Baixei a música Retirantes, do Dorival Caymmi. A da Escrava Isaura, isso mesmo.
E tá sendo a trilha sonora perfeita. Tô escrevendo meu exame de qualificação, um texto pra apresentar num congresso em Mariana, MG, e tô traduzindo um texto de Sociologia do italiano, encomenda do Josué.
E aconteceu uma coisa muito legal, mas que vai dar um trabalhão. Eu e Celo mandamos propostas para Mini-Cursos no Encontro de História Antiga e Medieval, promovido pelo NEAM, Núcleo de Estudos Antigos e Medievais, do departamento de História em Assis. E o pessoal do NEAM, que conheci no Encontro do ano passado, aceitou nossas propostas. Mas preciso me preparar e preparar uma apostila para os alunos; serão dois dias.
O problema é que tudo isso encavalou. Estou vesga. E pra piorar, comecei as aulas do curso de renovação da carteira de motorista, três dias, da uma às seis da tarde, além de ter que limpar a casa, cuidar de roupa, blablabla.
Ou seja, estou no lerê lerê. Nada de resposta de FAPESP ainda, nada de nada, não sei como vai ser minha vida no próximo mês. Vou ter que me virar mais que pião pra pagar as contas, que como todos puderam notar, vieram altíssimas esse mês. E detalhe, tudo isso sem carro nem nada, a seguradora não deu sinal de vida essa semana.
Ah, e mais um evento-panda! Eu e Zé, meu ex-aluno mas sempre amigo, vamos agitar uma Lectura Dantis na Unicamp! Sim, sim! Todas às quartas, na Arcádia do IEL, vamos ler a Divina,seis e meia. Vai ter cartaz e tudo noticiando esse grande acontecimento-panda. Seguirei a veneranda tradição, iniciada por ninguém menos que Giovanni Bocaccio, e vamos adentrar na selva oscura. Com direito à bolacha Maria e chá de camomila!
Friday, April 14, 2006
Wednesday, April 12, 2006
Dizeres
Hoje começou a contagem regressiva pra Sexta-feira Santa, dia em que minha santa mãe faz bacalhau à Gomes de Sá ( sem ovo) e canjica.
Não sei porque, mas isso é hábito campista, fazer canjica na Sexta-feira Santa. A canjica campista, porém, não leva leite de coco e amendoim, como a baiana. A minha mãe faz com um pouquinho de leite condensado, bem pouco, e cravo.
De Campos minha mãe trouxe o r puxado, a canjica e dizeres engraçadíssimos. Dela peguei a mania de inventariar falas engraçadas, como por exemplo "Meu, você vai tirar o pai da forca e a mãe da zona?" ( pra neguinho que fica dando farol alto na Dom Pedro), "chamar Jesus de Genésio e urubu de meu louro" ( o desespero), e "chuta que é macumba"...
Mas as minhas favoritas de todos os tempos são: "Tá no inferno? Abraça o capeta!", "Chuta que é macumba", e "Pediu pra ser feio no Vale do Eco"... hahahahahah!
Não sei porque, mas isso é hábito campista, fazer canjica na Sexta-feira Santa. A canjica campista, porém, não leva leite de coco e amendoim, como a baiana. A minha mãe faz com um pouquinho de leite condensado, bem pouco, e cravo.
De Campos minha mãe trouxe o r puxado, a canjica e dizeres engraçadíssimos. Dela peguei a mania de inventariar falas engraçadas, como por exemplo "Meu, você vai tirar o pai da forca e a mãe da zona?" ( pra neguinho que fica dando farol alto na Dom Pedro), "chamar Jesus de Genésio e urubu de meu louro" ( o desespero), e "chuta que é macumba"...
Mas as minhas favoritas de todos os tempos são: "Tá no inferno? Abraça o capeta!", "Chuta que é macumba", e "Pediu pra ser feio no Vale do Eco"... hahahahahah!
Sunday, April 09, 2006
Reflexões históricas
Pensar que no Brasil a escravidão existiu até 1888. O escravo era coisa, bem semovente. Era arrolado nos inventários junto com o gado.
Pensar que durante séculos existiu o Tribunal da Santa Inquisição, que fez churrasco de milhões de pessoas.
Pensar que dois terços da população européia morreu de peste.
E pensar que Roma foi destruída várias vezes, resistiu várias vezes, e hoje é sede do governo Berlusconi.
E pensar que hoje eu fiz um teste de inglês ( no msn.com.br) e constatei que meu inglês é milhões de vezes melhor que o do presidente George Bush.
Pensar que durante séculos existiu o Tribunal da Santa Inquisição, que fez churrasco de milhões de pessoas.
Pensar que dois terços da população européia morreu de peste.
E pensar que Roma foi destruída várias vezes, resistiu várias vezes, e hoje é sede do governo Berlusconi.
E pensar que hoje eu fiz um teste de inglês ( no msn.com.br) e constatei que meu inglês é milhões de vezes melhor que o do presidente George Bush.
Tô que tô
Baixei a trilha de Sol de Verão Nacional.
Lendo aqui esse post, me dei conta que eu me lembro de uma época que o Brasil era um pouquinho, pouquinho melhor do que esse 2006, que até agora foi de lascar. Caymmi em trilha de novela, Simone que gravava Chico Buarque, e a Veja era de esquerda.
Lá em casa, meus pais não compravam trilha de novela não. Todo mundo lia a Veja ( pois é, já foi uma revista de esquerda) e ouvia Milton Nascimento. Mas em 1982, aconteceu um fenômeno. Meu pai comprou daqueles Gradientes prateados, e desde 1982, eu ouço música de todo o tipo todos os dias.
E esse disco apareceu lá em casa. Junto com o disco um da trilha de Roque Santeiro, os dois únicos discos de trilha de novela que ouvi na vida. Essa novela ficou famosa por um motivo triste, o ator Jardel Filho faleceu bem no meio, e era o protagonista. Sim, teve época que o Jardel Filho, o Paulo Autran, a Fernanda Montenegro eram protagonistas de novela da Globo, e sim, atores não tão bonitos assim divertiam a gente nos três horários do plim-plim.
Essa trilha é bacana. A música da abertura era sim, a Simone, na época em que era boa cantora, lascando "Tô que tô", dos gaúchos Kleiton e Kledir. Mas o mais legal é um samba bonito, bonito, da Beth Carvalho. A Beth Carvalho, bem como a Simone, angariou antipatias do Oiapoque ao Chuí com pagodinhos rastaqueira ( eu acho pior o caso da Simone, que gravava Chico com o próprio e cometeu aquele disco horrendo de Natal, que deveria ter sido denunciado pra Anistia Internacional), mas gravou um dia esse lindo "Tendência", que é de dona Ivone Lara, I presume. Samba é que nem bolero, quando é bonito, acompanha a gente o resto da vida.
Semana passada, tive discussões horríveis com amigos sobre baixar ou não MP3, e o fato de ter me afastado de Mozart e Bach pra ficar ouvindo trilha de novela oitentista. Fazer o quê, tem dia que "Tendência" faz com que eu me reconcilie com a vida. Em tempo, baixei também "Retirantes"', do Caymmi, sim, sim, a abertura de Escrava Isaura, o lerê lerê, vida de negro é difícil, é difícil como o quê. Essa aí eu vou por de fundo essa semana, porque amanhã é dia de negro, diferentemente do que os racistas diziam por aí.
Lendo aqui esse post, me dei conta que eu me lembro de uma época que o Brasil era um pouquinho, pouquinho melhor do que esse 2006, que até agora foi de lascar. Caymmi em trilha de novela, Simone que gravava Chico Buarque, e a Veja era de esquerda.
Domingo de Ramos
Seguindo a liturgia, hoje é domingo de Ramos, dia em que Jesus entrou, montado num burrico, em Jerusalém, saudado por palmas e alegria. Menos de uma semana depois, a história que todo mundo sabe.
Acordei mal, deprimida com tristezas passadas, presentes e futuras. Fui tentar ligar no celular do Luis ( no orelhão, já que aqui em casa vivo no Plano Favela da Telefónica), a pia entupiu e tive que encher o saco da minha vizinha, desci e fui pra Ki-Pão, o pão nosso de cada dia nos dai hoje. E vejo na banquinha, Suzane von Richthofen na capa da Veja, em close, sorrindo. Puta, aquilo me derrubou.
Faz anos que a Veja tá uma merda, e o povo lascou no Orkut a comunidade "Leu na Veja? Problema seu!"... entre Diogos Mainardis da vida, gente que fala que Mozart não era tão bom assim ( sim, claro, bom mesmo é Geraldo Alckmin), eu fico mal pra caramba, porque eu sou da época que a Veja era, sim, uma boa revista. Agora é um lixo, e nem dá pra usar pra limpar nada. Agora, essa psicopata na capa, sorrindo e limpando sua barra com a opinião pública... quer dizer que ela manda matar o pais de pancada pra ficar com a herança, e agora posa de menina sofrida?
Olha, como dizem por aí, eu sou da turma dos direitos humanos, muito difícil eu me bandear pras raias do autoritarismo de achar que bandido tem que morrer e coisa e tal. Mas essa filha da p*&^& não tem justificativa. O pai abusava? A mãe era uma escrota? Saísse de casa, fosse pruma quitinete. Deixasse de ser a riquinha mimadinha e idiota. Fosse pra luta. Não, matar pai e mãe é injustificável, pruma nega da classe alta paulistana ( elite boa essa que a gente tem, né? Daslu, Suzane, tudo isso dá uma idéia do que essa gente é)... e mais injustificável é essa revista de quinta categoria dar espaço e entrevistar essa desgraçada, que deveria estar presa.
Passei da depressão pra revolta. Olha, meu background católico é forte demais pra eu aceitar isso. PT roubando, nega matando pai e mãe, mas será possível? Virei a esquina e vi uma senhora com uma palma na mão, indo ou voltando da missa. E lembrei, começou a Semana Santa. Lava-pés, última ceia, e o Calvário.
Friday, April 07, 2006
Paulistânia
Tenho a alma deveras paulistana.
A padaria da esquina, os sobrados, os vários tons de cinza e azaléias. O trânsito na Paulista, o Fauno do Trianon, o pastel do Yokoyama, corre e atravessa a Sé, corre e atravessa a Brigadeiro, desce a Arcoverde e sobe a Teodoro Sampaio. Da Lapa a Móoca, a nova estação de metrô no Ipiranga. Volpi, Adoniran, Oswald e Mutantes. O peso das palavras quando ditas na USP. O café e a Oscar Freire. O caldo de cana e a Pinacoteca. E um dia me perdi e achei o Lasar Segall, me perdi e achei o Ibirapuera, mas entrei no portão errado, e tudo nessa cidade é longe e não tem retorno.
Thursday, April 06, 2006
Documentos
Hoje fui tentar resolver duas pinimbas.
Minha carteira de habilitação venceu em setembro, e eu não votei nem justifiquei no referendo das armas.
Bom, chegando na Justiça Eleitoral, uma senhora me pede que eu não faça a regularização do meu título porque o negócio estava burfado de gente. Essa semana é a semana da transferência dos títulos de cidade pra cidade e regularização da situação de gente que nunca teve título...
Fui no Poupa Tempo. Precisei tirar uma foto 3x4, onde obviamente saí com cara de doida, e pagar sessenta pilas. Descobri que vou ter que fazer um curso na auto-escola, mais sessenta pilas, na semana que vem. Que beleza.
Vou no Bradesco, também lotado, pagar uma taxa de um congresso que quero participar, no final do mês. A maquininha dá um pau danado. Depois fui na Renner pagar prestações vencidas e ver se achava algum paninho pra mim. Nada ficou bom, eu tomei chuva na rua e meu cabelo tava um desastre. Vi uma roupinha na vitrine, a blusa M ficou grande demais, a calça 44 pequena demais, e a jaqueta jeans uma estopa. Fiquei parecendo um espantalho!
Na outra loja, um vestido lindo de morrer, estampado, fundo preto e estampa verde. Totalmente fora das possibilidades econômicas do momento, o vestido me deixou uma pessoa decente, quiçá interessante. Mas pensei, cara, nem sapato tenho pra usar com essa coisa linda.
Na auto-escola, tinha uma maquininha pra verificar digitais (???) e meus dedos não batiam. Eu fiquei me sentindo uma ET, pensando no vestido e no fato de ter que gastar grana com besteira como auto-escola, segunda via de documento, e foi estranho ver roupas de inverno nas lojas. Depois do frio de Chicago, isso aqui é bolinho!
Wednesday, April 05, 2006
Romântica, muito romântica
Com esse negócio de baixar MP3, as lembranças vêm e vão.
E comprovo um traço da minha personalidade que é fogo. Eu sou muito romântica, chego a ser brega demais, é horrível.
Um olhar mais doce, um telefonema, uma atenção,e eu me derreto. Nossa, tive tantas paixões platônicas, daquelas platônicas mesmo, tipo Castro Alves, Álvares de Azevedo, um bolero sem fim essa minha vida.
E ao mesmo tempo, esse mundo vive dentro de mim, porque a timidez me acompanha. Não tenho coragem de me declarar, nunca; tento chegar perto, brincando ou inventando uma desculpa mais ou menos racional, sempre.
Eu tinha uns quatorze anos e gostava dum cara do colégio, que não dava a mínima pelota pra mim, claro. E um dia, na saída das aulas, criei uma coragem absurda e perguntei as horas pra ele. Detalhe: no pulso, eu tava com um relógio Casio gigante, amarelo... o cara olhou pra mim pensando, mas essa mina é louca... e eu, esse relógio tá quebrado...
Agora, eu resolvi escancarar. Tô com quase 30, não vou mudar nem melhorar. Durante muito tempo, meu projeto era virar uma mulher desencanada, solta, relaxada e moderna. Mas não adiantou nada, então é melhor assumir. Sim, eu gosto de Roberto Carlos, sim, eu adoro flores, e sim, eu me apaixono com uma facilidade ridícula. Se chorei ou se sorri, o importante é que emoções eu vivi!
Monday, April 03, 2006
Pérolas musicais
Descobri que uns maluquinhos adoráveis estão disponibilizando, no Orkut, links pra baixar músicas. Ou seja, essa noite eu não dormi porque fiquei baixando pérolas dos cancioneiros internacional e nacional.
Gente, tem de tudo, e isso me alegrou, porque minha velha mania, a Rádio Terra, foi por água abaixo. Os caras decidiram do nada que não se pode mais ouvir as canções por mais de 30 segundos, um verdadeiro saco. Um menino muito inteligente montou uma comunidade no Orkut, "A Rádio Terra perdeu a graça", e eu entrei, lógico...
E aí, é um problema. Se você ouve a Rádio Yahoo, não pode escolher a seleção, e só pode pular cinco músicas. E se você quer baixar MP3 por aí, é sempre aquela preocupação com a infestação de vírus.
Mas o pessoal no Orkut resolveu usar um site alemão de compartilhamento de arquivos, e o processo fica rápido e seguro. Consegui músicas que queria há anos, desde o tempo eu que eu gravava tudo que queria em duas fitas cassete, gravadas e regravadas de forma absolutamente esquizofrênica.
Baixei coisas que são caras ao meu coração, mas que são verdadeiras porcarias musicais. Outras nem são tão ruins assim, como as do Pepeu Gomes, que eu acho um puta músico injustiçado. Isso me deu um pouco de alegria. Ontem me olhei no espelho e me vi envelhecida e sofrida, olhar em viés, anguloso e dolorido. Agora preciso ir dormir, insônia é fogo.
Friday, March 31, 2006
Quiproquós culinários
Se eu pudesse, teria um cozinheiro ou cozinheira trabalhando pra mim. Já imaginou o luxo, você chegar num profissional e falar, hoje quero comer bolo de fubá?
O problema é que, se tem uma coisa que me deixa louca, é errar com comida. Lembro de uma vez que, meio sem grana, comprei uns bifes e couve. Mas não é que eu salguei demais a couve? No domingo, gosto de estourar pipocas. É um costume antigo, quando eu era criança meus pais estouravam pipoca na hora dos Trapalhões. Estourei, as pipocas ficaram lindas, mas eu salguei demais.
Essa semana foi corrida, mas precisei enfrentar a cozinha em duas ocasiões. Na primeira, esquentei um macarrão que estava estrategicamente na geladeira e fiz uma omelete. Graças a Deus, o meu anjo da guarda cuidou para que a dita cuja ficasse bem gostosa, se bem que meio esbodegada, porque na hora de virar eu sempre desmonto a supracitada.
Hoje, descongelei dois pedaços de filé mignon, gentilmente cedidos por minha sogra, e fritei no clássico esquema pouco óleo e frigideira pelando. Depois, passei uma cebola e lasquei farinha de rosca. Essa é a clássica farofa de raspinha, inventada pela minha mãe e que era a nossa paixão nos dias do bife e da salada de agrião.
De outra feita, fui fazer um bolo,a receita tirei do jornalzinho dos alunos do IA. O bolo embatumou. Que raiva.
Mas me orgulho de uma canja que fiz, na madrugada, pra mim e pro André, que estava em casa estudando. Ou das lentilhas, agora que começar a esfriar vou atacar de lentilha, sopinha de feijão, e mandioquinha... agora, arreda o Exu tranca-panela!
Monday, March 27, 2006
Águas passadas não movem moinho, mas a SANASA cobra
Às vezes, tantos anos passam diante da minha frente... tantas coisas. Tantas recordações. Algumas eu perdi no meio do caminho, outras se transformaram no pão de cada dia, outras incomodam tanto que ficam anos na gaveta, até um dia ressurgirem e reabrirem feridas.
Tantas coisas... mas não dá pra viver no e de passado. Quero planejar meu futuro. No sábado, meu irmão veio, de Belo Horizonte, e estava na casa da minha mãe.
Quando meu irmão nasceu, eu tinha dois anos. Ele foi o meu grande afeto na infância, era tão ligada a ele que na hora de pôr o caçula na escola, a coordenadora pedagógica do colégio aonde eu estudava aconselhou meus pais a matricularem o pequeno em outro lugar, porque senão eu o sufocaria de mimos e atenções na hora do recreio. Eu sou uma Felícia, aquela menininha psicopata do desenho animado, que ama e aperta tanto os bichinhos que os esfola vivos. Dá vergonha, eu não consigo me controlar, se gosto de alguém chego a ser meio agressiva.
Depois, na adolescência, o meu grande amigo se transformou em alguém que a princípio me odiava, e depois demonstrava uma frieza tão grande que me desconcertava. Tivemos uma fase terrível, depois que nosso pai se foi. Ele chegou a fazer coisas muito horríveis, mas depois que saiu da casa da minha mãe, meu irmão vem se tornando em alguém afetuoso, às vezes engraçado, que me surpreende. No sábado, eu combinei de ir almoçar com eles na casa da minha mãe. Estava com muita enxaqueca, e liguei pedindo uma carona. Meu irmão veio me buscar, com torcicolo e tudo, e quando eu entrei no carro, pela primeira vez em muitos anos, ele me sorriu um sorriso igual ao da infância.
Eu sei que as coisas não são perfeitas. Que a vida é difícil. Sei que sou muito equivocada, que tenho defeitos graves e que muitas vezes errei. Mas também sei que depositei muito, muito afeto, em muitas situações, com muita gente. E é engraçado, você planta aqui, colhe ali. O mundo não é tão caótico quanto parece. Um sorriso, um abraço, um olhar de boa vontade. E você ganha o dia e conquista um continente.
Wednesday, March 22, 2006
Ainda mais essa...
No meio da zona que está minha vida ( que vocês podem bem imaginar, entre seguro de carro, pegar ônibus, fazer comunicaçao pra Encontro de História da Arte, etc, etc), ainda tem mais um episódio da série Pequenas Tragédias Cotidianas.
Cheguei dez horas da noite em casa na segunda-feira, carregada com umas comidas que minha sogra gentilmente me cedeu, devido a atual situaçao precária do meu lar. Pisei num envelope pardo com o temível simbolinho da FAPESP.
Neguinho resolveu me cobrar uma grana preta da viagem pros EUA. A conta deles nao bateu com a minha. Mas é uma grana preta, e eu, lendo tal correspondência, quase tive um ataque cardíaco. Estou sem grana pra nada, e ainda mais essa. Tô sendo cobrada por uma grana que eu nao gastei indevidamente.
Entrei em desespero. E aí acho que bateu tudo, o trauma do assalto, a tristeza por várias coisas, que ando sentindo há meses, e chorei. Chorei a noite toda, literalmente. Nao consegui dormir, fiquei literalmente em pânico.
Ontem precisei resolver rolos do carro, que é outra novela. Infelizmente, acharam meu carro depenado, e na sexta-feira eu e Celo fomos pra Sumaré buscar o falecido. Hoje, no meio da zona do meu sogro, liguei na Fundaçao e falei com a moça responsável pelo meu caso. Como eu desconfiava, eles nao entenderam que eu tive que pagar três meses de aluguel em Chicago, mesmo ficando dois meses e meio ( nao importa, aluguel é uma coisa mensal no mundo todo, como se sabe). Moral da história: preciso escrever um ofício explicando que Jesus nao é Genésio, e esperar a misericórdia do povinho FAPESP. Gente, ainda mais essa. Tá demais a urucubaca.
Saturday, March 18, 2006
Minha primeira coluna
Então, aí está minha primeira coluna pra Folha Popular, jornal de Lençóis Paulista, SP:
A Pequena Notável
A Pequena Notável
É com grande satisfação que inauguro minha participação na Folha Popular. Meu projeto é escrever, semanalmente, sobre livros, exposições, CDs, filmes, revistas e notícias, ou seja, esquadrinhar e compartilhar impressões sobre a chamada vida cultural.
Um lançamento editorial de peso do final do ano passado, e que está em destaque nas livrarias, é a biografia de Carmen Miranda, escrita pelo consagrado jornalista Ruy Castro ( Carmen, Editora Companhia das Letras, 632 páginas, R$55,00).
O livro, fruto de exaustivas pesquisas no Brasil e nos EUA, impressiona pela acuidade nas descrições de alguns episódios, como seus primeiros espetáculos na terra do Tio Sam, o show mal sucedido, no Cassino da Urca, para os homens fortes de Getúlio Vargas, em 1940, e sua morte trágica e prematura.
Um dos pontos fortes da biografia está na reconstrução do cenário musical e artístico do Rio de Janeiro das décadas de 20 e 30, de onde Carmen emergiu, ao lado de cantores legendários como Mario Reis, Sylvio Caldas e Aracy de Almeida, gravando as composições de Ary Barroso, Dorival Caymmi, Cartola, Lamartine Babo, Assis Valente, Noel Rosa... os nomes já dizem por si próprios. No Rio dos primeiros carros, primeiros playboys, das patuscadas e dos corsos no Carnaval, a portuguesinha chapeleira encontrou a forma máxima de sua expressão artística: o canto.
A maestria de Carmen como cantora, como bem ressalta Castro, é imbatível. Suas interpretações cheias de recursos e colorido, sua vivacidade e seu perfeito controle da voz levaram a música popular ao nível de grande arte e, ao mesmo tempo, numa história que põe muita teoria sociológica no buraco, artigo de consumo de massas.
Talvez a única observação a ser feita ao monumental trabalho de Castro é o fato do biógrafo acreditar ter encontrado a “verdadeira”Carmen, numa espécie de positivismo nas explicações das ações da personagem. Um exemplo é a narrativa sobre as relações amorosas mal fadadas da artista, especialmente o longo relacionamento com o músico e líder do Bando da Lua Aloysio de Oliveira e o casamento com o americano David Sebastian. Não resta dúvida que nos dois casos Carmen foi vítima de circunstâncias sofridas e seus parceiros não souberam amá-la e cuidar de sua saúde e bem-estar. Mas alguns detalhes íntimos, Castro deduziu de alusões feitas por suas fontes e o jornalista, que tanto pretende encontrar a ‘realidade’ sobre a vida da artista, cria uma narrativa de romance com poucos elementos documentais.
Mas o desejo principal é que a biografia de Castro, enfim, traga uma nova visão desta que foi, sem sombra de dúvida, nossa maior estrela, de vida tão sofrida e de memória tão injustiçada, como tantas outras figuras da vida nacional. Talvez esse tenha sido o maior pecado de Carmen: ser brasileira demais.
Um lançamento editorial de peso do final do ano passado, e que está em destaque nas livrarias, é a biografia de Carmen Miranda, escrita pelo consagrado jornalista Ruy Castro ( Carmen, Editora Companhia das Letras, 632 páginas, R$55,00).
O livro, fruto de exaustivas pesquisas no Brasil e nos EUA, impressiona pela acuidade nas descrições de alguns episódios, como seus primeiros espetáculos na terra do Tio Sam, o show mal sucedido, no Cassino da Urca, para os homens fortes de Getúlio Vargas, em 1940, e sua morte trágica e prematura.
Um dos pontos fortes da biografia está na reconstrução do cenário musical e artístico do Rio de Janeiro das décadas de 20 e 30, de onde Carmen emergiu, ao lado de cantores legendários como Mario Reis, Sylvio Caldas e Aracy de Almeida, gravando as composições de Ary Barroso, Dorival Caymmi, Cartola, Lamartine Babo, Assis Valente, Noel Rosa... os nomes já dizem por si próprios. No Rio dos primeiros carros, primeiros playboys, das patuscadas e dos corsos no Carnaval, a portuguesinha chapeleira encontrou a forma máxima de sua expressão artística: o canto.
A maestria de Carmen como cantora, como bem ressalta Castro, é imbatível. Suas interpretações cheias de recursos e colorido, sua vivacidade e seu perfeito controle da voz levaram a música popular ao nível de grande arte e, ao mesmo tempo, numa história que põe muita teoria sociológica no buraco, artigo de consumo de massas.
Talvez a única observação a ser feita ao monumental trabalho de Castro é o fato do biógrafo acreditar ter encontrado a “verdadeira”Carmen, numa espécie de positivismo nas explicações das ações da personagem. Um exemplo é a narrativa sobre as relações amorosas mal fadadas da artista, especialmente o longo relacionamento com o músico e líder do Bando da Lua Aloysio de Oliveira e o casamento com o americano David Sebastian. Não resta dúvida que nos dois casos Carmen foi vítima de circunstâncias sofridas e seus parceiros não souberam amá-la e cuidar de sua saúde e bem-estar. Mas alguns detalhes íntimos, Castro deduziu de alusões feitas por suas fontes e o jornalista, que tanto pretende encontrar a ‘realidade’ sobre a vida da artista, cria uma narrativa de romance com poucos elementos documentais.
Mas o desejo principal é que a biografia de Castro, enfim, traga uma nova visão desta que foi, sem sombra de dúvida, nossa maior estrela, de vida tão sofrida e de memória tão injustiçada, como tantas outras figuras da vida nacional. Talvez esse tenha sido o maior pecado de Carmen: ser brasileira demais.
Homens na Cozinha
Escarafunchando meus arquivos, achei a receita do macarrão que comi na casa da Ana e do Gabriel, em Chicago! Essa receita é da dona Ercília, avó do Gabriel. Gente, é muito fácil e fica uma delícia! Eu e Celo fizemos hoje, é perfeitaaaaaaaaaaa....
Ingredientes:
1/2 quilo de macarrão tipo penne;
20 tomates bem maduros (mas firmes);
sal;
pimenta-do-reino;
azeite extra-virgem;
farinha de pão (tipo italiano, de preferência); se não achar, farinha de rosca serve;
um punhado de queijo parmesão e
manjericão fresco.
Modo de fazer:
Para 1/2 quilo de macarrão cozido em muita água (o sal deve ser acrescentado depois de já fervida a água), prepara-se o seguinte molho: distribui-se numa assadeira 20 tomates bem maduros (mas firmes) cortados quatro vezes, com casca e semente. Adiciona-se sal e pimenta-do-reino a vontade, e rega-se fartamente com azeite extra-virgem. Joga-se a seguir dois fartos punhados de farinha de pão (tipo italiano, de preferência), um punhado de queijo parmesão e leva-se ao forno pré-aquecido por cerca de 20 minutos. Serve-se em prato fundo também previamente aquecido, sobre o macarrão. O toque final é dado por raminhos de manjericão fresco, e o prato está pronto.
1/2 quilo de macarrão tipo penne;
20 tomates bem maduros (mas firmes);
sal;
pimenta-do-reino;
azeite extra-virgem;
farinha de pão (tipo italiano, de preferência); se não achar, farinha de rosca serve;
um punhado de queijo parmesão e
manjericão fresco.
Modo de fazer:
Para 1/2 quilo de macarrão cozido em muita água (o sal deve ser acrescentado depois de já fervida a água), prepara-se o seguinte molho: distribui-se numa assadeira 20 tomates bem maduros (mas firmes) cortados quatro vezes, com casca e semente. Adiciona-se sal e pimenta-do-reino a vontade, e rega-se fartamente com azeite extra-virgem. Joga-se a seguir dois fartos punhados de farinha de pão (tipo italiano, de preferência), um punhado de queijo parmesão e leva-se ao forno pré-aquecido por cerca de 20 minutos. Serve-se em prato fundo também previamente aquecido, sobre o macarrão. O toque final é dado por raminhos de manjericão fresco, e o prato está pronto.
Olha, a receita do bolinho de chuva é perfeita. Essa aí de cima não tem erro, por isso mesmo se chama Homens na Cozinha! Ah, esqueci, rende pra umas quatro, cinco pessoas, querendo fazer pra menos, diminuir os tomates e o macarrão... tô pensando em adicionar, da próxima vez, alho... o bom que isso aí é barato de fazer, comprei tudo e deu menos de vinte reais...
Geraldo Alckmin, a recuperação da panda e graças a Deus, Mozart
Muito obrigada aos meus queridos leitores pelas mensagens de apoio e carinho nessa semana tenebrosa que passei.
Pra variar, o No Meio do Caminho foi a válvula de escape. Eu me sinto com muito ódio, frustrada, impotente. Ontem, fui buscar meu carro em Sumaré. A seguradora me informou que eu tinha direito a uma assistência, um dia de táxi. Fomos eu e Celo pro 4o DP de Sumaré, que fica no bairro do Matão. O motorista alegou outro compromisso e nos deixou lá, dizendo que depois era só ligar no 0800 da Companhia e solicitar outro carro.
A escrivã preparou os documentos, mas o delegado desse DP está de férias. Precisávamos ir para o 3o DP, no bairro de Nova Veneza, do outro lado da Rodovia Anhanguera, pegar a assinatura do delegado de lá, e depois ir para o pátio onde estava o carro. Ligamos no 0800 e fomos brutalmente atendidos por uma vagabunda do telemarketing ( desculpa a revolta, gente) e ela nos informou que tínhamos direito a apenas UMA assistência, ou seja, "vocês que se virem, a pé, num município imenso como Sumaré, pra buscar o carro de vocês". Nem precisa dizer que o Celo resolveu a parada no método de seus antepassados pugliesi ( da velha Apúlia, sul da Itália), ou seja, no grito.
Enfim, no 3o DP, no meio do nada, desolado como as pessoas que estavam lá pra serem atendidas, pensei na situação política nacional. Na terça-feira, soubemos que o PSDB escolheu Geraldo Alckmin pra candidato a presidente. A situação nunca esteve tão preta. Esses quatro anos de PT, um sofrimento ver o partido desmantelado e corrompido. E agora, esse filho da mãe, um cara absolutamente conservador, da Opus Dei, do lado do mal mesmo. E que ainda faz esse discursinho "não sou político, sou responsável e competente". Sei, sei, a gente viu a competência do senhor no governo do Estado, o seu pessoal é bom pra pedágio.
Enquanto isso, busco um consolo em alguma coisa. Fui pra cozinha, fiz sagu, macarronada, e li numa sentada "Mozart, Sociologia de um Gênio", do Elias. Fico escutando sem parar o Quarteto de Cordas K. 387, na gravação do Mozarteum Quartett Salzburg. Tem no Terra Rádio e ainda dá pra ouvir, porque esses dias eles modificaram todo o site e agora a gente não consegue ouvir mais quase nada. Lá se foi meu i-pod de pobre.
Mas que é lindo esse universo do Mozart... salva a gente de qualquer coisa.
Thursday, March 16, 2006
Exorcismo
Sim, eu perdi meu pai aos vinte anos;
sim, eu quase morri aos quatro;
sim, eu quase morri de novo aos vinte e seis num acidente de carro;
sim, eu perdi um bebê aos dois meses de gravidez;
sim, eu amei um cara por cinco anos, e ele não queria nada comigo;
sim, é chato admitir, mas eu ganhei trinta quilos em dez anos de universidade;
sim, eu fui vítima duas vezes de assalto à mão armada e perdi muita, muita coisa nessas jogadas;
sim, eu quase morri aos quatro;
sim, eu quase morri de novo aos vinte e seis num acidente de carro;
sim, eu perdi um bebê aos dois meses de gravidez;
sim, eu amei um cara por cinco anos, e ele não queria nada comigo;
sim, é chato admitir, mas eu ganhei trinta quilos em dez anos de universidade;
sim, eu fui vítima duas vezes de assalto à mão armada e perdi muita, muita coisa nessas jogadas;
sim, eu me ferrei várias vezes. Levei vários foras, perdi várias amizades e empregos, a oportunidade de ficar calada, a paciência, muitas vezes me desesperei e tive ataques histéricos, fui infeliz e fiquei amargurada, teve horas que não tinha grana pra nada, nem pra comer, e precisava me humilhar de pedir emprestado pros amigos, tomei vários porres, dormi com os caras mais errados, fiz fofoca e falei mal dos outros, briguei horrores com minha mãe e com muita gente, fui acusada de várias coisas e fui traída e traí. E boto a cabeça no travesseiro, e ainda consigo dormir. Porque sou normal.
Wednesday, March 15, 2006
Carinho
Não consegui dormir depois do ocorrido de ontem.
Passamos a madrugada na delegacia, briguei com meu sogro e fui deitar cinco da manhã.
Passamos a madrugada na delegacia, briguei com meu sogro e fui deitar cinco da manhã.
Acordei e me pus de pé porque precisava vir pra Unicamp, entregar uma papelada pra querida tia Lygia. Vim de carona com o Lucas Cabeção, primo do Celo e cabeça de abóbora nas horas vagas. Foi a primeira pessoa fofa do dia, tirante minha sogra e o próprio Celo.
Vim pra velha Unicamp, encontrei Pri. A minha velha comadre Pri, que sofreu o mesmo que eu ontem. Fiquei desesperada ao saber que a Camila, minha afilhada e grande paixão, sofreu esse susto horrível. Mas abraçar a Camila hoje foi uma das melhoras coisas da minha vida, assim como abraçar minha sogra e o Celo.
Encontrei milhões de amigos queridos de todos esses anos de Unicamp nesse longo e sofrido dia. E todos tiveram pra mim uma palavra de afeto, de conforto, de carinho... os velhos mestres Fernando e Josué. Lygia, Yna e as meninas do IA. Beto, Luiza, Luis Fernando. Camila e Pri. Rogério... tantos anos, tanta luta e alegria. Tive uma felicidade genuína ao ser reconhecida pelo grande mestre Gabriel Cohn. Simone. Cláudio. Gente que vai e vem, que pode ficar longe um tempo, mas que está junto no coração. Isso bandido nenhum tira da gente.
Violência
Infelizmente, aconteceu uma coisa muito chata com a gente ontem.
Saímos, eu e Celo, de nossa aula de italiano, felizes. Fomos para a casa da família dele, aqui em Barão Geraldo. Chegando em frente à casa, reparei em dois rapazes, bem vestidos, com jaquetas e mãos nos bolsos. No calor dos idos de março campineiros, pensei, mas são assaltantes. Demos um tempo, e os caras foram embora.
Entramos, janta na mesa, fui até o escritório fazer um telefonema, passou-se uma meia-hora, quando vejo o Celo na soleira da porta, me chamando. Pensei que fosse pra jantar.
Não era. Do lado dele, o cara da rua, encapuzado, com uma arma na mão.
Ficamos quatro horas no quarto do meu cunhado, de bruços na cama, rendidos e assustados. Levaram nossos cartões de banco, e os dois assaltantes, com celulares modernos, comunicavam-se com caras que recebiam os cartões, e iam nos caixas retirar o dinheiro. Percebi que tinham muitos cartões em seu poder.
Brincaram de roleta-russa nas nossas cabeças; um deles buscou a bombinha de asma da minha sogra. Depois de um determinado momento, eles resolveram limpar a casa, já que as vinte e duas horas chegaram e com elas o limite do saque nos bancos.
Foram quatro horas de pesadelo. No final, o que estava com a gente nos deu seu celular, e o outro nos ameaçou de morte. Foram embora com muitos objetos de valor ( computadores, a Porpetta, etc, etc) no meu carro.
Na 4a DP, no Taquaral, soubemos de quinze casos parecidos em Barão. Chego no IFCH hoje, aconteceu o mesmo com a Pri, sendo que os caras puseram a arma na cabeça da minha afilhada Camila, de doze anos.
O policial civil, gentil, que nos atendeu, disse o que eu já desconfiava. Campinas está na mão dessas máfias, o assassinato do Toninho foi só o sintoma mais grave do desamparo que a gente vive. Na delegacia sem piso, lembrei do Hospital Mário Gatti, onde fui parar depois de um acidente de carro que quase levou minha vida. As forças do mal estão reinando em Campinas.
Monday, March 13, 2006
Sonhos
Uma vez sonhei que estava no Inferno, abraçada ao Grande Lúcifer. Era tudo escuro e ele era peludo, pêlos longos de velho urso de pelúcia. Estava bom lá, quente e escuro, mas de repente pensei, aqui não é o meu lugar. E comecei a rezar Pai Nossos, e a cada Pai Nosso eu subia, subia um pouco mais. Me desgrudei do Caramunhão e passei a ver uma luz forte lá em cima. O Inferno era um grande poço, e eu subia, subia, à medida das orações. Terminei o sonho lá em cima, na luz.
Outra vez sonhei que tinha morrido. E estava num lugar como a Unicamp. Era igual à Unicamp, um lugar de estudo, com muita gente. Era como a Biblioteca Central, e eu consultava grandes listas, como listas telefônicas, amarelas, cheias de nomes. Procurando pelo sobrenome, vinha a lista de todas as pessoas de uma família, mortas, vivas ou a nascer. No meu sobrenome, vi uma lista e no final, o nome de dois homens, com datas vazias. Alguém ao meu lado me explicou que eram os nomes de pessoas que iriam nascer. E fiquei feliz e pensei, mas são meus filhos! E depois constatei que não, seriam meus sobrinhos, porque afinal eu já estava morta.
Mais um sonho, o último. Sonhei que o velho Instituto de Filosofia e Ciências Humanas era o prédio da minha infância. Eu subi as escadas e cheguei ao último andar. Lá, vi, à direita, o homem que amei sem ser correspondida por alguns anos, chegando, de preto, muito gordo. À esquerda, vi minha amiga querida Dani, de preto também, muito magrinha. Ela me disse: isso aqui não dá mais pra gente, essa estrutura aqui tá velha, passou, datou. Vamos embora. E me pegou pela mão e começamos a descer as escadas rápido. Meu antigo amor foi atrás da gente, e a certo momento disse, mas espera, eu ajudo vocês a descer. E nos pegou nas costas, e nos levou para fora.
Desconforto ligeiro
Tem dias que a gente sente um desconforto.
É a conta que vem alta demais, é a lembrança do que poderia ter sido e não foi, é o que não dá certo, é algo que parte a delicada casquinha com a qual a gente envolve o dia-a-dia.
E você fica ali, sem saber por onde recomeçar a delicadeza, o equilíbrio, a pureza da alegria dos dias.
Hoje de manhã cedo estava feliz e despreocupada. Desci e veio o condomínio alto demais. Fui pra universidade dar minha palestra, o Data Show se recusou a conversar com meu lap, cuja bateria descarregou de vez.
Um olhar mais duro de uma pessoa que admiro muito. Um almoço com amigas queridas e gente muito chata. É o café que veio frio, e você se lembra do mal estar, da angústia.
A vida às vezes dói de leve.
Subscribe to:
Posts (Atom)
