses, todos os dias, abro o Portal Terra e vejo mais uma notícia de bebês abandonados no Brasil.
É bebê no lixo, bebê enrolado no saco plástico, bebê no lago, e por aí vai. Nesse ritmo, o inevitável aconteceu: um dos cronistas da Vejinha São Paulo escreveu um emocionado discurso, denominado "Monstruosidade", se perguntando do porquê essas desnaturadas e psicóticas mães não encaminham seus filhos para a adoção ou os abandonam em românticas cestinhas, com mamadeiras quentes, nas portas de famílias "de bem". Sim, porque uma mulher que comete uma atrocidade dessas só pode ser uma degenerada.
Concordo que existe uma grande dose de irresponsabilidade e que milhões de mulheres, no nosso país e no mundo inteiro, têm seus filhos na mais completa miséria e mesmo assim não abdicam dos direitos e deveres de serem mães. Muitas mulheres passam por sofrimentos indizíveis, mas a partir do momento que se descobrem grávidas, fazem de tudo para oferecer amor aos seus nenês. Agora, esse cronista da Veja...
Só sendo homem para não compreender que a gravidez muitas, muitas vezes não é uma escolha. Que algo cresce na barriga contra a vontade, que se tenta esconder, retirar, que estar grávida não é sinônimo de felicidade. Que instinto maternal existe, assim como o sexual, mas que o ser humano não é feito só de instinto. É feito de sociedade.
E, no Brasil, a gente vive numa sociedade injusta, cruel, onde o direito à uma sexualidade livre e responsável é vetado; que o acesso aos anticoncepcionais não está ao alcance de todos. Que não existe um posto de saúde equipado a cada esquina, oferecendo preservativos grátis. Mesmo no campus da Unicamp, uma das maiores universidades do país, não há lugar para se comprar preservativos. Centenas de estudantes, professores e funcionários passam pela Cidade Universitária todos os dias, e não há uma farmácia, para se adquirir uma aspirina, um absorvente e mesmo uma pomada pra queimadura. Porque a Prefeitura do campus não põe nos banheiros as práticas e discretas máquinas de preservativos e absorventes?
E o cronista também esquece que o aborto não é legalizado e que entre chás e agulhas de tricô, muitas mulheres se ferem para sempre ou perdem suas vidas. A MULHER DEVE TER O DIREITO DE ESCOLHER SER MÃE. INSTINTO MATERNO EXISTE, mas assim como todos os assuntos humanos, deve ser uma opção, não um destino inexorável. Eu imagino o terror de ser pobre, à margem, estar grávida e com ódio do que se carrega no ventre. É muito fácil pra mim, menina de origem burguesa, com três refeições quentes por dia e vida sexual vivida com responsabilidade, privacidade e amor julgar e condenar a mãe que abandona o bebê, que para ela não é um bebê, é uma coisa que cresceu na barriga à sua revelia.
Peço desculpas aos leitores por expor meu ponto de vista de forma tão explícita. Mas há muitos anos, eu quero lutar pelo direito à maternidade no Brasil. Pelo acesso livre e irrestrito aos anticoncepcionais, à uma boa Educação Sexual, ao acompanhamento médico e psicológico de qualidade e gratuito, e sim, ao direito ao aborto, quando necessário. Tenho como "adversários" os conservadores de todos os calibres, como os cronistas reaça da Veja, e as bancadas religiosas no Congresso. Em tempo: sou totalmente favorável ao casamento homossexual, à não-obrigatoriedade do voto, a uma educação laica e estatal e à liberdade e tolerância.