Sunday, December 07, 2008

Mais uma estrela


Botando banca

E eu essa semana encarei, intrépida, a argüição de 14 trabalhos de graduação, dos meus ex-alunos da Pucc. Sim, meus caros e raros leitores, 14, uma maratona de duas noites...

Estreei nessa coisa de ser banca. Eu já tinha lascado pareceres por aí, mas banca essa é a primeira. Foi muito bom ver os meninos se formando, alunos que detestavam minha aula de Estética citando Platão, enfim, e mesmo os trabalhos com os quais a gente não se identifica tanto, sempre rola uma sugestão, uma conversa, um desacordo legal. Os meninos estão expostos no Palácio dos Azulejos, vulgo Museu da Imagem e do Som, então se alguém quiser ver...
Me disseram que nas primeiras vezes a gente é meio feroz, por insegurança e pra mostrar serviço, e depois me falaram que a pessoa mostra a sua verdadeira personalidade sendo banca. O engraçado é que se a primeira assertiva não foi verdade comigo, a segunda não poderia ser mais verdadeira. A primeira banca aconteceu no dia em que fiz um ano de doutoramento; comecei minha primeira fala agradecendo o convite e lembrando disso, e fiquei muito, muito tímida. Sempre soube que era uma pessoa introvertida, mas acho que cultivei a ilusão de que não fosse tanto. Engraçado que em aula eu consigo não olhar pra ninguém e passar conteúdo, eu como professora sou meio conteudista, fico correndo atrás do programa pra cumprir minhas obrigações.
Boizé, eu sou tímida e, acredito, fui discreta nas minhas colocações. Nunca mais vou dar ouvidos a quem fala que eu sou, como direi, um tanto quanto grossa.

Tuesday, December 02, 2008

Advento

Quatro domingos antes do Natal, começa o Advento, a preparação para a grande festa cristã. Já estamos em pleno Advento; é hora do povo pôr luzinha, guirlanda, Papai Noel alpinista e tudo o mais, hora do comércio fechar mais tarde, eu jurar que não vou fazer nada no Natal pra depois me arrepender e como todo mundo enfrentar fila de supermercado, shopping e o escambau e ainda suspirar de melancolia quando dia 26 chega e com ele meio peru roído e nozes pela casa.
Sumi do blog porque estava triste. Enfim, eu tava triste, essas coisas acontecem, vocês não reparem. Lembrei muito do amigo virtual Pererê dizendo da minha dificuldade em aceitar a felicidade, a alegria, o prazer. È vero, amigo do folclore brasileiro, se você ainda estiver do outro lado, você tem total razão. Demoro muito pra admitir que certas situações, pessoas, coisas, me são totalmente intoleráveis, demoro muito pra admitir o que eu quero de verdade e nisso tudo demoro muito às vezes em infelicidades que são dispensáveis. Como diz outro grande amigo meu, igualmente folclórico, mister Vitão, eu sou mirim.
Mas isso não ocorre por incapacidade total; o que incomoda incomoda até os santos e anjos do céu. Tem um verso bonito do Rimbaud que poderia servir de legenda pra mim: "Par délicatesse/ J'ai perdu ma vie". Tantas vezes não admito que não gosto do que vejo, ouço e presencio para dar chance aos outros viverem, falarem, sentirem, quantas vezes me vem na beira da cabeça que aquilo não é pra mim, mas como recusar, como causar embaraço, sofrimento ou mesmo um leve contratempo aos outros, eu sou uma pessoa que pensa nos outros, eu dou meu lugar na fila, no ônibus, por pura delicadeza, distração de mim mesma e por achar que a vez é a vez dos outros, a minha vem depois.
Eu hoje por exemplo vivi uma situação assim, totalmente incômoda, mas não disse nada, só pedi água e um pão de queijo, a água desceu raspando na garganta e eu quase não engoli, me senti meio desolada mas mesmo assim me manti firme, dizendo pra mim mesma, mas você é muito besta, porque você não aceita isso de boa e tal, me sentindo meio culpada por não gostar. Enfim. Fui almoçar e de repente encontrei um professor muito querido, que estava de saída, indo levar um grupo de outros professores, de outras áreas, desde Biologia, todas as Engenharias e tal, para conhecer o centro de Campinas.
Ora, direi, ouvir estrelas, como dizia Bilac, o que tem pra ver no centro de Campinas, os mais céticos estarão se indagando. Fomos ao Solar dos Azulejos, no Museu da Imagem e do Som, já rolou milhões de coisas legais, risadas, e depois fomos à linda Catedral de Nossa Senhora da Conceição. Lá, nos esperava o cônego, o responsável pela igreja oferecer três missas diárias, banheiro, abrigo, apoio psicológico ou mesmo um banco com sombra pra milhares de pessoas por mês, e o arquiteto responsável pela restauração do prédio, intrépido no subir e descer escadas, limpar retábulos, salvar cabeças de apóstolos e quetais e pela primeira vez eu pude subir até a torre, os sinos, os anjos tão queridos lá debaixo, a 13 de Maio inteira, o cedro, sentei no órgão, entrei debaixo do altar...
A Catedral de Campinas, pra quem não sabe, demorou mais de um século pra ficar pronta, obra da determinação da cidade em ter uma igreja bonita e durável. Então, durante décadas, os campineiros amassaram o que vinha do chão vermelho, socaram em formas de madeira de um metro de lado, e com pilões de seis, sete quilos, encaixaram a lama para subir as paredes, paredes que estão lá até hoje, cheirando à terra fresca. Depois, dois artistas de talento esculpiram cedro, encaixaram os ornamentos, e por último um grande arquiteto remodelou a fachada, dando-lhe uma imponência que vem antes da simplicidade que da escala.
E foi tudo tão bonito, tão emocionante, e o cônego me lembrou que o Advento é o início do ano litúrgico, o calendário das festas, todo mundo esperando o menino nascer. Fiquei pensando em tanta coisa, no fato dos bravos campineiros do passado que socavam terra no pilão pra construir uma casa que lembrasse a jovem judia, de mil e oitocentos anos antes... peguei chuva e fiquei tão feliz, tão leve, e cheia de esperança, e cheia de palavras de novo, mais uma vez renovada e mais uma vez um pouquinho mais perto de mim mesma.

Thursday, October 02, 2008

Do perdão, da vida e de tudo que a gente vive

Ontem eu tive uma avalanche no messenger. Eu confesso: sou meio viciada nesse trem. Trabalhando em casa, com as tarifas telefônicas impraticáveis, essa Praça é Nossa Virtual me faz conversar com gente muito querida, que está longe. Geralmente, falo sempre com as mesmas pessoas.
Mas ontem, como eu disse, entrou gente do aquém do além do universo, com as histórias mais preocupantes, tristes, alegres, de alívio, de dor. Enquanto um amigo singrava os céus do Brasil pra voltar pra Campinas, outra estava no calor de rachar do cerrado, e outro ainda do Rio mandava aquele abraço. Gente de todos os lugares, dando notícia, perguntando qual é a do dia, e nisso eu fiz a maior ginástica, consegui fazer o almoço e responder 12 pessoas ao mesmo tempo, e mais importante, sem queimar o arroz.
Hoje, eu preciso descansar de tudo isso, foi uma coisa doida. Lembrei de uma crônica bonita da Clarice Lispector, em que ela conta que conheceu de certa feita uma moça no dia que ela ia comprar seu enxoval. Depois de um tempo, ligando a televisão, descobriu que aquela moça meio insípida era uma grande pianista, vibrava o instrumento com grande perfeição de sentimento. Atarantada, Clarice ao pegar um copo d'água cruzou com o filho caçula, que lhe perguntou a razão do mau estar, e ao que ela disse que ia buscar um calmante, o filho respondeu: a senhora está tendo uma emoção! E Clarice chorou, mansamente.
Eu tive uma sensação parecida ontem. Não consegui dormir direito, acordei com uma grande dor de cabeça, e depois de ir buscar um pão percebi que precisava deitar, e como diz o Celo, processar a emoção. Senti muita tristeza, mas no final, pensei em coisas boas, fiz planos, e vi que quero pensar no futuro, nas inúmeras possibilidades do vir a ser. Nisso, fiquei tão feliz, pensei que o que importa é a vida que, dia após dia, dá cada rasteira na gente.

Friday, September 26, 2008

Kit do Exu Mirim

Eu não sei porquê, mas um tempo atrás, eu tive o desprazer de encarar umas criaturas que de vez em quando mandam ver no atabaque e, clamando ou por Iemanjá, ou pela Caboclinha Teresa e o Coisa-Ruim da Capa Preta, enchem a paciência não só das venerandas entidades quanto da pequena panda que vos escreve. Eu tenho pra mim que os do poder, que fazem a cabeça e tudo o mais, nossos ancestrais yorubá, ameríndios e habitantes do além, tem muito mais o que fazer do que trazer a pessoa amada em não sei quantos dias, decidir eleição municipal ou, pior que tudo, ficar ouvindo queixa de gente desocupada.
Um amigo meu, muito querido, uma vez viu um Preto Véio descer no terreiro e, ao ouvir as múltiplas reclamações do crazy people, lascou: "Capinar terreno de mandioca, ninguém quer, humpft", sumindo nas trevas e luzes da vida post mortem. Esse Preto Véio era legítimo. E de mais a mais, minha avó, caiçara, demonstrava ceticismo diante dessas tentativas de, através de roubo de cuecas, feitiço da bola de farinha e vela vermelha, passar no vestibular ou fazer coisas que estão perfeitamente no nosso raio de ação.
Outro dia, eu me descabelei de tanto rir com um videozinho do Youtube: o fantástico serviço Umbanda Larga Tabajara, das sempre de vanguarda Organizações Tabajara. Vejam isso e me digam se não é de deixar qualquer Pomba-Gira doida, "o provedor de acesso ao mundo dos orixás":
http://www.youtube.com/watch?v=VVbxGOjJY-0
Mas hoje eu consegui descobrir uma coisa ainda pior: o serviço Macumba On Line!
http://www.macumbaonline.com/. Você vai lá, escohe o despacho ( tem pra tudo, desde "foder a vida", aos clássicos "trazer a pessoa amada" e "deixar vesgo") e, no sossego do seu lar, gratuitamente, manda o Tranca-Rua lascar o povo, sem enfrentar encruzilhadas escuras, terreiros superlotados (ainda mais em época de eleição, já viu, as entidades estão megaocupadas) e ainda guarda o frango com farofa pro domingo! Juntou com a maionese e o Cocão de dois litros, fechou! De qualquer forma, taí a dica, pra se fazer o ebó ao som de "Eu vou botar teu nome na macumba", do Zeca Pagodinho.
Agora, no contraponto, ninguém pode esquecer o célebre axioma do filósofo do futebol Nenen Prancha: "Se macumba ganhasse jogo, o campeonato baiano terminava sempre empatado." Eparrei!

Saturday, September 13, 2008

I've been to paradise


Um post da Pati me fez deixar um comentário no blog dela. E escrever aqui. Coisa rara: eu comentar bróugui dos outros e retomar o Meio, sempre no Meio do caminho.



Acho que qualquer nega aos 30 anos se pergunta sobre o que viveu, o que quer pra si mesma e coisa e tal. É muitíssimo comum, na idade balzaquiana, a cidadã ficar acometida de uma grande ansiedade, se ainda não contraiu matrimônio nem gerou descendentes. Daí a indivídua, tomada de grande loucura, comete crimes sentimentais, coisas que nunca nem pensou fazer, na maior cara de pau. Sei de amigas e conhecidas, moças bonitas, inteligentes, descoladas e legais, que de repente, ao chegar ao fatídico trigésimo aniversário, se tornaram vilãs das novelas do Manoel Carlos- ou seja, o pior tipo de mulher que existe, a da classe média alta brasileira. Sim, aquela que engravida pra segurar o cara, liga 34465 vezes no celular do sujeito, bate, xinga, tem ataque histérico e o pior de tudo: sai toda produzida com amigas igualmente em desvario e senta na mesa do bar, afastando todos os portadores de cromossomos Y num raio de 56778 kms.



Isso a gente sabe desde os 14 anos: ficar ansiosa só afasta os pretendentes e os parceiros. E achar que o homem tem obrigação de casar e ter filhos também. Ninguém tem obrigação de nada, o amor não é uma coisa compulsória. Costumo dizer que as pessoas se encontram, não se pertencem. É, é difícil. Muitas vezes a gente precisa falar tchau pra quem a gente gosta. E é chato aguentar pai, mãe, parente, vizinho e até o porteiro do prédio olhando pra gente e falando, coitada, tão bonita e sem marido. Porque tem essa bosta, a mulher de classe média alta brasileira PRECISA ter um marido. Não passa pela cabeça das personagens de novela do Manoel Carlos ir fazer um curso qualquer, viajar, ter uma carreira ou montar um banda de heavy metal. Não: todas tem que casar, ter filhos e depois esfolar as noras.


Tão triste isso. Eu acho que casar e ter filhos é lindo, incrível. Mas cara, não dá pra surtar e virar vilã de novela do Manoel Carlos. Eu ando por exemplo numa fase chata no meu trabalho: me doutorei e agora começou a selva oscura dos concursos, dos caminhos cruzados e quetais. Mas se eu pirar e, pior, virar vilã de novela do Gilberto Braga, tô lascada! Eu vejo colegas fazendo picaretagens dignas de uma Maria de Fátima, de uma Odete Roitmann, umas manobras horríveis. Aos 20 anos, todo mundo é legal. Aos 30, é que são elas: pega a competição pela vaga, mas eu me recuso a entrar nessa nóia e encher meu currículo LATTES de porcaria só pra impressionar os negos.


Todo mundo quer encontrar o amor da vida, ter um emprego incrível, filhos lindos e geniais, ficar magra e antes de mais nada, não ter celulite. E lógico que dá a maior frustação, depois de algumas relações, estar mais encalhada que baleia em piscina Regan. Ou, no meu caso, cheia de trabalho sem remuneração ( tucanei a dureza financeira... ehehehe). Eu ando com problemas, como todo mundo. E também queria ter uma casa na praia, com o Javier Bardem e um moleque me chamando de mamãe, além de um milhão no banco. Agora, se pra conseguir isso, eu tiver que deixar de ser eu mesma, passo. Então, vou tentar atravessar a tormenta com a mesma graça e dignidade com que tentei atravessar o resto, sendo a mesma panda de sempre.


Acho que o que me salva um pouco da maluquice é o fato de ter visto o Camposanto de Pisa. Andei esses dias trabalhando nas fotos e nas lembranças da cidade do campanile caduto, e toda vez que começo a ficar muito piradinha, lembro de que estive no meu paraíso. E pra lá, posso voltar sempre, no meu coração.

Tuesday, August 26, 2008

Pão de queijo no palito

Passei os últimos dias singrando uma tradução mega difícil. Fui indicada para uma editora de São Paulo por um conhecido, e a moça me enviou um livro que seria supostamente de auto-ajuda. Mas os caras compraram gato por lebre, e o livro era de Psicanálise e Psiquiatria.

Bom, quando o Freud morreu, no exílio, as obras completas do tiozinho foram publicadas numa tradução em inglês, que depois foi contestada pelos franceses e alemães. Durante muitos anos, por exemplo, no Brasil, a gente tinha a tradução da tradução do inglês e umas edições em espanhol, decalcadas tanto do inglês quanto do alemão. A zona toda é que até hoje, alguns termos de Psicanálise nos EUA são uma coisa, e no resto do mundo outra. Os termos em Psiquiatria foram mais fáceis, geralmente as palavras científicas no inglês vêm do latim, mas tinha todo um negócio de Medicina que foi lasqueira. E pior, o tiozinho autor do livro escreve romances, e o inglês dele de resto tinha muito do gênero noir, policial, uma coisa bonita mas foda de transcrever.
Enfim, eu passei dias e noites mergulhada na tradução, e ontem Deus se compadeceu da pequena panda tradutora e acabou o martírio. Fui pro centro pra ir no Perda de Tempo e nos Correios, e eu atravessava a Rua Conceição quando me deu vontade de tomar um suco.
Onde tomar um singelo suco no centro de Campinas? Me encaminhei para o Shopping Center Conceição porque lembrei que numa quina existe uma simpática lanchonete de sucos, Melão & Cia, um negócio bem oitentista no nome e no visual. O japonesinho atendente anunciava uma novidade: pão de queijo no palito. Também nos anos 80 neguinho vendia crepe no palito, vocês lembram disso? Mas a crepe esturricava. Resolveram pôr massa de pão de queijo no palito, com recheio de queijo, e cara, ficou excelente. Tomei um dos sucos com nomes de cidades italianas do cardápio ( Torino, maçã com pera) e foi genial. Depois desse lanche tão gostoso entrei numa livraria e vi uma edição, de capa amarela, da coleção completa do célebre jornal O Planeta, do povo que depois se juntou com a Casseta e deu no que deu. Cara, eu ri sem parar, os caras eram muito bons. Manchete do jornal: Sílvio Santos foge com Lombardi. Eu preciso comprar esse livro! E mandar pra dentro mais um pão de queijo no palito!

Sunday, August 17, 2008

Às armas, cidadãos!

Nessa coisa hinos, queria passar pra vocês duas versões da velha e sempre aguerrida Marselhesa:


1) com a Mireille Mathieu, a tradicional versão que abala todas as estruturas das Bastilhas da vida:
http://www.4shared.com/file/59414151/aea39bd7/marseillaise-mireille_mathieu.html


2) e com o Serge Gainsbourg, "Aux armes et caetera", vejam o que a picaretagem humana é capaz de fazer:
http://www.4shared.com/file/59415590/caa42bf4/la_marseillaise_gainsbourg.html


A mesma praça, o mesmo banco mas porém todavia contudo... grande Serge e linda Mireille...

Thursday, August 14, 2008

Os sete filhos

Hoje, fui ao centro, banco, correios, aquelas coisas. Singrando a rua Ferreira Penteado, paro em frente a dois sebos simpáticos que ficam um do lado do outro, estupefata: de dentro de um deles, soava, garbosamente, o Hino à Bandeira.
Olha, não sei há quantos anos eu não ouvia o "Salve, lindo pendão da esperança/ Salve, símbolo augusto da paz". E de repente, voilà, como diria Proust: eu estava no primário, no Colégio Anglo Latino, situado na Muniz de Souza, Aclimação, São Paulo, Brasil. O colégio ( Anglo Latino, entra burro sai cretino, como se dizia) faliu e não existe mais. Não sei o que foi feito dos amplos prédios, bem ao lado do Parque da Aclimação e de uma Biblioteca Municipal Infantil, onde Monteiro Lobato andou.
Tinha uma professora bem velhinha. Pra minha vergonha, eu que sempre louvo a memória dos meus professores, não me lembro do nome dela, Sílvia, era nossa professora de música. Basicamente, íamos pra um auditório, com os assentos de madeira com escritos como "Vamos invadir sua praia", e ela dedilhava ao piano os hinos: o Nacional, o da Bandeira, o da Proclamação da República e do da Independência. Também não me lembro de muita simpatia na nossa professora de música, mas ela era séria: nos passava as letras cheias de inversões e palavras pomposas e lascávamos nossas taquaras rachadas nos estribilhos como "aceita o afeto que se encerra em nosso peito juvenil", "ouviram do Ipiranga, às margens plácidas", "de esperança de um novo porvir", e que tais. Gostava de cantar e ouvir o piano, e os hinos brasileiros não são tão horrendos quanto a nossa falta de nacionalismo gosta de supor.
O meu favorito era o Hino da Independência, cuja música foi supostamente composta por Pedro I. Sabemos todos que nosso primeiro monarca era mais afeito à aventuras amorosas e a domar cavalos xucros, mas enfim, de fato a letra é legado de Evaristo da Veiga, mineiro que era dono de livraria no Rio dos primeiros Oitocentos, e que era jornalista e depois dono de jornal, combativo defensor de um Iluminismo mineiro: como diríamos hoje, um Iluminismo temperado com queijo meia-cura. Nós, garotinhos e garotinhas da Aclimação, muitos nipo-descendentes, adóravamos transformar o "Já podeis da Pátria filhos" em "Japonês tem sete filhos/ o primeiro é sapateiro, o segundo vagabundo", pra horror da nossa professora.
Voltei pra casa cantarolando nossos hinos, ou o que a minha memória cata-cega lembrava deles. Cheguei e consegui uma pastinha com os hinos todos, em versões cantadas, o que me faz supor serem da Base Aérea de Brasília, de Canoas, algo assim:
Com todo o respeito, baixei os nossos hinos. Como dizia minha professora, em tempos de reabertura democrática, todos em plena voz!

Um desenhítico


Uma igreja de Ouro Preto, na memória, no computador o rabisco.

Tuesday, August 05, 2008

Sonhos, noites árabes e livros raros


Hoje eu dormi no colchão do escritório, no meio dos labores ingratos da tradução que peguei. Tão estranho, eu fui professora durante dez anos, e fazia minhas pesquisas. Agora, sou tradutora, e como disse o rapaz da Net, que veio aqui trocar meu modem, que pifou nessa grande chuva de domingo, faço home office. Dormi e tive dois sonhos: sonhei que caminhava, com conhecidos, pelo Minhocão, até que o dito terminava numa mistura de floresta e monte de entulho, e eu entrava na casa de uma família imaginária. Depois sonhei que um grande incêndio consumia meu prédio, com direito a cenas horríveis, e eu salvava o livro da tradução, meu laptop e saía correndo, em meio a pessoas bem imóveis.


Enfim. Daí depois entrei na Praça é Nossa virtual, vulgo msn, e comecei a querer ajudar o Filipe numa pesquisa sobre ilustrações do Sacode a Espada, o tiozão das ilhas, vulgo Shakespeare. Fuça daqui, fuça dali, achei uma livraria de livros raros na Tailândia (???) e eu lembrei de outro sonho que tive ( ando numa fase Kurosawa), em que eu era a maior dançarina do ventre do Egito (?????????????) e eu ficava dançando, dançando e tal. Depois eu fiquei pasma, entrei no Youtube e vi a Lucy, de fato considerada a maior dançarina do Egito, e eu dançava com ela no sonho. Lembrei de uma edição infanto-juvenil que li, quando eu era, de fato, infanto-juvenil, das Mil e Uma Noites, e achei na livraria de livros raros da Tailândia uma edição ( Rosenthal, Leonard: The Kingdom of The Pearl. London: Nisbet & Co. Ltd. 1920), nem vou falar o preço, uma fábula, mas ilustrada por um tal Edmund Dulac, vocês vejam aí em cima a história da princesa Badoure, a princesa da China, que se envolve em mil peripécias com a princesa Haia, em intrigas de corte e jóias espetaculares.
Estou pouco discreta nos meus sonhos, não reparem!

Sunday, July 27, 2008

De tudo ao meu amor serei atento

O meu primeiro poeta, assim como o de muita gente, imagino, foi Vinícius de Moraes.



A princípio, Vinícius era o tio que havia escrito as letras das músicas dos dois discos que eu tanto gostava, A Arca de Noé. Depois, na escola, durante o ginásio ( sou do tempo que o ensino fundamental era chamado ginásio, e do tempo que poetas escreviam para crianças), fui descobrindo os sonetos, os textos em prosa, o mundo Vinícius.


Não tínhamos em casa os LPs gravados por ele e Toquinho, mas eu sabia de algumas coisas com o Tom. O poeta, porém, falou mais alto, e em várias excursões pelas bibliotecas dos dois colégios onde estudei, Vinícius era o preferido e o eleito. Copiava, com canetinha hidrocor, nas agendas, versos vários, e Para Viver um Grande Amor talvez tenha sido um dos primeiros livros que comprei, descobrindo os sebos da cidade. Logo, porém, Vinícius começou a conviver com Carlos, o Drummond de Andrade, e com Fernando, o Pessoa, nas minhas preocupações juvenis. Adorava as antologias poéticas das apostilas, que me apresentaram Gregório, o de Matos, Tomás, o Antônio Gonzaga... até Paulo, o Leminski. Vinícius foi a porta do amor pela poesia, amor este que já me fez declamar, nos arroubos da juventude, Baudelaire na frente de um pasto, e Gonzaga na frente de um flamboyant. Enfim. Passados os arroubos da juventude, fiquei muitos anos sem ler o poetinha, porque de fato ele não é bem visto na academia.
Hoje, me deitei à tarde, com um pouco de febre, e Para Ler um Grande Amor. Fiquei até meio com raiva: Vinícius escreve tão simples que chega a ser meio pateta, chega a abusar da boa vontade do leitor intelequitual e metido. Mas depois, a gente vê as referências do homem, e lembra da trajetória: de poeta metido e intelequitual, até com tons meio fascitóides, Vinícius virou um monumento, um colosso da delicadeza. Pensei no quão árduo foi para ele ser simples. A coisa mais difícil do mundo é ser e escrever simples. A coisa mais difícil do mundo é se despir de tantas explicações racionais, pseudo racionais, irracionais e o caramba a quatro, e se tornar a gente mesmo.
Daí, entrei no http://www.viniciusdemoraes.com.br/. Já ouvira falar da generosidade dos herdeiros, em abrir tudo da obra do poetinha na internet. O site é tão delicioso quanto Vinícius; a gente pode montar nossa própria antologia, com capinha, cores e tudo, e mandar pros amigos. Como diz Vinícius sobre uma gaiola de canário e Rubem Braga, imaginem para quanta mulherzinha vocês não vão poder mostrar esse truque! Essa é uma senhora cantada virtual... Fiz a minha e já enviei, em destaque o Soneto de Florença, que foi epígrafe da minha tese.

Thursday, July 24, 2008

Back in the high life again

Tem uma música que eu gosto, há muitos anos. Do Steve Winwood, Back in the high life again.


Essa música traduz muito do que sinto, nos últimos tempos. De volta à vida. Depois de tantas perdas, hoje sinto que o saldo tá começando a positivar. Minha psicanalista dizia pra mim que era do meu feitio ver tudo sempre no negativo. Mas é aquela velha história, copo metade cheio, metade vazio...
Agora, tem outra frase que eu gosto muito. Está no Memórias de uma Gueixa, o livro, não o filme: a adversidade é como um vento forte: ela não apenas nos afasta dos lugares onde queremos ir, mas também do lugar onde estamos. Ok, ok, tudo isso é clichê da cultura de massa internacional, Adorno se reviraria do túmulo agora. Não posso evitar de ser uma pessoa meio óbvia. O fato é que depois de tantas ventanias, de tantas perdas, eu sinto que meus pés estão mais firmes, e a subida, mesmo que íngreme, compensadora: começo a ver paisagens, horizontes e possibilidades. Começo a ver, depois de tanta neblina, e estou tão feliz por isso. Fico feliz por não ter desistido, mesmo nos momentos mais difíceis, de ser eu mesma e de querer o que quero, porque é tão simples.
Ando tendo conversas significativas, e isso é ótimo, mais que perfeito. Vejo o que desejo, e não vou me culpar por isso. Quero voltar, abrir portas que fechei, ver pessoas, escancarar sentimentos. Não tenho culpa pelo que sinto, pelo que vivi e por quem sou. Não, não tenho, mesmo que alguns fiquem no desagrado. Estou de volta.

Tuesday, July 22, 2008

Tutti buona gente!

Hoje acordei com uma doce tarefa: comprar o Correio Popular e encontrar, na primeira página do Caderno C, o tiozão narigudo mais sexy da história!

Isso mesmo! Rufem os tambores! Panda in the news! Panda in the news! Eu vou escanear e pôr aqui pra vocês!

Friday, July 18, 2008

A um amigo florentino

" (...) Não é essa, meu Pai, a maneira de retornar à pátria. Mas se outra, vinda de Vós ou de outros, se encontrar, outra que não destrua a fama e a honra de Dante, eu me colocarei nessa a passos não lentos. Se, por nenhuma outra de tais maneiras em Florença se pode entrar, e eu em Florença não entrarei jamais. E isso, porque? As esferas do sol e das outras estrelas, não poderei talvez contemplar em outro lugar? Não poderei, em qualquer lugar sob a volta do céu, meditar sobre as dulcíssimas verdades, antes de me render subjugado ao povo e à toda cidade de Florença? E nenhum pão me faltará."
Dante Alighieri, "All'amico fiorentino", in RUSSO, L. I classici italiani dal Duecento al Quattrocento. vol. I. Firenze: G. C. Sansoni Editore, s/d, p. 267, tradução livre da dra. Panda Maria.
Nessa carta, Dante recusa voltar a Florença, sob condições que acha humilhantes, como aceitar as acusações que lhe foram feitas, segundo ele mesmo, injustamente. Agora notem, meus queridos leitores, a força da moral do tiozão: exilado, ele teve que procurar refúgio em cidades inimigas de sua Florença, trabalhar como qualquer um em situações perigosas e, segundo o Tratatello de Boccaccio ( a ser traduzido na seqüência), ainda arrumar tempo para as muitas namoradas, conviver com os filhos e escrever a Commedia! Guarda che bravo ragazzo! O resto é conversa, morou!

Sunday, July 13, 2008

Saturday, July 12, 2008

Thursday, July 10, 2008

Per me si va nella città dolente...


Um belo dia, no lascado 2007, encaminhei-me para a cidadela de Dite, ops, Unicamp, para terminar as coisas da maledetta, ops, tese, como todos vocês acompanharam assiduamente pelo Meio, ops, blog.


Fui almoçar nas velhas paragens do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. E encontrei no balcão o amigo Marcão, ajudando na lida da família. Marcão foi meu aluno no IA, no departamento de Artes Plásticas, e é filho do pessoal dono da cantina. Muitos anos de amizade, de conta pendurada, de papos e desabafos. A gente atravessara o cabo da Boa Esperança juntos, até. E num dia, numa circunstância da qual eu não me recordo, bem no estilo das coisas muito boas que acontecem com a gente de improviso, Marcão me disse que ilustraria o Dante, em minha homenagem, pra minha defesa de tese.


Fiquei comovida com o gesto de amizade, logo reforçado pelo intrépido Saul. Um dia a emoção era tanta que a panda esqueceu de puxar o freio de mão até o fim e Gerião despencou ladeira abaixo, destruindo o carro de uma professora do IEL, absorvida no trabalho de contar pros meninos as peripécias do tiozão narigudo no Inferno das égua. Enfim. E num desses dias normais, comuns, a Flávia, amiga querida e supervisora do Centro de Documentação Alexandre Eulalio, o arquivo do IEL, viu a telinha diligentemente trabalhada pelo Marcão, nos intervalos de servir pratos e conferir troco. Eram Dante, Virgílio e as Górgonas, gostosas retiradas de sites pornôs, uma grisalha em acrílico. E veio o convite, vieram Mário, Filipe, Max, André e Vivi...


No dia da tomada da Bastilha, a panda orgulhosamente apresenta Città Dolente. É uma exposição de pinturas, desenhos, escultura, gravuras, só sobre.... isso mesmo! O tiozão narigudo! As obras são inéditas, 29 obras, feitas especial e carinhosamente para nossa exposição, que consta da programação oficial do sexagésimo aniversário da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Vai ter filme, palestra, bolo de fubá... tudo que o Dante, os meninos e a Flávia merecem!


Parece um sonho... os demoninhos ganharam vida de novo, bem como Virgílio, os monstros todos, mais uma vez, desde 1320, o tiozão serve bem para servir sempre! O cartaz da expo pra vocês, estão todos convidados! Não é todo dia que os nego do Inferno voltam em cena!

Sunday, July 06, 2008

Bruxas, duendes e pandas

Nunca me afetei pelo clima new age que dominou a cena anos 90, melhor dizendo, da segunda parte da minha juventude. Nesses sofridos anos surgiram várias lojas esotéricas, vendendo roupas indianas, miniaturas de duendes em durepox e fontes de água pra gente pôr no escritório. Eu gosto de roupa indiana e até acho que as miniaturas dos duendes são simpáticas, mas meu ceticismo é bastante elevado, considerando o que o pessoal faz por aí.
Ontem, eu fui na Livraria Cultura do Iguatemi, lugar que me deixa com sentimentos contraditórios: por um lado é uma beleza um lugar desses em Campinas, por outro eu perdi a desculpa de ir passear na Paulista pra poder ver as novidades na Cultura do Conjunto Nacional. Enfim, como diria o poeta, minha alma é uma praia assolada por ventos em direções contrárias. Mas de qualquer forma é melhor ver os livros que eu não tenho dinheiro pra comprar, num sábado à noite, que ficar em casa vendo a parede. Vi uns livros da sempre simpática Márcia Frazão.
Antes que me crucifiquem, apedrejem, e me queimem viva, a simpática bruxa fluminense Márcia não ensina ninguém a contradizer as teses de Newton, de Einstein e da Física Quântica ( que são contraditórias entre si, nunca é demasiado lembrar). Só ensina a fazer bolo de fubá e tomar com chá de cidreira pra melhorar o ânimo, o que qualquer um pode fazer, e é barato e ninguém morre com isso. Realmente, bolo de fubá com chá de cidreira melhora o astral de qualquer cristão ou ateu, bem como derramar lavanda ( é, a melhor é a Johnson's, pra bebês) nos lençóis quando a gente troca a roupa de cama. Eu sempre gostei muito dessas coisas simples, como queimar um incenso, pôr Mozart, lavar roupa ou fazer biscoitos quando estou triste, mas andei tão, tão triste que nem essas coisas simples eu tava conseguindo fazer. E tava encarando tudo daquele jeito cinza e limitado quando a gente tá no bico do corvo, como se diz por aí.
É impossível prever o futuro ( mesmo que ele exista, segundo Einstein), bem como é impossível voar ( tirando a possibilidade de pegar um avião, segundo os cálculos de Newton), e é impossível impedir que coisas ruins aconteçam e que infelizmente, muitas vezes o pior aconteça. Mas pelo menos bolo de fubá com cidreira ajuda tanto a gente a levar essa vida lascada. Li umas linhas dela e me senti melhor, com mais ânimo pra cuidar da minha casa, de mim e das minhas coisas. E se existe bruxaria, o verdadeiro feitiço é esse.

Thursday, July 03, 2008

A panda no corredor da morte

Comecei a trabalhar aos quinze anos. Acho que já contei aqui em algum momento; fui trabalhar no Mc Donald's da avenida Norte-Sul, aqui em Campinas. A loja, até hoje, é um inferno digno do dantesco: zilhões de clientes chatérrimos do Cambuí e da Nova Campinas, mais uns transeuntes, o dia inteiro, os sete dias da semana.
Hoje passei pelo Mac da Glicério ( aliás, num lindo sobrado meio Art Nouveau) e vi os meninos ali na labuta. As meninas que ficam no balcãozinho do sorvete são umas heroínas, porque devem atender metade da população de Campinas num dia, e a outra metade no outro.
O Mac assinava carteira e pagava um salário mínimo. Meu horário era das quatro da tarde até as nove; eu era menor e não podia passar das nove, mas de fato acabava, todos os dias, fazendo horas extras, devidamente não pagas pelo meu empregador. Na época, a loja não era franquia: nós éramos funcionários, todos, da matriz mesmo. Depois um médico cheio da grana e da pretensa humildade arrendou a franquia. Mas enfim. Entrei no emprego e me deram a incumbência de fritar as carnes do Mc Chicken, Mc Fish, as tortas, os nuggets e montar os dois sanduíches. Tudo isso é feito, até hoje, num corredor no interior da cozinha que sai da cuba das batatas: cubas lotadas de óleo vegetal, que a gente tirava com uma pá e luvas, punha nas cubas e é aquecido a não sei quantos graus centígrados. Os pães ficam numas torradeiras, e a gente tinha pistolões de maionese. Tudo era muitíssimo limpo e o povo era muito chato com todas as regras de higiene, pelo menos na minha época era assim.
O problema todo eram dois gerentes, irmãos, que pegavam as meninas e levavam pro grande refrigerador, que devia ser do tamanho do meu apartamento. As meninas que aceitavam o assédio eram lotadas no balcão. Lógico que a pequena panda já era meio da pá virada e não aceitou fazer nada no congelador a não ser pegar latões de picles pros sempre atarefados e legais colegas chapeiros, os que ficam no pior dos serviços da loja: virar as carnes dos hambúrgueres e Big Mcs. Logo, os gerentes me deixaram para toda a eternidade no corredor do Mc Chicken, carinhosamente apelidado Corredor da Morte.
Pois é, meus caros. Eu ficava sempre no corredor da morte. Agora, pensem: se o pessoal chamava minha área disso aê, vocês podem imaginar o que era minha panda vida. Só não me mandaram limpar a caixa de gordura, o pior dos serviços imagináveis de toda a humanidade. Também era sempre solicitada a limpar o chão da cozinha, o que fazia com um esfregão que era do meu tamanho e ficava num balde que tinha o meu peso. Tinha dias que eu entendia perfeitamente o Chaplin nos Tempos Modernos: uma vez, uma chata cliente pediu Mc Chicken sem maionese, e eu simplesmente não conseguia impedir o gesto de pegar o pistolão de maionese e tacar no pão. Outra vez, me pediram uma virada, como a gente dizia, de 6 por 6: ou seja, montar a capacidade máxima da área, seis Mc Chickens por vez, até que o gerente que estava na produção ( o cara que embala os lanches e controla o fluxo de pedidos pra cozinha) pediu pelo amor de Deus pra eu parar. Resultado: no nosso break, ou seja, na parada pro lanche, todo mundo comeu Mc Chicken, me olhando feio.
A panda, seguindo sua tradição, ficou muito popular com o setor povão da loja, os chapeiros e o pessoal do fechamento, uns rapazes que trampavam em n outras coisas e chegavam às onze da noite, pra fechar a loja, ou seja, os doze trabalhos de Hércules. Eram uns rapazes afro-descendentes imensos, um verdadeiro time de basquete, que a gente chamava de Globe Trotters. Vendo meu prestígio com os chapeiros e os Trotters, um dos gerentes escrotinhos do assédio sexual refrigerado resolveu me exilar no lobby, ou seja, fazer a limpeza dos salões e atender pirralhos que deixaram cair Coca-Cola no olho das suas mamães.
Lá uma vez, no quartinho das vassouras, uma caiu na minha mão esquerda, abrindo todo o meu mindinho ( tenho a cicatriz). De novo, fiz sucesso com os clientes e os Escroto Brothers me mandaram pro pior dos exílios: dar as festas de criança. Os chapeiros, os Trotters e os lobbistas tentaram dissuadir os caras disso, e me olhavam com uma pena digna dos piores momentos dos gulags soviéticos. Entendi no primeiro dia, em que tive que animar e servir em quatro festas de criança seguidas. Só me arrependo de uma coisa que fiz: num final de festa e com o horário apertado, tive que falar para a mãe do aniversariante que precisava limpar o salão. Tinha ficado pra trás um menininho cuja mãe não aparecia. A mãe do aniversariante me passou um pito por ter falado na frente do garotinho, que tremia de medo. Foi a única vez que percebi o quanto o serviço me alienava: em condições normais de temperatura e pressão, eu mando a regra à merda pra não ferir uma criança, ou quem quer que seja.
Enfim, no frigir das tortas de banana, até que me virei bem. Um colega, uma vez, revoltado, bateu nas costas de um cliente maldito com a bandeija, em pleno estacionamento, no que foi silenciosamente apoiado por todos, inclusive os Escroto Brothers ( o cara era um filhinho de papai do Notre Dame que vivia pra nos humilhar). Porque a gente podia fritar batatinha, mas não era o Ronald Mc Donald!