Monday, January 07, 2008

Previsão do tempo

Eu tô pensando aqui que, às vezes, se relacionar é enfrentar condições metereológicas. Tem dia que sai lindo, o céu azul do bem querer, o sol do afeto, a brisa leve e gostosa da amizade fazem com que a gente ponha um vestido colorido e saia pra rua nem que for pra ver o vento nas folhas do viver.

Mas tem dia que ou os outros ou a gente estamos numa maré adversa, numa chuva de granizo da discórdia. Nem sempre chuva é problema; a água fertiliza a terra e não tem nada melhor que chuva fininha de carinho nas costas e o cinza das paixões físicas levadas ao seu término. Mas tem chuva de verão, aquela pancada de alegria que só a presença dos queridos traz, mesmo que rápido, e temporais, furacões, ciclones de desamor, de angústia, depressão e outros males d'alma.
Seria bom a gente ter uma previsão do tempo dos afetos da gente; você pegaria um jornal escrito só pra você e lá estaria escrito: Chefe- bom tempo com pancadas de chuva no decorrer do período, Namorado- tempo bom, com sol, temperatura mínima de 18 graus, Amigo, Amiga, Cachorro, Filho, Pai e Mãe, e assim por diante. Porque a maior parte das zicas com pessoas é que nem quando a gente sai de casa sem levar casaco e passa frio na rua, ou não leva guarda-chuva e além de se molhar inteiro ainda estraga o sapato bonito e o penteado- depois de dias de banho de creme e tentativas no espelho- por milagre, e pela Lei de Murphy, bem naquele dia, justamente naquele dia, que o ponto de ônibus que a gente tá não tem cobertura.

Seria necessário uma iniciativa nesse sentido. Depois de uma linda noite estrelada de amor, um amanhecer fabuloso de uma nova relação; ou depois daquela manhã nublada de mau humor, o sol, de novo o sol, sempre o sol do afeto, a nos aquecer e a nos guiar com ética e acerto de decisões. Eu tomei uma decisão: seja qual for o tempo agora, sairei com guarda-chuva, capinha e galochas, porque teve gente nos últimos dias que choveu demais.

Friday, January 04, 2008

SOS MASP

O prof. Luiz Marques, ex-curador do MASP e meu ex-orientador, estava na lista do meu email indignado com o roubo das obras no museu. A princípio muito cético e meio amargurado, o Luiz não achava que era possível fazer algo pra salvar o museu do descalabro da administração atual. Mas depois de uns dias, ele me mandou um email, dizendo que minha mensagem o havia encorajado, e ele havia escrito um documento intitulado SOS MASP: Um Apelo aos Poderes Públicos.
A idéia é a intervenção estatal no museu, o fim dessa administração, ou seja, a salvação do acervo, do prédio, do nome, de tudo. Agora, o movimento tem um site: http://www.sosmasp.com.br. No site, é possível assinar o abaixo-assinado, através de um simples cadastro, e conferir as assinaturas de quem já passou por lá. Em tempo: hoje, no Caderno Cidades do Estadão, saiu uma nota sobre o documento e o movimento, enfatizando a assinatura de João Cândido Portinari, filho do artista autor de uma das obras-primas roubadas.
Nem preciso dizer que o Mezzo apóia incondicionalmente a iniciativa do prof. Luiz e convida a todos a assinatura. Por favor, repassem aos conhecidos e etc e etc ( alô povo do Banco Central, tô precisando de vocês nessa! Alô povo querido que me lê!)

Thursday, January 03, 2008

Os prazeres deste mundo têm esta mesma leveza

Espero que os queridos leitores ( se é que o velho Mezzo ainda os têm) tenham passado bem suas Festas e feito todos os seus votos de um feliz 2008, porque estamos todos precisando de grana, amor, paz e saúde!
Andei bastante nos últimos dias. Pra vocês terem uma idéia da programação, depois de toda a maratona Centro-Oeste ( posso atestar que a crise aérea é algo muito, muito cacete, e que a Chapada dos Guimarães é um dos lugares mais lindos desse mundo), tomei banho de piscina, coordenei cozinha pra ceia de reveillón e dormi bastante, que tava precisada. Achei musiquinhas pra baixar, e retornei minhas atividades panda, como responder email de três meses atrás, lavar um pouco de roupa e dar um giro pelo centro da cidade.
Eu queria escrever sobre um monte de coisa, mas acho que tenho que parcelar, até porque minha alma anda leve, despreocupada e desatenta; não é um estado de espírito propício para a escrita, ainda mais com temas dantescos como os que eu deveria enfrentar. Não reparem, é o verão.
Citação do dia: "Os amantes podem andar nos fios de uma teia de aranha que balança com a brisa lânguida do verão e, mesmo assim, não caem. Os prazeres deste mundo têm esta mesma leveza", William Shakespeare na boca de Frei Lorenzo, Romeu e Julieta, Cena VI, Ato II. Tradução de Beatriz Viégas-Faria.

Wednesday, December 26, 2007

Boas Festas!

A todos os leitores do Meio do Caminho, meus votos panda de Boas Festas, diretamente do Centro Oeste do país, no ponto eqüidistante entre o Atlântico e o Pacífico, onde nasciam os bororo e onde segundo Caetano nascerá o índio, impávido que nem Mohammed Ali.
Meus votos de paz, saúde e prosperidade, que trouxe do primeiro banho de cachoeira que tomei, em meio a águas douradas, amigos, cheiro de mato e picolé de chocolate recheado com coco!

Friday, December 21, 2007

A memória, algo afetivo e inútil

Aprendi a cantar Guantamera em Roma, com uma senhora uruguaia, viúva de um guerrilheiro Tupac Amaro.
E lembro de um homem que amei muito, comendo arroz, feijão, bife e batata frita na minha frente, depois de perguntar se eu estava servida.
Também me vem à cabeça eu flutuando no mar de Búzios, esperando o entardecer.
E hoje cheguei rindo em casa, sozinha, porque lembrei que o Mussum, quando era chamado de preto, lascava na hora: "preto é seu passado e negra vai ficar sua situação"...

Thursday, December 20, 2007

O Portinari roubado


Gente, aqui vai o Lavrador de Café, do Portinari, obra que foi roubada do acervo do MASP nessa madrugada. Esperemos que, amanhã, os Cézanne, Van Gogh, Gauguin, Renoir, Dégas, Poussin, Delacroix, Rafael, Tiziano, Goya, Portinari, Anita Malfatti, Vítor Meirelles, Chagall, entre tantos outros, continuem nas paredes horríveis e mal iluminadas da atual tosca expografia do museu, sem conservação adequada, mas no museu.


O Lavrador de Café, 1939. Óleo sobre tela, 100x81cm.

Absurdo


Caríssimos,



Hoje acordei e dei com a nota no Terra: roubaram o MASP. Levaram o Retrato de Suzanne Bloch, do Picasso, e o Lavrador de Café do Portinari.


Escrevi indignada pra minha lista inteira de emails. É preciso fazer alguma coisa em relação ao MASP. Não dá mais pra gente, digo, a gente que trabalha com Arte, História, ignorar a situação e achar que o problema não é nosso.


Deixo aqui o meu protesto mais veemente contra a administração ineficiente, idiota, incompentente e tudo de ruim que se apoderou do Museu há anos e corrói acervo, prédio, o nome da instituição, e a minha paciência. Qualquer sugestão de manifestação, passeata, qualquer coisa, é bem-vinda.


Em anexo, Retrato de Suzanne Bloch, óleo sobre tela, 65x54cm, 1904. Rezemos pra que os bandidos que fizeram isso não destruam essa obra- prima. Em cima, o Lavrador de Café do Portinari.

Tuesday, December 18, 2007

Bolinha amarelinha

E como dizia a música antiga, Ana Maria olhou-se no espelho, e viu-se quase despida afinal...


A panda passará os festejos natalinos em outro estado, na casa de amiga antiga e queridíssima, que me presenteará com sua hospitalidade. A história começou com um papo no msn ( pra variar...). Ela me mostrava umas fotos de cachoeiras, de um passeio com a irmã fofa e uma amiga querida. Num momento de ousadia, confessei pra Ju que, nunca na minha vida, eu entrei numa cachoeira. Ela não acreditou, e eu confirmei.
Daí a Jujuba resolveu que ia me ajudar nesse negócio de cachoeira, e eu vou enfim conhecer o que é um jato de água fria nas costas, num lugar paradisíaco.
Exausta, cumpri algumas das minhas últimas obrigações profissionais, como entregar notas, documentos, apostila... andando pelo centro da cidade, a caminho do correio, vi uma loja de... moda praia.
Quando eu criança, e tenho fotos pra provar, tinha lindos biquínis, um de maçãzinha, outro Poésie ( gente, alguém aí tinha biquíni Poésie??????) verde-água, e maiôs transadíssimos, mas depois de mocinha, jovem e agora balzaquiana, com atividades de lazer quase nulas, passei anos sem biquínis. Um preto de senhora, comprado em Búzios, ficou filho único de mãe solteira durante anos, seguidos por outros, presentes da minha mãe, intocados, e dois do Carrefour que de vez em quando eu ponho pra fazer faxina e dar uns mergulhos na piscina do Clis.
Resolvi que o primeiro banho de cachoeira merecia um biquíni novo. Vi na vitrine um lindo, preto com florzinhas, e entrei. Mas uma multidão digna de filme bíblico estava lá dentro, mulheres histéricas atrás de pedaços de lycra menores do que lingerie.
Daí começou meu martírio. Cheguei pra uma das duas senhoras com cara de respeitáveis que atendiam, e timidamente perguntei se o da vitrine tinha no meu tamanho. A velhinha berrou, não minha filha, aquele ali só PP, tenho não pra você. No meio daquela zona, me acheguei na outra senhora e falei, mas o que vocês tem no meu tamanho? Ela também berrando ( gente, porque isso?), "ah, no tamanho seu só tenho um sutiã com bojo" ( gente, tem biquíni com bojo hoje em dia!) e me passou um sutiã que serviria perfeitamente pra Gina Lollobrigida em tempos idos ( eu sei gente, eu sou velha, fazer o quê?).
Claro que a velha Panda the Kid tá longe de ser uma musa do cinema italiano, mas vamos dizer, no quesito em que Jane Mansfield e Gina se tornaram célebres, não me faltam, digamos, exuberância de atributos. Peguei o transatlântico pink de bojo e entrei na cabine. Lógico que deu, mas eu ainda agüentei a nega entrando, apertando os laços e berrando, olha bem, pra você só esse tamanho e só tem esse, pra levantar sua comissão de frente.
Saí da cabine e de novo perguntei sobre estampas diferentes ( aquele pink era puro delírio). Ela sempre berrando ( gente, vendedora de biquíni tem problema de audição?) dizendo que não, que o meu tamanho era Extra Large Mega Ultra Plus Super. E eu, finalmente tendo uma reação, berrei de volta, então eu tenho que fazer uma cirurgia... de redução de peito!
Chutei quem tava na frente e, puta, me encaminhei pro correio. Resolvi pinimbas e, subindo a Moraes Salles, pensei, eu sei, tô gorda, velha, mas peralá. Eu sei que tenho um perfil, digamos, clássico, e lembrei de uma Vênus romana que vi em Chicago, que parecia eu pelada no espelho. Pronto, pensei que em 45 d.C, eu faria sucesso nas praias de Herculanum, e me acalmei.
Aqui perto de casa, tem uma loja de uma marca famosa de moda praia, que sempre namoro nas minhas idas e vindas. As vitrines, sempre atraentes, mostram coisas lindas, e meio caras. Há anos a gerente, uma perua típica campineira, me encara com desprezo e nem me atende, porque eu nunca compro nada. Eu, hoje, com um dinheirinho suado sobrando, só queria comprar um biquíni.
Outra multidão, agora de madames, adolescentes e suas mamães orgulhosas. Esperei pacientemente uns quarenta minutos pra ser atendida, e mal, por duas meninas perdidas em meio a tanta frescura e chiliques. A gerente me olhava como se eu fosse um ET. Nada pra mim. Vejo a senhora do lado com algo bonito, estampado em fundo lilás. Pedi o modelo, e me encaminhei pra cabine. A gerente, sádica, falou, ah minha filha, tem filinha, viu? De gente que obviamente, ela atendeu de forma gentil e prontamente enquanto eu era ignorada no balcão, gente que não demorou cinco minutos pra pegar um modelo.
Como uma lady, entrei na fila. O biquíni era tão bonito, que eu pensei, foda-se essa nega maldita ( diga-se que ela é feia também, coitada, parece assombração, eu fiquei com dó na verdade). A moça do caixa percebeu a situação e veio ao meu socorro, super doce. E o biquíni ficou tão lindo, que eu a princípio estranhei. Mas acabei me dando de presente, e toda garbosa, com a loja inteira me admirando, comprei o conjunto transadíssimo. Cheguei em casa e pus meu biquíni novo, e da sala pro quarto e do quarto pra sala, tava me achando a própria Brigitte Bardot!

Sunday, December 16, 2007

13

Há treze anos atrás, eu enfrentava as provas da Universidade Federal do Paraná, da Unesp, da FUVEST e da Unicamp. Esta última, por puro acaso.


Eu queria ser jornalista. Queria escrever em revistas, principalmente a Capricho, que eu assinei durante um certo tempo. Queria viajar, ou trabalhar na National Geographic. Ouvia muita música, tocava teclado, e escrevia muito. Diários e poesias. Também desenhava e cuidava das crianças dos vizinhos, e estudava por conta. O meu colégio havia inaugurado, naquele ano, aulas de reforço, à tarde, para o pessoal do terceirão. Um grupo de amigos fiéis se uniu em torno do desafio de conseguir uma vaga numa universidade de prestígio, ou seja, as universidades públicas.
O povo queria estudar na Unicamp; já eu sonhava com a ECA e com um retorno à minha cidade natal. A minha melhor amiga era a Débora, a única afro-descendente do colégio, linda de morrer, e inteligente demais, filha de uma das enfermeiras chefes do HC da Unicamp. A Débora vivia entre a casa do pai e a da mãe, e num desses desencontros, o pai e ela compraram dois manuais do vestibulando, por pura afobação. Pra não deixar minha amiga no prejuízo, comprei o manual dela. Só por isso prestei Unicamp.
Sem Jornalismo como opção, fiquei entre Letras, História e Ciências Sociais. Nas costas do meu pai, preenchi Sociais na fila da entrega do formulário. Sem estudar nada pro famigerado e diferenciado vestibular da Unicamp, entrei na disputa dos vestibulares. Fui pra Curitiba com meus pais e meu irmão, e num flat passei o frio típico curitibano. A FUVEST foi aquele desespero de sempre, e passei pra segunda fase apertada, mas passei. A Unicamp não me preocupava; achava a cidadela zeferinítica o fim do mundo, uma roça, e toda vez que tinha que buscar meu irmão na casa de um amigo lá, achava tudo aquilo, realmente, o fim.
Na segunda fase da birosca unicampítica, um acidente de percurso. Eu me sentei atrás do Márcio, que conheci na primeira fase da FUVEST e de quem já tinha ficado amiga. Só que o Márcio era um armário de três metros por quatro. Eu me sentei atrás dele, no final de uma longa fila de carteiras, numa sala da Engenharia Básica, e no outro dia tanto eu quanto ele não tínhamos mais carteiras com nossos nomes. A sala estava repleta de vestibulandos pra Sociais; uma menina riu e falou, bom, dois a menos. Senti muita crueldade nela e em outros, que riram. Contrariando as previsões, eu e o Márcio passamos, e eles, não, os caras da COMVEST só quiseram mudar a gente de lugar.
Chorei muito no dia em que vi que, por dois lugares, caí na lista de espera da FUVEST. E no mesmo dia, no Ciclo Básico, vi meu nome nas listas. Uma amiga querida da minha mãe, a Sônia, argumentou comigo que me via muito mais como professora universitária do que como jornalista.
Há treze anos, entrei no IEL pensando que era o IFCH. Consertado o erro, dei com o Márcio e a Ísis, amiga de colegial, felicíssimos, cheios de planos, esperando a primeira aula de Antropologia. Eu não fazia idéia do que encontraria no curso; pensava que poderia até enfrentar um cursinho, e outra tentativa. Mas não, no primeiro mês vi que a Sônia me conhecia bem demais.
Há treze anos, eu firmei na minha cabeça que a carreira acadêmica era o que eu queria pra minha vida. Eu tinha dezessete anos, desenhava, tocava teclado, era magérrima e meio dentuça. Usava só moletom e passei a paquerar mais os meninos naquele ano. Li num artigo xerocado da Times, na aula de Economia, que existia algo chamado internet. Enfrentei minha primeira terapia no CECOM, e também duas cirurgias de extração de dentes de ciso.
A Unicamp era muito diferente, eu era muito diferente. Nas festas, a gente ouvia sempre a mesma fita cassete, obra e graça de um colega da Engenharia; paquerava os garotos da Biologia e fazia seminários e fichamentos. Mas eu tinha essa certeza.
Semana passada, encontrei um professor, que escreveu um dos livros que a gente lia, em parte, no nosso primeiro ano. Ele me disse que eu podia ir embora agora, que a porta estava aberta, você é uma doutora, ele me disse. Eu falei que queria ir, ele me disse, agora você pode. E depois passamos a falar de coisas da universidade. E daí percebi que ele sabe, tanto quanto eu, que a gente fala até logo, mas nunca adeus, pros anos mais importantes da vida da gente.

Wednesday, December 12, 2007

Chuvas de dezembro

Contrariando Tom, são as chuvas de dezembro, é o fim da canseira.


Trabalhando em excesso, cansada demais. E tenho notado uma coisa em mim. Não ando muito generosa, não. Não tenho tido vontade de espalhar o que sinto, penso, o que tenho. Eu que já espalhei tanto, já me dei tanto, hoje fecho as portas. Pensei em pôr milhões de coisas aqui, me desculpem, não vou. Vou guardar pra mim, o meu ouro, as minhas jóias de sentir. Pra pôr só nas grandes ocasiões, ópera no Municipal, vestido de veludo e jantar com vinho branco, com as jóias, as pérolas, as lembranças, como uma senhora elegante que se preze.
"Uma pérola é sofrimento transformado em jóia", provérbio budista.

Thursday, December 06, 2007

Dra. Panda Maria Alighieri

Dra. Panda comunica aos fiéis leitores do Meio, agora abertamente francófilo, que pode aviar receitas de remédio e que atenderá pelo seu título em todas as instâncias deliberativas como Orkut, Blog e msn por uma semana.

Monday, December 03, 2007

Amanhã...

E para os leitores fiéis do Nel Mezzo, agora cantando a plenos pulmões junto com La Mome...

Amanhã, enfrentarei o inevitável e posso trazer para a casa o título de doutora. Posso ser reprovada. Não convidei ninguém pra defesa, porque eu sei que a tese está mundos aquém do que deveria, está uma verdadeira josma, mas enfim, agora é tarde pra chorar pela tese derramada.
O povo reclamou, teve gente que quis usar de expedientes como chantagem emocional, ver no site da Unicamp, se convidar na cara dura e me consultar pelo msn sobre a possibilidade de assistir o massacre. Bom, o rebaixamento do Coríntiã deu uma esfriada nos ânimos da galera, pelo menos não sou a única a ser massacrada nem estar em maus lençóis nesta semana que Deus pôs no mundo.
Aos leitores que acompanharam a saga da maledetta, desde seus primórdios até o gran finale, torçam por mim, gritem merda, ou acendam aquela vela vermelha. Que Dante e Botticelli me protejam!

Monday, November 26, 2007

Back on the chain gang

Entreguei, terminei, defenderei. Fui, vi, venci. E agora descanso pra voltar à gangue e aos trens.


Os últimos dias, teve de tudo. Tô tentando manter minha nova atitude, como disse a Nenem, panda power, ouvindo a Piaf toda hora e vendo a Mome no Youtube, pra ver se entra na minha cabeça o Non, Je Ne Regrette Rien, de vez.
Tomei coragem e agradeci ao Jorge e ao Bonnet muito o curso, a oportunidade. Há anos que eu não fazia algo tão bom, tão de verdade, tão perto do que acredito e sinto. Daí fiquei super feliz com isso. Mas nos dias seguintes, tive um aborrecimento que me fez pensar muito.
Os meninos do primeiro ano me pediram pra levá-los ao MASP. Eu tô substituindo o Paulo num regime de trabalho doido, professora palestrante, e esse mês levei pra casa metade do salário, ou seja, 230 reais pra ministrar duas disciplinas na graduação, com todas as responsabilidades envolvidas nisso: preparar aula, ministrar, me pôr ali pros alunos, avaliar. Pra piorar as coisas, o cheque demorou a cair, fiquei duas semanas sem quase nada dentro de casa, sem um real, sofrendo, trabalhando como louca e entregando a tese.
Tudo que os meninos me pediram, eu fiz: duas aulas extras, na semana que eu simplesmente fiz milagre, e me pediram uma visita ao MASP. Prontamente atendi, corri atrás de tudo, e na quinta-feira ( a visita seria no sábado) eles me disseram que grande parte da turma havia desistido.
Fiquei p. da vida e dei a maior bronca da minha história de professora. Porque eu senti, em vários momentos, que eles criticam, criticam, criticam a gente, mas chega na hora,me fazem isso? Não querem ir ao maior museu da América Latina de graça, e com uma professora de guia?
Pensei nas vezes que ia sozinha ao MASP, pensei que o Jorge mandava a gente se encontrar lá tal hora, e ponto. Senti muita infantilidade, e agressividade em parte da turma. Fiquei nervosa, tive uma hemorragia, foi péssimo. Acho que estourou tudo, ganhar essa miséria de salário, o não-reconhecimento por parte do departamento, e as dificuldades todas do doutorado ( que foram muitas, muitas mesmo, até o finzinho encontrei obstáculos foda).
Pela primeira vez em muitos anos, muitos mesmo, não terei nenhum compromisso com e na universidade, no ano que vem. Pintaram outras coisas, preciso lutar, ter força pra inventar um caminho. Sinto um alívio muito grande, mas também uma vertigem, um medo, um frio na barriga. Como vai ser minha vida longe da cidadela zeferinítica? Vamos lá, né.

Tuesday, November 20, 2007

Non, Je Ne Regrette Rien

E eu com esse curso do Bonnet entrei numa vibe Egalité, Fraternité e Liberté. Terminei o Índice maldito do Luiz, com vinte e sete páginas e 850 nomes, o cheque do meu fantástico pagamento caiu e eu fui no Atacadão, e agora baixo, numa preguiça danada, baixo e escuto uma seleção Vive La France.

Não assisti Piaf, mas baixei uma pequena seleção da grande chanteuse. E agora estou lascando meu francês inexistente em Non, Je Ne Regrette Rien, que, temo, vai se tornar um hino pra mim. Pela primeira vez em muitos anos, olho pra frente, não pra trás. Não, eu não lastimo as perdas nem os ganhos. Deu tudo zero. Não, eu não me preocupo mais com quem não me amou, ou quem me amou, ou quem não soube o que tava ocorrendo. Non, rien de rien, niente, nada mesmo. Acabou. Olhar pra frente dá vertigem, mas é tão mais bonito.

Saturday, November 17, 2007

Advento

E segundo o calendário litúrgico, o tempo dos quatro domingos que antecedem o Natal é o Advento.
Ainda estamos um pouco antes, mas o comércio decide essas coisas, e a Prefeitura de Campinas pôs, antes desse novo feriadão, enfeites feitos de fundos de garrafas PET, muito bonitos, vermelhos e brancos, estrelas, bolas e guirlandas que resplandecem de luz, à noite. Minha vizinha, que tem um menininho, já pôs os enfeites dela.
Hoje de manhã, ouvi a vozinha feliz do Lucas, mostrando pro pai os enfeites. Resolvi adiantar a coisa, e deixar o Lucas feliz quando ele voltasse do seu passeio. Coloquei minha bota de feltro com um Papai Noel fofo, e está aberto o Advento no clã da panda Vermeersch.
Aliás, fui assistir o Tropa de Elite, quero escrever um post, bem como vi com o Celo os 300 de Esparta ( fim de semana bélico, vamos dizer). Eu estou lutando como Leônidas e o capitão Nascimento, juntos, pra dar fim no Índice infernal do Luiz, mas tá difícil, e fiz meus sequilhos mas eles cresceram demais, dessa vez, ficaram bons mas tinha pouco polvilho. Não há de ser nada, o Natal vem aí.

Monday, November 12, 2007

Os doze trabalhos de Hércules


Estou me sentindo uma pequena panda Hércules. Explico.



Quarta passada, sexta, sábado, hoje, amanhã e quarta, dou aulas. De Bernini a Volpi, de um tudo que vocês possam imaginar. Quis dar uma mão pros meninos do primeiro ano, mais perdidos do que cego em tiroteio, e marquei dois horários de reposição, à noite. Vai ser trash, porque, enquanto isso...



O Luiz, meu ex-orientador e mestre jedi de plantão, deu uma de rei Eristeu: me pediu, de uma semana pra outra, o Índice Onomástico ( de nomes, dã) de um livro sobre tradição clássica, que sai pela Editora da Unicamp. Só que, detalhe, o livro tem 350 páginas de ensaios dos mais variados assuntos, da escultura de Pérgamoà Galeria dos Mapas do Vaticano, passando pela Virgem dos Rochedos do Leonardo e do Cupido perdido de Michelangelo. Ou seja... depois de dias e noites, derrubei mais de 600 nomes citados no livro, e não estou no fim e tudo isso não está conferido, minuciosamente, na busca do Adobe ( o livro tá num pdf) e nem em ordem alfabética. E é pra quarta.


E no meio disso, problemas e problemas mas uma luz surgiu e uma data, em dezembro, apareceu para a defesa da maledetta, já pronta pra vir, só faltam alguns dos disegni do tio barrilzinho pra escanear, imprimir, xerocar e pôr no SEDEX. Emails, telefonemas, mas no banho, digamos, romano, que me dei o direito hoje ( com óleos e tudo mais) eu vi a felicidade de ser uma heroína, digna de umas folhas de louro e de ter o meu amadíssimo Hércules Farnese perto do meu coração.
Acima, o próuprio, do Museu Arqueológico de Nápoles, onde passei mal de fraqueza...

Wednesday, November 07, 2007

Das possibilidades dos meus estudos





Andei deprimida de verdade, nau à deriva. Na segunda-feira, cansada de sofrer, fui à Unicamp tentar fazer alguma das muitas coisas que preciso fazer. Desci da condução e resolvi ir ao banheiro no prédio dos professores do IFCH. Vi, num cartazinho, um anúncio de um mini-curso, de um mês, de um professor francês, Jacques Bonnet, convidado pelo prof. Jorge Coli. O curso versa sobre nus femininos no banho, nas artes a partir do Renascimento: Susana e os Velhos, Diana e Actéon e Davi e Betsabé.
Me animei, coisa rara nos últimos tempos, pra fazer o curso. Resolvi que ia me fazer bem ouvir um pouco alguém de fora, sobre temas que me interessam tanto, e que são parte da minha tese.
Dei aula hoje, sobre o Indianismo, Monumento a Dom Pedro I na Praça Tiradentes no Rio e a Primeira Missa do Meirelles, fui no bandeijão e aportei no velho e cada vez mais combalido IFCH. Sala de Projeção lotada, velhos amigos, alegria de estar ali. O prof. Jorge ia traduzindo, o prof. Bonnet muito simpático, nada parecido com os franceses que a gente tanto teme ( acho que na verdade talvez o preconceito se deva aos parisienses, sei lá). Em vários momentos eu tive vontade de levantar e dar um abraço no Bonnet. Explico: sofri tanto no doutorado, por que muitas vezes não tinha com quem conversar sobre dificuldades metodológicas, e sobre o ofício do historiador. Com muita precisão, eu acho que o Bonnet hoje resolveu n problemas que rondavam minha cabeça, desde que abracei o capeta e minha pobre alma nunca mais saiu do século XV.

Simplesmente a abordagem do Bonnet, por ser mais ampla, permitiu a ele fazer um estudo "trans-histórico" das iconografias. Trocando em miúdos: como a pobre panda, ele começa no século IV d.C e vai indo, procurando de moeda a túmulo, passando por capitel de igreja, iluminura, os lindos cassoni ( os baús de madeira decorados nos quais as noivas florentinas guardavam seus enxovais), afrescos, vários tipos de materias figurativos, de várias épocas e lugares, que atestam a persistência, por vinte séculos, de temas da Bíblia e da mitologia greco-romana.
Esse tipo de percuso, numa era da super especialização acadêmica, é ridicularizado e muitas vezes posto de escanteio ( só eu sei o que eu sofri com as minhas 250 imagens, meus tantos Virgílios), porque desde sempre a maior parte da historiografia prefere o texto ( que pode mentir, enquanto a imagem, no seu silêncio, guarda seu enigma), e relega a imagem ao papel de mera ilustração mecânica, ou prefere estudar o contexto social, político, econômico, mas não a obra em si. Enfim, acho que o Bonnet veio falar do seu livro favorito e passar um tempo descansando no Brasil, podem-se fazer críticas ao seu discurso, mas pra mim ele foi um presente e tanto nesse final do meu doutorado.

Acima, Susana e os velhos, de Aert van Ort, 1520-25. Vidro trabalhado, diâmetro 24 cm. Nova York: Metropolitan Museum of Art.

Tuesday, November 06, 2007

A sopa do duende

Hoje acordei com cólica, triste, cansada, mil coisas pra fazer, chuva,frio. Escrevi pra uma amiga querida, longe, deitei de novo, atendi outro amigo fofo em São Paulo, daí resolvi sair pro meu tradicional passeio no centro da cidade.
Fui, na chuva fina, andando bem devagarinho, pensando na vida. Passei por trás do edifício Itatiaia, numa ruazinha que nunca havia passado, subi a César Bierrenbach e na altura do Largo do Carmo, quase em frente o monumento túmulo do Carlos Gomes, senti a minha tristeza de hoje. Eram três da tarde, eu tava com fome, com a cabeça embaralhada. Fui no chinês vagaba da Barão de Jaguara, ninguém no restaurante, só o povo de lá comendo. Comi um pouco, entornei uma Coca Light pra ver se animava, e resolvi entrar na Tecnart, na outra esquina.
Vi alguns livros na vitrine que me chamaram a atenção, um deles, um livro de receitas da Márcia Frazão. Márcia Frazão vive na serra fluminense, e já andou escrevendo sobre o que o povo chama bruxaria, feitiçaria, essas coisas. É uma figura simpática na mídia, ensinando chá pra diminuir cólica, tempero pra pão integral, coisas muito simples mas que funcionam, nada de voar em vassouras nem de ir contra as leis da tal ciência moderna.
O livro é uma graça. Ela conta a história da amizade que teve com uma velha senhora francesa, quando, dura de tudo, mudou pra serra com o marido e os filhos, trotskista e filósofa de formação. A tal senhorinha, sobrevivente da Segunda Guerra, cozinhava muito bem, coisas simples, de culinária doméstica francesa, como pain perdu ( fatia de pão velho, passada no ovo batido com baunilha e leite, e frita na manteiga- a nossa rabanada, sem o vinho no caso). Márcia conta da receita de bolo de chocolate com queijo que aprendeu da senhora, e dos tempos difíceis, de penúria e falta de recursos, e da morte da Jacqueline, a velhinha fofa que amava alecrim.
Eu fiquei com vontade de chorar. Primeiro, porque saquei que andei tão mal nos últimos dias que nem cozinhar cozinhei. Fiquei com vontade de comprar o livro, nem é tão caro, mas nem dinheiro pra isso tenho. Segundo, porque senti falta de amigos que tão longe, e de outros que não vão voltar mais mesmo, pelo menos nessa encadernação. A velhinha fofa francesa, sempre dura porque inventou, segundo Márcia, um método infalível de ensinar francês pros alunos dela, que aprendiam e iam pra França, dizia que em toda cozinha existem duendes, que cuidam das coisas e que dão a idéia pras pessoas do que cozinharem.
Saí da livraria e fui nas lojas de 1,99 da mesma Barão de Jaguara, comprar uns brincos e um chinelo chinês peruíssimo, que vou usar por aí na minha habitual falta de noção fashion. Passei pelo mercado, e nenhuma inspiração culinária me ocorreu.
Cheguei em casa, afazeres profissionais me ocuparam. De repente, fui pra cozinha e o duende me deu a idéia: minha mãe tinha me dado uma bandeijinha de abóbora kabochan ralada, me dizendo faça uma sopa. Peguei a kabochan, leite e comecei a cozinhar. Só tinha a kabochan e umas batatas, e metade de uma cebola. Cozinhei as batatas na pressão. O creme da kabochan começou a cheirar bem, e eu pensei, vou pôr pedaços das batatas, gengibre, pimenta do reino, e salgar com shoyo. Então ficou assim a sopa do duende, boa demais pra me curar da minha tristeza e das minhas preocupações e da minha cólica.

Sunday, November 04, 2007

Show! Show! Show!


E eu comecei a ler, de forma irresponsável, the old William. Peguei na estante um pequeno volume, vermelho, com três das tragédias, Romeu e Julieta, Macbeth e outra que agora esqueço.
Toda hora me pego lendo, no voluminho vermelho, coisas que me levam a mundos e mundos. O bom dos gigantes é isso: segundo um velho preceito, um anão nos ombros de um gigante vê toda a superfície do planeta. E gigante que é gigante é generoso, desce até o pequeno anãozinho ignorante e mané.

Um dos discursos de Frei Lorenzo, o confidente e conselheiro dos desventurados amantes de Verona, é uma linda reflexão sobre como as nossas partes podem entrar em conflito, e com isso, nos fazer sofrer (o coração, a mente, a vontade). Mas o que mais me prendeu foi o Ato IV, Cena I, de Macbeth. O rei vai até a caverna das três Bruxas, e pede que elas mostrem o oculto através de seus mestres, fantasmas, espectros que revelam a vitória sangrenta de Macbeth, mas também seu declínio irreversível. Na tradução em português, a hora dramática em que as três feiticeiras clamam pela aparição das almas de oito reis, sendo o último o assassinado Banquo, em que elas berram "Show! Show! Show!", ficou "Pantomina! Pantomina".


Corri no Google e descobri na Wikipédia que "pantomine" é muito posterior a Shakespeare, pra minha desilusão, que fiquei no carro cantando "Lady Lady Lady", do Joe Esposito, trilha sonora do Flashdance, que tem pantomine na letra. A idéia de pantomine como espetáculo teatral, segundo a sempre irresponsável Wikipédia, surgiu em inglês no século XIX. Tem um filme lindo sobre o teatro de massas na Inglaterra vitoriana, chamado Topsy Turvy.


Achei versões on line do original, e as bruxas clamam "Show, Show, Show". Fiquei pensando que seria melhor no caso "Espetáculo, Espetáculo". De qualquer forma, parece que as feiticeiras promovem uma peça dentro da peça, reforçando o caratér solene do momento em que as oito aparições reais, culminadas por Banquo, mostram a Macbeth o caráter provisório da autoridade, ou como diz o texto explicitamente, da soberania dos monarcas.
Acima, Banquo, Macbeth e as três bruxas, do Füssli, cena do Ato I, onde os dois sabem pelas feiticeiras que Macbeth será rei, mas a linhagem de Banquo predominará. Em política, não adianta se pensar só no bel prazer e na satisfação imediata: Macbeth mata o amigo Banquo, o rei Duncan, mas se torna um rei odiado e presa fácil da corte que desconfia de seus horrendos crimes. Lady Macbeth pira de angústia, de culpa. No caso, o trágico é que Shakespeare aponta que no interior do culpado surge sua desgraça, mas não há no mundo nenhum mecanismo humano ou divino de justiça verdadeira. A se refletir sobre isso, mais e mais e mais.

Thursday, November 01, 2007

TV Panda

-Não consigo marcar minha defesa. Problemas de calendário e de composição da banca. Eita maleita...


-Meu dente caiu de novo, ontem, depois que vi o povo do mal, vulgo cordão da bola preta, sem querer no IFCH. Arreda vodu!
-Fui louca o suficiente pra passar roupa nesse calor de Alalaô. Quase morri na terceira blusa e deixei tudo sem passar mesmo.
-Tem gente querida longe. Mas tem gente querida perto. E tudo, nessa semana, foi contornável. E ainda tive momentos deliciosos. E dá-lhe Grace Jones, La Vie en Rose. Sou uma senhora de 30 anos. E isso é tão bom, tão bom, tão gostoso.