Monday, January 30, 2012

Direto do forno

"Conta-se uma história curiosa, relativa às relações da família Medici com o patrimônio pisano. Lorenzo de Medici foi acusado, em 1530, de ter decapitado a maior parte das figuras do Juízo Final, do célebre Púlpito do Batistério da cidade, da “douta mão” de Nicola, pelo humanista Francesco Maria Molza[1]. As esculturas ficaram mutiladas até 1732, quando Pietro Bracci fez as cabeças que faltavam, outros detalhes como braços e mãos e uma figura inteira, que desapareceu ao longo dos séculos."



[1] HASKELL, Francis, PENNY, Nicholas. L’Antico nella storia del gusto. La seduzione della scultura classica. Torino: Giulio Einaudi Editore, 1984, p. 438.

Saturday, January 28, 2012

Dores

Essa semana foi um horror. Desculpem a sinceridade.
Começou com a barbaridade do Pinheirinho, passou pro espanto dos desabamentos do Rio.
Dentro e fora de mim, dores. As minhas, tão banais, burguesas e bestas que não mereceriam comentário; mas se aqui é o único espaço que eu tenho pra expressar o que sinto... enfim.
Não consigo acreditar na quantidade de crueldade, descaso e desamor que existe no mundo.
Parece sempre que a gente tem que crer no que Jean-Jacques descobriu no caminho de Vincennes: que a salvação da humanidade é o dia que você acorda, sem um puto no bolso, pega um sol de verão na cabeça, pra ir visitar o amigo Diderot na cadeia. Talvez seja esse o meu erro ( e o de Jean-Jacques): pensar que o que existe dentro de mim existe dentro de alguém, perdido nesse mundão de meu Deus. Será que tudo que eu sentia, em nenhum momento, você sentiu?


Porque, no meio disso tudo, eu ouvi essa na cadeira do dentista.

Friday, January 20, 2012

Tuesday, January 10, 2012

Por um fio


Estava com muita, mas muita insônia. Eram quatro da manhã e eu não dormia, não tinha jeito de dormir. Até o remédio, e o sono...
Nessas horas, os monstros aparecem, e apareceram os meus. Os ex-namorados Minotauros que tive: o que terminou comigo no dia do meu aniversário, o que terminou comigo na semana que eu iria entregar a dissertação, o que viajou e arrumou outra e nunca se incomodou de me mandar uma mensagem, o que não gostava de mim e não terminava comigo nunca... eram vários Minotauros, todos horríveis, variando em tamanho e em força.
Eu me vi no Labirinto com eles, sem espada, ferida e com as vestes rasgadas. Eu enfrentava um, conseguia chegar até a borda do Labirinto, aparecia outro... cada um deixava cicatrizes, dor, mas eu lutei, até o final. Às vezes, me aproximava de algum, pensando que aquele finalmente era Teseu... mas não, todos eles eram Minotauros.
Havia as minhas forças, e os fios vermelhos estendidos no chão. Era isso. E pensar que depois de Teseu, ainda tem o abandono em Naxos, para finalmente Dionísio chegar... estou mal na fita, até nos sonhos! Cansada de ser uma especialista em monstros... daí no sonho eu acordei, me levantei da cama, não sei direito como foi, e me lembrei do Monstros S.A e da pequena Bu... além do fio, há a coragem de se entrar no armário por onde sai o monstro! Dez horas depois acordei. Nessa noite, os Minotauros não me pegaram...
Acima, Ariadne abandonada em Naxos, afresco de Pompéia, séc.I a.C. Museu Arqueológico de Nápoles.

Saturday, January 07, 2012

Papai do Céu, me dá um namorado: lindo, fiel, gentil e tarado...

Morei, como todos os (pouquíssimos) leitores sabem, no bairro paulistano do Cambuci. Pois, lá perto do Cemitério da Vila Mariana, ficava a casa onde Rita Lee e Roberto de Carvalho ensaiavam.
Sempre tive tia Rita bem perto do coração, porque a considero uma grande letrista, com verve digna dos sambistas antigos. Minha gravação, feita no Paraíso, de Carmen cantando algo de Rita, seria um grande sucesso internacional, vencendo o terrível Teló ( ai, se eu pego o Teló, gente! Eu MATO!).
Mas enfim. Uma das cançonetas mais graciosas de Rita, sem dúvida, é Xuxuzinho, onde a moçoila pede o seu Lampião, sendo ela Maria Bonita, seu Salomão, sendo ela a Mina de Ouro. E como Rita tem o dom da linguagem sucinta, fica a dica pros moços: ser lindo, fiel, gentil e tarado é o que há.

Wednesday, January 04, 2012

Timoneiro

Hoje eu estou tão triste, que penso que posso enlouquecer com o peso do peito.
Às vezes a dor das coisas passadas é tão forte, que a vontade é bater a cabeça na parede. Juro.
E quando a dor está assim, eu só penso em chorar ouvindo Paulinho, dizendo que o mar é que nos navega.

Monday, January 02, 2012

No mural

"Les circonstances qui nous ont engagé dans ces recherches n'ont qu'un intérêt anecdotique et le lecteur ne gagnerait rien à les connâitre, mais il a droit à quelques explications sur la manière dont nous les avons conduites. Lire Dante est une joie. Ecrire sur Dante est un plaisir (...)".
Étienne Gilson, Dante et la Philosophie. Paris: Librairie Philosophique J. Vrin, 1986, p. VIII.

Buon Cappo D'Anno per tutti!


Mais um ano, e a gente aqui no Meio do Caminho! Saudações dantescas da velha e sempre rabugenta panda. Pior que eu sempre acho que ninguém me lê, e sempre tem um perdido que ainda lê esse cantinho da selva oscura internética. Enfim, tem gosto pra tudo!

Andei pensando muito sobre o problema que me move, e que moveu meu grande mestre tiozão ( claro que, no caso dele, com competência e brilho para mover séculos e séculos, no meu caso pra divertir umas cinco pessoas no máximo): o problema do mal. Tem gente que veio ao mundo para atazanar a paciência do alheio. Infelizmente para nós, os que não atazanam ninguém ( ou no máximo cinco pessoas) neguinho que é sangue ruim parece brotar do chão que nem cogumelo. Agora, infelizmente para eles, parece que o Inferno, e não o Haiti, é aqui.

"Inferno è qualunque luogo ove siano dannati. E dannati son quelli che hanno perduto, senza speranza, la loro beatitudine. La vita sulla terra senza la beatitudine è inferno."
Bruno Nardi, in Dante e la cultura medievale. Roma: Editori Laterza, 1985, p. 41, nota 104.

Acima, Saída da Vida Pecaminosa, óleo sobre tela de Eliseu Visconti, 1896, 100 x 62 cm. Um outro óleo, com o mesmo tema, está na grande exposição dedicada a Visconti, até final de fevereiro, na Pinacoteca.

Thursday, December 22, 2011

Alguém como você

Num mundo em que todo mundo é muito feliz, em que tanta gente tem sua tampa da panela, sua metade da laranja, o chinelo para seu pé cansado, devo dizer que já levei muitos, muitos foras. Já tive decepções horríveis, já fui traída, trocada por outra, vi um grande amor encontrar outra, se casar e ter uma linda filhinha, tudo pelas redes sociais, já tive paixões platônicas que viraram motivo de piada do colégio inteiro, já fiquei tão sozinha que achei que ia pirar...
Claro que nunca foi legal pra mim pensar que na verdade, nas arenas do amor, sou uma loser mesmo. Por isso desisti. Encontrei um canto para mim que era dolorido, mas era o meu canto; levava minha vida. Por que você entrou naquela sala? Nem vi você entrar. Talvez passasse anos, anos, na mesma desesperança. E seria o que eu teria.
E agora, além de você, eu tenho que suportar essa inglesinha de 23 anos cantando o que sempre senti, nas margens do Sena. Pois é, eu, como muitos por aí, os losers, choro quando Adele canta Someone like you.

Monday, December 12, 2011

Avanti, pisani!

Apesar de toda minha insegurança, que é do tamanho do Mediterrâneo, aqui estou, estudando os escultores pisanos ( Nicola, Giovanni, pai e filho), e o tiozão. Pois é, Pisa e a Commedia. Começo então a contagem regressiva para voltar a ver o Arno, tomar gelato na frente de Garibaldi, passar fome na Torre da Fome, comer cecina e tomar Tuborg na névoa do Campo dei Miracoli, abraçar a Torre torta e sonhar na igreja de San Francesco. Rezem por mim, amiguinhos, espero que minha asma não dê sinal de vida ( no caso, para mim, sinal de morte) nas incursões à linda, e gelada, cidadela onde o si soa.

Tuesday, December 06, 2011

Educação Sentimental-I

Às vezes acho que Leoni, Leo Jaime, Ritchie, Lulu, enfim, os eightie song's writers, tinham que virar imortais da Academia Brasileira de Letras. Fizeram mais pela pátria, e pela língua-mãe, do que Sarney, Paulo Coelho e et caverna. Mas enfim, na minha Academia os caras vestem, garbosamente, todos os jaquetões verdes com as insígnias dos sábios.
Leoni é um cara que foi maltratado pela crítica, e pela curiosa posição de ser um puta letrista, pra uma banda pop, o Kid Abelha. Vamos e venhamos, Paulinha Toller é gata e tal, mas cantava mal pra burro, etc. e tal.
Mas eu aos 35 anos estou plenamente convencida que Educação Sentimental I foi tirada da minha vida. Sério. Da minha vida e de quem eu, com dor, confusão, medo, angústia, gosto.

Wednesday, November 30, 2011

Nervoso


Os últimos dias foram bem tensos. Tive uma crise de asma e pela primeira vez usei a mortal bombinha. Enfim, acredito que passou, apesar das seqüelas que ficaram. Tem coisas que me mobilizam muito, demais, e eu preciso aprender a desfocar, relaxar, relevar, mas é difícil.
No final, virei algo muito parecido com um mestre querido meu. Outro dia tive um sonho, que minha alma acordava no corpo dele, e esse sonho foi um dos mais bonitos que eu já tive. Eu senti a dor dele. Sentir a dor do outro é algo inesquecível.
Daí outro dia um amigo querido me disse coisas do invisível, e as coisas do invisível que ele me disse viraram realidade, no velho planalto do Piratininga natal. Tudo parece um sonho, daqueles virados do avesso, Alice no país das Maravilhas, mas dentro da loucura existe uma lógica. Agradeço aos meus mestres. Mas eu virei algo muito próxima do que eu deveria ser, e isso me assustou bastante.

Saturday, November 26, 2011

Volta

Porque eu preciso voltar a sorrir, flertar com o amigo do amigo, tomar sol na cabeça, almoçar com a minha mãe, repetir o manjar e ouvir um Santana na loja de 1,99 do centro dessa cidade.

http://www.youtube.com/watch?v=Od9FkRvvnrg

Tuesday, November 22, 2011

Giving the crazy

Esses dias eu tenho lembrado muito de um negócio que estudei há uns dez anos. Eu estudava os textos do filósofo alemão Theodor Wiesegrund Adorno numa obra coletiva, que este autor assinou com outros, quando do seu exílio ensolorado na Califórnia: The Authoritharian Personality. Pois é,meus caros amiguinhos,eu já contei aqui, em algum lugar, também anos atrás, que a pequena panda era muito destemida e lia páginas e páginas de Freud, Durkheim, Adorno, Fromm e gibi da Mônica, para compreender porque alguns indivíduos resolvem ir pro lado negro da Força. Depois eu cansei e resolvi ir direto na fonte, ler o Inferno do Dante mesmo, porque como todos sabemos o tiozão florentino já investigava os porquês de criaturas matarem, roubarem, não honrarem pai nem mãe, pecarem contra a castidade, além de encherem a paciência do próximo postando besteira no Facebook.

Parêntesis: a razão pela qual o Chefe do Universo, Ele mesmo, o Alfa, o Ômega, o fim e o começo, O que tudo vê, mandou aquele download pro Moisés no Sinai é que Ele em sua infinita sabedoria sabia que as pessoas fazem aquilo tudo o tempo todo. Fecha o parêntesis profético.

Voltando. Nego mata, nego mente a três por quatro, e eu mesma incorro nos pecados capitais com muita freqüência, destacando a preguiça e a gula; o Mal não é algo abstrato, é real e tem a ver com o descumprimento de noções básicas de sociabilidade. Se todo mundo fizer coisas erradas, tudo vai pro brejo, ok. Mas o Adorno estava preocupado com um fenômeno mais curioso: se neguinho tem consciência do que tá fazendo, quando postam besteira no Facebook, por exemplo, ou passam a mão na bunda da mulher do vizinho. O pior, descobriu o filósofo, é que nego dá de louco. Nego sabe que aquilo tá errado, mas vai e faz, dando de louco. Isso é de lascar. Dar de louco é muito comum, às vezes é a única saída pra uma situação familiar, profissional, amorosa, humana, enfim. Mas quando vira hábito, fala sério.

Friday, November 18, 2011

Nostalgia

Vi algumas cenas da festa da queda do Berlusconi. Aquela gente nariguda, berrando na Fontana em Roma, naquele frio da porra... começou a me dar uma dorzinha funda, e a vontade de torrar todo meu dinheiro em gelato, sutiãs, vinho, comida, entrada de museu.


Saudade dos trens atrasados, da umidade do demônio, das noites enevoadas, do café forte, do pinoli, do cheiro de cecina, das salas abarrotadas de Tizianos...


Saudade da sombra da torre, da sombra das ogivas nos sarcófagos gregos, saudade dos templos de Selinunte. Serei mais forte e dominarei essa nostalgia d'Italia. Fala sério, tenho que ser uma pessoa responsável e não parar em qualquer fonte, abraçada com Dionísio e falando na língua do vate, lascia perdere.

Thursday, November 17, 2011

Wednesday, November 16, 2011

Amor pra recomeçar



Depois de um feriado chuvoso, vontade nula de trabalhar. Tenho que ler Curtius, Bloch, Huizinga, Duby, Le Goff, Vasari, Dante e um monte de artigos. Minha burrice é muito grande e minha força de vontade é nula, que faço?

Eu tenho até vergonha de dizer, mas meu emocional me abala muito. De vez em quando, tenho o mau hábito de gostar de gente tosca, de gente que não tem vergonha na cara. Eu vou parar com as drogas, prometo a vocês.

Acima, a Barca de Dante, desenho atribuído a Fillipino Lippi.

Saturday, November 12, 2011

O Google, o sifão e o fim do drama

Hoje tive a brihante idéia de polir as minhas (poucas) peças de prata. Tenho dois colares que foram feitos por uma amiga, há dez anos atrás, quando ela começava a carreira de joalheira; um pingente de pinóquio, todo articulado, que comprei em Pisa; uma pulseira que tem uma bolsinha; e um par de brincos, que eu gosto muito, e que por isso eu nunca uso.


Dizia no rótulo do limpa-prata, que precisava passar o produto com algodão na peça, e depois lavá-la em água corrente. Fui lavar as peças no tanque, pensando, preciso tomar cuidado, porque senão alguma coisa cai no ralo. Da primeira leva, tomei todo o cuidado e nada caiu.


Obviamente que enchi a mão das outras coisas e, animada pelo próprio sucesso, fui pro tanque. Lava,lava, vira a mão... e, claro, um dos brincos cai no tanque.


Pensei em tanta perda que eu tive nos últimos anos, pensei que fosse inveja de alguém, tive tanta raiva de mim, pensei em sair de casa e ir morar com a minha mãe, pensei em ter que mandar fazer um brinco igual... pensei em pedir um arame e uma lanterna pro seu Cássio, o porteiro do meu prédio.


Desço descalça, descabelada e descrente. Seu Cássio estava num telefonema DR com sua digníssima, e demorou um pouco mas me forneceu um arame ( já com uma argola providencial na ponta), a lanterna e indicações de usar um arame pra refazer o laço, talvez.


Volto pra casa, pensando no dia que Pererê, o filhinho amado da minha amiga mais amada ainda, ganhou um elefantinho de plástico, que caiu num bueiro e que teve que ser socorrido de lá por um senhor arquiteto muito habilidoso... que a panda achou na rua, no desespero.


A lanterna se mostrou muito forte, o arame conseguiu puxar um monte de sujeira e empurrar o brinco pra longe do fundo do tanque. Agradeci e devolvi a lanterna e o arame pro seu Cássio, que continuava na DR.


Voltei pra casa. Sentei na poltrona do escritório. De raiva googlei brinco no ralo e no yahoo respostas veio: minha filha, desenrosque o sifão. Desenrosquei o sifão e peguei o brinco. Fim do drama.

Friday, November 11, 2011

O porquê

Hoje, entrevista de emprego. E me perguntaram, delicadamente: por que Dante?


Por que ele escreveu o melhor livro de todos os tempos, onde as pessoas estão onde merecem.
Por que ele enfrentou o medo, e foi quem ele era.
Por que ele foi um dos poucos a pensar o mal.
Por que há sete séculos o que ele fez deu emprego e ensejo pra muita gente, muito boa.

Porque eu sinto que só esse homem, que morreu em 1321, me entenderia, totalmente.


Acima, Dante. Auguste Préalt (1809-1879), 1853. Bronze, 95 x 23 cm. Paris: D'Orsay.