Wednesday, February 16, 2011

Justine



Justine vive em Montmartre, nos bares e restaurantes. Posa para artistas, e é também, ela própria, uma artista. Às vezes as coisas apertam e ela precisa arrumar um bico de costureira, mas logo ela aparece, toda serelepe, onde os homens das cores e das formas estão.

Apesar da origem muito simples, ela compreende esses homens, os seus sonhos. Sabe que os lilases de Montmartre só ficam mais bonitos com eles, e para eles. Mudos, muitas vezes imersos na sua dor, ou alegres beberrões, esses homens a admiram por ser quem ela é. E hoje, pelas mãos da fada Lili, Justine vive também numa mesa de laca branca, perto do Chat Noir de Steinlen e de um verão de Monet, num bistrô escondidinho. E dentro do meu coração tão cansado, que sonha Toulouse-Latrec.

Express Yourself

Aconteceu uma coisa engraçada nos últimos tempos. Tava ali na Praça é Nossa virtual, vulgo msn, com dois amigos, falando algumas coisas que eu andei matutando. E os dois meio que deram risada, falaram assim, o que é isso, andou lendo livro de auto-ajuda, e tal.
Claro que literatura de auto-ajuda é uma das cabeças da Hidra de Lerna, pro povo que se formou em Humanas na Unicamp. Acho que é até é mesmo, junto com outras coisas como a preocupação com a aparência física, a propaganda e o Campeonato Brasileiro. Mas não, eu não me rendi à literatura de auto-ajuda. Eu cheguei à essas conclusões por mim mesma, penando muito. Talvez, se eu tivesse lido auto-ajuda, teria sido mais fácil, do que sofrer o tanto que eu sofri!
Paralelo a isso, a semana foi marcada pelo lançamento do novo single da minha ídala Lady GaGa, Born This Way. O povo logo caiu de pau matando, falando que é cópia da velha, e ótima, Express Yourself, do antológico Like a Prayer da Madonna. A própria GaGa se antecipou e explicou tudo no Leno, parece, confirmando as semelhanças entre as duas canções, super pra cima, super momento glitter... com você mesmo.
Pois é, porque é tão mais fácil a gente ter momentos glitter com o namorado, com as amigas, com os amigos, com a mãe, o filho, o sobrinho, a prima, o porteiro, mas tão foda ter com a gente mesmo. A gente mesma, quem é essa chata, cheia de problemas, feia, sem graça, sem glamour, que a gente tem que enfrentar todo dia? Tem quem prefira pagar outra pessoa pra lhe fazer companhia, só pra não ter que encarar a si mesmo no espelho. Estar sozinho? Tão sem sal. Você prefere ter um marido que te bate, um namorado que tá casado com outra, um amante que não te satisfaz, do que ficar consigo mesma, quieta, tomando chá chinês medicinal. Tudo, menos ter que ficar com a gente mesma.
E outro dia me ocorreu uma coisa óbvia. É auto-ajuda? Não sei porque nunca li, mas se for, então o Meio do Caminho vai começar a me dar dinheiro, o que não seria de todo ruim. Mas lá vai. Eu prefiro eu. Eu me amo. Prefiro tomar chá chinês medicinal, e ouvir GaGa e Madonna a todo o vapor!

Friday, February 11, 2011

O próximo amor

Quando eu amar de novo um homem, quero ser feliz. Não quero amar do jeito torto que sempre amei, sofrendo, me desvalorizando, esquecendo de mim. Quero me lembrar, quando olhar nos olhos dele, que aqueles olhos são espelhos, e não punhais.
Quero o prazer, a alegria, o encontro, o abraço, não a dor e a desesperança. Tenho que aprender a amar melhor, eu sei. E isso começa por mim: quero me amar mais, quero acreditar mais em mim, na minha beleza, nos meus princípios, na minha origem, na minha história, nos meus valores. Não estou derrotada; guardo dentro de mim a certeza inabalável da vitória, e parte da vitória pra mim será essa: eu serei amada.
Porque hoje eu tenho por mim mesma uma ternura inabalável; hoje sentei sozinha num dos meus restaurantes favoritos e pensei, estou na melhor das companhias, sou ótima companhia. Olhei para mim como quem olha pra uma velha amiga, uma pessoa querida que mora longe, mas que às vezes vem me visitar e sempre traz novidades, um pão de queijo e pede pra que eu passe um café. E a gente senta na mesa e conversa horas, fofoca, chora, ri, eu tenho certeza que irei me encontrar mais vezes, aqui em casa, na esquina, na viagem tão sonhada para Buenos Aires. E quando eu me encontrar, quando eu estiver comigo, encontrarei meu próximo amor, como se nada fosse.
http://www.4shared.com/audio/vofudmi_/Jacques_Brel_-_Le_Prochain_amo.htm

Wednesday, February 09, 2011

De quem foi

Na terça-feira, encontrei uma colega de graduação que não via há mais de dez anos. Minha turma de graduação era muito desunida. O povo teve brigas homéricas, durante todo o curso, muitas pessoas se detestavam e no final até hoje não sei porquê, mas pessoas que eu adorava simplesmente pararam de falar comigo, depois que entrei no mestrado.
Tentei entrar em contato com esses colegas de quem ainda guardo boas lembranças, pela internet. Mas foi em vão. Não consegui achar ninguém, e olha que o Orkut taí desde 2003 atazanando a minha vida. Google, Facebook, nada. Nem Diário Oficial. Desconfio que as meninas casaram e mudaram de nome, porque nunca encontrei mais nada sobre elas, depois da nossa formatura.
Os dois primeiros namorados que tive também sumiram na névoa dos tempos. O primeiro menino que beijei não, o Cláudio vira e meia aparece e me diz que tá vivo, mas os meus dois primeiros amores... não, não sei onde estão. Sei que casaram, um deles mudou de Estado, acredito que já tenham filhos. Mas mais nada apareceu.
Sempre senti muita falta dessas pessoas. Mas hoje lembrei de um trecho de A Casa dos Espíritos, de Isabel Allende, onde a Clara, a personagem principal, diz que não pode achar, mesmo sendo médium, quem não quer ser encontrado. E de repente, pensei que o que importa foram as pessoas que ficaram ao meu lado todos esses anos, e me imaginei num salão, numa grande festa, com todos que foram. E pra cada um deles disse que eu os amei muito, e que era grata por tudo que vivi com eles. E eles se iam, um a um, afinal, o baile acabou.

Tuesday, February 08, 2011

L'ombra

Estou bem ansiosa. Quer dizer, eu sou bem ansiosa, mas ontem e hoje estou nos dias de ansiedade máxima. Tudo dói e eu sofro por tudo. Enfim.
Detesto estar assim, desse jeito. Há muitos anos fujo como o diabo da cruz dessa sensação de perigo iminente, dessa dor, dessa aceleração do tempo. Já fiz muita besteira nesse estado: liguei pra quem não devia ligar, falei com quem não devia falar, fiz o que não deveria fazer. Me afobo, troco os pés pelas mãos, tiro conclusões precipitadas, me desespero. Estou um barril de pólvora perto de um fósforo, o pote até aqui de mágoa. Cansada demais.
Agora, faz uns anos, aconteceu que eu arrumei um jeito de fugir desse sentimento. Esse jeito correspondia a uma pessoa, a uma situação, que me amortecia, supostamente me apaziguava e me deu a ilusão de que nunca mais eu me sentiria desse jeito. Como toda ilusão, me protegeu de fato do que eu considero a minha sombra; mas hoje sei que quem me amar de verdade não anulará isso, apenas me dará a mão quando eu me sentir assim. Abraço, hoje, minha sombra, agradeço por ela existir, agradeço todos os momentos que pra mim foram horríveis, porque neles, simplesmente, eu estava viva.

Sunday, February 06, 2011

Compartilhar

É difícil a gente se colocar por inteiro nas situações. Existe sempre o perigo da rejeição, o medo da incompreensão... enfim. Antigamente, por carência, eu acabava falando demais, mostrando demais, me ligando rápido demais. Hoje, ando rabugenta, e meio distante. Não sei se vão me aceitar assim, mas fazer o quê, é o meu jeito e quem me agüenta sabe que tudo isso é pose, no fundo eu continuo a pandinha de sempre, que adora carinho e é super sentimental.
Ando compartilhando. Tudo. Tem sido gratificante. Também, selecionei melhor com quem compartilhar. Foi duro cortar algumas pessoas e situações, mas agora o retorno tem sido tão completo que penso que, de fato, rabugice funciona melhor nos começos.
Acima, prédio da Cricoletti, na frente da Estação Ferroviária, aqui da antiga vila de São Carlos das Campinas do Mato de Dentro de Jundiaí.

Thursday, February 03, 2011

Manual de sobrevivência Panda na selva

Continuando o tema Panda e Homens.
Durante muitos anos, por questões profundas e trágicas, me envolvi em relacionamentos abusivos, de co-dependência, nada saudáveis, prejudiciais à saúde mesmo, com homens que só me fizeram mal. Me envergonho disso, claro. Outro dia desses, uma pessoa me disse que estava cansada do meu papo "Sofri muito" e que meu blog era um saco por isso. Enfim, não obrigo ninguém a me ler, no entanto um monte de gente me lê e até hoje eu não sei o motivo mas tudo bem. Não vou deixar de escrever e acho que preciso de fato encontrar as palavras pra tanto sofrimento, mas também pra tantas alegrias que eu vivi. Descobri muitas coisas sobre o lado ruim das pessoas e do mundo, mas não deixei também de ver a luz do sol, de me encantar com árvores em floração e de amar as pessoas.
Durante muitos anos, meu tormento me fez uma figura de quem se diz "é louca". De fato, eu sou muito maluca. Apesar disso, sou doida mansa, incapaz de fazer o mal pra alguém. Mesmo nos piores momentos, mesmo nos momentos em que eu vivi no lado escuro da Lua ( e acreditem, lá faz muito frio) não tive o ímpeto de matar ninguém nem de prejudicar os outros. Portanto, isso faz de mim uma pessoa de fato louca, e ao mesmo tempo rara: sei o que é conviver com muita dor e não revidar, sei o que é sentir desamor e não partir pro ódio, pra guerra.
Hoje vejo tudo muito mais colorido e legal. Me vem horas de felicidade extrema, simplesmente porque passou. O lado ruim passou. E eu recebo agora as coisas boas com tanta gratidão, me sinto plena em mim mesma; esses momentos são os melhores da vida pra mim. Antes, eles estavam embaixo dos escombros, agora, eles brilham nas minhas paredes.
Mas como passar pelas tormentas? Tem que ter sonho, tem que ter graça, sempre.

Tuesday, February 01, 2011

Pandas e Homens: Convergência Impossível?

Dri e Marcelo me convenceram, depois de uma pizza, um suco muito gostoso e várias risadas, a escrever um livro sobre curiosidades do mundo masculino. A idéia seria escrever crônicas, ao estilo da velha panda, sobre suas experiências com os machos de sua espécie. O título do post é uma brincadeira com as teses que o povo anda defendendo por aí, com títulos escalafobéticos e dois pontos, seguidos por títulos explicativos.
De fato, a pequena panda tem histórias curiosas sobre homens, bem como tem sobre Dante, Catedrais e receitas de biscoito. Esses animais aparentemente racionais já brindaram a habitante do Tibete campineiro com experiências trágicas, cômicas e tragicômicas. Algumas delas, em resumo. Já vi:
1) um homem terminar um namoro no dia do aniversário de alguém;
2) um homem terminar um namoro na semana que alguém tinha que entregar dissertação de mestrado;
3) um homem dar em cima de todas as suas amigas e achar isso natural;
4) um homem dizer que você não é atraente mas no entanto te agarrar sempre que possível;
5) um homem apostar uma caixa de cerveja que ia te beijar ( leia-se, a garota considerada a mais feia da classe) e perder,porque além de não te beijar você fechou uma janela no dedo dele;
6)um homem te dar um par de brincos de safira e um mês depois dizer que faria esse gesto para qualquer mulher com quem ele saísse;
7) um homem ser absolutamente generoso com uma menina que não o conhecia;
8) um homem levá-la para comer um filé num sábado simplesmente porque você queria;
9) um homem dar uma casinha de bonecas pra filha no Natal;
10) um homem escrever a Divina Comédia.
Elaborações posteriores em futuros posts. Aguardem a nova série Panda Sex in the City!

Monday, January 31, 2011

Carta a alguém muito longe

Você está muito, muito, muito longe. Na verdade, sempre esteve. Continua a viver tão longe que nem sei o lugar ao certo, é um lugar aonde nunca fui, e não faço idéia de como seja. Não faço idéia de nada do que pertence a esse lugar que é tão longe e é tão seu. Não sei se as mesmas estrelas que brilham aqui brilham onde você está, se vemos a mesma lua e se as nuvens que passam aqui, de repente, passam perto da árvore embaixo da qual você se senta, com sua felicidade e a mulher que o ama tanto a ponto de até eu, que estou aqui do outro lado do mundo, saber.
Sei de você as coisas públicas e portanto totalmente desnecessárias para mim. Seu cheiro, o brilho dos seus olhos e o calor do seu abraço, que seriam os meus tesouros máximos, permanecem mais longe de mim quanto Marte. Marte é algo possível; posso me inscrever nas listas das primeiras colônias humanas do planeta vermelho e me mudar pra lá, posso facilmente me inscrever também na Legião Estrangeira, ou atravessar a Cordilheira dos Andes, posso deixar de ser eu mesma e tudo isso será mais fácil do que meu caminho cruzar com o seu.
De tão longe que estou, observo algumas constelações da sua vida, que brilham a ponto de me cegar. Respeito e admiro a mulher que está ao seu lado; ela vive um sonho que eu não ousei sonhar. A vida dela está repleta de você, e eu aqui, no Pólo Norte, me acostumei a viver nesse frio. Fazer o quê, nem nos meus sonhos mais loucos você aparece, minha solidão é total e a escuridão é completa. Mas mesmo assim, eu olho pra cima e vejo o Cruzeiro do Sul, o símbolo da minha utopia que foi estar com você. Porque no fundo, no fundo, um domingo de sol, um mamoeiro e algumas palavras foram o suficiente pra construir a minha felicidade.

Sunday, January 30, 2011

As vidas passadas

Vim para o Piratininga natal. Compromissos profissionais e afetivos lotaram meus últimos dois dias, nesse calor do Malebolge.
Vi amigos muito queridos, passeei, comi comidas gostosas, fiquei cansada, comprei um vestido de malha vermelho e fui a uma exposição excelente, do gravurista Carlos Oswald, no Centro Cultural da Caixa no Conjunto Nacional (recomendo vivamente).
Assisti "Tio Boennme", o filme do cineasta tailandês Apichatpong Weerasethakul, que ganhou a Palma de Ouro de Cannes do ano passado, um dos filmes mais bonitos que eu já vi na vida. Fiquei toda embaralhada, como acontece quando assisto um filme excepcionalmente bom; sou particularmente suscetível ao cinema. Lembro de quando assisti "História Sem Fim" com minha mãe, no Cine Gazeta, na Paulista, com 8 anos. Um mundo se abriu pra mim. Acho que o filme do Apichatpong abriu outro mundo também.
Junta com uma sensação estranha que tive nesses calorentos e suados dias paulistanos. Algo morreu dentro de mim. Não sei explicar. Mas algo morreu dentro de mim. Algo antigo, sofrido. Morreu. Não faz falta. Acabou. Passou. O filme conta a história de um homem que lembra de suas reencarnações. Eu lembro de todas as vidas que tive em São Paulo. Lembro e não lamento mais. Lembro e não quero que o tempo volte. É isso.

Friday, January 28, 2011

Silêncio

Acho que sempre tentei cobrir com palavras o medo que sinto de outras pessoas, de situações novas, de me colocar e dizer, gosto disso, não gosto daquilo e assim por diante. Era reconfortante saber que podia ser tagarela, falar qualquer coisa e esconder a timidez, a insegurança, o medo da rejeição. Afinal, assim eu era forte; podia ir em frente. Podia esconder de mim mesma que no fundo estava em pânico, pedindo pelo amor de Deus para ir pra casa, me esconder no meu quarto e ouvir música.
Tudo isso era mesclado também pela certeza da incomunicabilidade. Sim, a grande tagarela e piadista no fundo não punha fé na capacidade dos outros em ouvi-la, e muito menos compreendê-la. No fim, depois de muito me ferrar, resolvi que várias coisas que eu fazia e pensava ficariam encerradas dentro de um baú do meu coração. Hoje vejo que o medo me impedia de tentar mostrar algo daquilo, das imagens, canções, memórias e sentimentos. Também ocorria a falta de oportunidades para que eu pudesse "mostrar meu futebol"; claro que eu me aproximava de gente que de fato não estava nem aí para o que eu pudesse falar ou mostrar.
Agora, prefiro ficar em silêncio. E esperar. E um pouco de mim se revelou, mais, esta semana.

Tuesday, January 18, 2011

My favorite things

Dias aborrecidos e tristes. A Convergência do Atlântico Sul é um fenômeno climático extremamente f&**, se me permitem o comentário adolescente.
Daí a gente lembra da fofa Julie Andrews em The Sound of Music, ela e os meninos todos ilhados pela chuva e cantando suas coisas favoritas:
Perfume
Abraço
Pão quente
Café com leite
Sorriso
Reencontro
Forró
Boneca de pano
Cílios longos
Fitas de cetim

Wednesday, January 12, 2011

Verão na laje

Na velha Campinas do Mato de Dentro de Jundiaí, tem feito um calor digno das valas do Malebolge. Pra piorar, outro dia achei que o famoso Exumóvel ia virar carro anfíbio, em plena Norte Sul transformada num idílico braço do rio Atibaia. No final do dia, cai cada toró que é melhor ficar em casa.
Dito isto, e sempre considerando a atávica preguiça da panda, não tenho feito nada de muito útil nos dias que correm. Apesar da minha indolência e falta de vergonha na cara, recebi uma linda notícia na segunda-feira: fui premiada como Tradutora do Ano por uma das fundações ligadas à Biblioteca Nacional. Como o feito se liga à nobre língua do tiozão mais sexy da História da Poesia Ocidental, achei por bem destacá-lo no Meio, sempre no Meio.
Acima, um dos desenhos de Delacroix para a Barca de Dante, lápis sobre papel, 20,4 x 30,7 cm, Louvre.

Sunday, January 02, 2011

As fadas e a política

Um tempo atrás, prestei um concurso público numa universidade de renome. Tudo,absolutamente tudo, deu muito errado. O colega que se considerava favorito na disputa fez uma das piores coisas que um ser humano pode fazer, no meio do processo. E um dos integrantes da banca portou-se da pior maneira possível. Paralelo a isso, enfrentei uma situação super dolorosa, no plano pessoal. Enfim.
Deste pesadelo, resultaram duas coisas: uma aula sobre as máquinas da Revolução Industrial e um texto sobre a importância das fadas no imaginário político do século XVII.
Foi assim. Eu descobri que o último capítulo do Leviatã de Hobbes é dedicado às fadas, comparadas com os padres, pelo arguto filósofo inglês. Do outro lado do Canal da Mancha, Charles Perrault, homem forte de Luís XIV, terminou a vida publicando os Contos da Mamãe Ganso, os famosos contos de fada, porque uma das narrativas é a corte das fadas. Claro que essa corte é a corte do Rei Sol, recriada.
Fiquei com as fadas na cabeça. Até porque um dos meus filmes favoritos é Peau D'Âne, obra prima de Jacques Demy. Pele de Asno é um dos contos de Perrault, que Demy recriou magistralmente no cinema. O cineasta escreveu as canções do filme, todas inspiradas no francês perraultiano, cheias de fórmulas jurídicas e de politesse, e justamente a Fada dos Lilases é, vamos dizer assim, uma pequena Maquiavel, grande filósofa política.
Juntei tudo e escrevi, no meio de tantas dores e azares, esse texto das fadas. Resolvi retomá-lo, afinal, se as fadas ajudaram Hobbes e Perrault, talvez se apiedem dessa pobre e triste panda.
Acima, o frontispício da primeira edição dos Contos de Perrault, Paris, 1697.

Friday, December 31, 2010

Vita Nuova

E com os meus votos mais ardentes de um 2011 feliz para todos...

Hoje tive a felicidade de passar a virada na casa de uma amiga muito querida, que eu chamo de cabeçudinha, carinhosamente. Ela é muito fofa, e apelidou a velha panda de pandola. Pois então. No meio do caminho, no meio da ceia, minha amiga falou pra tia, olha, essa pandola aí é especialista em Dante Alighieri.
Fiquei toda feliz por entrar em 2011 com o meu lindo ao meu lado, e depois de comer muito e encher a fuça de prosecco e champanha, repenso a velha história do "eu sou eu e as minhas circunstâncias". De fato, tem coisas que eu não vou conseguir mudar: o fato de ser panda, de ter sofrido como os monges do Tibete e o fato de amar desesperadamente um homem que morreu em 1321. Mas é sempre possível começar, ao lado do que se é e do que foi, a olhar para o futuro. E a imaginar, sempre, novas constelações com as mesmas estrelas.
Acima, Retrato Alegórico de Dante Alighieri. C. 1530, autor desconhecido. Óleo sobre madeira. Washington, National Gallery of Art.

Wednesday, December 29, 2010

Desejos


Depois de dias cansada, e pior, dias em que eu simplesmente não me amei, ontem tive uma lembrança de um sonho lindo, que me salvou de tanta dor. Não sei se meu sonho ainda pode virar realidade, talvez os sonhos venham com prazo de validade, não sei mesmo. Mas hoje, acordei com um desejo imenso de ver Degas.
Acima, Place de la Concorde, 1875. Óleo sobre tela, 78,4 x 117,5 cm. São Petersburgo, Hermitage.

Wednesday, December 22, 2010

Pequeno Dicionário Paulistano

Augusta- rua comprida que tem de tudo e que todo mundo vai.
Bauru- sanduíche muito gostoso, com variações. O melhor ainda é o original, do Ponto Chic.
Cambuci- bairro simpático, cheio de ladeiras, com igreja neogótica e terra natal de pandas que estudam Dante.
Demônios da Garoa- com Adoniran, instituições da intelectualidade da cidade.
Ermelino Matarazzo- bairro simpático no extremo leste, tipo, extremo mesmo. É tão longe que puseram uma USP lá.
Feira Livre- ver pastel.
Guarulhos- no final da Marginal do Tietê, fica o Aeroporto Internacional de Cumbica ( em tupi, lugar enevoado).
Hipopótamos- tem muitos no Zoo, na Água Funda.
Ibirapuera- parque muito grande, no meio da cidade, que tem até Bienal de Arte.
Jaraguá- pico na entrada da cidade. Muito, muito alto. Vive enevoado, como o Aeroporto de Cumbica.
Lapa- bairro simpático, cheio de ladeiras, com padarias excelentes e ponto final de todas as linhas de ônibus da cidade.
Móoca- bairro simpático, plano, cheio de palmeirenses, e o outro ponto final de todas as linhas de ônibus da cidade.
Nair Bello (1931-2007)- a maior intelectual da história do município.
Ofner- confeitaria muito boa porém cara, meu pai só comprava lá uma vez por ano. Compete com a mais conhecida Kopenhagen.
Praça da Bandeira- praça que virou terminal de ônibus, cheio de conduções Lapa-Móoca.
Q! Bazar- bazar onde os sacoleiros vão pra comprar tudo com muito desconto. A Daslu do resto da cidade.
Rodovia dos Bandeirantes- rodovia que leva pra Campinas.
Sé- praça muito grande que com a graça de Deus não virou terminal de ônibus. Assim como o Cambuci, possui interessante igreja neogótica.
Terraço Itália- restaurante chiquérrimo, no alto do lindo Edifício Itália. Aceito almoços ou jantares lá.
USP- lugar muito longe, no Butantã, cujo ônibus nunca passa. Diz que as pessoas estudam lá.
Vírus do Amor- cançoneta pop da Rita Lee, dos anos 80, que possui um dos melhores versos sobre a cidade.
Xis Tudo- sanduíche com tudo dentro. Virou nome de um dos excelentes programas infantis da TV Cultura.
Záccaro, Maestro Augustinho (1948-2003)- maestro que comandava uma orquestra, que sempre tocava os hits da colônia itálica da cidade. Quando menina, participei várias vezes do programa de TV desse senhor, que apesar de bom músico, era janista.

Tuesday, December 21, 2010

Tiozão de Natal

E para adornar o Meio, no meio dos preparativos natalinos, um dos retratos mais antigos do tiozão mais amado do planeta.
Iluminura, depois de 1436, 29 x 20 mm. Biblioteca Riccardiana, Florença.

Monday, December 06, 2010

Finalmentes

Correria de final de semestre. Hoje estou na labuta, na entrega dos diários, notas, avaliações.... a desmiolada panda perdeu alguns de seus diários, nas viagens intergaláticas entre sua toca e a cidade do rio das lágrimas. Enfim.
Paralelo a isso, a pequena habitante do Tibete resolveu, numa iniciativa revolucionária, ligar a tecla foda-se para umas criaturas e situações que há anos atravancam meu desenvolvimento e alteram meu humor. Foi lindo e maravilhoso, a sensação de libertação, de compromisso único e exclusivo com uma coisa só: a minha felicidade.
Pois hoje, estou cansada pra burro, mas estou feliz.

Thursday, December 02, 2010

Chanukah


Por volta do segundo século antes de Cristo, a família dos Macabeus lideraram as revoltas que libertaram Israel do domínio selêucida. O Templo de Jerusalém foi reconstruído, e depois de tempos de perseguição religiosa, com Torás e outros objetos de culto sendo queimados, pode-se voltar a rezar para O Que É (tradução do tetragrama do nome de Deus).
Para comemorar, se acendem luzes, é o alegre Chanukah, que às vezes bate com o Natal cristão, outras vezes vem antes. Nos dois casos, se acendem as luzes, comidas gostosas são feitas, trocam-se presentes e todo mundo fica satisfeito. Então, em pleno Chanukah, hoje, me senti renovada e feliz.