Monday, January 31, 2011

Carta a alguém muito longe

Você está muito, muito, muito longe. Na verdade, sempre esteve. Continua a viver tão longe que nem sei o lugar ao certo, é um lugar aonde nunca fui, e não faço idéia de como seja. Não faço idéia de nada do que pertence a esse lugar que é tão longe e é tão seu. Não sei se as mesmas estrelas que brilham aqui brilham onde você está, se vemos a mesma lua e se as nuvens que passam aqui, de repente, passam perto da árvore embaixo da qual você se senta, com sua felicidade e a mulher que o ama tanto a ponto de até eu, que estou aqui do outro lado do mundo, saber.
Sei de você as coisas públicas e portanto totalmente desnecessárias para mim. Seu cheiro, o brilho dos seus olhos e o calor do seu abraço, que seriam os meus tesouros máximos, permanecem mais longe de mim quanto Marte. Marte é algo possível; posso me inscrever nas listas das primeiras colônias humanas do planeta vermelho e me mudar pra lá, posso facilmente me inscrever também na Legião Estrangeira, ou atravessar a Cordilheira dos Andes, posso deixar de ser eu mesma e tudo isso será mais fácil do que meu caminho cruzar com o seu.
De tão longe que estou, observo algumas constelações da sua vida, que brilham a ponto de me cegar. Respeito e admiro a mulher que está ao seu lado; ela vive um sonho que eu não ousei sonhar. A vida dela está repleta de você, e eu aqui, no Pólo Norte, me acostumei a viver nesse frio. Fazer o quê, nem nos meus sonhos mais loucos você aparece, minha solidão é total e a escuridão é completa. Mas mesmo assim, eu olho pra cima e vejo o Cruzeiro do Sul, o símbolo da minha utopia que foi estar com você. Porque no fundo, no fundo, um domingo de sol, um mamoeiro e algumas palavras foram o suficiente pra construir a minha felicidade.

Sunday, January 30, 2011

As vidas passadas

Vim para o Piratininga natal. Compromissos profissionais e afetivos lotaram meus últimos dois dias, nesse calor do Malebolge.
Vi amigos muito queridos, passeei, comi comidas gostosas, fiquei cansada, comprei um vestido de malha vermelho e fui a uma exposição excelente, do gravurista Carlos Oswald, no Centro Cultural da Caixa no Conjunto Nacional (recomendo vivamente).
Assisti "Tio Boennme", o filme do cineasta tailandês Apichatpong Weerasethakul, que ganhou a Palma de Ouro de Cannes do ano passado, um dos filmes mais bonitos que eu já vi na vida. Fiquei toda embaralhada, como acontece quando assisto um filme excepcionalmente bom; sou particularmente suscetível ao cinema. Lembro de quando assisti "História Sem Fim" com minha mãe, no Cine Gazeta, na Paulista, com 8 anos. Um mundo se abriu pra mim. Acho que o filme do Apichatpong abriu outro mundo também.
Junta com uma sensação estranha que tive nesses calorentos e suados dias paulistanos. Algo morreu dentro de mim. Não sei explicar. Mas algo morreu dentro de mim. Algo antigo, sofrido. Morreu. Não faz falta. Acabou. Passou. O filme conta a história de um homem que lembra de suas reencarnações. Eu lembro de todas as vidas que tive em São Paulo. Lembro e não lamento mais. Lembro e não quero que o tempo volte. É isso.

Friday, January 28, 2011

Silêncio

Acho que sempre tentei cobrir com palavras o medo que sinto de outras pessoas, de situações novas, de me colocar e dizer, gosto disso, não gosto daquilo e assim por diante. Era reconfortante saber que podia ser tagarela, falar qualquer coisa e esconder a timidez, a insegurança, o medo da rejeição. Afinal, assim eu era forte; podia ir em frente. Podia esconder de mim mesma que no fundo estava em pânico, pedindo pelo amor de Deus para ir pra casa, me esconder no meu quarto e ouvir música.
Tudo isso era mesclado também pela certeza da incomunicabilidade. Sim, a grande tagarela e piadista no fundo não punha fé na capacidade dos outros em ouvi-la, e muito menos compreendê-la. No fim, depois de muito me ferrar, resolvi que várias coisas que eu fazia e pensava ficariam encerradas dentro de um baú do meu coração. Hoje vejo que o medo me impedia de tentar mostrar algo daquilo, das imagens, canções, memórias e sentimentos. Também ocorria a falta de oportunidades para que eu pudesse "mostrar meu futebol"; claro que eu me aproximava de gente que de fato não estava nem aí para o que eu pudesse falar ou mostrar.
Agora, prefiro ficar em silêncio. E esperar. E um pouco de mim se revelou, mais, esta semana.

Tuesday, January 18, 2011

My favorite things

Dias aborrecidos e tristes. A Convergência do Atlântico Sul é um fenômeno climático extremamente f&**, se me permitem o comentário adolescente.
Daí a gente lembra da fofa Julie Andrews em The Sound of Music, ela e os meninos todos ilhados pela chuva e cantando suas coisas favoritas:
Perfume
Abraço
Pão quente
Café com leite
Sorriso
Reencontro
Forró
Boneca de pano
Cílios longos
Fitas de cetim

Wednesday, January 12, 2011

Verão na laje

Na velha Campinas do Mato de Dentro de Jundiaí, tem feito um calor digno das valas do Malebolge. Pra piorar, outro dia achei que o famoso Exumóvel ia virar carro anfíbio, em plena Norte Sul transformada num idílico braço do rio Atibaia. No final do dia, cai cada toró que é melhor ficar em casa.
Dito isto, e sempre considerando a atávica preguiça da panda, não tenho feito nada de muito útil nos dias que correm. Apesar da minha indolência e falta de vergonha na cara, recebi uma linda notícia na segunda-feira: fui premiada como Tradutora do Ano por uma das fundações ligadas à Biblioteca Nacional. Como o feito se liga à nobre língua do tiozão mais sexy da História da Poesia Ocidental, achei por bem destacá-lo no Meio, sempre no Meio.
Acima, um dos desenhos de Delacroix para a Barca de Dante, lápis sobre papel, 20,4 x 30,7 cm, Louvre.

Sunday, January 02, 2011

As fadas e a política

Um tempo atrás, prestei um concurso público numa universidade de renome. Tudo,absolutamente tudo, deu muito errado. O colega que se considerava favorito na disputa fez uma das piores coisas que um ser humano pode fazer, no meio do processo. E um dos integrantes da banca portou-se da pior maneira possível. Paralelo a isso, enfrentei uma situação super dolorosa, no plano pessoal. Enfim.
Deste pesadelo, resultaram duas coisas: uma aula sobre as máquinas da Revolução Industrial e um texto sobre a importância das fadas no imaginário político do século XVII.
Foi assim. Eu descobri que o último capítulo do Leviatã de Hobbes é dedicado às fadas, comparadas com os padres, pelo arguto filósofo inglês. Do outro lado do Canal da Mancha, Charles Perrault, homem forte de Luís XIV, terminou a vida publicando os Contos da Mamãe Ganso, os famosos contos de fada, porque uma das narrativas é a corte das fadas. Claro que essa corte é a corte do Rei Sol, recriada.
Fiquei com as fadas na cabeça. Até porque um dos meus filmes favoritos é Peau D'Âne, obra prima de Jacques Demy. Pele de Asno é um dos contos de Perrault, que Demy recriou magistralmente no cinema. O cineasta escreveu as canções do filme, todas inspiradas no francês perraultiano, cheias de fórmulas jurídicas e de politesse, e justamente a Fada dos Lilases é, vamos dizer assim, uma pequena Maquiavel, grande filósofa política.
Juntei tudo e escrevi, no meio de tantas dores e azares, esse texto das fadas. Resolvi retomá-lo, afinal, se as fadas ajudaram Hobbes e Perrault, talvez se apiedem dessa pobre e triste panda.
Acima, o frontispício da primeira edição dos Contos de Perrault, Paris, 1697.

Friday, December 31, 2010

Vita Nuova

E com os meus votos mais ardentes de um 2011 feliz para todos...

Hoje tive a felicidade de passar a virada na casa de uma amiga muito querida, que eu chamo de cabeçudinha, carinhosamente. Ela é muito fofa, e apelidou a velha panda de pandola. Pois então. No meio do caminho, no meio da ceia, minha amiga falou pra tia, olha, essa pandola aí é especialista em Dante Alighieri.
Fiquei toda feliz por entrar em 2011 com o meu lindo ao meu lado, e depois de comer muito e encher a fuça de prosecco e champanha, repenso a velha história do "eu sou eu e as minhas circunstâncias". De fato, tem coisas que eu não vou conseguir mudar: o fato de ser panda, de ter sofrido como os monges do Tibete e o fato de amar desesperadamente um homem que morreu em 1321. Mas é sempre possível começar, ao lado do que se é e do que foi, a olhar para o futuro. E a imaginar, sempre, novas constelações com as mesmas estrelas.
Acima, Retrato Alegórico de Dante Alighieri. C. 1530, autor desconhecido. Óleo sobre madeira. Washington, National Gallery of Art.

Wednesday, December 29, 2010

Desejos


Depois de dias cansada, e pior, dias em que eu simplesmente não me amei, ontem tive uma lembrança de um sonho lindo, que me salvou de tanta dor. Não sei se meu sonho ainda pode virar realidade, talvez os sonhos venham com prazo de validade, não sei mesmo. Mas hoje, acordei com um desejo imenso de ver Degas.
Acima, Place de la Concorde, 1875. Óleo sobre tela, 78,4 x 117,5 cm. São Petersburgo, Hermitage.

Wednesday, December 22, 2010

Pequeno Dicionário Paulistano

Augusta- rua comprida que tem de tudo e que todo mundo vai.
Bauru- sanduíche muito gostoso, com variações. O melhor ainda é o original, do Ponto Chic.
Cambuci- bairro simpático, cheio de ladeiras, com igreja neogótica e terra natal de pandas que estudam Dante.
Demônios da Garoa- com Adoniran, instituições da intelectualidade da cidade.
Ermelino Matarazzo- bairro simpático no extremo leste, tipo, extremo mesmo. É tão longe que puseram uma USP lá.
Feira Livre- ver pastel.
Guarulhos- no final da Marginal do Tietê, fica o Aeroporto Internacional de Cumbica ( em tupi, lugar enevoado).
Hipopótamos- tem muitos no Zoo, na Água Funda.
Ibirapuera- parque muito grande, no meio da cidade, que tem até Bienal de Arte.
Jaraguá- pico na entrada da cidade. Muito, muito alto. Vive enevoado, como o Aeroporto de Cumbica.
Lapa- bairro simpático, cheio de ladeiras, com padarias excelentes e ponto final de todas as linhas de ônibus da cidade.
Móoca- bairro simpático, plano, cheio de palmeirenses, e o outro ponto final de todas as linhas de ônibus da cidade.
Nair Bello (1931-2007)- a maior intelectual da história do município.
Ofner- confeitaria muito boa porém cara, meu pai só comprava lá uma vez por ano. Compete com a mais conhecida Kopenhagen.
Praça da Bandeira- praça que virou terminal de ônibus, cheio de conduções Lapa-Móoca.
Q! Bazar- bazar onde os sacoleiros vão pra comprar tudo com muito desconto. A Daslu do resto da cidade.
Rodovia dos Bandeirantes- rodovia que leva pra Campinas.
Sé- praça muito grande que com a graça de Deus não virou terminal de ônibus. Assim como o Cambuci, possui interessante igreja neogótica.
Terraço Itália- restaurante chiquérrimo, no alto do lindo Edifício Itália. Aceito almoços ou jantares lá.
USP- lugar muito longe, no Butantã, cujo ônibus nunca passa. Diz que as pessoas estudam lá.
Vírus do Amor- cançoneta pop da Rita Lee, dos anos 80, que possui um dos melhores versos sobre a cidade.
Xis Tudo- sanduíche com tudo dentro. Virou nome de um dos excelentes programas infantis da TV Cultura.
Záccaro, Maestro Augustinho (1948-2003)- maestro que comandava uma orquestra, que sempre tocava os hits da colônia itálica da cidade. Quando menina, participei várias vezes do programa de TV desse senhor, que apesar de bom músico, era janista.

Tuesday, December 21, 2010

Tiozão de Natal

E para adornar o Meio, no meio dos preparativos natalinos, um dos retratos mais antigos do tiozão mais amado do planeta.
Iluminura, depois de 1436, 29 x 20 mm. Biblioteca Riccardiana, Florença.

Monday, December 06, 2010

Finalmentes

Correria de final de semestre. Hoje estou na labuta, na entrega dos diários, notas, avaliações.... a desmiolada panda perdeu alguns de seus diários, nas viagens intergaláticas entre sua toca e a cidade do rio das lágrimas. Enfim.
Paralelo a isso, a pequena habitante do Tibete resolveu, numa iniciativa revolucionária, ligar a tecla foda-se para umas criaturas e situações que há anos atravancam meu desenvolvimento e alteram meu humor. Foi lindo e maravilhoso, a sensação de libertação, de compromisso único e exclusivo com uma coisa só: a minha felicidade.
Pois hoje, estou cansada pra burro, mas estou feliz.

Thursday, December 02, 2010

Chanukah


Por volta do segundo século antes de Cristo, a família dos Macabeus lideraram as revoltas que libertaram Israel do domínio selêucida. O Templo de Jerusalém foi reconstruído, e depois de tempos de perseguição religiosa, com Torás e outros objetos de culto sendo queimados, pode-se voltar a rezar para O Que É (tradução do tetragrama do nome de Deus).
Para comemorar, se acendem luzes, é o alegre Chanukah, que às vezes bate com o Natal cristão, outras vezes vem antes. Nos dois casos, se acendem as luzes, comidas gostosas são feitas, trocam-se presentes e todo mundo fica satisfeito. Então, em pleno Chanukah, hoje, me senti renovada e feliz.

Tuesday, November 30, 2010

Nóis trupica mas num breca


E provando que a panda está muito saidinha, amanhã falarei no nobre Desencontro de História da Arte que ocorre todos os anos na cidadela de Zeferino, sobre o patrimônio arquitetônico da velha e sempre detonada Campinas do Mato de Dentro de Jundiaí.
Falar sobre o patrimônio de Campinas é heróico, é hercúleo, porque o tal está sempre na ameaça de ser tombado, não pelos órgãos competentes, mas tombado mesmo, literalmente, no chão.
Agora, a gente não se aperta. Acima, colunas de uma casinha daqui perto de casa, obra dos bravos capomastri itálicos que modelaram a Campinas do café.

Monday, November 29, 2010

Sem palavras

Tenho um conceito muito ruim de mim mesma.

Na maior parte do tempo, me deprecio, acho que sou torta demais, feia demais, tonta demais. Talvez eu seja tudo isso, e um pouco mais, até. Sou muito zangada comigo mesma; não tenho paciência com minhas chorumelas e pequenos dramas cotidianos. Já vem de longe uma voz severa, que me assiste e comenta o que vivo, sempre dizendo que não tenho razão e que passo por coisas tão banais, que, sinceramente, pra que chorar e sentir...
E outra voz que não tem palavras, ecoa um canto, suave e doce, tão sem lugar no mundo que a outra pergunta se vale a pena cantar algo tão etéreo, tão de outro planeta. Sinto que uma parte de mim ainda não aterrisou neste mundo, como se eu fosse de outra época, alguém preto e branco num mundo technicolor... as outras pessoas parecem sólidas em seus propósitos, mesmo que sejam maus. Eu pareço, ao contrário, alguém transparente, que voa, asa de borboleta. Me pergunto se um dia esse canto que eu canto ecoará em alguém, ou se permanecerá sem destino, enquanto meu coração bater.

Sunday, November 28, 2010

Fim


Amanhã, é a última aula que ministro neste ano letivo. Depois, provas e trabalhos encherão os dias dos alunos e os meus, mas o drama de eu chegar, pedir silêncio, ligar o equipamento, pedir silêncio de novo, começar a falar, dar recados, pedir silêncio de novo e entrar nos meandros da História da Arquitetura, desde o Pathernon de Atenas até a Ópera de Arame de Curitiba... não, isso encerrou, pelo menos até 2011 começar de fato.
Encerro falando da virada do XIX pro XX, as estações de metrô de Paris, de Guimard, todas do período de 1890 a 1900. Todas, de ferro retorcido, no belo estilo Art Nouveau, que tanto fez sucesso no Brasil, também.
É lógico que tinha me planejado para falar de muito, muito, muito mais coisas... o caderninho de anotações ficou lotado de datas, mapas, rabiscos, que ficaram pra trás, nas corridas segundas-feiras. Aprendi muito mais que ensinei, me surpreendi com a festa surpresa no meu aniversário, e levo no coração o susto deles quando viram pela primeira vez a Catedral da Sé. Apesar de tudo, e talvez por isso mesmo, valeu muito a pena.
Acima, um cartão postal da Estação Bastilha, de Guimard, hoje demolida.

Saturday, November 27, 2010

Na terra de Almeida Júnior

Essa semana, depois de passar a segunda-feira em Piracicaba e a terça em Indaiatuba, fui ter na terra que viu nascer o pintor Almeida Júnior.
Consegui, miraculosamente, ser aceita num importante congresso no Museu Republicano de Itu.
Eu fui a Itu na infância, com meus pais, almoçar no Bar do Alemão e ver o semáforo gigante na praça da Matriz. Depois, nunca mais.
Saí de casa meio nervosa, porque a FAPEPANDA (Fundação de Apoio às Pesquisas da Panda) não possui, atualmente, de fundos muito consideráveis. Pra falar a verdade, a FAPEPANDA não tem nenhum fundo, internacional, nacional, nenhum apoio de nenhum banco nem de organizações governamentais ou não-governamentais. Dito isto, a pequena habitante do Tibete saiu de casa um tanto quanto aflita, e foi imprimir seu texto na lan house da esquina.
Eu simpatizo bastante com o pessoal da lan house aqui da minha esquina, mas os dois atendentes resolveram namorar e no meio do idílio deles e da minha pressa... peguei o ônibus correndo pra Rodoviária, comprei a passagem pra Itu e... me dei conta que a pen drive tinha ficado na lan.
Chorei, chorei, chorei muito no Terminal Rodoviário Ramos de Azevedo. Uma grande ironia do destino, já que eu me propusera a falar dos colaboradores italianos do grande engenheiro-arquiteto paulista... chorei de nervoso, de mágoa, de desespero, de aflição... e de tristeza. Há muitos anos eu faço as coisas totalmente no improviso, sem apoio, sem estímulo, só na dureza, e o lado duro e negro da vida... bem, quero conhecer o lado brilhante da vida, se vocês me permitem o desabafo.
Mas sou persistente (na verdade, não tenho outra alternativa a não ser persistir), e fui pra Itu assim mesmo, depois do consolo de um amigo querido no celular. Chegando em Itu, a anjinho Fran me resgatou e me levou pra conhecer sua terra... no Museu, amigos e gente querida me acolheram, e mesmo sem meu Power Point, mandei brasa e honrei os nobres itálicos construtores do interior paulista.
A anjinho Fran, num rápido tour pela cidade republicana, me mostrou uma das primeiras pinturas de Almeida Júnior, o São Paulo aí de cima, na bela e detonada Matriz deles. São Pedro não contribuiu muito com nosso passeio, mas as conversas na fábrica sem luz, e depois o cocktail do congresso, valeram o chuvão e reacenderam no coração da velha panda a chama da esperança de dias melhores.

Monday, November 22, 2010

No lugar onde o peixe pára

Hoje, acordei cedo e sem nenhuma disposição fui ministrar minha aula sobre a Paris do XIX para meus fofos alunos de Arquitetura, que não aguentam mais minhas arengas e meu mau humor proverbial das segundas-feiras de manhã.
O responsável pelos horários da veneranda instituição onde falo dos pintores do Impressionismo e da importância da mandioca na alimentação brasileira ( às vezes, na mesma aula) me pregou uma peça: nas segundas-feiras, dou aula em dois campi diferentes, mas um longe do outro, e num intervalo de 10 horas entre as aulas. O segundo é o mais longe da toca da panda, e fica no centro de Piracicaba, a ensolorada cidade das quedas d'água. Semprei gostei muito de Piracicaba, mesmo sendo este simpático município de uma amplitude térmica impressionante: Pira consegue ser mais quente que Campinas (sim, isso existe) e mais fria que Campinas (o que, por outro lado, não é muito difícil). Outra coisa que me impede de interagir mais com os nativos locais é o dialeto que eles falam: o piracicabês tem horas que é mais incompreensível que outras línguas menos nobres do mundo conhecido, como o francês, o inglês e etc.
Nesse semestre, portanto, fiquei de castigo pelos campi, tentando trabalhar ou fingindo que eu trabalho, tomando picolé e chegando ao requinte de tirar sonecas no Exumóvel.
Bom, resolvi variar a programação e dar uma volta a pé pelo centro de Piracicaba. Deixei o Exumóvel no campus e fui caminhando pelas ruas da cidade, cheia de casas das décadas de 10 e 20 e esquinas Art Déco. Pensei, em qualquer cidade do nosso abafado interior paulista, vai ter a sorveteria que dignifica o homem no meio da tarde. Outra coisa que adorna a terra dos bandeirantes é que qualquer cidade tem n confecções ou lojas que deságuam as criações do Brás e do Bom Retiro: lojas cheias de roupas de malha para as senhoras e senhoritas enfrentarem com garbo o clima pesado do verão.
Encontrei primeiro uma dessas lojas, cheias de blusinhas que viraram a cabeça da panda, de bolinhas e laços. A vendedora foi gentil e me informou o endereço da sorveteria mais próxima, uma graça de sorveteria, de esquina, com cadeiras verdes e sorvetes de graviola e cupuaçu. Tomei um sorvete de tapioca delicioso e fiquei vendo a tarde passar.
Entrei na igreja mais próxima, por curiosidade. E não é que o teto era afrescado com uma cópia da Transfiguração do Rafael? Achei um barato... e um casal totalmente virado no jiraia quebrava o pau na frente da igreja, a ponto de uma senhora chamar a polícia.
Continuei meu passeio e me deparei com uma lanchonete chamada Brasil Líbano, com um velhinho dentro com uma cara de quem ia me pedir em casamento, e uma loja espetacular, a Daslu da panda: Loja do Cido, tudo a 10 real.
Totalmente em estado de graça, a panda adentrou o estabelecimento e logo separou uma carssa e duas brusas, dentro da minha habitual falta de elegância e do meu orçamento. Comprei uma sedutora e principalmente discreta blusa pink pela quantia anunciada na placa da loja, e a mocinha ainda me informou que quando o Cido se encontra ele ainda dá desconto ( desconto em blusa de 10 reais é digno de um Adam Smith).
Fiquei feliz com o meu passeio e tirei muitas fotos mentais (já que estava sem máquina) das casas e sobrados de Piracicaba, o lugar, diziam os ameríndios, onde o peixe e a panda param.

Peso



Entramos no Advento, a preparação do Natal, e eu até biscoito de Natal já comi; nada passa incólume das patinhas gulosas da velha e sempre desmiolada panda. Mas me preparar que é bom, nada, consegui o feito histórico de não me preparar para nada nesse ano de 2010.

Foram tantos esforços, mas tão dispersos, desatentos e indisciplinados... e o coração que pesou demais, atrapalhando um pouco o funcionamento mental. Escrevi vários projetos e não levei a cabo nenhum; tomei muitas iniciativas saudáveis mas algumas ficaram pra trás, no torvelinho do dia-a-dia, da tristeza e do passado que sempre voltava. Infelizmente, caí também numas daquelas armadilhas que a gente põe na nossa frente, pra nos sabotarmos, mesmo. Enfim. Queria, sinceramente, ter feito mais em 2010; estou com saudade da esperança e do ânimo do início do ano. Agora me passa pela cabeça que sentirei falta da esperança que senti, em 2010, esperança que há anos não sentia; e dos momentos felizes que tive nesse ano, momentos verdadeiramente felizes, como há anos também não os tinha. 2010 foi um ano que trouxe surpresas, boas e ruins, mas surpresas. Ontem, fiquei pensando longamente que a vida é assim mesmo, pega a gente de surpresa sempre, nunca é do jeito que a gente quer, assim, certinho, mas é tão, tão boa.

Acima, um dos atlantes do coreto da Praça Carlos Gomes, Campinas.

Friday, November 19, 2010

Lubnan

Porque onde estão os cedros,
sopra o vento,
porque traz uma canção;
o sentido do rosto,
e o significado dos gestos.

Tuesday, November 16, 2010

A Deusa do Amor

Esses tempos foram de enfrentar coisas dolorosas. Lembranças trágicas do passado voltaram à tona. Enquanto isso, a vida segue, lenta, com alguns percalços, mas segue.
Mas eu aposto, e muito, ainda, no amor. Se não for por isso, a gente apostaria em quê? Aposto nas pessoas.
Semana passada, infelizmente perdemos um amigo, e uma outra amiga casou. Tudo na mesma semana. Encontrei tanta gente, vi tristeza, vi alegria. Com os olhos do amor. Pra mim, isso é o que importa.

http://www.4shared.com/audio/ICEH9aRo/Pepeu_Gomes_-_A_Deusa_Do_Amor_.htm