Monday, September 27, 2010

Graças, Marília bela

Acontece uma coisa curiosa comigo.

Há muitos e muitos e muitos anos atrás, escrevi um trabalho de final de curso, quando estava no mestrado, sobre a interpretação dada por Antônio Cândido, em Formação da Literatura Brasileira, para Marília de Dirceu. Essa disciplina foi ministrada por um professor com quem, vários anos depois, tive uma história de amor bela, mas também muito sofrida. Hoje entendo porque escolhi o tema, na época; Antônio Cândido fala que Gonzaga virou a página da história da literatura brasileira ao se apaixonar, quarentão, por uma menina, ser rejeitado pela família dela, finalmente conseguir ser seu noivo e depois, numa das maiores catástrofes amorosas de todos os tempos, ir para o degredo em Moçambique, tudo porque Joaquim Silvério resolver dar com a língua nos dentes.
Na época, eu, jovem e intrépida, achava simplista a explicação dada pelo grande mestre uspiano: puro biografismo, pensei, toda envolta em teorias e teorias da ação social, dos acordos feitos pelos agentes e tomos e tomos de Sociologia. Depois de tudo, vejo que de fato alguém pode deixar de ser árcade e virar romântico, depois de um grande amor, da traição, do calabouço e do degredo. Gonzaga em Moçambique não escreveu mais nada e se casou com uma moça analfabeta, segundo consta. Eu também nunca mais me aventurei a escrever nada sobre Gonzaga e às vezes me fica difícil viver, com tantas dores no coração.
Mas, às vezes, no meu exílio, recebo garrafinhas com papel dentro, mensagens de pequenos náufragos dos mares da internet. Explico: depois do artigo apresentado num congresso, eu ainda o publiquei, numa pagininha dos alunos, no início do meu doutorado. O link da pagininha foi deletado do site do instituto quando a direção mudou, e o cargo de administrador da sala de computadores ficou a cargo de um docente poderoso e sem paciência para nossos textinhos. Anos depois, eu já doutora, a nota da CAPES do programa de pós-graduação caiu, e um dos motivos foi a falta de publicação dos discentes. Enfim.
Por obra e graça do Google, às vezes minha caixa de email recebe singelas mensagens de pessoas, no Brasil inteiro e em Portugal, que me consideram grande autoridade nas liras de Dirceu. Tento com muita delicadeza desfazer o equívoco; fico constrangida de pensar no sofrimento que isso traria ao bravo Gonzaga. Mas não adianta. Hoje, recebi uma mensagem de um internauta, inconformado com as respostas dadas pela banca de um concurso público, do qual algumas questões foram tiradas da leitura de uma das liras. Conferi o gabarito, não sem refletir nas artimanhas do destino e no quanto os caminhos do mundo são tortuosos. No final, escrevi o artigo porque estava apaixonada já, sem o saber; mais feliz foi Gonzaga, que sempre o soube.

Sunday, September 19, 2010

Romance ruim

Eu, do alto de sapatos altos gastos, com o topete já todo grisalho, com as esperanças já todas falidas, com o orçamento estourado, manchete de jornal popular, bolero de churrascaria, cantada de rodoviária, filme queimado, jaca pisada, sim, essa mesma que vos fala, essa criminosa que não se regenera, essa cafonice que não sara, essa febre que não passa, coloco de novo a jaqueta jeans esfolada, passo um batom e saio.
Dirijo pela cidade, claro que desse jeito a polícia me para, a multa vem embaixo da porta, mas eu não estou nem aí. Que falem de mim, eu já sou assunto mesmo. Que tirem sarro. Melhor isso que não existir. Pois é, de novo o mecanismo roda, de novo o mesmo pneu na mesma direção, de novo a mesma estupidez, tudo, tudo, tudo de novo.
E de novo a louca do vestido de carne me salva o ano de 2010. Porque é tudo de novo. E porque dessa vez, sim, dessa vez posso me salvar.

Saturday, September 11, 2010

Coração partido

Tenho lutado muito para sair de um fundo do poço em que me meti, nos últimos anos.

Sinto uma culpa terrível por coisas que deram errado. Me sinto infeliz ao lembrar de frases, situações, pessoas. E nisso tudo me menosprezo. Não me sinto digna do meu próprio amor. Isso não é justo, percebo agora. Porque eu preciso ser a responsável por tudo que me disseram? Por tudo que me fizeram? Fiquei paranóica, amargurada, triste. Não, não é justo se sentir sempre a que errou, a que deu mancada.
Fiz o melhor que eu pude... dei o melhor de mim. Tantas vezes eu fiz o que estava ao meu alcance, e era tão pouco, mas era o que eu tinha. Eu vejo a lua brilhar no céu e penso nas tantas vezes em que também estive cheia de amor, de brilho. Sinto o coração partido em tantos pedaços, estilhaços de memórias tristes. Cato um por um, e às vezes me corto. Não, eu não estava errada em amar. Porque desses caquinhos se fazem as estrelas.

Monday, September 06, 2010

Links para História da Arte

Primeiro link:

http://www.4shared.com/dir/kUDViyTb/Histria_da_Arte_Geral-_Unimep-.html

Esse é pra História da Arte Geral. Tem Arte Rupestre, Arte Grega, Arte Romana. Tudo em pdfs. E pequenas apostilas em Word.

Coragem

Tem fases da vida da gente que são lutas incessantes. E é preciso ter coragem o tempo inteiro.

Tô numa fase dessas. Preciso ter coragem 24 horas por dia. Pra conquistar o que eu quero. Às vezes, algo de bom acontece ou eu consigo resposta positiva pros meus esforços, eu descanso um pouco mas logo vem no pensamento a quantidade de coisas pra fazer, a quantidade de coisas pra resolver, e eu vejo que é necessário mais coragem ainda, pra estar de pé, e ser quem eu sou.
Decidi que não vou mais fugir dos meus sentimentos. Isso é particularmente difícil. A vida tem horas que faz de tudo pra te mostrar que você está errado. Eu me equivoco, é claro, como todos os outros seres humanos no planeta Terra. Mas eu faço o melhor que eu posso. Tento ser a melhor que eu posso. Minhas possibilidades nem sempre são das mais vastas, mas é melhor alguém que tenta fazer de coração dar o melhor de si do que alguém que não está nem aí pra nada. Bom, pelo menos eu acho isso. Estou de pé. E luto.

Friday, August 20, 2010

Shahrazad


É por piedade que se enfrenta o medo, é por compaixão que se propõe a contar histórias. Para salvar vidas. Para se mudar o destino. Para encarar, frente a frente, a injustiça. E cada alvorada é uma vitória. Cada palavra, a tábua de salvação, de si e dos outros.
Conta-se histórias porque é preciso. Leu-se em algum lugar, ouviu, sofreu. É por paixão que por três anos se conta histórias. Definitivamente, é preciso narrar. É urgente narrar. É necessário encher as noites do som da voz e de palavras. É pela inteligência que se vence. É pelo amor que se vence. Senão for por isso, a voz se cala e só existe o negro da noite, da solidão e da morte.
Odalisca. Delacroix, 1857. Óleo sobre madeira, 35,5 x 30,5 cm. Coleção particular.
Ya Shahrazad, Fairouz. Olympia, Paris.

Sunday, August 15, 2010

Dose dupla

Começo de semestre, correria, trabalho duro. No meio disso, tanta novidade, que eu me perco dentro de mim. Também voltei a sair pra dançar. Fazia anos que eu não dançava e em duas semanas já virei a nova Lady GaGa: quero roupas, maquiagem, sapato de salto, só pra sair pra dançar, sair pra dançar. Minha vida virou um intervalo entre as pistas de dança, entre a nova cor da sombra e o desejo de ter uma blusa de paetês.

Saturday, August 07, 2010

Alegria


E o Amor se fez carne
e o Verbo habitou entre nós.
Teto da Igreja de São Francisco de Assis, Ouro Preto, Mestre Ataíde.

Saturday, July 24, 2010

Retorno ao clássico

Tive um julho particularmente feliz.

Vocês não reparem meu sumiço, foram por boas e más causas, como sempre. Acho que a tônica do período foi um retorno ao clássico. Explico: comecei julho com uma sinusite daquelas, um clássico na minha vida, sofri em vários jogos da Copa e me irritei com as coisas clássicas: carro quebrado, gente sem noção, pó da reforma no prédio e lembranças ruins.

Conforme julho foi passando, a paz daqui de casa se reestabeleceu, e eu acordei e curti o barulho dos pássaros no Largo de São Benedito e do Bosque. Amigos muito queridos ressurgiram de viagens. E eu aos poucos comecei a ter a sensação de reencontrar uma velha conhecida minha, uma moça que já tem seus cabelos brancos e que hoje comprou sua primeira caixinha de morangos do ano.
Pra completar os retornos, voltei a escutar Bruce, que era uma coisa que fazia tempo que eu não fazia. Old school, baby, old school.

Sunday, July 11, 2010

Ik zal handhaven


Hoje, fui assistir à final da Copa com duas amigas num bar muito famoso aqui de Campinas, o Giovanetti.


Vivi um dilema a semana inteira. Se eu torcesse pra Holanda, honraria parte dos meus nobres ancestrais, que me legaram um sobrenome difícil e cheio de ês, que entorta a cabeça dos meus patrícios. Também honraria a minha simpatia pelos laranjinhas, simpatia existente em todas as Copas e tal. Mas, claro, meu coração brazuca ainda estava ressentido e de luto pela desclassificação, o que é compreensível.


Mas não esperava chegar no local e me deparar com um monte de marmanjos que viraram espanhóis de carteirinha só porque o Dunga foi imbecil. A princípio, fiquei quietinha, mas acho que depois de um chope, o sangue falou mais alto e a pequena panda quase morreu linchada porque honrou seus ancestrais batavos (os espanhóis que me perdoem, minha bisavó dona Luzia onde estiver deve ter ficado irada!).
Senti uma grande solidão, eu torcendo pra Laranja Mecânica rediviva em meio à brutamontes, que, grosseiramente, não entendem nem a regra do impedimento. Os garçons pararam de me atender, e um cara se deu o trabalho de sentar do meu lado pra me espezinhar. Enfim, os espanhóis cavaram um gol na prorrogação, e acredito mesmo que a Fúria jogou bem e mereceu a taça. Mas hoje, mais do que nunca, meu coração é de um lugar onde se fala uma língua incompreensível, se come queijo, se anda de bicicleta e se vê Rembrandt em qualquer museu da esquina.
Na hora da dor, só me ocorreu ligar pra Mari, que deve ter sido a única brasileira que torceu pra Holanda, assim como eu e mais sete velhinhos que moram em Holambra. Sempre brinco com ela pela particularidade dela estudar coisas holandesas, e de eu ter esse sobrenome tranca-cartório. Mas hoje, nós fomos duas almas perdidas que se encontraram. Falei pra ela que hoje, mais do que nunca, honrei meu sobrenome, porque torci pra Holanda no meio do Giovanetti em meio a um bando de toscos. Hoje, nós duas concordamos num ponto: nós mantemos a fé!

Saturday, July 03, 2010

Vontade


Porque hoje seria isso, cor, abraço, carinho.

Shunga (gravura erótica, que na maior parte das vezes era uma xilogravura, apresentada numa série em livro) atribuída a Utagawa Kunisada (1786-1864), c.1830/40, 91 x 121 mm.

Saturday, June 26, 2010

Fora-da-lei


Toda grande história de amor é um crime.


Toda vez que duas pessoas se amam, cometem um delito contra a ordem social. Ofendem a moral, os bons costumes, a tradição. Amar é andar com uma arma. Amar é assaltar um banco.


Não, senhores, amar de verdade não é obedecer as regras. Se dizem que você precisa amar alguém bonito no sentido convencional, que mora perto e que a altura regula, não ouça. Se dizem que você precisa amar alguém que seja da sua cor, da sua idade, da sua classe social, que vota no mesmo candidato que você, que torce pro mesmo time que você, que concorda com sua escalação hipotética da Seleção Brasileira, fuja, fuja enquanto é tempo, porque você não precisa amar ninguém. Amar é acidente de percurso, é você achar uma mala cheia de dinheiro no meio de uma viagem de trem pra Sibéria. Se você tiver essa sorte, lembrará de mim, e pulará com a mala do trem no meio do nada.
Eu me lembro das noites que passei cometendo esse delito; paguei com lágrimas amargas minha condenação. Mas não me arrependo, eu cometeria o mesmo crime, eu incorreria de novo na norma jurídica. E sem telefonema pra advogado.

Friday, June 25, 2010

Panda na Copa


Rufem as vuvuzelas! Está no ar Panda na Copa!
Devido à uma gripe dos infernos de Dante, acompanhei os dois primeiros jogos da Seleção Dunguística na cama, e sem nenhum jogador argentino ou italiano gatão pra me consolar. Enfim.
A primeira exibição da Seleção foi digna do reino das trevas, a segunda foi um pouco melhor. Explico: na minha modesta opinião, Dunga mexe pouco no time, e ele poderia fazê-lo, em horas infelizes, como foi o segundo tempo do jogo de hoje.
Mas é aquela coisa, se eu fosse treinadora da Seleção, não estaria na cama gripada e sim com a cabeça enfiada numa Jabulani.
Destaques para o fraco desempenho das seleções africanas ( que pena, tava torcendo pros caras, tirando a destemida Gana), pro fato da Azzurra ter azulado, dos franceses terem de novo dado cabeçada ( e sem Zidane) e do Cala boca Galvão ter virado um movimento social universal. Aliás, CALA BOCA GALVÃO! Como diz um amigo meu, a transmissão dos jogos da Copa no Inferno vem com narração do Galvão Bueno e comentários do Neto!
Acima, a prova irrefutável de que o início da iconografia da vuvuzela está no Juízo Final de Michelangelo, na Sistina!

Friday, June 18, 2010

Da última flor do Lácio

Da última flor do Lácio, inculta e bela, hoje caiu uma pétala. Vá em paz, José Saramago.

Friday, June 11, 2010

Temperança


Hoje despertei às seis e meia da manhã. Pensei em várias coisas, organizei outras, e voltei a dormir. Tive um dos sonhos mais bonitos da minha vida, um sonho de integração: meu pai me mandava ir cuidar da vida, eu ia e no final me encontrava com um homem que considero ser ótima pessoa.
Acordei com essa vontade, essa gana, de viver. Fui me cuidar, como mandava meu pai no sonho; arrumei meu cabelo, minhas unhas, me maquiei, me vesti de azul e encontrei uma amiga muito fofa. E resolvi um problema profissional grave, que durava desde 2003.
Hoje, descubro o quão importante é manter a esperança, a calma e a fé, mesmo quando tudo parece conspirar. Hoje, tenho a certeza que só consegui resolver o problema porque, durante muitos meses, me calei, sofri sozinha, pensei que não fosse resistir, mas não revidei na mesma moeda, não prejudiquei ninguém, fui fiel aos meus princípios, agi de acordo com os meus valores, sofri sim, mas não fiz ninguém sofrer. E hoje, vi o sonho se realizar. E digo pra vocês: o mais importante da vida é a esperança.


Acima, o arcano maior da Temperança. The Mythic Tarot, de Juliet Sharman-Burke e Liz Greene, concepção da artista plástica Tricia Newell ( pintura a guache). Editado no Brasil pela Editora Siciliano, 1988.

Saturday, June 05, 2010

Maus bofes

Hoje acordei num puta mau humor. Não, não estou naqueles dias. Não, não aconteceu nada de novo no meu universo particular, como canta a Marisa Monte. Sim,estou num puta mau humor,

1) com alguns dos meus alunos. Aluno às vezes cansa a paciência do professor;

2) com a campanha presidencial. O Serra me deixa de mau humor quando diz que os bolivianos são todos traficantes;

3) com a Copa chegando, porque meu vizinho já estreou a corneta dele;

4) com os diários de classe que eu preciso preencher;

5) comigo mesma, por não acreditar, por não fazer direito, por reclamar e por estar de mau humor.

Thursday, June 03, 2010

Cansaço

"O homem que hoje me amar
Encontrará outro lá dentro.
Pois que o mate".

Elisa Lucinda

Tuesday, June 01, 2010

Autoridade Nacional Palestiniana


Reconhecemos o direito da existência do Estado de Israel. Sentimos solidariedade, fraternidade pelos irmãos judeus que pereceram no Holocausto, e lutaremos para que nunca mais aconteçam tamanhas atrocidades. Mas, nos termos da Resolução 181 da Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas, assinada em sessão datada de 29 de novembro de 1947, e nos termos dos chamados Acordos de Oslo, de 1993, reconhecemos o direito da existência do Estado Palestino. E sentimos solidariedade, fraternidade, pelos irmãos palestinos que perecem, dia após dia, neste novo genocídio.

Monday, May 31, 2010

A cura

Hoje foi um dia longo e cheio de problemas. Pra vocês terem só uma idéia, comecei o dia sem gasolina, com sono e com brigas entre meus alunos que pareciam insolúveis.
Quando tudo não só parecia perdido, como estava perdido de fato, de repente, aconteceram pequenos milagres. E, no meio de tanta dor antiga, tantos machucados e durezas, gente amiga trouxe alívio, e eu lembrei de uma música velha, boba, do Lulu Santos ( pois é, do Lulu Santos) que dizia direitinho do meu sentimento, algo muito antigo, uma alegria de saber que as coisas estão no lugar, mesmo com tanta quebradeira. E viva aquela, aquela mesma, que é a última que morre.

http://www.4shared.com/audio/3c8AvDTu/Lulu_Santos_-_A_Cura.htm

Sunday, May 30, 2010

Virgílio e Dante no prato!

Dante e Virgílio, projeto de prato. Guache em porcelana de Limoges, 49,4 cm de diâmetro. Séc. XIX. Limoges: Musée Adrien Dubouché.