Nosso lugar na Comédia é o Inferno. Depois do Romantismo, de Auschwitz, e do caminhão de gás tocando Pour Elise, nossa sensibilidade só dá mesmo para a materialidade do sofrimento e para os espectros dos monstros antigos que assolam o reino de Lúcifer.
Nessa parte da obra, recusada por Goethe por considerá-la de mau gosto, e que foi tão explorada pelos ilustradores de todas as épocas, o meu personagem favorito é Virgílio. Corajoso, sábio, justo, generoso, caloroso, amigo, digno, esse é o Virgílio de Dante.
É um milagre que dois poetas, separados por 1230 anos, tenham se encontrado de maneira tão feliz, tão ajustada. Dante imaginou um Virgílio muito próximo da figura que transparece nas Bucólicas, na Eneida; e através dele, aparece para nós com toda a grandeza de um homem injustiçado, sofrido, mas atento e verdadeiramente vivo.
No segundo lugar, gosto do monstro Gerião pela carona, e pela descrição de Dante do vôo. E tenho um afeto pelos diabinhos do Malebolge, em especial Malacoda...

No comments:
Post a Comment