Monday, November 26, 2007

Back on the chain gang

Entreguei, terminei, defenderei. Fui, vi, venci. E agora descanso pra voltar à gangue e aos trens.


Os últimos dias, teve de tudo. Tô tentando manter minha nova atitude, como disse a Nenem, panda power, ouvindo a Piaf toda hora e vendo a Mome no Youtube, pra ver se entra na minha cabeça o Non, Je Ne Regrette Rien, de vez.
Tomei coragem e agradeci ao Jorge e ao Bonnet muito o curso, a oportunidade. Há anos que eu não fazia algo tão bom, tão de verdade, tão perto do que acredito e sinto. Daí fiquei super feliz com isso. Mas nos dias seguintes, tive um aborrecimento que me fez pensar muito.
Os meninos do primeiro ano me pediram pra levá-los ao MASP. Eu tô substituindo o Paulo num regime de trabalho doido, professora palestrante, e esse mês levei pra casa metade do salário, ou seja, 230 reais pra ministrar duas disciplinas na graduação, com todas as responsabilidades envolvidas nisso: preparar aula, ministrar, me pôr ali pros alunos, avaliar. Pra piorar as coisas, o cheque demorou a cair, fiquei duas semanas sem quase nada dentro de casa, sem um real, sofrendo, trabalhando como louca e entregando a tese.
Tudo que os meninos me pediram, eu fiz: duas aulas extras, na semana que eu simplesmente fiz milagre, e me pediram uma visita ao MASP. Prontamente atendi, corri atrás de tudo, e na quinta-feira ( a visita seria no sábado) eles me disseram que grande parte da turma havia desistido.
Fiquei p. da vida e dei a maior bronca da minha história de professora. Porque eu senti, em vários momentos, que eles criticam, criticam, criticam a gente, mas chega na hora,me fazem isso? Não querem ir ao maior museu da América Latina de graça, e com uma professora de guia?
Pensei nas vezes que ia sozinha ao MASP, pensei que o Jorge mandava a gente se encontrar lá tal hora, e ponto. Senti muita infantilidade, e agressividade em parte da turma. Fiquei nervosa, tive uma hemorragia, foi péssimo. Acho que estourou tudo, ganhar essa miséria de salário, o não-reconhecimento por parte do departamento, e as dificuldades todas do doutorado ( que foram muitas, muitas mesmo, até o finzinho encontrei obstáculos foda).
Pela primeira vez em muitos anos, muitos mesmo, não terei nenhum compromisso com e na universidade, no ano que vem. Pintaram outras coisas, preciso lutar, ter força pra inventar um caminho. Sinto um alívio muito grande, mas também uma vertigem, um medo, um frio na barriga. Como vai ser minha vida longe da cidadela zeferinítica? Vamos lá, né.

Tuesday, November 20, 2007

Non, Je Ne Regrette Rien

E eu com esse curso do Bonnet entrei numa vibe Egalité, Fraternité e Liberté. Terminei o Índice maldito do Luiz, com vinte e sete páginas e 850 nomes, o cheque do meu fantástico pagamento caiu e eu fui no Atacadão, e agora baixo, numa preguiça danada, baixo e escuto uma seleção Vive La France.

Não assisti Piaf, mas baixei uma pequena seleção da grande chanteuse. E agora estou lascando meu francês inexistente em Non, Je Ne Regrette Rien, que, temo, vai se tornar um hino pra mim. Pela primeira vez em muitos anos, olho pra frente, não pra trás. Não, eu não lastimo as perdas nem os ganhos. Deu tudo zero. Não, eu não me preocupo mais com quem não me amou, ou quem me amou, ou quem não soube o que tava ocorrendo. Non, rien de rien, niente, nada mesmo. Acabou. Olhar pra frente dá vertigem, mas é tão mais bonito.

Saturday, November 17, 2007

Advento

E segundo o calendário litúrgico, o tempo dos quatro domingos que antecedem o Natal é o Advento.
Ainda estamos um pouco antes, mas o comércio decide essas coisas, e a Prefeitura de Campinas pôs, antes desse novo feriadão, enfeites feitos de fundos de garrafas PET, muito bonitos, vermelhos e brancos, estrelas, bolas e guirlandas que resplandecem de luz, à noite. Minha vizinha, que tem um menininho, já pôs os enfeites dela.
Hoje de manhã, ouvi a vozinha feliz do Lucas, mostrando pro pai os enfeites. Resolvi adiantar a coisa, e deixar o Lucas feliz quando ele voltasse do seu passeio. Coloquei minha bota de feltro com um Papai Noel fofo, e está aberto o Advento no clã da panda Vermeersch.
Aliás, fui assistir o Tropa de Elite, quero escrever um post, bem como vi com o Celo os 300 de Esparta ( fim de semana bélico, vamos dizer). Eu estou lutando como Leônidas e o capitão Nascimento, juntos, pra dar fim no Índice infernal do Luiz, mas tá difícil, e fiz meus sequilhos mas eles cresceram demais, dessa vez, ficaram bons mas tinha pouco polvilho. Não há de ser nada, o Natal vem aí.

Monday, November 12, 2007

Os doze trabalhos de Hércules


Estou me sentindo uma pequena panda Hércules. Explico.



Quarta passada, sexta, sábado, hoje, amanhã e quarta, dou aulas. De Bernini a Volpi, de um tudo que vocês possam imaginar. Quis dar uma mão pros meninos do primeiro ano, mais perdidos do que cego em tiroteio, e marquei dois horários de reposição, à noite. Vai ser trash, porque, enquanto isso...



O Luiz, meu ex-orientador e mestre jedi de plantão, deu uma de rei Eristeu: me pediu, de uma semana pra outra, o Índice Onomástico ( de nomes, dã) de um livro sobre tradição clássica, que sai pela Editora da Unicamp. Só que, detalhe, o livro tem 350 páginas de ensaios dos mais variados assuntos, da escultura de Pérgamoà Galeria dos Mapas do Vaticano, passando pela Virgem dos Rochedos do Leonardo e do Cupido perdido de Michelangelo. Ou seja... depois de dias e noites, derrubei mais de 600 nomes citados no livro, e não estou no fim e tudo isso não está conferido, minuciosamente, na busca do Adobe ( o livro tá num pdf) e nem em ordem alfabética. E é pra quarta.


E no meio disso, problemas e problemas mas uma luz surgiu e uma data, em dezembro, apareceu para a defesa da maledetta, já pronta pra vir, só faltam alguns dos disegni do tio barrilzinho pra escanear, imprimir, xerocar e pôr no SEDEX. Emails, telefonemas, mas no banho, digamos, romano, que me dei o direito hoje ( com óleos e tudo mais) eu vi a felicidade de ser uma heroína, digna de umas folhas de louro e de ter o meu amadíssimo Hércules Farnese perto do meu coração.
Acima, o próuprio, do Museu Arqueológico de Nápoles, onde passei mal de fraqueza...

Wednesday, November 07, 2007

Das possibilidades dos meus estudos





Andei deprimida de verdade, nau à deriva. Na segunda-feira, cansada de sofrer, fui à Unicamp tentar fazer alguma das muitas coisas que preciso fazer. Desci da condução e resolvi ir ao banheiro no prédio dos professores do IFCH. Vi, num cartazinho, um anúncio de um mini-curso, de um mês, de um professor francês, Jacques Bonnet, convidado pelo prof. Jorge Coli. O curso versa sobre nus femininos no banho, nas artes a partir do Renascimento: Susana e os Velhos, Diana e Actéon e Davi e Betsabé.
Me animei, coisa rara nos últimos tempos, pra fazer o curso. Resolvi que ia me fazer bem ouvir um pouco alguém de fora, sobre temas que me interessam tanto, e que são parte da minha tese.
Dei aula hoje, sobre o Indianismo, Monumento a Dom Pedro I na Praça Tiradentes no Rio e a Primeira Missa do Meirelles, fui no bandeijão e aportei no velho e cada vez mais combalido IFCH. Sala de Projeção lotada, velhos amigos, alegria de estar ali. O prof. Jorge ia traduzindo, o prof. Bonnet muito simpático, nada parecido com os franceses que a gente tanto teme ( acho que na verdade talvez o preconceito se deva aos parisienses, sei lá). Em vários momentos eu tive vontade de levantar e dar um abraço no Bonnet. Explico: sofri tanto no doutorado, por que muitas vezes não tinha com quem conversar sobre dificuldades metodológicas, e sobre o ofício do historiador. Com muita precisão, eu acho que o Bonnet hoje resolveu n problemas que rondavam minha cabeça, desde que abracei o capeta e minha pobre alma nunca mais saiu do século XV.

Simplesmente a abordagem do Bonnet, por ser mais ampla, permitiu a ele fazer um estudo "trans-histórico" das iconografias. Trocando em miúdos: como a pobre panda, ele começa no século IV d.C e vai indo, procurando de moeda a túmulo, passando por capitel de igreja, iluminura, os lindos cassoni ( os baús de madeira decorados nos quais as noivas florentinas guardavam seus enxovais), afrescos, vários tipos de materias figurativos, de várias épocas e lugares, que atestam a persistência, por vinte séculos, de temas da Bíblia e da mitologia greco-romana.
Esse tipo de percuso, numa era da super especialização acadêmica, é ridicularizado e muitas vezes posto de escanteio ( só eu sei o que eu sofri com as minhas 250 imagens, meus tantos Virgílios), porque desde sempre a maior parte da historiografia prefere o texto ( que pode mentir, enquanto a imagem, no seu silêncio, guarda seu enigma), e relega a imagem ao papel de mera ilustração mecânica, ou prefere estudar o contexto social, político, econômico, mas não a obra em si. Enfim, acho que o Bonnet veio falar do seu livro favorito e passar um tempo descansando no Brasil, podem-se fazer críticas ao seu discurso, mas pra mim ele foi um presente e tanto nesse final do meu doutorado.

Acima, Susana e os velhos, de Aert van Ort, 1520-25. Vidro trabalhado, diâmetro 24 cm. Nova York: Metropolitan Museum of Art.

Tuesday, November 06, 2007

A sopa do duende

Hoje acordei com cólica, triste, cansada, mil coisas pra fazer, chuva,frio. Escrevi pra uma amiga querida, longe, deitei de novo, atendi outro amigo fofo em São Paulo, daí resolvi sair pro meu tradicional passeio no centro da cidade.
Fui, na chuva fina, andando bem devagarinho, pensando na vida. Passei por trás do edifício Itatiaia, numa ruazinha que nunca havia passado, subi a César Bierrenbach e na altura do Largo do Carmo, quase em frente o monumento túmulo do Carlos Gomes, senti a minha tristeza de hoje. Eram três da tarde, eu tava com fome, com a cabeça embaralhada. Fui no chinês vagaba da Barão de Jaguara, ninguém no restaurante, só o povo de lá comendo. Comi um pouco, entornei uma Coca Light pra ver se animava, e resolvi entrar na Tecnart, na outra esquina.
Vi alguns livros na vitrine que me chamaram a atenção, um deles, um livro de receitas da Márcia Frazão. Márcia Frazão vive na serra fluminense, e já andou escrevendo sobre o que o povo chama bruxaria, feitiçaria, essas coisas. É uma figura simpática na mídia, ensinando chá pra diminuir cólica, tempero pra pão integral, coisas muito simples mas que funcionam, nada de voar em vassouras nem de ir contra as leis da tal ciência moderna.
O livro é uma graça. Ela conta a história da amizade que teve com uma velha senhora francesa, quando, dura de tudo, mudou pra serra com o marido e os filhos, trotskista e filósofa de formação. A tal senhorinha, sobrevivente da Segunda Guerra, cozinhava muito bem, coisas simples, de culinária doméstica francesa, como pain perdu ( fatia de pão velho, passada no ovo batido com baunilha e leite, e frita na manteiga- a nossa rabanada, sem o vinho no caso). Márcia conta da receita de bolo de chocolate com queijo que aprendeu da senhora, e dos tempos difíceis, de penúria e falta de recursos, e da morte da Jacqueline, a velhinha fofa que amava alecrim.
Eu fiquei com vontade de chorar. Primeiro, porque saquei que andei tão mal nos últimos dias que nem cozinhar cozinhei. Fiquei com vontade de comprar o livro, nem é tão caro, mas nem dinheiro pra isso tenho. Segundo, porque senti falta de amigos que tão longe, e de outros que não vão voltar mais mesmo, pelo menos nessa encadernação. A velhinha fofa francesa, sempre dura porque inventou, segundo Márcia, um método infalível de ensinar francês pros alunos dela, que aprendiam e iam pra França, dizia que em toda cozinha existem duendes, que cuidam das coisas e que dão a idéia pras pessoas do que cozinharem.
Saí da livraria e fui nas lojas de 1,99 da mesma Barão de Jaguara, comprar uns brincos e um chinelo chinês peruíssimo, que vou usar por aí na minha habitual falta de noção fashion. Passei pelo mercado, e nenhuma inspiração culinária me ocorreu.
Cheguei em casa, afazeres profissionais me ocuparam. De repente, fui pra cozinha e o duende me deu a idéia: minha mãe tinha me dado uma bandeijinha de abóbora kabochan ralada, me dizendo faça uma sopa. Peguei a kabochan, leite e comecei a cozinhar. Só tinha a kabochan e umas batatas, e metade de uma cebola. Cozinhei as batatas na pressão. O creme da kabochan começou a cheirar bem, e eu pensei, vou pôr pedaços das batatas, gengibre, pimenta do reino, e salgar com shoyo. Então ficou assim a sopa do duende, boa demais pra me curar da minha tristeza e das minhas preocupações e da minha cólica.

Sunday, November 04, 2007

Show! Show! Show!


E eu comecei a ler, de forma irresponsável, the old William. Peguei na estante um pequeno volume, vermelho, com três das tragédias, Romeu e Julieta, Macbeth e outra que agora esqueço.
Toda hora me pego lendo, no voluminho vermelho, coisas que me levam a mundos e mundos. O bom dos gigantes é isso: segundo um velho preceito, um anão nos ombros de um gigante vê toda a superfície do planeta. E gigante que é gigante é generoso, desce até o pequeno anãozinho ignorante e mané.

Um dos discursos de Frei Lorenzo, o confidente e conselheiro dos desventurados amantes de Verona, é uma linda reflexão sobre como as nossas partes podem entrar em conflito, e com isso, nos fazer sofrer (o coração, a mente, a vontade). Mas o que mais me prendeu foi o Ato IV, Cena I, de Macbeth. O rei vai até a caverna das três Bruxas, e pede que elas mostrem o oculto através de seus mestres, fantasmas, espectros que revelam a vitória sangrenta de Macbeth, mas também seu declínio irreversível. Na tradução em português, a hora dramática em que as três feiticeiras clamam pela aparição das almas de oito reis, sendo o último o assassinado Banquo, em que elas berram "Show! Show! Show!", ficou "Pantomina! Pantomina".


Corri no Google e descobri na Wikipédia que "pantomine" é muito posterior a Shakespeare, pra minha desilusão, que fiquei no carro cantando "Lady Lady Lady", do Joe Esposito, trilha sonora do Flashdance, que tem pantomine na letra. A idéia de pantomine como espetáculo teatral, segundo a sempre irresponsável Wikipédia, surgiu em inglês no século XIX. Tem um filme lindo sobre o teatro de massas na Inglaterra vitoriana, chamado Topsy Turvy.


Achei versões on line do original, e as bruxas clamam "Show, Show, Show". Fiquei pensando que seria melhor no caso "Espetáculo, Espetáculo". De qualquer forma, parece que as feiticeiras promovem uma peça dentro da peça, reforçando o caratér solene do momento em que as oito aparições reais, culminadas por Banquo, mostram a Macbeth o caráter provisório da autoridade, ou como diz o texto explicitamente, da soberania dos monarcas.
Acima, Banquo, Macbeth e as três bruxas, do Füssli, cena do Ato I, onde os dois sabem pelas feiticeiras que Macbeth será rei, mas a linhagem de Banquo predominará. Em política, não adianta se pensar só no bel prazer e na satisfação imediata: Macbeth mata o amigo Banquo, o rei Duncan, mas se torna um rei odiado e presa fácil da corte que desconfia de seus horrendos crimes. Lady Macbeth pira de angústia, de culpa. No caso, o trágico é que Shakespeare aponta que no interior do culpado surge sua desgraça, mas não há no mundo nenhum mecanismo humano ou divino de justiça verdadeira. A se refletir sobre isso, mais e mais e mais.

Thursday, November 01, 2007

TV Panda

-Não consigo marcar minha defesa. Problemas de calendário e de composição da banca. Eita maleita...


-Meu dente caiu de novo, ontem, depois que vi o povo do mal, vulgo cordão da bola preta, sem querer no IFCH. Arreda vodu!
-Fui louca o suficiente pra passar roupa nesse calor de Alalaô. Quase morri na terceira blusa e deixei tudo sem passar mesmo.
-Tem gente querida longe. Mas tem gente querida perto. E tudo, nessa semana, foi contornável. E ainda tive momentos deliciosos. E dá-lhe Grace Jones, La Vie en Rose. Sou uma senhora de 30 anos. E isso é tão bom, tão bom, tão gostoso.

Tuesday, October 30, 2007

Recomeçar

Ontem, foi a última sessão de terapia, no SAPPE.


Eu sabia que ia acabar, porque a duração era enquanto eu escrevesse e terminasse a tese. Então acabou, numa sessão maravilhosa. Elogiei muito o pessoal do SAPPE. Sem esse apoio, teria sido difícil pra mim terminar o trabalho, sem me estropiar tanto. Porque pra mim a coisa se resume no seguinte: quero viver, quero fazer e acontecer ,mas sem estropiar. Eu me torturava muito, e pra quê? Dava atenção demais aos outros. Eu venho nesse processo de fechar portas e janelas. Não acho ruim. Não dá pra se doar a todos, e eu andei me doando demais a quem não merecia, inclusive aqui e por intermédio do Meio. Mas águas passadas não rodam moinhos, e eu quero viver na aldeia dos moinhos, do último episódio do Sonhos, do Kurosawa.
Mas foi um recomeço também, cuidei da minha casa com carinho e vigor, falei com dois amigos amados e que estão longe no msn, fiz uma omelete que ficou divina e hoje eu passo minhas roupas. Sem rancores, nem ressentimentos, só vendo as coisas rodarem,girarem lentamente, como os moinhos da terra de parte dos meus ancestrais.

Friday, October 26, 2007

Cheek to cheek

Hoje eu acordei chateada pra variar. A universidade me deixa doente. Essa semana eu tive que permanecer mais do que o usual dos últimos tempos na cidadela zeferinítica. Daí eu fico com surtos de pânico, porque os últimos anos foram difíceis demais. Muito trauma pra uma panda só. Na minha terapia, discuti o fato de que preciso sair da Unipunk por uns tempos. Será bom. Todos os meus projetos a curto, médio e longo prazo não tem Unipunk no horizonte. Pela primeira vez em treze anos, dá um vazio e uma sensação de derrota, que eu sei, são ilusórias.
Na semana seguinte que entreguei minha tese, recomecei a dar aulas no velho canavial. Hoje por exemplo era a aula de Bernini escultor, que ficou da semana passada porque troquei os horários. Enrolei, e cheguei em cima da pinta, Begin the Beguine no i-pod, Ella é tão delicada.
Daí notei que tinha, no caminho, cantado junto com o Frank Cheek to cheek. Tão bom ouvir essas coisas. E me dei conta que já sou uma pessoa diferente de anos atrás, quando eu só ouvia rock e mpb, agora o jazz entrou na minha dieta. Em leve minueto, como escreveu Clarice, entrei no IA com Ella e Frank, que saudade de Chicago, que saudade de tanta coisa, e tanta coisa ainda boa por vir.

Wednesday, October 24, 2007

Tic Tic Tac do meu coração

Meu coração já bate diferente, dando o sinal do fim da mocidade.


Andei puta, porque vou receber 450 reais pra dar duas disciplinas na graduação, na Unipunk, ops, Unicamp. Andei puta porque neguinho me pagou a meia no cursinho. Mas tudo isso é problema velho, eu já tô ficando de saco cheio dessa minha vida de panda biscateira da História da Arte.
Ontem e hoje, pelo menos, dei sorte em algumas coisas. Dei sorte porque assisti Sonhos, do Kurosawa, e tive uma experiência do belo, total, uma entrega à quietude da contemplação. Fiquei tão feliz, porque num final de tarde assisti a um filme, no sossego do meu lar, deitadinha no colchão aqui do escritório. Fazia um ano que não parava pra assistir a um filme assim, o último foi Garota de Rosa Schocking na tevê.
Não gosto de falar isso aqui, acho pedante, mas o fato é que tenho sempre trocentas coisas pra fazer, desde lavar roupa e limpar casa até estabelecer hipóteses historiográficas pra uns quinze assuntos. Acho que passar roupa é pior que escrever artigo, mas enfim, os dois consomem o pouco fosfato da minha pobre cabeça.
Problemas no trabalho, o velho departamento me mata, mas dei sorte porque almocei com os meninos e eles me fizeram rir que nem doida, porque se a gente não ri, só pode chorar. Post assim, dia de chuva e Carmen Miranda no i-pod.

Monday, October 22, 2007

Veneno de abelha, pomada de arnica, e muita água

Tem gente que me deixa muito triste.


Não sei, deve ser ingenuidade minha, mas tem pessoas que me põem em verdadeiros desesperos de tristeza. Não consigo suportar o que algumas pessoas fazem. A minha sorte é que tenho sempre comigo anjos de candura e riso que se apiedam da minha pobre alma e que me ajudam a atravessar o cotidiano desolado. Esse final de semana começou com uma grande tristeza, mas depois tive momentos de felicidade, principalmente com a Nina fofa que foi muito simpática com a tia panda, inclusive procurando no peito da tia leite, e no colo consolo pras cólicas. Celo, Anselmo e Táta compartilharam coisas bonitas comigo, também.
Hoje fui receber as aulas do cursinho, depois de ir no anjo-dentista dr. Cláudio; varei o Centro inteiro de Campinas, fui da Prefeitura até a Rodoviária, pelo calçadão, nesse sol de quase dezembro, e recebi metade do que esperava. Depois ainda peguei o inferno do ônibus Rodoviária- Unicamp via Baixada Santista, e cheguei e descobri que tô devendo uma nota na cantina do IFCH. Fiz as contas e tenho metade do que preciso pra pôr meu combalido orçamento em dia. Ou seja, mais panda-Rambo, pondo a fita na cabecinha e ááááááá....
E a tristeza com certas criaturas, do mal e/ou fracas o suficiente pra ouvirem o chamado do lado negro da Força, resolvi curar com veneno de abelha. Explico: Michel me disse que pra sinusite o bom é creme de veneno de abelha, que uma apicultura premiada aqui de Campinas vende. Eu li faz tempo que todos os derivados da apicultura são bons anti-inflamatórios. Semana passada, não dormi um dia devido à dor de dente: fui no dr. Cláudio e era a minha crônica, clássica, surreal sinusite, que pra mim sempre tá ligada a essa tristeza. A apicultura fica perto do dr. Cláudio; saí de lá e escalei o morrinho da Barreto Leme, pra comprar o tal creme. Passei nos seios da face e na testa, e na hora senti um alívio muito grande.
Ainda vi armarinhos e sugeri à uma senhora de um deles a confecção de uma sacola para trabalhos manuais, com estojos pra linahs e agulhas dentro, de tecido de florzinha ( eu adoro florzinhas nas estampas)... e veneno de abelha, recomendo à todos com problemas de inflamação e de tristeza generalizada.

Saturday, October 20, 2007

L'occhio abbracia la bellezza


Esses tempos, tenho travado conversas fundamentais pelo... msn. É incrível como uma joça que, na maior parte das vezes, serve pra perder tempo ou piorar neuroses ( o clássico "ele/a me bloqueou! Que farei?" ou "vou bloquear esse/a filha/o da puta") tá me servindo pra me compreender melhor, graças às pequenas pandas mestres jedi Danis.


De surtos com eventualidades do cotidiano até verdadeiras confissões d'alma, eu e Danis estamos num processo, eu diria, terapêutico no melhor sentido do termo. Ontem, por exemplo, uma conversa com elas detonou uma das maiores reflexões que eu já fiz sobre eu mesma.



Eu saquei, de uma vez por todas, que, como diria messer Leonardo da Vinci, meu olho abraça a beleza, e não larga mais. Eu preciso de beleza. Tenho uma visão de espaço urbano renascentista: bela cidade, belos pensamentos. Quando o lugar é feio, tacanho, eu vejo essa beleza nas pessoas. Eu crio grandiosidades, Duomos de Brunelleschi de sentimentos, de sonhos. O problema é que, por não ter consciência disso, eu queria construir Campos dei Miracoli, como os de Pisa ( um pedaço aí dele em cima, foto tirada de quando tirei uma soneca no gramado do Batistério), em meio a canaviais, que também tem sua beleza. Existe o belo no feio, no mesquinho, no submundo da histeria, da neurose, nas valas dos condenados pelas penas mais horrendas.
O problema é que sou míope e também tenho minha neurose, o que sempre acarreta uma restrição do olhar. E vivi muito tempo sozinha com essa característica. Acho que escolhi ser professora de História da Arte pra pôr pra fora o incansável desejo de beleza, de alegria e de sentimento que existe em mim tão fundo, desde cedo.
Por isso que eu tive grandes amores e grandes amizades, frustadas, nos feios prédios da Unicamp ( eu tinha que pôr beleza em algum lugar: pus nas pessoas, poderia ter posto na paisagem e escrito ou desenhado algo), e São Paulo pra mim é um enigma insolúvel: lá existe o belo e o horrendo, pessoas lindas que me fazem vibrar e pessoas horríveis que me fizeram sofrer muito. Mas tenho trabalhado no sentido de ver beleza nos prédios ( tô percebendo que meu lance com a Arquitetura, com o espaço físico, é muito fundo) e nas pessoas, em diferentes escalas. Tô aprendendo, graças às Danis, a ver beleza em mim, o único lugar onde eu acreditava que isso não existia, e dar vazão às minhas utopias nos lugares corretos. E hoje acordei feliz por ter percebido tudo isso, aliviada porque minhas grandiosidades podem ser trabalhadas, vividas, compartilhadas. Ah, ia me esquecendo: em Pisa não vi tanta beleza assim nas pessoas, tomada de um amor profundo pelo Campo dei Miracoli, confirmando a tese panda suscetível à Arquitetura, paisagem e amor pelos outros.

Wednesday, October 17, 2007

Panda Quebra-Barraco

E com vocês, o funk da panda quebra-barraco! Sou feia e ainda por cima não tô na moda!


Sábado pensava em coisas tristes e terminava de fazer uma das minhas atividades favoritas, tomar banho. De repente, no meio do óleo de banho Pitanga revitalizante da Herbo Farma, presente dos bocos no meu aniversário ( comprem! É uma maravilha!), o chuveiro puft. Queimou a resistência. Que saco. Daí pensei, vou chamar seu Edmílson...
Seu Edmílson foi, durante anos, o zelador aqui do meu prédio. Além de zelador, depois das duas da tarde, ou seja, depois do expediente, seu Edmílson consertava tudo, de cano quebrado, vazamento, interfone. O problema é seu Edmílson se saiu tão bem nessas tarefas extras de faz-tudo que resolveu pedir as contas e abrir negócio próprio de faz-tudo. Ou seja, não tenho mais o homem da casa seu Edmílson, que agora anda tão ocupado que não atende mais os pedidos do prédio e dos outros prédios.
Fico feliz por seu Edmílson ter se tornado um homem de sucesso, mas e agora? Que fazer, como diria Lênin?
Daí ontem estava puta porque tem muita gente babaca no mundo e tal, e abri a geladeira, um tupperware com um resto de sopa, uma sopa que eu fiz, ficou horrível e ainda por cima estragou o resto. Puta, peguei o tupperware e entornei o restinho da sopa no vaso sanitário. Quando terminei, pensei, mas que porra eu fiz, porque o vaso, obviamente, entupiu.
Me vi, de novo, com o vaso entupido e o chuveiro queimado. Vou desconsolada trabalhar em Caronte, com sua risca azul chiquérrima. Nenem me exorta a ser uma mulher independente, comprar um alicate, a resistência, um desentupidor grandão e consertar os problemas. E hoje, eu recomecei a dar aulas no IA, substituindo o Paulo, em viagem, em dois cursos pra graduação: História da Arte 2 e História da Arte no Brasil 1. Hoje seria Debret.
Daí acordei com: uma aula sobre a Voyage Pitorèsque do Debret pra preparar em Caronte emperrado e riscado de azul, uma resistência pra trocar e um vaso sanitário pra desentupir.
Fui no Santarelli, uma loja monstro de coisas de casa aqui do lado. Comprei um bom alicate, a resistência, o desentupidor de vaso e cheguei em casa preparada pra tudo, panda num momento Rambo. Pus a fita na testa, e ááááááá....
O vaso continuou entupido, e eu troquei, sim, a resistência do chuveiro ( sim, crianças! No meio de tudo em pensava, qué isso perto de escrever uma tese sobre o tiozão narigudo mardito? E o pino da resistência entrava! Viva Dante!). Mas ano passado, numa faxina monstro, eu quebrei o cano do chuveiro. Seu Edmílson veio aqui e fez uma gambiarra, passou fita veda-rosca e o negócio, puft, caiu! Então, sim, caros leitores do Meio, o chuveiro caiu da parede, mas a resistência foi trocada!
Não dava mais tempo de fazer nada. Sentei, preparei a aula mais chulé sobre Debret que alguém viu nessa vida, e no torso de Gerião parti pra Unicamp, infringindo parte da suspensão da minha carteira de habilitação. Dei a aula. Os meninos dormiam e tal, mas a culpa não era deles. Depois fui encher o saco do crazy people na cantina do IFCH, e lá estavam Marcones e Vitão. Contei a eles minhas desventuras, e eles riam à socapa. Mulher moderna com problemas é isso aí.
Voltei pra casa com um plano maléfico. Entornei um quilo de soda cáustica no vaso ( depois de dois dias, se não fizer efeito, tacarei Diabo Verde Líquido e só em última análise peço pros negos do Santarelli virem porque são 60 pilas). E tentei enroscar o chuveiro. Nada. Fui no seu Luiz, lá eu resolvo tudo, pensei acertadamente eu.
Seu Luiz é dono do Frangos Ilimitados ( ou algo assim) aqui na esquina de casa. É um restaurante boteco maluquinho, que serve uma feijoada daquelas, já deu no jornal e tudo. Eles são super simpáticos, é limpinho, barato, gostoso e ainda vende tubaína, com batida de limão de grátis. Tem saladinha com molho de alho, maravilha total. Sentei pra enfrentar a feijoada e lá veio seu Luiz cheio de prosa. Falei, seu Luiz, os caras do Santarelli tão querendo me cobrar os olhos da fuça pra me enroscar um chuveiro, o senhor imagina! E ele, que absurdo, esse povo enfia a faca. E seu Luiz passa a coçar o queixo. Perguntei do Luizinho, outro faz-tudo do pedaço.
Luizinho trabalha há muitos anos na oficina do seu Hugo. Quando quebrava algo no seu Pedrão, lá vinha Luizinho, sempre em pé de guerra com o seu Hugo ( eles se odeiam mas não se desgrudam). Luiz teve leucemia e quase vira anjinho faz-tudo. Um dia, minha mãe ligou pro seu Hugo por qualquer eventualidade e veio... tchanam, Luizinho em pessoa. Minha mãe, que achava que o moço tinha morrido, achou que tava vendo assombração e teve o pior ataque de nervos da vida dela.
Pois o Luizinho, ressuscitado e tudo, agora tá brigado com dona Meire (mais um pra lista). Mas o Luizinho poderia me ajudar. Seu Luiz sensatamente observa que Luizinho também adora enfiar a faca no povo.
Veio a feijuca, beleza maravilha total, um guaranazinho diet ( meu, como sou hipócrita). E seu Luiz não se conforma, vira a rua atrás de um cavalheiro pra ajudar a senhora simpática que ama feijoada. E vem ele meio sem graça com um senhor moreno, baixinho, seu Leonel. Esse conserta e cobra 15 pilas ( meu, os caras do Santarelli cobram 40, pra vocês terem uma idéia, sem a peça inclusa).
Seu Leonel veio aqui e agora volta no final da tarde, pra consertar o cano. A resistência tá perfeita, segundo ele. E eu taquei os três quilos de soda caústica no vaso. Vejam, e sexta-feira dou aula sobre Bernini!

Tuesday, October 16, 2007

Favor não ultrapassar a linha vermelha

Andaram acontecendo coisas trash por aí, comigo e com pessoas amadinhas.


Eu já sofri muito com agressões, dos mais variados tipos. Tinha uma época que a panda vivia que nem preso chinês, ou seja. Saí dessa pra melhor, na linha Gandhi do pacifismo ativo ( "eu não revido e não te bato, mas enfio o dedo no seu olho e saio correndo"). Mas desse período nas trevas, eu saí com um pavor completo, total, absoluto, de todo e qualquer tipo de agressão, de todo e qualquer tipo de invasão de privacidade, de falta de delicadeza, de falta de de noção. Xingar, bater, seguir, humilhar, dar barraco, ler email dos outros, revirar gaveta, celular, carteira, tirar sarro de maldade, falar mal, difamar, desconsiderar o outro, são atitudes completamente injustificadas e idiotas. Quem bate, xinga, humilha, perde a razão que pensa ter ( se chegou nesse ponto da agressão, o cara nem razão tem, mas vamos fingir que tivesse).
Se eu pudesse, faria um Manifesto contra a Babaquice. Porque tem muito babaca por aí, pelo amor de Deus.

Friday, October 12, 2007

Tapioca é de Deus

E eu entreguei a tese pro meu orientador. Acabei. Pois é.

Imprimi a maledetta, tirei uma cópia, e encadernei. Enquanto rolava o processo, no xerox do IEL, chega uma moça que procurava a tradução do Manuel Odorico Mendes pro Virgílio, o famoso Virgílio Brazileiro. E o tomo do meu lado, na estante, enquanto minha mente emperrada nas paragens do reino de Lúcifer só esboçou uma reação: peguei o volume e entreguei pra moça.
Fiquei exausta essa semana. Terminei minha tese, e chegou a notícia do falecimento do meu tio. Os projetos pós-tese começaram a pipocar por conta própria, exigindo resoluções. Fiquei misturada, como dizia minha afilhada Camila, e veio um Mar Vermelho, de nervoso mesmo. Fraquinha, nesse calor desértico, terminei a saga da dupla sertaneja tiozão narigudo- tiozinho barrilzinho, ao menos por enquanto.
Daí hoje dormi, dormi horrores, e pretendo continuar hibernando, e fui ao shops com Nenem e Celo, ver vitrines e me descabelar diante dos lançamentos da Renner. Juntei uma braçada de roupa pra experimentar, mas não deu tempo, o povo tava nelvoso. Comi bem, e lá estava uma barraquinha de tapioca, lotada de gente.
Tapioca eu comia nos velhos Campos dos Goytacazes, norte do estado do Rio, na casa de minha avó materna, dona Maria da Conceição, com manteiga. Era bom. Mas nunca mais comi tapioca, nem lembro quando foi a última vez que fui a Campos. A tapioca vinha num saquinho plástico, já fria. Mas eu cheguei a ver aqui perto do Terminal Central de Campinas as frigideirinhas e um amigo se declarou entusiasta da tapioca quentinha, com queijo de coalho.
Hoje Celo deu a idéia e pediu uma, com recheio de banana, um pouquinho de leite condensado e canela. Não agüentei e comi uma com morango. Sei que deve ser sacrilégio pôr na tapioca frango com catupiry, morango, essas coisas de paulista. Tinha uma comunidade no Orkut muito engraçadinha, "Comida azul não é de Deus". Gente, tapioca, tapioca é, sim, de Deus.
E do lado do xerox do IEL tinha aula de forró. E a tapioca me deixou numa vibe que me fez lembrar de 1999, eu na Cooperativa com minhas amigas Dani e Camille, que hoje moram no Velho Continente. Era o início da onda do chamado forró universitário, o salão cheio de senhores nordestinos que ensinavam as paulistas a dançarem aqueles negócios tão deliciosos. Até a panda, sempre dura e desajeitada, sofrendo de falta gravíssima de coordenação motora desde a mais tenra infância, ensaiava passos nos xotes. O Trio Virgulino animava a moçada; eram simpaticíssimos, virtuoses, e hoje são o trio mais famoso das paradas do velho for all.
Eu adorava "Forró & Paixão", tão singela e doce, como tapioca. Depois a Cooperativa lotou de patricinhas e mauricinhos, os senhores professores sumiram, a coisa ficou esquisita e um clima de pegação daqueles dos piores se instalou. Nada contra pegação, acho até que tinha que ter uma lei obrigando o povo a se pegar, mas uma coisa é aquele clima bacana de safadeza e ingenuidade, outra coisa é o automático vamos nos catar.
Me deu saudade da música, quando tocava eu lembro que pensava, eu quero um amor. Não tinha tanta clareza, como hoje, que é a simplicidade que a gente, de fato, precisa buscar. Era muito atormentada e muito jovem. Hoje tudo é bem, bem mais simples, como tapioca, como dançar agarrado, gostoso.
http://www.triovirgulino.com.br/, tem na seção MP3 a "Forró & Paixão" pra baixar.

Wednesday, October 10, 2007

Segura, peão

Essas semanas tem sido respirar fundo, sentar e trabalhar. Respirar fundo, sentar e trabalhar. De novo, repitam comigo, respirar fundo...

Lá na terapia falei da necessidade de construção. Do quanto Eros, a força da vida, pra mim está relacionado com a rotina que transcorre sem grandes problemas, da calma e da clareza diante dos enroscos próprios e alheios, de eu não ser ambivalente e não cair no jogo neurótico dos outros. Estou desarmada e calma, pacificada e discretamente feliz. Não trago pedras nas mãos. Não pressuponho mais. Não interrogo motivos que não existem, ou que se existem, não me dizem respeito. Mágoas, eu tenho, ressentimento, raiva, eu sinto, mas prefiro canalizar em outras coisas, em fazer disso um trampolim pra saltos ornamentais. Estou distraída mas não distante, andando devagar, pensando no que eu quero com tanta força que mesmo momentos tristes ficam com sua beleza, modesta porque o que eu quero está longe, mas uma beleza que não é desprezível.
O ruim é segurar as rédeas e entrar no rodeio da defesa. Essa semana, tirei pros últimos preparativos da tese, para imprimir o exemplar do meu orientador e começar a correr atrás da data, formulários, e etcs. Aqui no IEL tudo fica a cargo do aluno, e hoje me informei dos procedimentos todos. Uma pasta de formulários e eu respirei fundo, mais uma vez e...
Tapo os últimos buracos da maledetta com uma dor indizível. Não pude fazer nem um terço do que me propus, e logicamente serei execrada pela banca. Fico bem ansiosa nesses momentos finais com o texto, decisivos, mas não tenho mais condições psicodélicas, ops, psicológicas, de vôos mais altos do que juntar parágrafos, cortar excessos, ligar de qualquer jeito pedaços. Está tudo muito desconjuntado; fico embaraçada de apresentar um resultado tão medíocre pra uma banca de estrelas da minha área. Enfim, fiz o que pude. Mas não estou no final de nada, o meu coração bate constante, a vida é constante, tudo está bem e assim fica, mesmo.

Tuesday, October 09, 2007

Saudades, tio!

Hoje fiquei sabendo do falecimento de meu tio Arthur.


Esse post, então, é uma despedida da sua sobrinha Paula. Eu compartilhava com você o nome; penso que talvez meu pai lembrou longinquamente do irmão que gostava mais dele quando me batizou Paula, porque depois de Arthur, nome do nosso avô holandês, você tinha o Paulo. E talvez essa lembrança me faça mais presente de você, hoje.

Vai em paz, tio. Sua sobrinha andou sentindo tanta falta dos Vermeersch, até na igreja do Cambuci foi, e agora sei que foi um pressentimento do seu falecimento. O senhor faleceu na sua casa, na velha Campos dos Goytacazes. Faleceu em casa, talvez o sonho de todos nós seja esse, na sua casa, comprada com tanto sacrifício, depois de anos e anos de esforço, parabéns, meu tio. Deixou algo pros irmãos, pros sobrinhos, o senhor que não teve filhos, que sofreu anos com uma doença terrível.
Mas me lembro de seu carinho, de seu afeto, das sessões do projetor antigo de cinema, onde assistíamos filmes de Chaplin, seus favoritos. Do senhor levo uma lembrança afetuosa. Meu pai faleceu, o senhor não veio; não se sentiu bem, me disseram. Mas gostaria que o senhor soubesse que, na tese que agora defendo na Unicamp, seu nome, o do vô, da vó, do meu pai e até de tio Salvador que não conheci, estão do lado do meu, agora doutora, doutora Paula Vermeersch. E com orgulho compartilho do sobrenome de vocês, vocês que tanto me amaram em criança e que estão comigo, no meu coração, para onde eu for.

Monday, October 08, 2007

A inteira combinação cósmica renovada

Hoje eu acordei cedo, e como diria Leminski, azul, tive uma idéia clara. Vou escrever no Meio.


Eu andei tão absorvida por processos kármicos, como bem diz a fofa Evelyne, que não reparei a falta de escrever esse bróugui amalucado aqui. Processo kármico é aquele que você enfrenta quando o indivíduo te pentelha/ enche o saco/ te ama mas te odeia/ te odeia só/ te ama só/ não sente nada por você e você precisa por razões sentimentais/ profissionais/ políticas/ metafísicas conviver. Difícil viver, como bem diria Sartre, o inferno são os outros, principalmente quando resolvem cair nas suas valas internas.
Isso me lembra a história que o João contou na sexta-feira, no almoço. Diz que Sartre visitava Araraquara a convite de Fausto Castilho, que mais pra frente fundaria o glorioso Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade de Campinas, vulgo ifíchi. Ao mesmo tempo o Santos jogava com o time da cidade, o Araraquarense. Sartre foi jantar num restaurante da cidade, e juntou-se um burburinho à porta do estabelecimento. Um cidadão chega e perguntou pro povo se o Pelé estava jantando, e disseram que não, que era o Sartre. E o cara lascou a dúvida, mas em que posição esse cara joga?
Voltando à cold cow. Hoje tive um dia atrapalhado mas produtivo, e acho que contribui a "limpeza de chaminé" no Meio, como dizia a histérica Anna O. para o dr. Breuer, no clássico caso que inspirou dr. Freud a pirar o cabeção e dizer em alto e bom som que histeria masculina existe ( histeria- hysterós, útero, mal do útero, como homem tem mal de útero? Segundo Freud tem). No caso minha coisa seria facilmente diagnosticada pelos drs. Freud e Breuer; pelo menos tenho a esperança de, no final, não me tornar uma megera indomada como tanta/os por aí.
E eu abri o volume em italiano dos textos de Hermes Trimegisto e lá está: "O divino é, portanto, a inteira combinação cósmica renovada: no divino, de fato, a natureza torna-se estável".

Come to the dark side, my son

Outro dia eu tava no ponto de ônibus e um senhor varria a terra, jogando o pó com eficiência pra cima do pessoal no ponto. Uma moça bonita, que depois conversou comigo o caminho inteiro pra Unicamp, começou a rir e disse de forma sacana, Jesus, apaga a luz pra eu não ver isso.


Pois a semana passada foi a semana "Jesus, apaga a luz". Espantos de todas as espécies. Eu sumi do Meio simplesmente porque tive que deixar de usar meu sabre de luz de manhã, pra cortar e ao mesmo tempo torrar pão, pra coisas mais bélicas. De todos os padawan e mestres menores da Academia dos Cavaleiros Jedi, Panda Kenobi sempre se destacou por utilizar a Força para fins lúdicos, culinários e, como se diz em ítalo-paulistano, divertentes. Mas semana passada tive, como mestre Yoda no último filme da série ( terceiro da primeira trilogia) pegar meu sabre e dar num crazy people aí.
Depois de muitos debates na Praça é Nossa virtual, ops, msn, com Dani Mônica diretamente das Alagoas e Dani Nenem diretamente do Cambuí, cheguei à conclusão que a terapia no SAPPE surtiu um efeito benéfico.
Todos nós temos nossa ambivalência: a gente ama e odeia ao mesmo tempo. Temos atitudes escrotas com quem mais gostamos, achamos que a intimidade é o canal das patadas e que quem nos ama precisa nos aceitar como somos ( leia-se, com todas as nossas manias, defeitos e agressividades latentes e declaradas). Nem nos passa pela cabeça que os outros são os outros, a fusão amorosa precisa, na nossa fantasia, ser total, simbiótica e meio maluca. Tudo bem, isso no plano da fantasia é ótimo. Mas justamente uma das tarefas do processo de individuação, segundo minhas parcas leituras, minha experiência e minhas terapias e análises, é diminuir o mais possível a ambivalência. Reconhecer a agressividade e canalizá-la, tematizá-la, vivê-la de uma forma mais saudável.
O problema é quando neguinho resolve do nada ser ambivalente com você, não te explicar o motivo e te causar aborrecimento, quando você tá no meio de sua jornada padawan, aprendendo a tirar naves do pântano, ficar amigo do Chewbacca e de quebra destruir a Estrela da Morte com sua intuição. Daí você, pequeno Skywalker, se vê diante de um Darth Vader que quer te estrangular, mas ao mesmo tempo é seu pai. Um homem que não é mais homem, uma máquina de destruir, mas que ao mesmo tempo foi o mais brilhante da Academia Jedi ( e que destruiu sem dó nem piedade essa mesma academia). Sabemos, porque vimos trilhões de vezes O Retorno de Jedi, que Darth Vader, ops, Anakin Skywalker, só ouviu o lado bom da Força no finalzinho, salvando Luke na hora H e deixando enquanto isso que os psicopatas da fofura ( sim, isso existe) Ewoks ferrassem com as tropas do império com sua meiguice e catapultas assassinas.
O que é triste é que tem muito Darth Vader por aí que não ouve o chamado bom da Força nem no final, deixando a cargo do Luke sua própria salvação, e dos Ewoks, a salvação da galáxia. Pior é quando o pequeno/pequena padawan, incauto, cai no dark side e entra na onda. Exemplo básico: neguinho combina com você e fura. O pequeno padawan fica vermelho de raiva e imagina milhões de coisas, sofre, vai no blog, torra a paciência da lista inteira do msn, sofre mais, estabelece hipóteses, todas baseadas em generalizações completamente furadas ( o clássico para as padawans-meninas: "Os homens têm medo de mulher inteligente", "Ninguém aguenta minha sinceridade, meu charme, minha autenticidade, piriri pororó").
Ó cara ou caro padawan, se alguém foi ambivalente com você, pense, isso acontece e a pessoa vai se arrepender. E volte seu olhar pras suas atividades na academia. Semana passada eu tive umas 15 ocasiões em que foram muito ambivalentes comigo. Passei por isso com o jeito tranqüilo de quem, sim, está do lado certo da Força ( só quero amar, como dizia Tim Maia).