Thursday, August 06, 2009

Arquitetura Campineira


Acho que já falei aqui, em algum lugar, de um dos meus hobbies: tirar fotos de fachadas do final do século XIX e início do XX em Campinas. Aqui perto da minha casa tem vários desses sobrados antigos, com fachadas com ornamentos: guirlandas, leões, cavalos marinhos, animais fantásticos, rostos animavam o traçado retilíneo e uniforme da cidade sede da expansão cafeeira.
Começou assim: fui prestar um concurso no IEB, na USP, e precisava montar um ponto sobre Ecletismo no Brasil. Fuça daqui, fuça de lá, resolvi que não ia falar sobre o trivial, Victor Dubugras, Ramos de Azevedo em SP, Teatro Municipal do Rio, enfim, eu, indo e voltando do meu caminho das aulas de francês, resolvi que ia falar sobre Campinas mesmo. Comecei a andar sistematicamente com a máquina na mochilinha vermelha e comecei a me apaixonar, cada vez mais, por detalhes. Hoje, fui buscar umas coisas na casa da minha mãe, e de repente bum! Vejo um gradil de ferro todo em forma de cavalos marinhos fantásticos. Nessas horas me arrependo de estar sem máquina...
Apresentei tais esforços em outra seleção, malograda, na Pucc. Enfim, bola pra frente, tudo isso me levou à Catedral e, no dia de hoje, consegui alinhavar um artigo e algumas coisas a respeito.
Existem, no meio acadêmico, certos consensos sobre não só como as pessoas devem estudar, mas também as coisas que eles devem estudar. Sempre achei tudo isso grande besteira. Evidente que o trabalho acadêmico tem especificidades e eu não quero que ninguém apresente, como tese de doutorado, uma foto pelado com o cabelo verde. Existem linhas de raciocínio, argumentos, trechos, citações. Agora, também observo uma grande caretice na hora do pessoal montar aulas, cursos e projetos. O patrimônio arquitetônico se ressente disso: você não estudar aqueles edifícios é sinônimo dos mesmos ficarem caindo as pedaços, como é o caso do belo Palácio da Mogiana aí em cima. Sede da Companhia Mogiana de Estrada de Ferro até a década de 60, depois Museu e depois Secretaria Regional de Cultura, hoje o Palácio é nada, perdido no meio do corredor de ônibus da Campos Salles, pichado, quebrado, exemplo máximo de que é preciso a gente urgentemente rever algumas coisas.

4 comments:

Anonymous said...

Que lindo! Nunca vi esse edifício. Lindas as duas serlianas no ângulo e os detalhes do ferro.

Skywalker said...

No Estadão de hoje (9/08) tem 3 ou 4 páginas sobre o projeto do governo do Estado que aparentemente já está em funcionamento em alguns lugares de municipalizar 43 museus estaduais até o final de 2010. Um deles é esse que ficava no Palácio da Mogiana, o antigo Museu Campos Salles, que a reportagem bem coloca como museu fantasma, que ninguém sabe onde foi parar o acervo, sem falar no descaso pela arquitetura, como vc bem aponta.
Triste mesmo, e isso numa cidade como Campinas. Imagine os outros então...
Além disso, a reportagem cita uma fala - sem maior problematização da mesma, infelizmente - de uma das secretárias estaduais onde ela diz que infelizmente esses museus foram formados "sem nenhuma preocupação com o valor histórico que as peças pudessem ter", como se o valor histórico de algo fosse dado de antemão, eterno e imutável para todo o sempre. Postura que é perfeitamente contraditória com a mesma intenção de municipalização dos museus, visto que envolve a participação mais direta e ativa das comunidades na criação, gerenciamento, e utilização dos acervos e dos espaços destinados à sua conservação e difusão. Me pergunto, contudo, se nem os orgãos estaduais tem consciência do significado e valor do patrimônio histórico e cultural, o que dizer dos orgãos municipais, em sua maioria perdidos em suas próprias questões provincianas?

Beijo,

Celo

Maria said...

Essa semana eu passei pela Campos Salles e o Palácio da Mogiana foi pintado de amarelo. Ovo. O povo aqui de Campinas põe os edifícios em cores berrantes. Já me disseram que isso surgiu no Pelourinho, em Salvador. De qualquer forma, comecei a sentir falta do branco do Palácio.

Maria said...

Sobre a matéria citada pelo Celo. Realmente, é lastimável que a secretária diga isso. Isso é dito, muitas vezes, em relação a partes do acervo da Catedral. É aquela coisa: dizem que "museologizaram" qualquer coisa nas décadas de 40 e 50 e que o descaso de agora se explica por conta disso. Muito bem citada a matéria, Celo, obrigada e um beijo.